26.10.26

Os nossos Brasis

12:18



Evidentemente, a vitória de Lula - ou, se preferirem, a derrota do clã Bolsonaro/Trump - foi um grande alívio. Quase 4 milhões e meio de votos suplantaram o candidato da extrema-direita, o candidato da mentira sistemática, o candidato da corrupção sem vergonha disfarçada de retórica contra a corrupção, o candidato da submissão ao louco que ocupa a Casa Branca. Estas disputas eleitorais têm grande significado na medida em que há candidatos que partem para a contenda na disposição de respeitar a vontade do eleitorado - é o que fazem os candidatos democratas - e há candidatos que só respeitam os actos eleitorais em que eles próprios sejam vencedores. O Bolsonaro de turno já está a contestar a eleição que perdeu, como outros fizeram antes. É uma luta desigual onde os democratas partem em desvantagem. Até por isso, alívio é a palavra certa para descrever o que sentimos ontem à noite, com a vitória de Lula.

De qualquer modo, estes cenários eleitorais extremamente polarizados traduzem vidas especialmente difíceis para as democracias. É a própria essência das democracias representativas, tal como as conhecíamos, que está em causa - mesmo quando vencem "os bons"! Expliquemo-nos.

Cada eleição tem (deve ter) um pressuposto fundamental: depois desta haverá outra. Quer dizer: um perdedor hoje pode ser vencedor amanhã, porque a sua acção cívica e política vai poder continuar, porque o vencedor será escrutinado e sujeito a limites legais dos seus poderes, porque a capacidade para cumprir o que prometeu e obter resultados vai ser apreciado e sancionado pelos cidadãos numa próxima etapa de renovação dos mandatos. A linha de segurança da convivência é a continuidade das instituições democráticas. E o vencedor também terá de ter isso sempre presente, impedindo-o de se acomodar no exercício.

Deste pressuposto fundamental decorre que perder uma eleição não seja o fim do mundo. Perder uma eleição tem o custo de atrasar o caminho de algumas das nossas ideias acerca da melhor organização da sociedade, de dar seguimento a algumas políticas públicas que julgamos nefastas ou simplesmente ineficazes, até de termos de conviver com pessoas que julgamos menos capazes ou menos recomendáveis. Mas perder uma eleição não é irreversível, pode ser corrigido, nem sempre os nossos piores receios se concretizam (embora, por vezes, o mau seja pior do que o prometido). Uma derrota é possivelmente passageira ou episódica. E, provavelmente, concordamos até com muitos aspectos da mundividência do adversário, aceitamos que algumas das suas ideias são boas, talvez até concedamos que alguns dos seus projectos remendem situações que nós não fomos capazes de resolver no nosso turno. 

Isto é: numa democracia madura, a maior parte das viragens políticas são significativas - traduzem a existência de alternativas, concretizam renovação do pessoa político - mas não são dramáticas. Aquilo em que o vencedor e o perdedor concordam é, muitas vezes, tão extenso como as matérias de discordância. Mesmo que as discordâncias sejam muito relevantes e representem visões de sociedade distintas, ninguém pode, num mandato, apagar todos os caminhos alternativos.

O problema é que se isto acontecia, nas chamadas "democracias ocidentais", como cenário predominante, isso deixou de acontecer.

Os casos do Brasil ou dos EUA mostram que o lugar das eleições no sistema político mudou. Quem perde teme perder tudo: não apenas perder uma oportunidade temporária de implementar as suas ideias para as políticas públicas, mas perder definitivamente o seu lugar no mundo. Com candidatos como Trump ou Bolsonaro, em cada eleição arrisca-se perder a democracia, arrisca-se perder um mundo de respeito pelos cidadãos, arrisca-se cair numa ditadura eleitoral onde a repetição de actos eleitorais esconda a subversão continuada das garantias constitucionais mais fundamentais. As instituições democráticas, mesmo em países onde elas pareciam bem enraizadas, mostraram-se frágeis perante aquelas que apenas as usam como andaimes do poder pessoal, quando não como ferramentas de enriquecimento pessoal e dos apaniguados. 

A polarização destruiu aquela tranquilidade democrática. A polarização usa como ferramenta, e tem como resultado, que a vitória de um lado é a negação absoluta do outro. O que seria sempre transitório, de eleição para eleição, querem alguns que seja definitivo. Perder é dramático por representar a ruptura violenta com a convivência cidadã. Em democracia, uma derrota não devia ser o fim do mundo. Mas quando uma eleição é uma escolha entre a mínima respiração democrática e a completa manipulação do poder por clãs de usurpadores - é todo o nosso mundo que está em causa.

Então, e em conclusão: aliviados pela vitória de Lula, como estamos, não podemos deixar de reconhecer que é um péssimo sinal dos tempos que uma eleição seja tão ameaçadora, que metade de um país se sinta ameaçado por um mero resultado eleitoral. A tarefa dos democratas não é, "apenas", continuar a ganhar eleições contra os inimigos da democracia. A tarefa dos democratas é, também, tornar as instituições democráticas mais resistentes aos seus inimigos de dentro.

 

Porfírio Silva, 26 de Outubro de 2026
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20.10.26

Habitação. Casa. Democracia.

11:02



1. A "rua" faz parte da democracia. Se a democracia não souber ouvir a "rua", estará doente. Isto não quer dizer que os manifestantes possam fazer tudo o que lhes apetece, nem que possam desrespeitar as leis ou atropelar os direitos dos outros cidadãos. O que quer dizer é que o instinto de repressão, partir para uma interacção com os manifestantes na base da declaração "seremos implacáveis", é demonstração de falta de senso democrático. Essa arrogância, que alguns dos actuais detentores do poder exibiram face às acampadas do Porto e de Lisboa, acaba por ser cúmplice e alimentar os infiltrados - não sei se há infiltrados nas manifestações portuguesas, mas há, de certeza, nas francesas. Estas manifestações, com ou sem excessos, são expressão de um problema real e devem ser tratadas como tal, não devem ser tratadas primariamente como um problema de ordem pública ou de segurança: esse olhar primariamente securitário é típico dos autoritarismos e só serve para lançar gasolina sobre o incêndio (embora, com a crise dos combustíveis, não sobre muito dinheiro para comprar gasolina para este efeito).

2. Quando se chega ao ponto de o poder político não ser capaz de lidar com a rua é porque falhou, a montante, o plano das instituições. Por acção dos reaccionarismos múltiplos que se impuseram na nossa sociedade, incluindo os liberais radicais que odeiam tudo o que seja representação sindical e glorificam o individualismo egoísta (são uma ideias soltas liberalóides na cabeça de Montenegro que o levam a rotular de egoístas quem luta pela habitação), foram sendo enfraquecidas, ou mesmo destruídas, as pontes que eram capazes de sentar à mesa partes contrárias. O sindicato é, tipicamente, a ferramenta que permite aos trabalhadores lutar contra o patrão e permite, também, no momento seguinte, negociar com o patrão e, eventualmente, chegar a acordo com o patrão. Esse é apenas um exemplo das ferramentas da vida social em democracia que foram atacadas pela direita mais radical e pelos liberais das motosserras e, chegados os momentos difíceis, encontramos muros e fossos profundos entre as partes. A precarização radical do trabalho também tornou insuficientes os instrumentos tradicionais de gestão do conflito: isso esvazia a democracia e aperta as instituições no beco das impossibilidades de conversar, na praça das bastonadas.

3. A culpa do falhanço das instituições não é, porém, exclusiva dos políticos em sentido restrito. A culpa é, também, da falta de cultura democrática generalizada. Pensar em destituir o edil do Porto por um abaixo-assinado, por exemplo, é demonstração de quem está fora do quadro de uma democracia representativa, assente em eleições livres. Sim, a democracia não pode ser só representativa, tem de ser também participativa, e tem ainda de ser uma democracia deliberativa: temos de dar razões, temos de ouvir as razões dos outros, temos de argumentar seriamente, não podemos apenas tentar impor a nossa força. Isso é tudo verdade, mas sem a base mínima da democracia representativa não há democracia nenhuma. A pretensão de que uma “assembleia popular” de umas dezenas de pessoas representa “o povo” não é um disparate inovador: é um disparate antigo e antidemocrático. As pessoas que se manifestam têm o direito de se manifestarem e têm direito a ser respeitadas por isso e a serem ouvidas, mas não têm o direito de tentar açambarcar a representação popular: não podem os manifestantes, em democracia, tratar o poder político legítimo como se vivêssemos no tempo da ditadura. É legítimo dizer-se revolucionário, mas há uma grande diferença entre ser revolucionário face a uma ditadura ou ser revolucionário face a uma democracia. Não estamos em tempo de namorar com os que estão contra “o regime” quando “o regime” é o regime democrático.

4. Infelizmente, nada disto é um epifenómeno passageiro. A crise das instituições é uma das facetas de uma crise do capitalismo como forma social total. O capitalismo tornou-se cada vez mais selvagem, cada vez mais os que têm muitíssimo dinheiro são deixados livres para espoliar os que trabalham ou trabalharam para viver, cada vez mais quem trabalha não encontra no trabalho o caminho para uma vida decente. Isso deixou de ser "apenas" um problema económico e é também um problema político, isto é, um problema de organização social. Este capitalismo selvagem corrói a democracia. Isto não é um episódio, é uma dinâmica de base. Um dos problemas com estas questões é que os chavões escondem partes da realidade. É evidente que os jovens são muito afectados com a crise da habitação, porque estrangulamos, por aí, a sua aspiração a uma vida independente. Mas isso não nos pode fazer esquecer que há outros, por exemplo mais velhos que, face aos imprevistos da vida, apostaram em ter um, dois ou três apartamentos para garantir uma vida com menos insegurança do que aquela que adviria de uma dependência total de uma pensão baixa e, por vezes, incerta. São, por isso, capitalistas a abater? Não me parece. O discurso populista vem sempre tentar desviar o caminho das soluções: não é que haja políticos que sejam proprietários que impede que se resolva o problema da habitação. Até porque, se há políticos que são proprietários e votam contra soluções legislativas que poderiam contribuir para resolver o problema da habitação, também há políticos que, sendo proprietários, votam diferente: votam a favor de soluções legislativas que poderiam ajudar a resolver. O problema é mais fundo: ao longo de décadas, o Estado desistiu de ter as ferramentas necessárias para introduzir racionalidade social nos mecanismos de mercado. Demorámos muito tempo a compreender isso. E as consequências disso não se mudam de um dia para o outro. A habitação é um direito e o Estado tem de ter ferramentas capazes para domar o mercado naquelas dimensões em que o mercado impede a realização do direito. O Estado tem de ser proprietário e ter o peso suficiente para influenciar o comportamento de mercado. Aí, a social-democracia andou demasiado tempo demasiado distraída. Temos de apressar a passo, para que a rua e as instituições possam convergir numa mudança real da vida. Não é só o problema da habitação. É o problema da democracia.
 

Porfírio Silva, 20 de outubro de 2026
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9.9.26

Sobre o PISA 2025

20:21
Na conferência de imprensa realizada hoje na Assembleia da República, o Grupo Parlamentar do Partido Socialista distribuiu um documento de apoio, cujo conteúdo aqui se reprouz.
 

Os primeiros resultados do PISA 2025


Ao princípio da manhã de 8 de setembro de 2026 a OCDE anunciou os primeiros resultados da mais recente edição do PISA (Programme for International Student Assessment).

Em todos os domínios avaliados em 2025, Portugal está muito próximo da média da OCDE: ligeiramente acima da média em Leitura e Resolução computacional de problemas, na média em Ciências, ligeiramente abaixo da média em Matemática.

A Tabela I.1. do PISA 2025 Results, Volume 1, pp. 28-29, classifica Portugal, para estes 4 domínios, como pertencendo ao grupo de “Países/economias cujo desempenho médio ou percentagem de alunos com desempenho elevado/baixo não difere significativamente da média da OCDE.”




A amostra inclui alunos de escolas públicas e de escolas privadas. (Table I.B1.4.172, no Starlink)


O contexto internacional


Na Introdução on-line aos resultados PISA 2025, a OCDE escreve: “O desempenho global dos países da OCDE deteriora-se: com efeito, os resultados médios em Ciências, Leitura e Matemática são os mais baixos alguma vez observados.” (Cf. https://www.oecd.org/en/publications/pisa-2025-results-volume-i_73451bc5-en.html )

Isto é que é realmente preocupante. Há uma tendência de declínio, com as exceções localizadas quase exclusivamente em países não ocidentais.

(Os gráficos que se seguem usam as séries, para cada domínio, desde o ano em que os dados são comparáveis.)











O debate sobre a escola precisa ser elevado a um novo patamar de maturidade


Se há, no plano internacional, uma tendência para o declínio, temos de assumir que é necessária uma reflexão. O tópico poderá ser: será que estamos a fazer as perguntas certas acerca do que é preciso mudar?

Na apresentação do PISA 2025 Results, Mathias Cormann, Secretário-Geral da OCDE, destacou seis prioridades:

1) Exigência elevada, explicitando: ensinar menos coisas, mas ensinar os fundamentos de cada disciplina de modo mais aprofundado;

2) Apostar nos professores: menos tarefas burocráticas, mais tempo com os alunos;

3) Conseguir mais participação dos pais (o acompanhamento familiar melhora a aprendizagem, mas esse acompanhamento tem baixado);

4) Conseguir que os melhores alunos em ciências se mantenham interessados em trabalhar em ciência;

5) Dar mais apoio aos alunos que têm mais necessidades;

6) Usar o digital de forma crítica.


Essas são prioridades sobre as quais vale a pena trabalhar. Para isso, precisamos de passar a um nível superior do debate sobre a educação em Portugal.

Tentar leituras simplistas do PISA para querelas públicas de ocasião revela que quem o faz anda distraído dos problemas que há para enfrentar.

Precisamos fazer melhor do que as recorrentes tentativas de manipular os dados do PISA.


Recorrentes tentativas de manipular politicamente os dados do PISA


Nessa linha, houve quem voltasse, recentemente, à teoria de que os resultados do PISA 2015 se deveram às reformas de Nuno Crato, isto é, as provas finais do 4º e do 6º ano (dito “reforço da avaliação externa”) e às “novas metas curriculares”. 

Mas é demonstrável que esse “fator Crato” não pode explicar o pico de 2015 no PISA. Vejamos por partes.

Quanto à questão das provas finais do 4º e 6º anos.

As provas finais nacionais do 4.º ano foram realizadas pela primeira vez no ano letivo de 2012/2013. A amostra portuguesa do PISA 2015 foi constituída por alunos que nesse ano frequentavam entre o 7º e o 11º ano de escolaridade (não contando aqui com alunos em áreas de formação e educação vocacionais, que aparecem como “outros” no relatório). Isso quer dizer que a coorte avaliada pelo PISA em 2015 não foi exposta aos exames do 4.º ano, no percurso escolar normal.

Quanto às provas finais do 6.º ano, estas foram realizadas pela primeira vez no ano letivo de 2011/2012. Os alunos que ano em 2014/2015 estavam no 9.º, no 8º ou no 7º ano teriam realizado essas provas finais. Em conjunto, representam menos de 30% dos participantes portugueses no PISA 2015.

(Além de que, já que estamos em comparações internacionais, cabe notar que a maioria dos países, incluindo os que têm resultados mais elevados, não têm exames precoces. Têm, sim, instrumentos de aferição cujos dados são trabalhados.)

Quanto à questão das “novas metas curriculares”: também é interessante perceber se poderiam ter tido uma influência assinalável nos resultados do PISA 2015. Vejamos.

Em 2015, 57% da amostra portuguesa no PISA (10º e 11º anos) teria seguido algumas nas novas metas curriculares durante um ano (em 2013/2014) (ou não teria tido qualquer exposição, no caso do 11º ano). Os que estavam no 10º ano (56,6% da amostra) só tinham tido novas metas curriculares no 9º ano (a Português e Educação Visual).

Similarmente, os alunos que foram incluídos na amostra quando estavam no 9º ano (19,9%) só tinham tido um ano completo com novas metas curriculares, no º ano, e apenas a Educação Visual.

Portanto, a intensidade da exposição às novas metas curriculares por 76,9% (11º, 10º e 9º) dos integrantes da amostra PISA 2015 era mínima. No mesmo sentido, só os alunos dos 7º e 8º anos (10%) tinham sido expostos às novas metas curriculares de Matemática. O mesmo para as Ciências Naturais e a Físico-Química.

Isto é: é preciso acreditar em milagres para pretender que as novas metas curriculares explicam a subida de Portugal nos resultados PISA até 2015. E nem acreditando em milagres é concebível que os “exames” no 4º e 6º anos tenham aí tido qualquer papel.

A educação precisa do longo prazo


O acompanhamento das sucessivas edições do PISA tem a virtude de nos ensinar, de facto, a evitar leituras simplistas, em muitos casos a raiar o maniqueísmo, que estabelecem correlações lineares e absolutas entre medidas de política educativa e resultados. Uma opção que não se compadece com a multiplicidade de fatores, contextos, tempos e mudanças. As medidas de política educativa contam, claro. Mas não são delimitáveis, para efeito de análise de resultados, no quadro temporal de cada legislatura.

Os resultados de Portugal no PISA 2015 foram o produto de muitos anos de investimento na educação, entre os quais se pode, brevemente, assinalar: a expansão da educação pré-escolar; a consolidação da escolarização universal no ensino básico e a redução continuada do abandono escolar; o reforço da ação social escolar e de outros mecanismos destinados a permitir que alunos de meios mais desfavorecidos permanecessem no sistema; e o aumento geral das qualificações dos professores e da capacidade das escolas para trabalhar com uma população escolar progressivamente mais ampla e heterogénea.

A geração avaliada pelo PISA em 2015, nascida aproximadamente em 1999-2000, percorreu praticamente toda a sua escolaridade durante um período de forte intervenção nas políticas educativas. Quando chegou ao 1.º ciclo, estava em curso a reorganização da rede de escolas, com o encerramento de muitas pequenas escolas isoladas, a criação de centros escolares e o alargamento da chamada «escola a tempo inteiro». A partir de 2006, essa geração foi também abrangida pelo Plano Nacional de Leitura e pelo Plano de Ação para a Matemática, medidas que procuravam atuar diretamente sobre aprendizagens fundamentais e que acompanhavam os alunos durante vários anos, em vez de constituírem intervenções pontuais.

Ao mesmo tempo, reforçaram-se políticas dirigidas às escolas e aos alunos em contextos mais difíceis, designadamente através dos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP), e foram desenvolvidos mecanismos de apoio ao sucesso e de combate ao abandono. A expansão das vias profissionalizantes e, mais tarde, o alargamento da escolaridade obrigatória para 12 anos, em 2009, contribuíram também para alterar a relação do sistema com os alunos que anteriormente tenderiam a abandoná-lo mais cedo. Este aspeto é particularmente importante: a melhoria dos resultados médios ocorreu ao mesmo tempo que Portugal conseguia manter na escola uma proporção muito maior dos jovens de 15 anos, incluindo alunos provenientes de grupos que anteriormente tinham maior probabilidade de já não se encontrarem no sistema educativo.

Houve ainda um investimento significativo nas próprias condições de funcionamento das escolas: modernização de instalações, equipamento tecnológico, avaliação externa das escolas, maior produção e utilização de informação sobre resultados e uma presença crescente da avaliação das aprendizagens ao longo do percurso escolar. Nenhuma destas medidas, tomada isoladamente, permite explicar uma determinada subida no PISA. O que importa é o efeito cumulativo: os alunos avaliados em 2015 tinham beneficiado, desde a infância, de uma sucessão de políticas que aumentaram o tempo de escolarização, melhoraram condições de aprendizagem, concentraram recursos em dificuldades identificadas e elevaram as expectativas quanto ao que a escola deveria conseguir ensinar a todos.

É por isso pouco plausível interpretar o máximo alcançado por Portugal em 2015 como resultado de uma decisão governativa recente ou de uma reforma particular. O PISA avalia aos 15 anos competências que se formaram durante muitos anos. Os resultados de 2015 devem ser lidos, antes, como a manifestação tardia de uma acumulação de políticas e investimentos de longo prazo, realizados por governos diferentes e em momentos diferentes, que foram atingindo sucessivamente a mesma geração ao longo do seu percurso educativo.
E isso é o que nos deve guiar. É a essa perspetiva de longo prazo, focando-nos no fundamental, que temos de regressar. Coletivamente.

(Texto distribuído na conferência de imprensa do Partido Socialista, 09-09-2026.)


Porfírio Silva, 9 de Setembro de 2026
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3.9.26

Inquérito urgente às escolas com rabo de fora

17:10



Em relação ao inquérito ordenado pelo Ministro Fernando Alexandre, a ser realizado pela IGEC com carácter de urgência, e cujo relatório foi divulgado no passado dia 28 de agosto (consultar aqui), parecem-me necessárias algumas considerações (esperando, ainda, pelo fim da saga).


O relatório da IGEC identifica erros em algumas escolas, mas nada que explique o que se passou. O relatório identifica falhas sistémicas, mas essas continuam a merecer poucas palavras do Governo. Do relatório resulta que, sim, houve alunos prejudicados, embora essas contas só possam ser fechadas quando o processo concluir. Isto é: o pedido de inquérito serviu para tentar desviar as atenções para as escolas, mas o relatório não explica o caos global dos exames.

Vamos por partes.

1. Há uma assimetria difícil de ignorar na reação do Ministério da Educação à crise dos exames nacionais de 2026. Em 10 de agosto, Fernando Alexandre determinou, «com caráter de urgência», um inquérito às irregularidades atribuídas às escolas e fixou 28 de agosto como data-limite. A IGEC mobilizou 19 inspetores e produziu o relatório em 27 de agosto: menos de três semanas para investigar dezenas de estabelecimentos (Relatório IGEC, pp. 2-3). A mesma urgência não é visível no escrutínio da conceção e direção central do processo. Em julho, o Governo anunciou uma auditoria externa à classificação digital; em 7 de agosto anunciou uma avaliação pelo Conselho Nacional de Educação, mas apenas até ao final do ano. Até 3 de setembro, não foi publicada uma análise global equivalente das decisões, plataformas, serviços e organismos do Ministério. Aquilo que podia localizar erros nas escolas foi investigado imediatamente; aquilo que pode esclarecer responsabilidades do sistema central segue um calendário muito mais largo. A iniciativa ministerial, pela seleção do objeto e pela rapidez impressa ao inquérito, favorecia assim uma leitura pública segundo a qual a origem do caos dos exames estaria sobretudo nas escolas.

2. O próprio universo do inquérito impede que ele seja admitido como uma explicação do que aconteceu à escala nacional. O JNE sinalizou 93 escolas — cerca de 14% das 655 onde se realizaram exames do secundário —, podendo uma escola surgir em mais de uma categoria (Relatório, pp. 3-4). O objeto era estreito: atrasos na entrega de provas e na submissão de pedidos de reapreciação. Ficaram de fora dificuldades de acesso às plataformas, respostas incompletas, provas ou PDFs desaparecidos, itens duplicados, provas disponibilizadas aos classificadores no limite ou depois dos prazos, convocação de docentes aposentados ou já deslocados de escola, entre outros episódios que acompanharam a classificação digital. Louro de Carvalho inventaria precisamente esse leque e considera estas ocorrências insuficientes para explicar a crise; Helena Damião resume o limite do objeto numa frase: «nada mais. E muito mais houve!». (Ver Helena Damião, «Continue-se com a plataformização dos exames nacionais» e Louro de Carvalho, «Com pompa e circunstância, MECI atribui às escolas o caos dos exames».)

3. Esta limitação foi também assinalada por quem conhece profissionalmente a função inspectiva. Em 15 de agosto, o Sindicato dos Inspetores da Educação e do Ensino (SIEE) pediu uma auditoria global da IGEC ao funcionamento de todo o processo, isto é, uma investigação da cadeia de decisões, procedimentos, responsabilidades e serviços envolvida na digitalização e classificação dos exames. Para o SIEE, não fazia sentido chamar a Inspeção para investigar alegadas irregularidades das escolas sem escrutinar também o funcionamento das estruturas centrais. (Ver Comunicado do SIEE — «Exames nacionais de 2026: SIEE defende intervenção inspetiva global».)

4. Há depois um resultado que contraria qualquer suspeição generalizada sobre as escolas. Quanto às provas entregues fora do prazo, a IGEC conclui não terem sido encontrados indícios de atuações deliberadas destinadas a comprometer a integridade ou a confidencialidade do processo (Relatório, p. 12). Em apenas um caso se considerou haver fundamento para aprofundamento por inquérito; no conjunto, as ocorrências surgem caracterizadas sobretudo como falhas operacionais e procedimentais (Relatório, pp. 8 e 14). O contraste com o discurso anterior é relevante. Em julho, Fernando Alexandre afirmou, a propósito de provas chegadas tardiamente, que «está em questão a própria integridade da prova». A frase não equivale a uma acusação formal de fraude deliberada, mas introduzia uma suspeita forte. O inquérito não encontrou base para a leitura mais grave de comportamentos deliberadamente dirigidos a comprometer o processo.

5. O relatório confirma também que houve prejuízos para alunos, embora não permita ainda determinar o dano final de cada caso. Foram identificados 131 processos de reapreciação submetidos fora do prazo em 69 escolas (Relatório, p. 8). Cerca de 76% das situações foram detectadas pelas próprias escolas em 7 de agosto, quando receberam resultados sem algumas classificações ou quando alunos e famílias verificaram que os nomes dos estudantes não constavam das pautas (Relatório, p. 10). Há processos remetidos em 7 e 10 de agosto que só ficaram concluídos nos dias seguintes (Relatório, p. 11). A própria IGEC afirma que a regularização posterior permitiu «minimizar os efeitos decorrentes dos atrasos inicialmente verificados» e salvaguardar os direitos e interesses dos alunos (Relatório, p. 13). Isto significa que os efeitos existiram: houve estudantes que ficaram sem um resultado quando o deveriam ter recebido e que ficaram dependentes de procedimentos posteriores de correção num período decisivo para o acesso ao ensino superior. Não se está aqui a ajuizar se cada um desses prejuízos foi, ou virá ainda a ser, devidamente reparado. Essa apreciação deve ser feita quando todo o processo estiver concluído. Mas reparação posterior e inexistência de prejuízo não são a mesma coisa.

6. Quanto às causas, o relatório não descreve apenas erros individuais. A IGEC associa muitas ocorrências à conjugação de complexidade operacional, pressão temporal, elevado volume de procedimentos simultâneos e alterações processuais, que exigiram adaptação não só das escolas, mas também do próprio JNE (Relatório, p. 13). A cadeia de trabalho foi submetida a forte pressão num sistema novo, com prazos comprimidos e sucessivas operações dependentes umas das outras. A conceção central do processo não acautelou suficientemente os efeitos dessa complexidade na cadeia descendente de execução, disseminada por centenas de escolas. O próprio relatório regista que o JNE reconheceu aspetos da sua responsabilidade que «não correram efetivamente bem» e precisavam de correção e aperfeiçoamento (Relatório, p. 12). Estamos, por isso, perante um sistema cujo desenho e operacionalização aumentaram substancialmente a probabilidade de erro humano.

7. Nas reapreciações, a componente sistémica como causa de erro é ainda mais evidente. A plataforma RPE não assegurava rastreabilidade bastante das operações nem conservava informação que permitisse reconstruir de forma segura o percurso de cada submissão (Relatório, p. 9). Algumas escolas afirmaram ter submetido processos que depois deixaram de aparecer na plataforma; a IGEC não conseguiu confirmar nem excluir essas versões precisamente porque faltavam registos técnicos. A ausência de rastreabilidade é, portanto, simultaneamente um obstáculo à atribuição de responsabilidades e uma deficiência do próprio sistema. Se uma escola afirma que submeteu um processo e o sistema central afirma que não o recebeu, uma plataforma administrativa adequadamente concebida deveria permitir determinar objetivamente quem tem razão: data e hora da submissão, utilizador, ficheiros enviados, identificador da transação, eventual eliminação, autor dessa eliminação e estado final do processo.
Há um segundo exemplo particularmente revelador. Quando o JNE detectava incorreções nos modelos 10/JNE ou 12-A/JNE, processos já submetidos podiam ser eliminados pelas estruturas do JNE para serem corrigidos e novamente submetidos. Foi precisamente nessa fase que alguns pedidos ficaram, por lapso, sem ser reenviados. Mas a plataforma podia eliminar o processo sem preservar adequadamente a informação relativa à submissão anterior (Relatório, p. 10). A responsabilidade imediata pelo não reenvio pode ser da escola; o sistema central, porém, eliminava o rasto necessário para conferir posteriormente o estado do processo e apurar responsabilidades. A própria IGEC escreve que esta característica «acentua a insegurança e a desconfiança no processo». E conclui que as situações de reapreciação não podem ser analisadas apenas como incumprimentos imputáveis aos estabelecimentos: concorrem lapsos humanos, dificuldades organizacionais, crescimento exponencial do número de pedidos e limitações técnicas da plataforma (Relatório, p. 13). Não por acaso, uma das recomendações finais ao JNE é o aperfeiçoamento ou substituição das plataformas em uso (Relatório, p. 15).

8. Muitos erros ocorreram, de facto, fisicamente nas escolas. Isso não significa que a sua causa relevante esteja aí localizada. Um sistema administrativo pode estar desenhado de tal maneira que torna os erros humanos mais prováveis. O próprio relatório oferece exemplos. As folhas de rosto com a identificação dos alunos e as folhas de resposta eram ambas de formato A4 e visualmente semelhantes, apesar de terem destinos distintos, o que favorecia trocas de envelopes no processo de anonimização e expedição (Relatório, p. 7). Mais de metade das ocorrências de entrega tardia concentrou-se em dois dias de exames de grande volume, que a IGEC associa a operações logísticas particularmente exigentes e complexas (Relatório, pp. 6 e 12). A estes exemplos somam-se novas rotinas introduzidas num único ano, demasiados procedimentos simultâneos, prazos comprimidos, plataformas sem confirmação transacional robusta e sem histórico suficiente, processos que podiam ser eliminados e tinham de ser reenviados, e instruções ou ajustamentos produzidos durante a própria operação. É precisamente este tipo de causalidade sistémica que emerge do relatório: o erro humano existe, mas a arquitetura do sistema influencia fortemente a frequência, a probabilidade e a possibilidade de detecção desses erros.

9. A dimensão da responsabilidade sistémica quase desaparece do comunicado do Governo de 28 de agosto. O texto abre destacando 69 escolas com reapreciações tardias e 29 com atrasos na entrega e dá relevo a lapsos, falhas de verificação e erros operacionais. Refere a necessidade de melhorar as plataformas, mas não confere relevo comparável à conclusão de que as reapreciações não podem ser analisadas exclusivamente como incumprimento das escolas, às falhas de rastreabilidade, às causas sistémicas identificadas pela IGEC ou ao reconhecimento, pelo JNE, de aspetos da sua responsabilidade que não correram bem. O resultado comunicacional é uma narrativa mais centrada nas falhas das escolas do que o relatório integral autoriza. O inquérito encontrou erros escolares; encontrou também, dentro do seu objeto estreito, sinais inequívocos de problemas na arquitetura e governação do sistema nacional de exames. É precisamente essa segunda parte que torna ainda mais necessária uma auditoria global. 


Porfírio Silva, DATA
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27.8.26

No próximo domingo continua o golpe em Bissau




A suspensão da prisão preventiva de Domingos Simões Pereira e a sua saída para Lisboa, em 24 de julho, foram acontecimentos importantes. Puseram termo a uma situação pessoal e política de extrema gravidade. Mas não resolveram o problema da Guiné-Bissau. Domingos Simões Pereira saiu da prisão; a Guiné-Bissau não saiu do golpe. O problema essencial continua a ser a rutura da ordem constitucional ocorrida em 26 de novembro de 2025 e a tentativa, que se lhe seguiu, de transformar o poder conquistado pelas armas numa nova ordem política e constitucional.

É neste contexto que deve ser analisado o referendo constitucional marcado para 30 de agosto. A questão não é saber se um referendo é, em abstrato, um instrumento democrático. Evidentemente que pode ser. A questão é outra: não pode haver uma votação democrática sem condições democráticas.


Como devia ter sido revista a Constituição

A Constituição da República que estava em vigor quando ocorreu o golpe não deixava em aberto a forma de proceder à sua revisão: atribuía à Assembleia Nacional Popular a competência para proceder à revisão constitucional; determinava que a Constituição podia ser revista pela ANP e que a iniciativa da revisão competia aos deputados; exigia que qualquer projeto identificasse os artigos a rever e o sentido das alterações pretendidas e estabelecia que o projeto tinha de ser apresentado por pelo menos um terço dos deputados em efetividade de funções; exigia a aprovação por dois terços dos deputados que constituíam a Assembleia. 
A Constituição estabelecia, além disso, limites materiais à própria revisão: proibia que uma revisão afetasse, entre outros elementos, os direitos, liberdades e garantias, o sufrágio universal, direto, igual, secreto e periódico, o pluralismo político e o direito da oposição democrática, a separação e interdependência dos órgãos de soberania e a independência dos tribunais.
Não se tratava, portanto, de conferir a uma maioria conjuntural — e muito menos a um órgão não eleito — liberdade para redesenhar sem limites o sistema político.
É particularmente relevante recordar isto porque a nova Constituição reforça significativamente os poderes do Presidente da República: atribui-lhe a presidência do Conselho de Ministros e permite-lhe nomear o primeiro-ministro sem ficar condicionado pelos resultados eleitorais ou pela existência de uma maioria parlamentar. A Liga Guineense dos Direitos Humanos assinala também aquilo que considera ser a eliminação do anterior mecanismo de fiscalização da constitucionalidade. Estas opções suscitam, pelo menos, uma questão jurídica séria à luz das matérias que o artigo 130.º da Constituição anterior declarava insuscetíveis de revisão — designadamente o equilíbrio entre os órgãos de soberania e a independência dos tribunais. 


Um órgão nomeado pelos autores do golpe tornou-se poder constituinte

Depois do golpe, o Alto Comando Militar criou a sua própria ordem jurídica através da Carta Política de Transição. A própria Carta reconhece expressamente no seu preâmbulo a “rutura da ordem constitucional” de 26 de novembro, declara que o Alto Comando assumiu a plenitude do poder do Estado e estabelece que as suas disposições prevalecem sobre a Constituição sempre que entre ambas exista contradição. A Carta chegou a declarar terminado o mandato dos deputados da ANP.
Foi essa Carta — produzida pelo poder que resultou da intervenção militar, e não por um órgão democraticamente eleito — que criou o Conselho Nacional de Transição. Segundo a União Interparlamentar, o CNT é composto por 66 membros, incluindo o presidente, e todos são designados, não eleitos diretamente pelos cidadãos.
Há aqui um pormenor jurídico muito significativo. A Carta não diz que compete ao CNT aprovar uma nova Constituição. No artigo 9.º atribui-lhe, literalmente, a competência para “preparar a revisão da Constituição da República”, juntamente com outras reformas institucionais. E determina também que o CNT exerce tutela sobre a Comissão Nacional de Eleições.
Apesar disso, em 13 de janeiro, o CNT fez muito mais do que preparar uma revisão. Aprovou uma nova Constituição. Participaram 57 dos 65 membros considerados pelo próprio CNT e todos votaram favoravelmente.
A defesa das autoridades de transição é conhecida. Nelson Moreira, segundo vice-presidente do CNT, explicou recentemente à RFI que, na sua interpretação, o Conselho passou a substituir a Assembleia Nacional Popular em todas as suas competências e que, por isso, podia exercer também o poder de revisão constitucional. O problema é circular: a competência do CNT para substituir a ANP resulta apenas da Carta criada depois do golpe pelo próprio poder militar. Aceitar essa argumentação significa admitir que quem derruba pela força a ordem constitucional pode, através de um ato jurídico que ele próprio produz, atribuir a si mesmo os poderes constitucionais dos órgãos que afastou.


Primeiro aprovou-se, promulgou-se e publicou-se. Meses depois veio o referendo

A sequência dos acontecimentos torna o processo ainda mais difícil de compreender como um procedimento constitucional normal.
A nova Constituição foi aprovada pelo CNT em 13 de janeiro. Foi promulgada em 6 de fevereiro pelo Presidente da República de Transição, general Horta Inta-A. E foi publicada como Lei Constitucional n.º 5/2026, no suplemento ao Boletim Oficial n.º 8 de 24 de fevereiro.
Há uma particularidade reveladora: quando o CNT aprovou o texto, em janeiro, as próprias notícias divulgadas indicavam que a nova Constituição entraria em vigor depois de promulgada pelo Presidente e publicada. Foi precisamente isso que posteriormente aconteceu.
Só que, meses depois, as autoridades passaram a apresentar o referendo como a condição para a sua entrada em vigor.
O paradoxo foi reconhecido por um membro do próprio CNT, Rui Alberto Pinto Pereira. Ao defender o “sim”, explicou que, quando a Constituição foi aprovada, não existia ainda no país um instrumento jurídico específico que permitisse convocar um referendo. A Lei n.º 12/2026, destinada a regular o referendo, só viria a ser aprovada e publicada em junho. Finalmente, em 6 de julho, o Presidente de Transição assinou o Decreto Presidencial n.º 19/2026, convocando para 30 de agosto a consulta em que os cidadãos devem responder à pergunta: “Concorda com a entrada em vigor da nova Constituição da República aprovada pelo Conselho Nacional de Transição?”.
A ordem dos acontecimentos é, portanto, contra toda a lógica: o referendo acontecerá mais de seis meses depois da promulgação e da publicação da nova Constituição.


O que dizia a Constituição sobre o referendo

Antes do golpe não existia na Guiné-Bissau uma lei geral do referendo. Mas isso não significa que houvesse um vazio constitucional quanto à competência.
A Constituição determinava expressamente que competia à Assembleia Nacional Popular decidir da realização de referendos populares. A Constituição reservava igualmente à ANP a legislação sobre o sistema eleitoral. E o Regimento parlamentar reconhecia aos deputados o poder de apresentar projetos de referendo.
Portanto, o caminho constitucional seria claro: a ANP teria de criar o regime legal necessário e seria também a ANP a decidir a realização da consulta.
Nada na Constituição permitia que o referendo substituísse o procedimento previsto para a revisão constitucional. O texto constitucional atribuía separadamente à ANP a competência para rever a Constituição e a competência para decidir referendos. Não previa o referendo como uma via alternativa através da qual se pudesse dispensar a iniciativa dos deputados, a votação da ANP e a maioria constitucional de dois terços.
O referendo de 30 de agosto não resulta de uma decisão da ANP. Resulta de um decreto do Presidente de Transição, fundamentado não na Constituição anterior, mas na Carta de Transição e na Lei n.º 12/2026 aprovada pelo CNT. 
Portanto, mesmo que o referendo decorra materialmente sem incidentes, ele não restitui a cadeia de legitimidade prevista pela Constituição que existia antes do golpe. É uma consulta organizada inteiramente no interior da nova ordem jurídica criada depois da rutura militar.


A administração eleitoral antes e depois do golpe

A comparação entre a administração eleitoral anterior e a atual torna ainda mais clara a mudança institucional.
A Lei n.º 12/2013 definia a Comissão Nacional de Eleições como um órgão independente e permanente, que funcionava junto da Assembleia Nacional Popular e tinha por missão organizar e gerir os processos eleitorais e referendários. O seu Secretariado Executivo era eleito por dois terços dos deputados da ANP, entre magistrados propostos pelo Conselho Superior da Magistratura Judicial. A CNE incluía ainda representantes dos partidos ou coligações políticas.
A legislação do recenseamento era igualmente explícita: o recenseamento era único para as eleições e para os referendos e abrangia os cidadãos guineenses residentes no país e no estrangeiro.
O quadro criado depois do golpe é substancialmente diferente.
A própria Carta de Transição declara que o CNT exerce tutela sobre a CNE. Foi o CNT que, em fevereiro e março, elegeu a nova presidente e todo o novo Secretariado Executivo da Comissão.
Para o referendo, segundo explicou a própria presidente da CNE, a plenária integra o presidente e o Secretariado Executivo, três representantes do CNT e um representante do Governo de Transição. Nas estruturas regionais existem igualmente representantes do CNT e do Governo. Nelson Moreira descreveu à RFI uma composição que inclui ainda um representante do Presidente de Transição e reconheceu expressamente que daí resulta uma maioria ligada aos órgãos de transição, admitindo que isso pode suscitar dúvidas de transparência e imparcialidade.
Isto deve ser confrontado com um princípio que não é apenas uma preferência política da oposição. O Protocolo da CEDEAO sobre Democracia e Boa Governação, vinculativo como padrão regional, determina que os organismos responsáveis pela organização das eleições devem ser independentes ou neutros e merecer a confiança de todos os atores políticos. O mesmo protocolo garante a livre atuação dos partidos e da oposição.


Quem pode fazer campanha e quem fiscaliza?

A Lei do Referendo adotada pelo poder de transição introduziu ainda uma solução particularmente importante para impedir que o referendo constitucional possa ser efetivamente fiscalizado: os partidos políticos não podem participar enquanto partidos na campanha do “sim” ou do “não”.
A presidente da CNE confirmou que a campanha é reservada aos membros do CNT, à sociedade civil e a grupos de cidadãos eleitores. Para constituir um desses grupos são necessários pelo menos 2.000 eleitores, incluindo 100 residentes em cada região, e o grupo tem de ser reconhecido pelo Supremo Tribunal de Justiça. Dirigentes partidários podem integrar esses grupos, mas não podem atuar em nome dos seus partidos. São também esses grupos de cidadãos que podem indicar delegados para fiscalizar as mesas de voto. Isto é: os partidos, que a Constituição anterior reconhecia como instrumentos fundamentais da organização e expressão da vontade popular e que tinham representação própria na CNE, são afastados enquanto tais da campanha e da fiscalização de uma decisão sobre a Lei Fundamental do país.
A diáspora é igualmente excluída. A presidente da CNE confirmou que só os cidadãos residentes na Guiné-Bissau podem participar, apesar de o regime de recenseamento anterior prever expressamente um recenseamento único para eleições e referendos que abrangia os cidadãos residentes no estrangeiro.
Há outro dado excecional: a presidente da CNE afirmou que não está prevista a presença de observadores nacionais nem internacionais no dia do referendo, embora reconheça que a Lei Eleitoral, para a qual a Lei do Referendo remete subsidiariamente em caso de omissão, prevê observação.
Entretanto, o próprio CNT não se mantém neutral. Está diretamente empenhado na campanha pelo “sim”. O coordenador dessa campanha declarou à agência oficial ANG que o CNT mobilizou cerca de 77 mil colaboradores para promover a aprovação da nova Constituição em todo o território.
Temos, portanto, o mesmo poder de transição a elaborar e aprovar a Constituição, criar a Lei do Referendo, participar na designação da administração eleitoral, integrar as estruturas responsáveis pelo processo e mobilizar uma enorme operação política em favor do “sim”, enquanto os partidos são impedidos de intervir enquanto partidos e não está prevista observação eleitoral independente.
É difícil conciliar esta concentração de funções com a ideia de uma consulta em que as duas opções competem em condições institucionalmente equilibradas.


Um referendo pode ser democrático sem liberdade política?

O carácter democrático de um referendo não depende apenas do segredo do voto e da correta contagem dos boletins.
Antes de poder votar livremente, um cidadão tem de formar livremente a sua vontade. Isso exige informação, discussão pública, liberdade de reunião e manifestação, liberdade de imprensa, capacidade de organização dos partidos e igualdade real entre quem defende o “sim” e quem defende o “não”.
Esse é precisamente outro dos problemas deste referendo.
Meses depois do golpe, dirigentes partidários confirmavam à Lusa que as suas sedes permaneciam encerradas por ordem militar e que fora determinada a proibição de atividades político-partidárias. Partidos e organizações da sociedade civil têm denunciado igualmente limitações a reuniões, manifestações e conferências de imprensa. Em julho, a Liga Guineense dos Direitos Humanos, Voz di Paz, WANEP-GB e outras organizações pediram mais tempo e maior inclusão, sublinhando que os 55 dias entre a convocação e a votação não permitiam um verdadeiro processo de discussão constitucional.
Não é preciso afirmar que cada eleitor será coagido na mesa de voto para concluir que existe um problema democrático. Uma votação pode ser tecnicamente secreta e, ainda assim, realizar-se num ambiente político que não oferece condições equilibradas para a formação e expressão da vontade popular.


Afinal, qual é a Lei do Referendo?

A estas questões acresce agora uma anomalia jurídica extraordinária: nem sequer existe plena certeza pública sobre qual é a redação da própria Lei n.º 12/2026 que regula o referendo.
Está demonstrado que responsáveis diferentes invocam duas redações incompatíveis do artigo 9.º da mesma Lei n.º 12/2026.
Bubacar Turé, presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, cita um artigo 9.º segundo o qual é proibida a convocação e realização de referendos entre a marcação e a realização de eleições para os órgãos de soberania ou do poder local. As eleições presidenciais e legislativas tinham sido marcadas, desde janeiro, para 6 de dezembro. Se esta for a redação legal em vigor, o referendo de 30 de agosto não pode realizar-se.
Mas Nelson Moreira, segundo vice-presidente do próprio CNT, foi confrontado pela RFI com esse problema e respondeu que não sabia que texto a jornalista tinha. Leu então a versão da Lei n.º 12/2026 que tinha consigo. Nessa redação, a proibição limita-se aos 90 dias anteriores às eleições. Esta formulação permite a realização do referendo em 30 de agosto antes das eleições de 6 de dezembro.
A diferença não é de pontuação nem de interpretação jurídica sofisticada. Uma redação proíbe este referendo. A outra permite-o.
Há uma segunda divergência ainda mais importante para o resultado.
A coligação API-CG afirma que existem duas versões da Lei n.º 12/2026 e que, numa delas, a aprovação da nova Constituição depende de duas condições cumulativas: maioria de votos “sim” e participação de mais de metade dos eleitores inscritos. Segundo a mesma denúncia, uma segunda versão terá eliminado o requisito de participação, fazendo depender a aprovação apenas da maioria dos votos expressos, independentemente da dimensão da abstenção.
A diferença seria decisiva. Perante um boicote promovido por importantes forças políticas, uma regra de participação mínima superior a 50% pode determinar a invalidade do referendo. Se essa condição desaparecer, uma fração minoritária do eleitorado total pode, desde que constitua a maioria dos votantes, aprovar a Constituição.
Mas aqui devemos manter o rigor: até hoje não conseguimos cotejar os dois exemplares originais do Boletim Oficial que permitiriam confirmar documentalmente a alegação de que as duas versões foram efetivamente publicadas e determinar qual é a redação juridicamente válida da norma sobre o quórum. A existência de versões diferentes é denunciada pela API-CG e por outras forças políticas; a divergência sobre o artigo 9.º, porém, está já demonstrada pelo facto de a LGDH e um alto responsável do próprio CNT citarem publicamente textos incompatíveis.
Esta incerteza é, por si mesma, gravíssima. Três dias antes de uma consulta destinada a decidir a Lei Fundamental de um país, não deveria existir qualquer dúvida sobre questões tão elementares como se o referendo pode legalmente realizar-se e quantos cidadãos têm de participar para que o resultado produza efeitos.


O referendo não apaga o golpe

É possível compreender a tese defendida pelas autoridades de transição. Sustentam que a Carta de Transição substituiu temporariamente a ordem constitucional interrompida, que o CNT assumiu os poderes parlamentares e que, ao convocar um referendo, estão finalmente a entregar ao povo a decisão sobre a nova Constituição. O próprio discurso oficial insiste em que os cidadãos poderão votar livremente “sim” ou “não”.
Mas essa argumentação não resolve a questão essencial.
O povo já tinha exercido a sua soberania em 23 de novembro de 2025. Votou para escolher o Presidente da República e os seus representantes na Assembleia Nacional Popular. Três dias depois, os militares impediram que esse processo eleitoral chegasse à proclamação dos resultados. A seguir, o Alto Comando criou uma Carta que suspendeu parte da Constituição, extinguiu os mandatos parlamentares e instituiu órgãos não eleitos. Esses órgãos alteraram a legislação política e eleitoral, reconstituíram a Comissão Nacional de Eleições e produziram uma nova Constituição.
Agora, o mesmo poder procura obter através de um referendo organizado segundo as regras que ele próprio criou uma legitimação popular para a nova ordem.
O problema não está no ato de colocar um boletim numa urna. Está na cadeia de acontecimentos que conduziu até essa urna.
Um golpe de Estado não se transforma em poder constituinte porque os seus autores convocam posteriormente uma votação. Um referendo só acrescenta legitimidade democrática quando ele próprio nasce de regras legítimas, estáveis e conhecidas, é organizado por instituições independentes e permite que todas as posições concorram em liberdade e igualdade.
À data de 27 de agosto, há razões muito sérias para concluir que nenhuma dessas condições está suficientemente assegurada na Guiné-Bissau.
Por isso, o referendo de 30 de agosto não deve ser visto como a correção democrática do golpe de 26 de novembro. Tudo o que aconteceu desde então sugere antes o contrário: é mais uma etapa do processo através do qual o poder resultante do golpe procura transformar a rutura da ordem constitucional numa nova ordem política revestida, a posteriori, de uma aparência de legitimidade popular.


Porfírio Silva, 27 de Agosto de 2026
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