20.4.26

Os princípios dos socialistas e os desafios de hoje




No dia do 53º aniversário da fundação do Partido Socialistas, 19 de abril de 2026, a Concelhia de Aveiro do PS, e a sua Presidente, Paula Urbano Antunes, promoveram uma sessão comemorativa, incluindo na ocasião uma apresentação do livro, de minha autoria, História das Declarações de Princípios do Partido Socialista. A apresentação da obra ficou a cargo de Filipe Neto Brandão, deputado do PS eleito pelo círculo de Aveiro, que se desempenhou da tarefa com a competência (e o bom humor) a que nos habituou. Tive a oportunidade, na ocasião, de dirigir algumas reflexões aos camaradas e outras pessoas presentes. O texto de base do que então disse é o que aqui se deixa, para registo e partilha.
 

Creio que esta História das Declarações de Princípios do Partido Socialista mostra que o nosso partido, ao longo da sua história, se manteve sempre fiel a um núcleo central de compromissos fundamentais, relacionados com a república democrática e com a procura de justiça social.
E, simultaneamente, creio que mostra também que fomos tentando adaptar as nossas modalidades de ação, e as nossas propostas, às mudanças do mundo — embora possamos discordar, ou duvidar, de que todas essas adaptações tenham sido avisadas.
O desafio, hoje, volta a ser o mesmo: fazermos valer os nossos princípios num mundo que mudou muito e que volta a exigir o melhor do nosso pensamento, o melhor da nossa ação, o melhor da nossa coragem para travarmos os inimigos da liberdade e da democracia.

A extrema-direita populista anda à solta, mas nós devíamos ter pensado nisso antes, quando deixámos avançar a disseminação de atitudes que, silenciosamente, favorecem a recepção de temas populistas. 
Por exemplo, a lengalenga populista que alimenta a polarização e o confronto assenta muito bem numa cultura que desvaloriza o compromisso, que desvaloriza a concertação. Quando as convergências e os compromissos entre diferentes forças políticas são vistos como sinais de fraqueza e de abdicação, abrimos caminho aos que vivem da rutura e do extremar de qualquer diferença.

A extrema-direita populista anda à solta e ameaça, mas nós devíamos ter pensado nisso antes, quando reduzimos a base institucional da democracia, ao concentrar o poder no topo da pirâmide: quando as assembleias representativas é que deviam eleger e controlar os respetivos executivos, acabam por ser os executivos a controlar as assembleias que os deviam controlar  - por exemplo, são os governos que mandam nos seus grupos parlamentares, ao contrário do que supunha a lógica democrática – e, aliás, acaba por ser o “grande líder” e o petit comité a mandar em quase tudo – e, com o tempo, tende a acostumar os demais a não fazerem ondas. E, desse modo, tornamo-nos menos capazes de entender e de responder aos perigos que nos rodeiam. 

É preciso dizer, e praticar, que a política é uma coisa demasiado séria para ser deixada ao que chamamos “os políticos” (no sentido de “os políticos profissionais”).
É preciso que os profissionais mandem menos na decisão política – tem de haver deputados e autarcas e outros que se dedicam a tempo inteiro durante algum tempo a essas funções, mas devem ser servidores do conjunto dos não profissionais da política.
Lembram-se, alguns, que a seguir ao 25 de Abril assistimos, em alguns sectores, àquelas assembleias ditas democráticas onde certas minorias faziam render a discussão até a maioria dos presentes se cansarem e irem embora, deixando essas minorias, então, ganhar as votações.
A democracia representativa, hoje, às vezes parece esse esquema em larga escala, ao nível nacional: parece que só ficam os que não têm mais nada para fazer.
Precisamos de mais cidadãos comuns na política, a decidir coletivamente e a sentirem que estão a decidir – para serem menos presas do discurso demagógico da extrema-direita.

Mas temos também a sereia liberal a rondar – e essa está a atrair muita juventude.
Quanto ao fascínio pelo liberalismo (ou, mais exatamente, pelo neoliberalismo, porque liberais políticos os socialistas também são), às vezes tentamos a escapatória de culpar os jovens, dizer que são “individualistas”, “egoístas”, que foram capturados pelas falácias da meritocracia. Mas não devemos ser tão simplistas. 
Pensem nisto: o nosso socialismo de hoje é mais estatista, mais centralista, menos diversificado do que já foi.
O PS, como podem avaliar pelo livro de história dos seus princípios declarados, já teve correntes mais libertárias, mais autogestionárias, mais cooperativistas e associativistas, mais trabalhistas do que temos hoje. É verdade que tivemos de lutar contra a destruição do Estado social, porque a nossa direita é maioritariamente muito primitiva e está sempre a ameaçar o Estado Social. Mas nós devíamos ser capazes de contrariar essa tendência destrutiva da direita e, além disso, fugirmos do binómio simplista “ou é Estado ou é privado”.
Vejam o exemplo da habitação. Como foi possível, nos anos mais recentes, não termos dado às cooperativas de habitação o relevantíssimo papel que elas já tiveram, no passado no nosso país, em construir casas para tanta gente e em condições mais favoráveis do que por outras vias? 
A esquerda democrática sempre teve, historicamente, ligações às ideias de autogoverno, de descentralização, de autonomia local, de cooperação, de mutualismo, de federação – e nós acabamos, hoje, não só no nosso partido, mas na maior parte dos partidos congéneres, por abandonar tudo isso e tornar-nos mais estatistas.
Dou um exemplo, talvez para vos chocar: porque é que a escola pública, para ser pública, tem de ser do Estado? Porque é que a escola pública não há de integrar escolas cooperativas, escolas emergentes da comunidade local, servindo toda a gente, mas organizadas segundo um princípio associativo?
Porque é que, por exemplo, não pode haver escolas que, sendo públicas, são geridas de acordo com movimentos pedagógicos inovadores, como há algumas privadas nessa base que são bem-sucedidas?
No plano do funcionamento, porque é que as escolas públicas têm de ter menos autonomia pedagógica e de organização do que as escolas privadas?

Se nós queremos convencer a juventude de que não somos tão rígidos como eles pensam — coisa que os afasta de nós – temos de ser mais ousados a admitir que a coisa pública não tem de ser coisa estatal, pode ser gerida de forma social, associada – aquilo a que em certas correntes da tradição socialista se chamava “autogoverno”.
Para combater o fascínio liberal sobre grupos sociais dinâmicos temos de aceitar que é possível prosseguir o bem comum fora da forma estatal – e desenvolver propostas políticas nessa linha. 
Há algo que nos afasta simultaneamente da extrema-direita populista e dos liberais economicistas radicais: é que nós sabemos que a agenda por uma vida melhor não é apenas uma agenda económica, é também uma agenda da luta política pela liberdade. Uma agenda de luta pelos direitos humanos. Uma agenda de luta pelas instituições da democracia. É que para nós não faz sentido que possamos ser servos e acharmos que nessa condição se vive melhor.

E, na prática, não há liberdade só para mim. A minha liberdade só existe e só subsiste ancorada na liberdade dos outros – e reciprocamente. Não há liberdade egoísta, não há liberdade individualista – e, por isso, nós, socialistas, precisamos de continuar a pensar a liberdade de forma diferente dos liberais economicistas. Porque a liberdade pela qual nós lutamos é a liberdade concreta. 

Há muito tempo que, no PS, nos curámos do socialismo autoritário. Mas ainda temos de nos curar do socialismo estatista e centralista.

Para nós, as instituições são centrais na nossa ideia de regime democrático: não somos anarquistas, somos das instituições. Mas não devemos ter medo do socialismo libertário como corretivo, que nos poderia ajudar a enfrentar o desafio neoliberal, embora tenhamos de encontrar soluções alternativas aos utopismos que não contam com a complexidade globalizada das sociedades do nosso tempo. A cura para os excessos liberais não será o estatismo dogmático; será, antes, a pulsão libertária e a pulsão do autogoverno no seio do socialismo mais tradicional.

O mundo está difícil para a esquerda, é verdade. Mas temos de ser capazes de olhar para a história e tentar evitar os erros já conhecidos – vamos tentar cometer erros novos em vez de voltar a repetir os mesmos…
No século XX, designadamente na Alemanha, o fascismo avançou por cima dos ódios entre comunistas e social-democratas. 
Depois disso, também na Europa, os comunistas, onde tomaram o poder, enviaram os socialistas para a oposição, quando não para a cadeia – os socialistas e outras oposições de esquerda.
Em Portugal, foi preciso explicar aos comunistas, nas ruas e nos votos, que para nós não há socialismo sem democracia. Mas também não deixámos que a direita ilegalizasse o PCP, porque não se limpa um erro com outro erro.
E hoje, numa política tão fragmentada, com a esquerda também tão fragmentada, devemos interrogar-nos: seremos nós, sozinhos, o futuro da esquerda democrática?
Ou precisamos de juntar forças para defender o essencial? E juntar forças, com quem?

Insisto sempre, como sempre insistiu Mário Soares, que somos um partido de esquerda. E isso dá-nos certas responsabilidades. Mesmo quando sabemos que a direita democrática é igualmente necessária a uma democracia funcional, não podemos desistir de pensar no futuro da esquerda.

O PCP, podendo ter razões em certas áreas das suas propostas, recusa-se a fazer uma reflexão aberta sobre o que foi o comunismo real – ou, como se dizia então, o “socialismo real”. No passado, expulsou ou destratou quem queria abrir e democratizar o partido – e isso não ajuda nada a confiarmos na sua adesão a princípios de democraticidade que são, para nós, essenciais.
Mas ser comunista não tinha de ser esta incapacidade para criticar a Rússia de Putin pela invasão da Ucrânia. Ser comunista não tinha de passar por fazer de conta que desconhecem o Gulag soviético. 
Houve comunistas que resistiram a tudo isso: 
Imre Nagy foi o comunista que liderou a Revolução Húngara de 1956 contra o governo apoiado pelos soviéticos, foi derrubado pelos soviéticos e depois condenado à morte e executado. 
Alexander Dubček foi líder do Partido Comunista da Checoslováquia e conduziu a Primavera de Praga, em 1968, que tentou humanizar o comunismo e introduzir liberdade e iniciativa no sistema. Foi esmagado pelos tanques soviéticos, mas sobreviveu com uma profissão humilde e veio a ser presidente do parlamento depois da Revolução de Veludo.
Por cá, o nosso PCP sempre apoiou os soviéticos contra as revoluções que queriam democratizar o comunismo. Mas não tinha de ser assim. Seria importante que fossem capazes de fazer uma leitura crítica do seu património.

Caso diferente é o BE. Cristalizou numa retórica muitas vezes inconsequente, numa prática que frequentemente não cuida da qualidade das propostas apresentadas, é muitas vezes primariamente anti-PS (o que ajudou muito a desmoronar a Esquerda Plural, ou Geringonça), mas – e vou chocar-vos com esta afirmação – nas suas propostas políticas não é, na maior parte dos casos, essencialmente diferente de muitos partidos da social-democracia mundial. O PSF (Partido Socialista Francês) é, em muitas coisas, mais radical do que o nosso portuguesíssimo BE…

E o Livre? É um partido que aborrece muito alguns camaradas nossos, até por parecer demasiado um partido de um homem só, que por vezes mistura uma certa ingenuidade com alguma arrogância intelectual – mas alguma coisa nos permite fundadamente negar ao Livre o estatuto de partido da esquerda democrática? Ainda por cima o único, além do PS, que é europeísta...

Quando a esquerda está em clara desvantagem, e vai demorar a sair dessa desvantagem no plano da hegemonia cultural, nós não podemos dar-nos ao luxo da sobranceria e da autossuficiência.

O PS soube fazer as boas misturas no passado: UEDS, ASDI, Lopes Cardoso, Sousa Franco, dois Secretários-Gerais que vieram do MES e um deles chegou a Presidente da República – para citar apenas alguns exemplos notáveis da capacidade agregadora do PS, que foi fazendo o partido amplo e plural que somos hoje. E para sermos agregadores temos de abandonar o pecado do sectarismo. (Sem esquecer que abandonar o pecado do sectarismo é também um caminho necessário na nossa vida interna.)
Também podem ler no livro como fizemos isso em outros momentos da vida do PS, até para sairmos de situações de grande dificuldade. Lembro, apenas, a Convenção da Esquerda Democrática, em 1986.

Para salvar a democracia do assalto dos extremistas precisamos de democracia deliberativa. Não apenas mais participação; também mais deliberação. À democracia não basta o voto, não basta a força, mesmo que seja a força de ter mais votos.
A democracia tem de ser um espaço de dar razões, de escuta das razões de uns e de outros, um espaço de argumentação racional, onde não podemos ser atropelados pelo mero turbilhão das paixões e pelo peso de quem manda mais num dado momento.
Precisamos disso para resistir à gritaria da extrema-direita.

Para termos democracia deliberativa precisamos que os cidadãos aprendam a deliberar. Como podemos ter cidadãos responsáveis se não deixamos, por exemplo, os jovens estudantes serem participantes ativos na gestão escolar? Queremos que estudem Educação para a Cidadania, mas limitamos o seu exercício de cidadania na vida concreta da escola.

A política real joga-se na vida das pessoas, não se resolve em debates de filosofia política. Mas as ideias contam. Nem os materialistas mais empedernidos negarão que as ideias contam – mesmo que digam que as ideias apenas refletem a infraestrutura material. As ideias contam se nos puserem em interação com os outros, se nos puserem a fazer coisas que nos movam no mundo.

Creio que este livro mostra um pouco do processo que o PS foi seguindo para apurar a nossa maneira de transformar ideias em ação.
Temos de voltar a olhar a sério para o mundo.
Temos de voltar a olhar para as nossas ideias sobre o que queremos para o mundo.
Temos, creio eu, de voltar a olhar para a nossa Declaração de Princípios.

Porfírio Silva, Aveiro, Sede do PS, 19 de Abril de 2026
 



Porfírio Silva, 20 de Abril de 2026
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23.2.26

Villepin, A República contra a violência



Em França, um jovem ativista de extrema-direita foi morto num contexto de confrontos entre militantes de extrema-direita e grupos antifascistas, na sequência de mais um boicote de grupos de extrema-direita a uma conferência promovida por uma deputada do partido "da esquerda da esquerda" La Fance Insoumise.
Podem imaginar o que se seguiu a isso.
Sobre isso, Villepin escreveu um longo texto no X, que depois foi republicado pelo Le Club de Mediapart. 
Dominique de Villepin é um político com longo percurso conservador, na direita gaullista, e já foi primeiro-ministro de França.
O seu texto merece reflexão, a todos. A todos os democratas, bem entendido.

Considerando que já pouca gente lê francês em Portugal, vou publicar aqui a versão portuguesa do texto de Villepin, na tradução automática fornecida pelo X (sem revisão).
No fim, deixo o link para a versão em francês publicada no Le Club Mediapart. 


A REPÚBLICA CONTRA A VIOLÊNCIA


Tenho consciência dos riscos que corro ao me manifestar em um momento de tamanha polarização, emoção e paixão política, mas o senso de responsabilidade exige comprometimento e clareza. Haverá protestos porque comparo a extrema direita de hoje com a de ontem. Não estou dizendo que sejam iguais. Estou dizendo que existem conexões que tornam impossível distingui-las radicalmente. Haverá protestos de que estou me tornando de esquerda e defendendo a França Insubmissa (LFI). Repito: não tenho afinidade nem qualquer ligação com a LFI. Haverá protestos de que estou dando lições à esquerda e me tornando de direita. Que protestem. Acredito na necessidade de dizer certas verdades, mesmo quando são inconvenientes. Porque sinto dolorosamente que obscurecer essas verdades permite que a ilusão de uma vida democrática normal seja mantida quando ela já não é normal e corre o risco de ruir. E porque, neste exato momento, a questão não é ganhar destaque na mídia: a questão é impedir que a França, por cansaço, cálculo ou cegueira, acorde um dia e descubra que consagrou o perigo que alegava afastar.

Quando a realidade é complexa, devemos reservar um tempo para a reflexão, para as nuances e para a perspectiva. O caso Quentin Deranque nos confronta com essa obrigação: a do desconforto e da vigilância.

Em primeiro lugar, sejamos claros: devemos denunciar todas as formas de violência, sem exceção. Devemos condenar a violência política, toda a violência política, porque ela não tem lugar em uma democracia. Sem exceção. Uma democracia começa onde a força recua, onde as palavras substituem os golpes, onde o adversário permanece um cidadão. E quando a violência irrompe, quando se organiza, quando é justificada, ela atinge não apenas indivíduos, mas a própria ideia da República.

Precisamos também compreender a importância deste momento. Para a França, este é o "momento Charlie Kirk" que a América de Trump vivenciou há alguns meses com o assassinato de Charlie Kirk por um assassino que se dizia antifascista. Este é um momento que visa deslegitimar um segmento do espectro político e retratar a extrema-direita triunfante como vítima. O objetivo é tomar o controle das mentes, tomar o controle das ruas. Portanto, sejamos vigilantes. Não cedamos terreno à extrema-direita. Estou convencido de que estamos nos aproximando de um ponto sem retorno. Algo está começando a escapar de nossas mãos.

Há um certo conforto em descartar todas as formas de violência, uma convicção de que isso nos protege de qualquer risco de estarmos errados. Mas será que isso realmente nos aproxima da verdade? Não podemos brincar com a democracia. É perturbador ver todo o cenário político, da extrema esquerda à extrema direita e tudo o que há entre elas, tentando explorar a situação. A extrema direita é a única vencedora. Há momentos em que os cálculos pessoais devem ceder lugar à defesa do que é essencial: a democracia.

Em seguida, devemos confrontar o que, na estratégia e nas reações da LFI, está alimentando as chamas em vez de extingui-las, sem jamais confundir responsabilidade política com responsabilidade criminal. O sistema de justiça estabelecerá os fatos, os papéis, as ações e as responsabilidades individuais. Mas a própria política é produto de um clima: o clima de palavras, posturas, ambiguidades, alianças toleradas e a tentação do confronto perpétuo. Numa França dividida e enfraquecida, repleta de medos e raiva, que constantemente joga com a ruptura, na linha de frente, na dramatização, corre-se o risco de criar condições em que os atores se sintam encorajados a passar das palavras aos atos. E esse risco, independentemente do lado em que se esteja, não é teórico: já está sobre nós.

Não falo aqui em nome de nenhum grupo específico, falo em nome de uma certa ideia de República. Rejeito todas as pequenas disputas, todos os acertos de contas partidários, mas afirmo, neste momento tão grave, a exigência de responsabilidade nacional por parte de todos os partidos políticos e de todos os líderes políticos.

A França Insubmissa (LFI) tem hoje uma responsabilidade especial: evitar o agravamento da situação e o afastamento de parte do eleitorado por meio de uma postura defensiva e beligerante. O radicalismo, quando se torna um estilo, acaba se tornando um mecanismo. E esse mecanismo, mais cedo ou mais tarde, escapa ao controle daqueles que se dizem no comando. Isso exige que a LFI esclareça suas posições, mantenha a unidade, rompa com toda ambiguidade e priorize o debate em detrimento da escalada constante. Exige um discurso ponderado, profundo e aberto. Exige também aceitar o desconforto: reconhecer que pode ter alimentado a tensão, mesmo sem intenção de violência. Digo isso com veemência porque uma mudança é possível. É preciso afirmar categoricamente: a LFI está fazendo o jogo da Reunião Nacional (RN) ao se apegar à sua retórica, assim como alguns líderes de esquerda fazem ao equiparar violência à violência. Estou preparado para oferecer uma lição histórica incomparável: em 1933, sem a intransigência do Partido Comunista Alemão, cegado por sua estratégia de "classe contra classe" que minimizava o risco fascista, o Partido Nacional Socialista provavelmente não teria chegado ao poder. Foi o medo do bolchevismo que levou muitos moderados a se unirem reflexivamente àqueles que se apresentavam como o único baluarte. Evitar essa armadilha hoje exige que a LFI (França Insubmissa) trace linhas claras, rejeite qualquer tolerância à violência e escolha o poder do debate em vez da lógica do confronto. Isso requer um discurso ponderado, profundo e aberto. Digo isso com veemência porque a situação é crítica.

Mas é aqui que a vigilância deve ser máxima: condenar a violência e criticar a La France Insoumise (LFI) não deve nos levar ao grave erro político de agrupar todas as formas de radicalismo como se fossem da mesma natureza, da mesma força, do mesmo perigo. De fato, há duas ideias falsas e perigosas que estão aprisionando este debate.

A primeira é a da simetria da violência proveniente da esquerda e da direita.

Mergulhe na história, na turbulência da França da Terceira República durante o Caso Dreyfus e a ascensão das ligas. Explore a França da década de 1930 e a ameaça das ligas. Na Alemanha de Weimar, na América do Sul das décadas de 1960 a 1980: a assimetria da violência política foi fundamental para a imposição de um poder autoritário e brutal. O cenário democrático é precário. A extrema-direita toma o poder em meio à desordem e à violência nas ruas. A extrema-esquerda, historicamente, faz isso em um contexto de colapso do Estado e derrota militar. Os comunistas da década de 1930 não eram santos, mas equipará-los a bandidos fascistas, com quase um século de retrospectiva, parece errado.

O Partido Social-Democrata Alemão, uma importante força republicana de esquerda na época, teve certa responsabilidade pela ascensão do nazismo ao manter a ilusão de igualdade, uma postura que acabou levando à sua própria queda. Hoje, ouvir líderes de centro-esquerda na França aproveitarem a oportunidade para acertar contas e se livrar de oponentes problemáticos para impulsionar seus índices de aprovação me parece um sinal de fraqueza política e uma manobra política barata. Quanto à direita, que vê isso como uma chance de apaziguamento superficial para poder se aliar à extrema-direita sem pesadelos, não reconheço mais nenhuma da vigilância da era Chirac. E sejamos claros: esse fogo cruzado contra a França Insubmissa (LFI), seja calculado, estratégico ou oportunista, tem um efeito mecânico. Desvia a atenção do perigo principal e ajuda a normalizar a extrema-direita, isentando-a do escrutínio que merece.

Essa ilusão de simetria é uma ilusão numérica. Grupos violentos de extrema-direita são agora muito mais numerosos em todo o país, e seu número cresce diariamente. Mesmo em termos de vítimas — um número sombrio —, a extrema-esquerda reivindicou uma vítima nos últimos cinco anos, enquanto militantes de extrema-direita reivindicaram onze, vítimas principalmente por motivos religiosos e raciais, motivações profundamente políticas. Desde 1986, como aponta o historiador Nicolas Lebourg, 59 mortes foram atribuídas à extrema-direita, em comparação com seis à extrema-esquerda. É o retorno das ligas. É um caldeirão de grupos tecendo uma rede de locais, afinidades e temas.

Trata-se de uma ilusão sobre as formas de violência. Durante dois séculos, a extrema-direita buscou controlar as ruas para impor a violência como ferramenta política. A extrema-esquerda quer impor um sistema político por meio da violência. Que diferença faz? Quando a esquerda é violenta, ela amedronta as pessoas e mina as políticas que pretende implementar. Quando a direita é violenta, ela já começou a implementar suas políticas. E mesmo quando perde, vence ao demonstrar o horror da desordem e, portanto, a necessidade de ordem a qualquer custo, ordem ao preço da violência.

Trata-se de uma ilusão sobre as probabilidades de risco. O país corre o risco de mergulhar hoje num regime de extrema-esquerda radical? Não há provas que sustentem essa ideia. A França Insubmissa (LFI) está estagnada nas sondagens, em torno dos 10 a 15%. A extrema-direita, por outro lado, está nos 35 ou 40%, e todas as sondagens preveem a sua vitória nas eleições presidenciais de 2027, algo que todos tentam esquecer para manter a ficção de uma vida política normal. Nos Estados Unidos, é evidente que o risco mortal pode vir menos de grupos extremistas do que de uma administração Trump que teoriza o desprezo pela lei e o uso da violência. Hoje, a demonização da LFI, através de confusões que ela própria criou devido a erros e até mesmo a flagrantes falhas estratégicas, serve apenas um propósito: legitimar uma tomada de poder baseada em identidades e justificar o crescente número de deserções. Jordan Bardella, portanto, convocou, ao inverter o estigma, uma "frente comum" contra a LFI. Será que devemos mesmo esquecer que, em 1933, o Partido Nacional Socialista usou o incêndio do Reichstag, atribuído a Van der Lubbe, como pretexto para proibir o Partido Comunista e inúmeras organizações de oposição de esquerda, e para iniciar a subjugação da Alemanha?

O segundo equívoco é que a extrema-direita se normalizou e agora é considerada uma parte legítima do debate político. É fácil esquecer que a extrema-direita não é apenas mais uma opção em uma democracia, porque muitas vezes não há como voltar atrás. Nenhum regime de esquerda radical na Europa jamais foi eleito sem renunciar ao poder por meio das urnas. Por outro lado, muitos regimes de extrema-direita chegaram ao poder por meio de eleições, pelo menos legalmente, sem renunciá-lo: Alemanha, Itália, Hungria, Romênia. Isso nem sempre acontece, mas ocorre com frequência suficiente para ser um risco fatal que não podemos nos dar ao luxo de correr.

Normalização dos compromissos políticos da juventude nacionalista? As coisas não mudaram muito. Após uma manifestação em Paris em homenagem a Quentin Deranque, os manifestantes deixaram um rastro de suásticas nos muros. Qual partido tem membros repetidamente condenados por antissemitismo e racismo? A Reunião Nacional, repetidamente. Não nos deixemos enganar por fachadas recém-pintadas.

Quais são os riscos hoje? São dois. Primeiro, há o estabelecimento de uma cultura de guerra civil em que a violência de alguns justificaria indefinidamente as represálias de outros, esmagando um centro comprometido com a conciliação e o diálogo até restar apenas o confronto entre facções radicais. Segundo, há a cumplicidade tácita de todas as forças políticas na tomada do poder pela extrema-direita. Este é o ponto crucial da questão: ao concentrar os ataques na França Insubmissa (LFI), seja por razões táticas, por conveniência ou por razões calculadas, cria-se um corredor de respeitabilidade para a Reunião Nacional (RN). Ela recebe o que sempre sonhou: a aparência de normalidade, o privilégio de ser a resposta à desordem que tanto alimenta.

Este momento exige uma resolução firme: não ceder à violência, não ceder ao cálculo, não ceder ao caminho fácil da simetria. A República não será salva por posturas, por condenações ou pela embriaguez das facções. Será salva pela clareza da linguagem, pela firmeza da lei, pela responsabilidade dos partidos políticos e pela recusa em santificar a extrema-direita sob o pretexto de combater seus adversários. Este não é um momento para fazer balanços, mas sim para nos unirmos. E se a França deseja evitar o ponto de não retorno, deve redescobrir o que lhe dá força quando tudo está em turbulência: a dignidade do debate, a autoridade do Estado e o espírito da República.

Dominique de Villepin


Texto original em francês, clicar: La République contre la violence .

Porfírio Silva, 23 de Fevereiro de 2026
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15.2.26

Mini-podcast - Série "Meritocracia" / 4 e conclui

19:02




Entregamos hoje o último de quatro episódio da série dedicada ao tema "meritocracia", aqui no mini-podcast Machina Speculatrix.

Deixamos aqui o aviso que passa a estar inserido no final de cada um dos episódios: este mini-podcast é produzido por uma colaboração entre inteligência natural e inteligência artificial.

Os episódios anteriores podem ser vistos aqui, no YouTube (clicar):

Meritocracia Parte 1 




Porfírio Silva, 15 de Fevereiro de 2026
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9.2.26

Reflexões soltas sobre uma eleição presidencial



 A democracia representativa é necessária, porque, em sociedades complexas como as nossas, não é praticável que cada um dos cidadãos de uma comunidade política se dedique todos os dias a estudar e a deliberar sobre toda a gama de matérias tocadas por decisões que relevam das políticas públicas. A democracia representativa constitui uma funcionalidade que permite que as nossas ideias genéricas acerca do que pretendemos que seja o rumo da comunidade sejam defendidas e aprofundadas por algumas pessoas que para o efeito escolhemos, podendo rever periodicamente as nossas escolhas nesse campo.


Contudo, a democracia representativa congelou numa separação excessiva entre representados e representantes. Secaram os espaços de participação. Exemplos evidentes: a escassez de participação na gestão das escolas, no secundário e no superior, bem como as recorrentes tentativas de enfraquecer o papel dos sindicatos e das comissões de trabalhadores, porque “as empresas são dos patrões” (isto é, o trabalho é uma mera mercadoria e a mercadoria não vota). Até há bons exemplos de participação, mas o discurso valorizado no espaço público não dá importância nenhuma à participação cívica e política.


Essa separação excessiva entre representantes e representados agudizou-se com a transformação do debate político numa arena de confronto permanentemente berrado, numa espécie de (para usar uma expressão de um treinador futebol há uns anos) mata-mata, onde a genuína argumentação cedeu todo o terreno à mentira, à mistificação, ao espetáculo imediato.


António José Seguro veio, sem o dizer, mostrar que uma outra postura política pode ser bem recebida pela cidadania. O seu afastamento prolongado do campo mediático, um período significativo em que fez a sua vida pessoal e profissional sem pretender que fosse necessário pronunciar-se sobre todas as voltas da vida política (contrariamente ao impulso da generalidade dos políticos, que adoram microfones abertos – e, se possível, câmaras), mostrou, quando decidiu regressar, que os portugueses podem não preferir os políticos sempre-em-pé. Não ser político no ativo durante décadas seguidas pode ser o perfil de político que as pessoas compreendem como mais próximo da normalidade democrática. Talvez, face à epidemia de ruído, as pessoas estejam mais disponíveis para quem não fale em demasia. Um político que vive bem com dez anos de recato pode, afinal, ser mais tranquilizador para aqueles que encaram como negativa uma excessiva separação entre representados e representantes. Enquanto esteve discreto, esteve mais parecido com um “representado” do que com um “representante”.


O estilo de António José Seguro não servirá (não terá servido) para todos os contextos. Não alinho nem na hipocrisia nem no revanchismo de alguns por estes dias. Não alinho na hipocrisia, na medida em que não escondo, e não tenho vergonha de o dizer, que não apoiei a sua liderança partidária, porque entendi na altura (sem ter nenhuma responsabilidade partidária, sendo apenas militante de base) que as suas escolhas levariam o PS a um labirinto onde acabaríamos por ser comidos pelo minotauro. Isto é: a excessiva proximidade à leitura passista do programa da troika iria descaracterizar o PS e ser encarada pelo eleitorado que sofria o radicalismo da PàF como conivência, o que arriscava tornar-nos tão irrelevantes como os nossos irmãos gregos. Nada dos últimos anos, de Portugal e do mundo, me fez mudar de opinião nessa matéria. Ao mesmo tempo, não me encolho perante o revanchismo, porque acho simplesmente risíveis as tentativas de alguns para confundir o plano partidário das “guerras” passadas (segurismo ou costismo) com o que esteve em causa nesta batalha presidencial, como se os apoiantes de Seguro no passado partidário tivessem por esse facto qualquer mérito especial nesta batalha presidencial.


Mas, estava eu a dizer: o estilo de António José Seguro não servirá para todos os contextos, mas, nesta campanha presidencial, num país cheio de gritaria, onde a promoção do ódio se tornou o quotidiano da extrema-direita e dos que bebem da mesma água, onde as televisões se deixam levar pelo recorrente truque do protofascista de se fazer filmar à saída da missa, foi compensador ver como os portugueses acolherem com simpatia a sua exibição de uma serenidade contrastante com a selva circundante. O candidato da esquerda democrática não tentou ser um herói: talvez as pessoas tenham começado a realizar que os que se vestem de heróis andam apenas a usar pijamas coloridos deslocados da realidade. Precisamos de mais pessoas “normais” na política e, a gosto ou a contragosto, António José Seguro foi, nestas Presidenciais 2026, o candidato que mais pareceu, às pessoas normais, uma pessoa normal. Que bom seria que isso passasse a ser um trunfo a valer.


Se bem se lembram, o primeiro impacto dos inícios da presidência de Mário Soares foi a sua forma “normal” de agir. Agir como as pessoas que vivem a sua vida sem quererem parecer especiais. Lembram-se daquele jogo da seleção nacional de futebol que ele viu à vista do país, dessacralizando a função em troco da imagem de homem como os outros homens? Precisamos de mais políticos-gente-normal, a falar como se fala na rua e não aos berros como os inimigos da democracia.


Para o encontro de vontades (e também de circunstâncias) que permitiu eleger António José Seguro contou, e muito, o Partido Socialista. Alguns comentadores (incluindo alguns que seriam mais leais se fizessem declaração de interesses em relação à vida do PS) estão a gostar da tecla de que o PS não contou nada para esta eleição. Porque o homem começou sozinho, porque teve muitas resistências de outros socialistas, porque o apoio foi tardio, … Enfim: os socialistas, pelo menos aqueles que acompanham o partido há décadas, sabem que Mário Soares teve a intenção de ser candidato muito antes de isso ser pacífico no partido, sabem que Jorge Sampaio se apresentou de surpresa para não ser boicotado por quem mandava no partido – e também sabem que o PS nunca foi um partido monolítico, que sempre foi um partido que fez grande parte dos seus debates na praça pública, que é um partido cuja grandeza se faz da sua pluralidade e diversidade. Por essa razão, nunca há automatismos nos processos de decisão no PS: há processos coletivos, com mais ou menos desencontros, onde a fase de deliberação interna acaba por ser o motor da força com que, depois, agimos face ao país. A novela de saber se José Luís Carneiro devia ter ido às Caldas na primeira volta, e depois de saber se devia ter ido na segunda volta, e depois a de saber se devia ter ficado para o discurso, e se mais dirigentes deviam ter aparecido na campanha da segunda volta… é, enfim, algo que fica para o anedotário nacional. Talvez valesse a pena lembrar, por outro lado, quem colocou claramente na agenda do PS a necessidade de termos um candidato que representasse o socialismo democrático na contenda presidencial…



  (A imagem é da capa do Público de hoje)


 Porfírio Silva, 9 de Fevereiro de 2026
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8.2.26

Mini-podcast - Série "Meritocracia" / 3

10:00




Continua o mini-podcast Machina Speculatrix, agora com o terceiro de uma série de quatro episódios dedicados ao tema "meritocracia".

Deixamos aqui o aviso que passa a estar inserido no final de cada um dos episódios: este mini-podcast é produzido por uma colaboração entre inteligência natural e inteligência artificial.



Porfírio Silva, 8 de Fevereiro de 2026
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