19.7.26

O digital como ferramenta da avaliação externa (como chegámos aqui)

17:11



Um hábito recorrente de alguns governantes é tentar infligir uma perda de memória no coletivo, como escapatória para a assunção de responsabilidades próprias. Convém, por isso, lembrar alguns factos que nos trouxeram até ao descalabro dos exames nacionais do secundário em 2026.

O Ministro Fernando Alexandre, no que toca às inovações tecnológicas introduzidas na avaliação externa, tem variado entre duas teses. Por um lado, acusa a governação do PS de não ter feito, nem querido fazer, nenhuma reforma, nenhuma inovação. Por outro lado, afirma que a sua governação é que é prudente, contrariamente à do PS, que queria introduzir a própria realização das provas em formato digital. As duas teses, expostas às vezes no mesmo dia pelo mesmo ministro e/ou por dirigentes do PSD, são contraditórias entre si: Fernando Alexandre devia escolher entre acusar a governação do PS de não ter querido fazer reforma nenhuma ou acusá-la de ter querido ir longe de mais nessa matéria.

O problema maior com as duas teses contraditórias de Fernando Alexandre é que ambas são falsas. São, apenas, propaganda enganadora.

Para que isto fique claro, é útil recuar alguns anos e lembrar algumas coisas que Fernando Alexandre quer fazer esquecer.

Um caminho para a desmaterialização da avaliação externa


Em 2016, o estabelecimento de uma parceria com escolas privadas permitiu a aplicação de provas nos 4.º e 6.º anos de escolaridade nas disciplinas de Matemática e Português, realizadas e classificadas em formato digital. Os trabalhos ao abrigo deste protocolo tiveram a duração de três anos, durante os quais foram seguidos diferentes procedimentos, de forma gradual e evolutiva (pens USB, computadores com e sem acesso à internet, envio direto ou indireto das provas realizadas para o processo de classificação; no último ano do protocolo, as provas passaram a ser disponibilizadas e realizadas online na plataforma de avaliação electrónica). (cf. https://iave.pt/wp-content/uploads/2021/07/1_papel.pdf )

Em 2018 realizou-se a primeira aplicação, no âmbito do sistema nacional de provas de aferição, de uma prova em suporte digital (prova de aferição de Matemática de 8.º ano - código 86). Esta prova foi realizada em duplo formato, papel e digital, para testar as diferenças significativas no desempenho dos alunos nos dois formatos. A prova em formato digital foi realizada por perto de 2.000 alunos de todo o país. A prova de matemática tinha dificuldades específicas: escrita matemática, símbolos, operações. A experiência indicou que, após alguma familiarização, os alunos conseguiram utilizar as ferramentas destinadas à escrita matemática. Segundo a avaliação divulgada pelo IAVE, não foram identificadas diferenças relevantes de desempenho atribuíveis ao suporte utilizado. Esta prova decorreu na plataforma, mas num formato offline, ou seja, em cada escola foi instalado um ou mais servidores de provas, sincronizados com os servidores do IAVE. Desta forma, foi salvaguardada a possibilidade de falhas de acesso à internet e falhas de velocidade de acesso e de realização. Este trabalho desenvolvido no quadro do projeto Escola 360 – Módulo de Provas de Aferição Electrónicas. 

Em 2019 teve lugar um projeto piloto (projeto e-Classificação), em parceria com o Júri Nacional de Exames (JNE) e com algumas escolas, com o objetivo de digitalizar as provas de aferição e realizar a classificação em formato digital (recolher provas de aferição realizadas em papel; digitalizá-las; disponibilizar as imagens das respostas aos professores; proceder à classificação em formato digital). Após a sua conclusão, foram identificados e resolvidos alguns problemas e organizado um procedimento semelhante para 2020, em maior escala, mas o mesmo não teve lugar devido à pandemia e à suspensão das provas de aferição em 2020 e 2021. 

A expansão prevista para 2020 não ocorreu devido à pandemia. Contudo, o trabalho digital não parou: um processo destes requer gradualismo, adaptação de muitas componentes do sistema, verificação do que funciona e não funciona para corrigir antes de generalizar. Por isso, outras operações foram sendo realizadas, de forma incremental, para ir adaptando os processos de avaliação externa ao formato digital e ao online. O registo da classificação de provas de avaliação externa foi alterado em 2020, passando o mesmo a ser efetuado online, com a possibilidade de diferentes formas de classificação. Internamente ao IAVE foi desenvolvida uma plataforma que possibilita esse registo, com opções de classificação por item, por prova, em grelha online ou através de uma grelha de trabalho que permite trabalhar offline e posteriormente fazer o carregamento automático dos dados. Esta nova forma de trabalho promove maior conforto e rapidez tanto para o professor classificador como para o processo de compilação de resultados. Todo este processo abria caminho para a especialização na classificação por item, em vez da classificação por prova, com o objetivo de aumentar a fiabilidade da classificação. (Dizer isto não implica que haja consenso quanto à classificação por item. Na verdade, esse consenso não existe, já que alguns pedagogos consideram negativa a perda de compreensão global de uma prova e perda de apreensão do estilo pessoal do aluno em avaliação.)

Mesmo assim (travagem pela pandemia), no princípio de 2021 foi realizado o estudo de diagnóstico das aprendizagens a alunos dos três ciclos do ensino básico, através da realização de um questionário de contexto e de um conjunto de atividades, as quais permitiram apresentar resultados no âmbito das literacias da leitura e informação, matemática e científica. Este estudo foi realizado por aproximadamente 23 000 alunos em 300 agrupamento/escolas públicas e privadas.

Em 2021 foram realizadas ações de formação interna para a realização e classificação eletrónica de provas e foi preparada a memória descritiva do novo projeto de Desmaterialização da Avaliação Externa, integrado no PRR (enquadrado no investimento C20-i01 — Transição Digital na Educação).

O projeto Desmaterialização da Avaliação Externa


O projeto DAVE era uma aposta na desmaterialização. Não era fazer versões pdf de provas, não era colocar 5.000 agentes da autoridade a correr o país para trás e para a frente durante semanas, não era concentrar um exército de scanners num armazém nos arredores de Lisboa, juntamente com todas as provas em papel realizadas em todo o país (com a possibilidade de terem de voltar às escolas se os alunos exercerem o seu direito de consultar o original do exame).

Sendo ambicioso, o projeto DAVE era prudente: tinha várias fases e devia desenvolver-se de forma incremental durante 4 anos. Na primeira fase, só para provas de aferição no básico e só com uma amostra (piloto). Na segunda fase, provas de finais de ciclo, só com uma amostra (piloto). Na terceira fase, exames finais nacionais, só com uma amostra (piloto). A generalização seria progressiva, com graus de responsabilidade e com universo de aplicação crescente – permitindo, passo a passo, aprender com os testes-piloto. O cronograma previa que cada aplicação piloto fosse seguida, no ano letivo seguinte, pela respetiva universalização, numa sequência que, pela sua própria configuração, permitia incorporar a experiência adquirida em cada etapa.

O projeto DAVE tinha a ambição de fazer mais do que a mera “digitalização do tradicional”. O objetivo era permitir avançar para novas possibilidades de avaliação dos alunos e de análise do próprio processo de avaliação, além de facilitar a vida aos classificadores e dar melhor uso ao seu trabalho. Embora apostando numa implementação passo a passo (prudente, dependente dos resultados dos pilotos), pretendia remar contra o mero conservadorismo e medo da inovação – argumentando, nesse plano, com uma evidência clara: os principais estudos internacionais de avaliação de alunos, o PISA, o TIMSS e o PIRLS, já decorrem há anos em suporte electrónico, com evidentes ganhos em validade, fiabilidade e comparabilidade dos resultados.

Um documento preparado pelo Conselho Diretivo do IAVE (https://iave.pt/wp-content/uploads/2022/04/1_DAVE.pdf) apresentava um resumo das vantagens pedagógicas da realização e classificação de provas em suporte digital (Computer Based Assessment, CBA): “possibilita a utilização de uma grande variedade de formatos de itens, incluindo, por exemplo, simulações, itens interativos que permitem a representação de situações reais em ambiente digital, a utilização de grande diversidade de formatos de suportes, permitindo, de forma simples, o recurso à imagem, ao vídeo, às animações, aos gráficos interativos e ao som. A digitalização permite ainda o desenvolvimento e aplicação de testes adaptativos (Computer Adaptive Tests, CAT), os quais proporcionam um elevado potencial diagnóstico e formativo. Os testes adaptativos contêm itens calibrados por nível de complexidade e grau de dificuldade, que vão sendo apresentados aos alunos no decorrer da realização da prova, em função do desempenho demonstrado na resolução dos itens anteriores.”

O mesmo documento também identificava algumas vantagens organizativas e logísticas de uma verdadeira digitalização: “A classificação electrónica, ao contrário da classificação em suporte de papel, não apresenta constrangimentos geográficos na localização das escolas e dos professores classificadores nem a necessidade de entrega e recolha de provas pelos professores classificadores. Por outro lado, permite a classificação automática de itens dicotómicos, reduzindo o tempo de trabalho dos professores e a possibilidade de erro. Com a classificação electrónica é possível a especialização dos classificadores por item ou por grupos de itens, contribuindo para uma maior consistência na aplicação dos critérios de classificação. A dupla ou tripla classificação é ainda uma possibilidade desta modalidade em suporte electrónico, permitindo também a monitorização do processo em tempo real, facilitando a validação das classificações pelo professor supervisor de forma mais rápida e mais direta.”

Da prudência à imprudência 


No ano letivo de 2023/2024 foi decidido não implementar as provas finais do básico em suporte electrónico. Com o argumento de que isso era necessário para garantir o respeito pelo princípio da equidade, o Ministro Fernando Alexandre determinou a realização das provas finais do ensino básico em suporte papel (Despacho Normativo n.º 11-A/2024, de 3 de maio, Diário da República n.º 86/2024, Suplemento, Série II de 2024-05-03). É respeitável que, por prudência, se decida abrandar o calendário. O referido despacho parecia esse abrandamento: “foi determinada a realização, de forma excecional, no presente ano letivo, daquelas provas finais do ensino básico em suporte papel” (ênfase acrescentada).

Com data de 24 de julho de 2024, o MECI dirige ao IAVE uma Carta de Solicitação sobre a avaliação externa onde, designadamente, determina: a realização de provas ModA (Monitorização da Aprendizagem, 4º e 6º anos) em suporte digital; quanto às provas finais de ciclo do 9º ano de escolaridade, as diversas provas de Português são realizadas em suporte digital e a prova de matemática é realizada em formato híbrido (suporte digital e suporte papel); quanto aos exames finais nacionais do ensino secundário “são realizados em suporte papel, devendo o respetivo processo a sua classificação ocorrer em suporte digital, de forma gradual”. Quanto a esse gradualismo, determina “processos de experimentação” em 2024/2025 e “no ano letivo 2025/2026, este processo deve ser alargado a todas as disciplinas em que a classificação em suporte digital se adeque (não sendo, por exemplo, o caso do exame de Desenho A)”. No caso dos exames do secundário, já não se trata de abrandamento: a realização das provas em formato digital parece abandonada. Será um sinal de prudência? O futuro mostrará que a prudência aliada à prossecução da reforma não é realmente o caminho que vai ser seguido.

Como chegamos, finalmente, ao descalabro de 2026?

No ano de 2024/2025, o exame nacional de Filosofia (código 714) foi escolhido para o projeto piloto de classificação electrónica no ensino secundário. Não há conhecimento público de qualquer processo de avaliação sistemática desse piloto, não há identificação oficial de dificuldades detectadas, não há qualquer registo do impacto que o piloto teve na configuração da generalização em 2025/2026.

Quer isso dizer que não são detectados problemas? Não é o caso. Foram publicitadas informações sobre falhas detectadas: dificuldades em entrar na plataforma, atrasando o início da classificação das provas; dificuldades no acesso aos itens atribuídos, alterações nas datas previstas; exames que desaparecem do sistema; folhas de prova ilegíveis, com respostas truncadas ou trocadas; falta de resposta pronta a dificuldades ocorrentes (https://observador.pt/especiais/exames-de-filosofia-podem-estar-mal-corrigidos-professores-receberam-respostas-trocadas-e-cortadas-a-meio-iave-nao-deu-apoio/ ).

A Associação de Professores de Filosofia pronunciou-se sobre o processo: não fez uma apreciação negativa da inovação, mas alertou para a necessidade de identificar o que funcionou mal e corrigir: “A direção da APF considera ser necessário estabelecer a diferença entre erros técnicos e procedimentais, que não são desejáveis, mas apenas impactam na gestão do trabalho dos docentes, de erros técnicos que podem ter um impacto negativo na classificação das provas. Assim, é importante que o Iave consiga identificar essas situações e, de modo público e transparente, se apresentem soluções que garantam a equidade na avaliação externa dos alunos"  (https://www.publico.pt/2025/07/30/sociedade/noticia/associacao-professores-filosofia-recebeu-relatos-dificuldades-correccao-digital-exame-apela-iave-analise-erros-2142375).

Que se tivesse feito o que sugeriu a Associação de Professores de Filosofia… seria prudente. A generalização do processo teria de ser preparada com essa prudência. Contudo, infelizmente, essa prudência faltou. Há disso testemunho público.

O antigo presidente do Júri Nacional de Exames “presidiu à fase experimental em que foram testados os exames de Filosofia e estranha que o ministro tenha decidido generalizar sem pedir ao JNE qualquer balanço ou informação”. (Lusa e Público, 18 de julho de 2026). Palavras suas (Rádio Renascença, 18/07/2026): "O senhor ministro não solicitou ao Júri Nacional de Exames qualquer balanço sobre a Filosofia. Sei que com o Júri nunca reuniu, nem nunca fez nenhum balanço. (...) Também sei que, quer da minha parte, quer da parte do meu colega, que é agora o atual presidente do Júri, nós éramos de opinião que não se poderia generalizar". Acrescenta que avisou os secretários de Estado que “este ano não iria ser fácil”. E que se demitiu de presidente do JNE porque sempre privilegiou o planeamento antecipado e não se rever num método de trabalho marcado por decisões de última hora (https://rr.pt/noticia/pais/2026/07/18/antigo-presidente-do-juri-nacional-de-exames-acusa-ministro-de-avancar-com-correcao-digital-sem-avaliar-projeto-piloto/478781/)

Em suma


Recorrer à tecnologia para introduzir novas ferramentas no sistema educativo, em particular nos processos de avaliação externa que decorrem ao nível nacional e envolvem muitas dezenas de milhares de alunos e professores, é desejável e importante. Pode facilitar a vida aos profissionais e contribuir para melhorar a qualidade de todo o processo educativo.

Para não produzir lesados, isso requer prudência: gradualismo, incrementalismo, testes piloto de que se retirem lições, priorizar sempre o respeito pelas pessoas envolvidas e pela integridade da avaliação, não colocar o calendário das ambições políticas à frente dos direitos dos alunos ou da profissionalidade dos docentes.

Durante o mandato do anterior governo do PS fez-se esse caminho, apesar do abrandamento forçado pela pandemia. Sem pressa de avançar mais rápido do que permitiam os resultados dos testes, para não prejudicar as pessoas envolvidas.

A alteração de rumo operada pelo Ministro Fernando Alexandre foi imprudente. Dessa imprudência, a cicatriz mais evidente está na incapacidade para aprender com as dificuldades do piloto com o exame de Filosofia no ano passado. A “digitalização” de 2026 é um monstro: uma máquina gigantesca de fazer versões pdf de provas, 5.000 agentes da autoridade a correr o país para trás e para a frente durante semanas, erro na preparação da classificação automática das respostas de escolha múltipla, concentrar um exército de scanners num armazém nos arredores de Lisboa, juntamente com todas as provas em papel realizadas em todo o país (com a possibilidade de terem de voltar às escolas se os alunos exercerem o seu direito de consultar o original do exame). Será isto desmaterialização?

O zénite da irresponsabilidade aconteceu na noite de 17 de julho: a decisão de publicar pautas que continham classificações ainda suspensas é jurídica e administrativamente questionável, tanto mais que o próprio JNE anunciou que o procedimento aplicável a esses casos só seria definido posteriormente (isso resulta de informação oficial do EduQA: https://eduqa.pt/informacao-sobre-o-processo-de-classificacao-dos-exames-nacionais-e-provas-finais-do-ensino-basico/ ). Havia centenas de classificações por atribuir (segundo o próprio Ministro, embora, na prática, vários milhares de alunos tenham visto, à frente do seu nome na pauta, a menção de classificação suspensa ou, até, uma aparente nota negativa, sem que ninguém lhes tenha explicado previamente o que isso significava). Isto é: para tentar salvar a sua imagem, para tentar dar a ideia de estar a cumprir uma promessa que fez e não tinha condições para cumprir – afixar as pautas a 17 de julho – expôs os alunos e as suas famílias a uma situação insuportável. É inaceitável que o ministro tenha sacrificado os alunos à sua ambição política, tentando, à custa da angústia das pessoas, salvar a face numa promessa não cumprida: as pautas, em rigor, não foram afixadas naquela data – porque ninguém sabia quais daquelas pautas estavam corretas. Foi o culminar da imprudência.


Porfírio Silva, 19 de Julho de 2026
Print Friendly and PDF

28.6.26

Sá Carneiro e a tentativa de golpe constitucional

10:45




No meu mais recente livro, intitulado História das Declarações de Princípios do Partido Socialista (Âncora Editora, 2025), recupero documentos e memórias de acontecimentos da história da democracia portuguesa, não apenas relevantes para a história política do PS, mas também para a história do país. Alguns desses episódios ainda são úteis para compreender algumas das ações - e algumas das tentações - que ainda por aí andam.

Trago-vos, hoje, um desses episódios. Aí se lembra como Sá Carneiro tentou um golpe à Constituição da República Portuguesa. O episódio é narrado, fundamentalmente, recorrendo às próprias palavras de Sá Carneiro - para que os revisionistas não venham alegar que são falsificações. 

Boa leitura. Se decidirem comprar o livro, encontrarão lá muitos outros episódios interessantes e bastante esquecidos.

Excecionalmente, deixo as respetivas páginas do livro, sem rasuras: portanto, atender apenas ao texto enquadrado pelo título da secção que aqui importa.

(A ilustração acima foi gerada por uma ferramenta de IA.)

Pode aceder CLICANDO AQUI. Se tudo estiver a funcionar, poder ler diretamente na janela abaixo.

   

 Porfírio Silva, 28 de Junho de 2026
Print Friendly and PDF

26.6.26

PSU: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

12:23






Sobre a Prestação Social Única, pedi a uma ferramenta de Inteligência Artificial que comparasse, por um lado, o que foi aprovado com o acordo entre o PSD e o PS, e, por outro lado, o que teria resultado se o PSD tivesse cedido às exigências do CH. Deixo-vos a resposta. (Mas há que acrescentar que, sem a aprovação da PSU, o país perderia 620 milhões de euros de financiamento UE/PRR.)

***


Considerações genéricas.

Com o PS, a PSU aprovada ficou como uma autorização legislativa com travões de proteção social e linguagem de inserção personalizada; com o Chega, teria ficado como uma prestação muito mais condicionada, temporária, sancionatória e seletiva, sobretudo para imigrantes e beneficiários em idade ativa.

Garantia de não retrocesso
O que foi aprovado autoriza a PSU, mas exige que o novo regime seja “globalmente não menos favorável” do que o quadro jurídico revogado. Esta é uma cláusula de proteção geral. A proposta do CH não continha essa salvaguarda geral; abria mais espaço a uma reconfiguração restritiva das prestações.

Imigrantes de fora da UE
O que foi aprovado exige um ano de residência legal em Portugal para nacionais de Estados fora da UE/EEE e sem acordo de livre circulação (cláusula já existente). O CH começou por propor cinco anos de residência legal com carreira contributiva registada; depois apresentou uma proposta complementar de três anos, com elementos objetivos como registos de remunerações, contribuições e atividade profissional.

Duração do apoio para adultos em idade ativa
O acesso depende de inscrição no centro de emprego, disponibilidade para formação/educação, trabalho conveniente ou atividades de solidariedade social, mas adaptado às condições do beneficiário e do agregado e sem que se enquadrem como funções que poderiam estar entregues a trabalho profissional remunerado. O CH queria que o direito à PSU para adultos em idade ativa tivesse caráter temporário, não podendo ultrapassar dois anos sem depois existir um ano sem qualquer apoio.

Trabalho social / atividades de solidariedade social
O texto aprovado mantém a possibilidade de atividades de solidariedade social, mas enquadradas em planos individuais de inserção, articuladas com políticas ativas de emprego e tendo em conta a realidade de cada beneficiário e agregado. A formulação do CH falava em obrigações dos beneficiários e previa a participação em atividades de solidariedade social desde que houvesse capacidade e condições de saúde, sem o mesmo grau de personalização do plano de inserção.

Canal de denúncias
Caiu o canal específico de denúncias. Ficou apenas uma cláusula genérica para reforçar mecanismos de combate à fraude, abuso ou acesso indevido. O CH mantinha a criação de um canal de denúncias junto da entidade gestora da PSU, com equipa responsável por tratar comunicações de fraude, abuso ou acesso indevido.

Suspensão por suspeita de fraude
O texto aprovado não prevê suspensão imediata da PSU por mera “forte suspeita”; remete para mecanismos adequados de combate à fraude. O CH propunha que, havendo forte suspeita de aquisição fraudulenta da prestação ou alteração não comunicada das circunstâncias, a PSU fosse suspensa imediatamente.

Habitação social e sanções por crimes
Esta matéria não entrou no texto aprovado da PSU. O CH queria introduzir regras sobre apoios à habitação social: cessação por mau uso, uso indevido, sublocação ou falta de pagamento de rendas, e limitação de apoios quando beneficiários tivessem praticado crimes graves contra a comunidade.

Condição de recursos e cálculo do agregado
O texto aprovado prevê ponderações não globalmente mais desfavoráveis face ao regime em vigor, com adultos equivalentes a partir dos 18 anos. O CH propunha ponderações diferenciadas considerando adultos equivalentes apenas a partir dos 26 anos, sem a mesma cláusula expressa de não agravamento global. 


Despedimento imputável ao trabalhador
Ficou expresso que uma ocorrência prévia de despedimento por facto imputável ao trabalhador não pode, por si só, impedir o acesso à PSU. Essa garantia não constava da proposta do CH.

Valor da prestação e escrutínio parlamentar
O valor de referência da PSU será definido em decreto-lei, por referência ao IAS, com atualização tendencialmente progressiva face ao limiar da pobreza. Isto dá ao Parlamento possibilidade de escrutínio posterior do decreto-lei. A proposta do CH não tinha esta mesma solução de garantia sobre o valor de referência e a sua atualização progressiva face ao limiar da pobreza.

Pensionistas / CSI
O texto aprovado prevê rever em 90 dias o Complemento Solidário para Idosos, para garantir que potenciais beneficiários não ficam excluídos com a revogação da pensão social de velhice. O CH propunha antes uma majoração para pensionistas com baixos rendimentos. 


Portugueses emigrados que regressem
Não entrou no texto aprovado: o CH propunha que o Governo aprovasse em 90 dias um regime específico e temporário de PSU para portugueses residentes no estrangeiro que quisessem voltar a residir em Portugal. 

Em suma
Politicamente, a clivagem é nítida. O acordo com o PS deslocou o texto para uma lógica de proteção, integração personalizada e escrutínio parlamentar. Não eliminou todos os elementos condicionais — continuam a existir deveres, disponibilidade para emprego/formação e possibilidade de atividades de solidariedade social —, mas travou a versão mais disciplinar.
Se o PSD tivesse aceitado o essencial das exigências do CH, a PSU teria nascido com quatro marcas muito mais fortes: restrição reforçada a imigrantes; limite temporal de dois anos com interrupção obrigatória de apoio; canal de denúncias e suspensão imediata por suspeita; e sanções sociais adicionais, incluindo no domínio da habitação.  

(Relembro que esta comparação foi produzida por uma ferramenta de IA, que trabalhou sobre as propostas consultáveis no sítio da Assembleia da República.)





Porfírio Silva, 26 de Junho de 2026
Print Friendly and PDF

12.6.26

Porfírio Silva sugere nova revisão da Declaração de Princípios do PS




Ontem, a propósito da apresentação na Feira do Livro de Lisboa da obra, de minha autoria, História das Declarações de Princípios do Partido Socialista, a Agência LUSA divulgou uma notícia que me apraz registar neste espaço.

***

11/06/2026 21:39
 (LUSA)

Porfírio Silva sugere nova revisão da Declaração de Princípios do PS

Lisboa, 11 jun 2026 (Lusa) – O deputado socialista Porfírio Silva defendeu hoje que, mais de 20 anos da última revisão da Declaração de Princípios do PS, está na hora de revisitar o texto, considerando que é preciso “vencer a tentação centralista”.
O livro de Porfírio Silva intitulado “História das Declarações de Princípios do Partido Socialista” foi hoje apresentado na Feira do Livro, em Lisboa, uma sessão na qual interveio Alexandra Leitão, atual vereadora do PS em Lisboa e ex-líder parlamentar do PS e antiga ministra, e que teve na plateia o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro.
“Não me compete fazer o desenho do futuro, mas acho que hoje, passados estes anos todos, a última Declaração de Princípios, já passaram tantas guerras, já passaram tantas tecnologias novas, já passaram tantas experiências políticas novas depois de 2002, se calhar está na hora de nós pensarmos como é que podemos dar a volta ao texto”, defendeu o autor e deputado do PS.
De acordo com Porfírio Silva, todas as revisões que foram feitas ao longo dos anos nunca foram “para trair o texto anterior”, mas sim para fazer uma atualização e ser possível apanhar “aquilo que, entretanto, tinha acontecido melhor”, para se continuar a “trabalhar melhor em resposta às pessoas”.
“Nós temos que tentar também, os socialistas democráticos, derrotar a tentação centralista”, defendeu.
“E desenvolver novas abordagens às nossas ideias, às nossas práticas políticas, às nossas propostas, que deem resposta à pulsão de iniciativa, à pulsão de nós também podemos organizar-nos, de também podemos fazer coisas na nossa base territorial, que não têm necessariamente de ser iguais em todo o país, não têm de ser uniformizadas e não têm de ser centralizadas”, enfatizou.
Na perspetiva do autor, “a ideia da liberdade” e da “democracia como um conjunto de instituições que protegem todos” volta agora a estar em causa, sobretudo por “causa da ameaça da extrema-direita, que quer acabar com isso tudo”.
“Quando um líder político diz: ‘se eu for governo ou se eu for presidente, não sei quem vai para a cadeia’, isso significa que tem uma noção completamente desfasada da democracia acerca do que é que são as liberdades”, criticou, numa referência ao Chega, mas sem nomear o partido de André Ventura.
Para Porfírio Silva há uma outra ameaça, “sob a capa do neoliberalismo, que é um individualismo radical”.
“Que acha que cada um faz aquilo que quer, não é preciso regras, o que é preciso é que cada um tenha caminho para triunfar, e isso significa que quem nasceu com mais oportunidades pode singrar, quem nasceu com menos oportunidades tem que se sujeitar e ficar pobre o resto da vida ou ficar servo o resto da vida”, condenou.
A última revisão da Declaração de Princípios do PS foi feita em 2002, então sob a liderança do partido de Eduardo Ferro Rodrigues.
 
JF // CC
Lusa/fim


(Até agora, só vi esta notícia publicada aqui: Porfírio Silva sugere nova revisão da Declaração de Princípios do PS )

Porfírio Silva, 12 de junho de 2026
Print Friendly and PDF

31.5.26

José Pedro Croft – Reflexos, Enclaves, Desvios


Vinte e cinco anos depois, José Pedro Croft volta ao CCB com uma grande exposição. São obras de 2003 a 2026, retomando a “antologia” no momento seguinte à anterior passagem por aquela casa (em 2002). Não venho apresentar-vos José Pedro Croft, porque quem lê não precisa, porque o artista dispensa apresentações e, antes de tudo, porque eu não seria capaz. Venho, para (minha) memória futura, dizer-vos de uma visita a “José Pedro Croft – Reflexos, Enclaves, Desvios”, que estará no MAC/CCB até 13 de setembro de 2026 (abriu a 30 de abril). 

(Aviso - ou sinal de trânsito, ou lá o que seja: não sou crítico de arte, não escrevo crítica de arte.)

São desenhos e gravuras, em séries, de grandes dimensões. E são esculturas, em geral de grandes dimensões e realizadas em materiais pesados (principalmente ferro e vidro): como dizem, “grandes sólidos vazios” delimitados com linhas muito leves. Croft diz, em entrevista, que num dos seus ateliês, que está numa fábrica no Norte, “tenho chapas de vidro que pesam uma tonelada”. Para lidar com esses materiais são necessárias máquinas poderosas – e, no entanto, diz ele, “eu continuo a usar as mãos”. E a tomar o seu tempo, desacelerador.




A primeira impressão quando se entra no espaço da exposição é que há um reenvio constante entre as obras a duas dimensões (gravuras) e as obras a três dimensões (esculturas), na medida em que, além de as gravuras estarem em séries (diferença e repetição, repetição e diferença, com formas geometricamente des-ordenadas a originarem respostas a si mesmas), as esculturas (maioritariamente pousadas no chão) parecem emergências das mesmas vidas geométricas que se encontram momentaneamente estacionadas naquelas paredes. Talvez durante a noite, por ocasião das distrações dos vigilantes, as esculturas se dispam de uma dimensão e pousem como gravuras nas paredes, enquanto as gravuras se agigantam para a terceira dimensão e repousam no chão como esculturas saídas das mesmas mãos. Teríamos de lá pernoitar para testar esta hipótese, correndo o risco de interromper essa transformação, que, obviamente, aquelas gravuras e aquelas esculturas quererão esconder dos mortais.






Esta possibilidade de que as obras de José Pedro Croft possam errar pelo espaço e mudar o seu carácter nessa deambulação, mudando-nos a nós também nesse processo, não é um delírio metafísico. É, outrossim, um traço essencial da obra de Croft e dos modos como ela nos desafia. A obra move-se, a obra vive do facto de se mover – e, por isso, exige-nos que sejamos móveis nós também. Como alguém já evocou, se pegar numa destas esculturas em ferro e espelhos e os espelhos forem trocados de lugar (um espelho passa a ocupar outra face do “grande sólido vazio”), isso vai modificar a relação da escultura com quem passa, porque passou a ocupar o espaço de outra maneira – sendo ela, agora, outra escultura, e sendo nós, então, expostos a outro mundo. 

É difícil controlar (racionalizar) as variações possíveis desses mundos em aberto. Quando (nos) olhamos ao espelho, e quando aí mudamos de posição, o nosso controlo sobre as variações que daí resultam não é cristalino; é, por vezes, difícil antecipar para onde se move o mundo sob o efeito dos movimentos do nosso corpo (que arrasta os nossos olhos). Se os espelhos são múltiplos e há linhas de vista entre eles, a complexidade da relação entre os nossos movimentos e o mundo só pode aumentar. Deslocando-nos entre as esculturas espalhadas de José Pedro Croft temos um vislumbre da complexa pertença ao mundo que desfiamos atravessando-o. Esse efeito das esculturas no mundo é ainda mais estonteante se tivermos em conta que elas são objetos pesadíssimos pousados no chão (ou pendurados fixamente nas paredes). 

As imagens que incluo, para tentar transmitir a sensação de entrar nesta exposição, espero que façam entender o que vinha dizendo, nessa múltipla relação entre as peças presentes à nossa visita.

Numa entrevista ao Diário de Notícias (edição de 9 de maio de 2026), Croft diz que o espelho “é a introdução da imagem dentro da escultura”, “mostra-me coisas que não estão dentro da escultura, que vai buscar fora”. Creio que as palavras determinantes são “vai buscar fora”. Só duvido do sujeito: é a escultura que “vai buscar fora”? Diria que não. E explico-me. Noutro momento dessa entrevista, perguntado “não sente necessidade de dar título às peças?”, Croft responde: “Não. O título é já uma forma de nomear e, necessariamente, orientar a leitura da obra.” Portanto, não dá título para não orientar a leitura da obra. E, não orientando, a leitura tem de ser construída percorrendo outro caminho. Esse outro caminho é “ir buscar fora”: o “espectador” tem de fazer por ir buscar fora (da própria obra) essa leitura. Mas, talvez, os espelhos indiquem caminhos possíveis.





Espelhos.

Na obra de José Pedro Croft sempre vi espelhos. Espelhos como janelas. Espelhos como reflexões: o espelho não te devolve o que tu és (quem sabe o que tu és? tu sabes realmente o que és? se a existência precede a essência, como podes saber agora quem és?), mas sim algo que podes ser, que talvez sejas, dubitativamente, que talvez se encontre no que se pode ver de ti visto de fora, o espelho devolve-te certas possibilidades que se soltam da tua imagem quando captada do exterior. Só podes ser ingénuo quanto ao espelho se nunca te aconteceu a surpresa de te veres ao espelho e ires a correr rearranjar qualquer coisa que mostrava uma tristeza, ou uma fraqueza, que querias esconder – ou uma centelha tão prometedora que não podia ser desperdiçada fora de uma arquitetura mais forte do que o momento.

O espelho, ao ser uma janela, pode oferecer uma visão sobre bairros que não costumas visitar, bairros que não costumam visitar-te. Pode aparecer no espelho, surpreendentemente, talvez apenas fugazmente, o anjo encarregue de te matar a sede em momentos de aflição, ou o demónio cujo trabalho é atormentar-te quando amas descuidadamente. Esse aparecimento pode resultar somente de uma distração momentânea do anjo (ou do demónio), ou resultar do bem ou mal intencionado propósito de te lembrar que existe, apesar das críticas metafísicas que impugnam esses seres. Só que o universo está repleto de seres impugnados, impossíveis, inacessíveis à física teórica e aplicada. 

E, aí está, os espelhos de José Pedro Croft podem apontar para as profundezas do universo. Não apenas para a imensa intensidade desapercebida dos irmãos de sangue, ou dos irmãos criados nas travessias de florestas e desertos, mas também para a imensidão do campo das estrelas. Por isso inseri, no meu livro de poesia Público, Privado, o poema “Medida Incerta”, escrito aquando da inauguração da obra Medida Incerta, de José Pedro Croft, na Bienal de Veneza 2017. (Consultável aqui: Medida Incerta - publicação inicial, em blogue.)

Regressemos àquelas salas do CCB.

Naquelas salas, alinhadas de tal modo que as reflexões das obras de José Pedro Croft não se confinam a um dos alvéolos e são transportadas para as salas ao lado, há uma tal densidade de linhas de reflexão (há um espelhamento generalizado daquele universo entre paredes) que podemos esconder-nos das nossas reflexões interiores. Muitas reflexões exteriores abafando reflexões interiores, o que pode ser, momentaneamente, uma dádiva. (Pode estar aí uma das explicações para o sucesso das chamadas “redes sociais”, que são largamente associais, mas impedem a reflexão a quem não a suporta.) Os efeitos dos espelhos cruzam-se de tal modo uns com os outros, intensificam-se uns aos outros a tal grau e de tais modos que podemos apenas deixar-nos atravessar e pausar a reflexão interior. Embora ela possa vingar-se regressando abruptamente e ainda mais afiada depois de atravessado o campo das reflexões exteriores. Movemo-nos à procura de novos espelhamentos (o que mais posso ver daqui à custa deste segmento espelhado desta peça) e isso liberta-nos, por momentos, de responder às perguntas interiores que bailavam à procura de um sentido para aquele dia desta vida (daquela vida). 





Estou a dizer que a reflexão especular das obras de José Pedro Croft interferem com o pensamento, pausam o pensamento, interrompem o pensamento? Na verdade, todo o pensamento perturba outro pensamento. Contudo, é uma pergunta que perde alguma relevância se admitirmos simplesmente que não precisamos de estar acordados para pensar. Que, provavelmente, pensamos mais (vezes) quando não pensamos que estamos a pensar, porque os cordelinhos estão a reorganizar o espaço do jogo sem que os jogadores estejam atentos. Talvez por isso a arte não tenha de ter programa para ter programa – o que me faz dar pouca atenção a uma afirmação de Croft que o Diário de Notícias trouxe para título daquela entrevista já referida: “Uma das coisas maravilhosas da arte é não ter programa. Não quer dizer nada e não serve para nada.” O programa de uma criação artística, de uma série de obras de arte, não depende necessariamente de um programa concebido pelo artista em modo intencional e racionalizado. Pretender que a obra de arte não tem programa é reduzir a obra de arte ao que o artista fez, quando, afinal, a obra de arte será a forma da sua recepção no mundo. E, igualmente, o seu programa.




Outros espelhos.

Há um tipo de espelhos que José Pedro Croft coloca no mundo e que talvez não sejam, materialmente, espelhos. A refeitura da fachada do edifício que abriga o MUZEU (dst), em Braga, ficou a cargo de Croft. “Ficar a cargo” poderia ser lido num modo distante: ele olhou, perspectivou, concebeu, desenhou, projetou. E alguém executou. Não sei. Na verdade, não sei como foi. Podia procurar, podia perguntar-lhe, mas não é assim tão importante neste momento. Mas é concebível que tenha tido uma intervenção material na concretização, pondo as mãos em jogo nos materiais e nas ferramentas. Sei lá, talvez até escalando a fachada para materializar este ou aquele momento. Não sei. Mas podia ter acontecido, porque muitas das obras de Croft, sendo de uma materialidade pesada, saem mesmo de mãos e máquinas a que o artista não foge. Como um operário. Embora não como um proletário.

De qualquer modo, entrando no MUZEU, deparamo-nos – e, nisso, este centro de arte não é diferente de outros – deparamo-nos com obras que espelham os ocupantes do espaço circundante: outras obras, visitantes, vigilantes. É banal a experiência, de que nos tornamos especialmente cientes quando tentamos fotografar amadoramente uma obra exposta, de encararmos como poluição o reflexo de outras circunstantes na superfície mais ou menos vidrada que resguarda a obra que queremos fotografar. Podemos tentar evitar ou podemos brincar com isso: ficar propositadamente na imagem como autorretrato, combinar reflexos e sermos autores da mistura, sobrepor a nossa cara a este ou aquele segmento da obra – mas, facto básico, temos repetidamente essa experiência de reflexão indesejada. Reflexão indesejada: como se nos viessem à cabeça ideias que não procurámos e que nada acrescentam à nossa felicidade. Pelo menos, que nós saibamos.




Que o espelho, em lugar de ser um acidente numa visita a uma exposição, algo que se sofre ou com que se brinca, passe a ser uma reinvenção indefinida do imaginado, por obra e graça do trabalho de José Pedro Croft, devolvendo-nos uma possibilidade de sermos agentes de certas olhadelas sobre o mundo, sendo as possibilidades que nós experimentamos infinitamente distintas das possibilidades experimentadas por outrem, é razão suficiente por nos regozijarmos com esta possibilidade patente, agora, no MAC/CCB.



Porfírio Silva, 31 de maio de 2026
Print Friendly and PDF