5.5.21

O homem unidimensional

13:07
1. Tomamos o título de Herbert Marcuse, do seu livro de 1964, sem pretendermos dar aqui uma exegese sequer mínima das suas teses.  De qualquer modo, uma ideia fundamental é a denúncia de que o homem unidimensional é o resultado de tudo se ter tornado mercadoria, de tudo entrar no regime do mercado: não apenas a economia, mas o social, o político, a cultura, a ciência, a tecnologia. Aquilo que era espaço de ruptura, como a cultura, tornou-se espaço de produção e de mercadoria, onde as regras são sempre as mesmas, sem espaço para outras lógicas. Embora sem chegar a dar alternativas, Marcuse entende que a própria tecnologia deixou de ser uma força libertadora para passar a ser uma força de domínio do humano sobre o próprio humano, numa dinâmica de automação que serve a dominação. A própria subjectividade (e aqui entra o lado da abordagem freudiana de Marcuse) é dominada por critérios de sucesso que são cultivados nessa abordagem de mercado. Com a caracterização do homem unidimensional, Marcuse aproxima-se do Marx dos “Manuscritos Económicos e Filosóficos”, do Marx da teoria da alienação, um Marx pouco marxista para os marxistas mais ortodoxos – mas, talvez, um Marx mais actual do que outras versões mais “maduras” do mesmo Marx. 
 

2. Como digo, o que pretendo não é fazer aqui uma releitura de Marcuse. Pretendo, apenas, tomar o aspecto mais simples e directo da ideia de “homem unidimensional” para olhar de forma crítica para a nossa vida pública. Especificamente, para o espaço do político. O espaço político que se empobrece por se tornar um espaço unidimensional, onde só cabem homens e mulheres unidimensionais – se pretenderem enfiar o barrete do condicionamento.

  

3. Os “políticos” são vistos, hoje, como um grupo separado. Um grupo profissional, com uma profissão específica, ou um grupo de interesses, com interesses próprios, ou uma tribo, com uma antropologia particular, os seus próprios mitos, rituais, tabus e organização. Sem dúvida que alguns, provavelmente muitos, políticos se comportam como se fosse esse o tipo de inserção social que desejam ou que consideram funcionalmente adequado. Esses labutam contra a sua própria missão e descaracterizam a essência da política, que é sermos cidadãos e, enquanto cidadãos, irmos tendo ao longo da vida muitas e diversas formas de participar na vida comum. Não devia existir nenhuma confusão entre, por um lado, um funcionário público – um profissional que se dedica a servir os poderes públicos nas missões que democraticamente são deliberadas, com competência e, muitas vezes, abnegação, sem ter por isso mais poder do que outrem no próprio processo de escolha das orientações – e, por outro lado, um político: alguém que, integrado num órgão de soberania, num partido político, num sindicato, numa associação, numa movimentação, pugna por certas soluções para certos problemas identificados, pugnando também por evitar outras soluções e por que outros fenómenos sejam entendidos como problemas em vez de “coisas naturais”.

Só que, não tenho a mais pequena dúvida, alguns poderes, políticos em sentido global conquanto acastelados em outros poderes (por exemplo, grupos empresariais de comunicação), trabalham árdua e propositadamente para fazer um cordão à volta dos representantes políticos e reduzi-los a uma casta. Para quê? Para mais facilmente levarem avante os seus próprios interesses, designadamente económicos, com a menor oposição possível da política democrática. Alguns dos mais poderosos políticos, em Portugal e em países similares, não são eleitos, não querem tentar ser eleitos, mas são pagos para servirem poderes alternativos. “Servir poderes alternativos” não é ser pago para dizer especificamente isto ou aquilo – isso seria demasiado estúpido: é ser pago para sobreviver no mercado da opinião instantânea, sabendo que o mercado da opinião é o mercado do momento, da excitação, do fogo fátuo, tudo o que vai contra o juntar forças, contra a visão de longo prazo, contra a concertação necessária para chegar mais longe.

 

4. É para que os políticos, eleitos democraticamente, sejam mais facilmente dominados pelo mercado da opinião instantânea, que “os políticos” são tratados como um grupo separado: um grupo unidimensional, constituído por homens e mulheres unidimensionais. Passar a fazer parte desse “grupo” é perder toda a humanidade: não interessa o que fez na vida, o que estudou, o que criou, o que produziu, o que trabalhou. Só interessa que, depois de entrar na jaula, pode ser lidado como um ser unidimensional. Uma pessoa vai à televisão como professor universitário: é tratado com deferência. Aliás, com a excessiva reverência de um país de doutores e engenheiros, onde brilhamos com o lustro que damos aos títulos alheios, como se uma espécie de radiação cósmica saltasse para o nosso corpo a partir dos corpos que reverenciamos. Dois anos depois volta, a mesma pessoa volta como titular de um qualquer lugar de representação política: agora pode ser insultado, passou a ser normal ser tratado como merecedor de toda a desconfiança, em princípio e preventivamente considerado incompetente, se não malvado por constituição. Passou a valer apenas como ocupante de um lugar político, disponível para ser só isso: homem ou mulher unidimensional. O homem unidimensional não merece consideração, atenção nem respeito: é descartável. É isso que alguns pretendem, porque o homem unidimensional perde as raízes que estão no que importa, que é a vida toda na sua diversidade.

 

5. Esta armadilha existe dentro da própria política, na medida em que promovemos uma sociabilização unidimensional nas nossas próprias relações. Dou um exemplo muito pessoal, sem nomes. Quando lancei o meu primeiro (e até agora único) livro de poesia, a respectiva apresentação pública foi feita por um conhecido poeta da nossa língua. Pessoa das relações próximas desse poeta encontrou um camarada meu, com quem trabalhei proximamente, e falou-lhe “do nosso amigo poeta”. O meu camarada não percebeu e, mencionado o nome, riu-se, estranhado. Aquele meu camarada ignorava completamente o facto de eu escrever poesia e de ter até publicado poesia (e, assim sendo, não se pode dizer que era por achar mau o que eu escrevo). Alguns dirão imediatamente: é natural, porque escreveres poesia não tem nada a ver com as tuas actividades políticas. Ora, é esse mesmo o ponto: enquanto os políticos forem, quiserem ou forem constrangidos a ser homens ou mulheres unidimensionais, onde só conta o “trabalho político”, a política e os políticos serão realmente um departamento separado da cidadania. 

 

6. O problema é velho, mas não deixa de inquietar. Provavelmente, precisa de um olhar radical. Sem abordagens simplistas, mas sem exagerados preconceitos. Por exemplo, teriam razão os antigos gregos, ou algumas repúblicas italianas, quando muitos dos seus magistrados eram escolhidos por sorteio? Não acredito em soluções fáceis, ou simplesmente importadas do passado, mas acredito que, se não ultrapassarmos o homem unidimensional na política, quem perde é a cidadania e a democracia.

 
 
(Na imagem, o Klèrôtèrion, uma máquina de sortear os cidadãos que ocupariam durante algum tempo certas magistraturas.)
 
Porfírio Silva, 5 de Maio de 2021
Print Friendly and PDF