6.12.08

grafitos de Buenos Aires







(Fotos de Porfírio Silva. Buenos Aires, Janeiro de 2008. Clicar para aumentar.)

4.12.08

todos virados para o mesmo lado



Shaun Tan, Tales from Outer Suburbia


Ministra admite substituir modelo de avaliação no próximo ano lectivo. Esta audição de urgência da ministra da Educação foi pedida pelo Bloco de Esquerda e todos os partidos da oposição vão apresentar projectos de resolução que pedem a suspensão do actual regime de avaliação dos professores, que serão votados amanhã.

Uma lenda muito contada diz que, estando todos virados para o mesmo lado, devem ter razão.
Em governação da comunidade isso espanta-me: projectos politicamente opostos (toda a oposição, de esquerda e de direita, mais o PSD que não se sabe já o que é) pedem a mesma coisa. Isso, para alguns, parece ser significativo de que têm todos razão - menos o governo.
Não concordo. Acho que isso significa que o gato só tem o rabo de fora: querem aproveitar os putativos ganhos eleitorais de cavalgarem o protesto de uma classe profissional. Mas, tirando o rabo, está tudo escondido: o que realmente propõem está por afirmar. A isto chama-se União. Nacional. Das oposições. União Nacional das Oposições. União Nacional. Tão irresponsável, a prazo, como a outra.

uma questão bizantina


Vital Moreira dá razão a Cavaco Silva no Estatuto dos Açores.


Não sei, do ponto de vista constitucional, se o PS tem razão, ou se Vital tem razão em a negar ao PS. Parece-me, contudo, que o PS, ao contrário do que o Presidente tem feito, não deve entreter-se com miudezas. Que o PR entenda perder-se em coisas menores, deixar os seus conselheiros misturar-se com a política de todos os dias, levantar a voz em momentos em que era preferível estar calado - isso é lá com ele. O governo, e o PS por arrasto, têm de pensar em coisas sérias - porque a coisa está séria. E deviam, não apenas concentrar-se nisso - governar - mas também mostrar que é nisso que pensam. E deixar as questões de saber quantos anjos podem dançar na ponta de uma agulha para os teólogos do palácio de Belém.
Para já não dizer que isto faria outro arraial se fosse o Jardim a bailar em lugar do César.

eu cá prefiro o plano barroso...

nevoeiro


Plano de apoio ao sector automóvel. Estado paga 80 por cento dos salários e proíbe despedimentos até 2010.


A esquerda da esquerda da esquerda (ou a que gosta de assim se ver) acha mal que as autoridades públicas não deixem o sector bancário ir pelo cano abaixo. O raciocínio - ou melhor, o reflexo de Pavlov - é simples: os ricos que paguem a crise. Mesmo que, se os ricos pagarem a crise, isso se traduza em mais crise para os que não são nada ricos. Ninguém parece preocupado com o facto de as crises dos "ricos" serem normalmente pagas, em dobro ou em triplo, pelos que não são de todo ricos, que normalmente estão do lado da "economia real". (Ainda um dia me dedicarei ao problema filosófico desse uso do "real".) Outro problema com essa atitude da esquerda da esquerda da esquerda (à qual se junta Paulo Portas à procura de um partido, bem como o PSD à procura de um Portas) é o seu judicialismo: querem fazer crer que o problema de política económica que é denunciado por esta crise é um problema identificável com os crimes de uns tantos em certas instituições financeiras. Misturar os crimes de um punhado com os vícios de um sistema serve o eleitoralismo, mas não serve a causa pública.
Agora, o governo tenta concertar com um certo número de empresas que são ou dependem do sector automóvel uma resposta a certos aspectos da crise na economia real, usando ferramentas que foram antes experimentadas em empresas onde o patronato olha para o futuro e onde os representantes dos trabalhadores sabem distinguir o essencial do acessório. Ferramentas essas que foram entretanto institucionalizadas na nova legislação do trabalho. E que, acima de tudo, permitem enfrentar como principal desafio a preservação do emprego - o que não impede, claro, que alguns continuem a achar mais importante defender as horas extraordinárias do que o emprego. A essas ferramentas, como cimento negocial, junta-se, aparentemente, um uso "criativo" de certos recursos financeiros. Tudo, julgo eu, na óptica de que a economia não trata apenas de números, mas também de pessoas. O que dirá agora a pretensa esquerda da esquerda da esquerda, mais os seus aliados de circunstância na direita parlamentar? E o que dirá a direita parlamentar, mais os seus aliados de circunstância à esquerda deste mundo e do outro, aqueles cujos deputados se sentam à volta da representação do Partido os Verdes?

Há, realmente, uma grande diferença entre governar e falar. Os tempos mostram isso, todos os dias. Porque é nas crises que isso se vê melhor. Porque as crises têm o condão de dissipar o nevoeiro.