22.11.08

Diz que era uma espécie de inquérito...


Agora que acabou o “inquérito” que promovemos durante seis dias sobre a crise da avaliação dos professores, vou aqui fazer uma leitura pessoal dos respectivos resultados.

Em primeiro lugar, uma palavra aos que escreveram a insultar-me por causa do mesmo. Uma mensagem de correio electrónico até dizia que eu devia ter tirado o título de investigador por fax, porque o inquérito não era científico. Um, também por e-mail, até insiste que escreve por eu andar a atacar a profissão da esposa - e manda-me links brasileiros para me explicar que incorro em responsabilidade criminal. Ainda há cavalheiros, hã!? Há quem pense que ser “investigador” é um “título que se tira”. Há quem pense que todos os investigadores têm como trabalho fazer “inquéritos científicos”. E também há quem ignore que nem todos os inquéritos têm de ser “científicos”. Esses precisariam aqui de uma explicação de todas as razões pelas quais este “inquérito” não é científico – para ficarem com uma ideia mais concreta do que significam as palavras que pronunciam. Mas não somos nós quem lhes pode fazer esse “regalo”.

Quanto às 361 respostas (não necessariamente equivalentes a 361 respondentes), apraz-me comentar como segue.


Sentido geral das afirmações propostas


As sete afirmações disponíveis representavam, a meu ver, o seguinte:

- 2 representam posições de fundo de muitos professores: “Os professores devem ensinar e não perder tempo com outras tarefas, tais como avaliar os colegas” e “O modelo de avaliação deve garantir que todos os professores possam chegar ao topo da carreira”.

- 2 representam posições favoráveis a uma acção radical contra a contestação dos professores: “O governo não deve negociar com os representantes dos professores se estes não participarem nas estruturas de acompanhamento que concordaram criar para analisar dificuldades” e “Os professores que arranjarem maneira de não ser avaliados têm de ser prejudicados na carreira”.

- 1 representa uma posição “interpretativa” muito desfavorável à posição dos professores, mas não contendo qualquer apelo à acção contra eles: “A maior parte dos professores quer uma avaliação sem consequências, por isso nunca se manifestaram contra o modelo antigo”.

- 1 apontava uma solução global (política) radical: “Estas querelas resolviam-se todas com a entrega da gestão das escolas a entidades privadas”.

- finalmente, 1 e só 1 era única num sentido próprio: era a única com um tom positivo e com uma “linha de futuro” que nem sequer tomava partido por qualquer das partes em confronto: “Devia ser dada muito maior autonomia às escolas em todos os aspectos, incluindo a avaliação”.


Os resultados e as reflexões que me suscitam

Das duas afirmações que pretendiam representar dois tópicos da posição de muitos professores, uma delas foi a mais escolhida [“Os professores devem ensinar e não perder tempo com outras tarefas, tais como avaliar os colegas”], com 200 votos. A outra foi bastante escolhida [“O modelo de avaliação deve garantir que todos os professores possam chegar ao topo da carreira”], 142 votos – mas tinha um problema lógico (uma ambiguidade) muito grave. Explico-me sobre isso abaixo.
Posso concluir que uma parte significativa dos que visitaram o blogue nestes dias discordam de aspectos centrais da minha posição. Contrariamente ao que se possa pensar, acho isso interessante: se o que escrevo só atraísse os convencidos da justeza das minhas ideias, estaria a chover no molhado. E, por outro lado, isto justifica perante mim próprio o meu esforço em explicar-me nessas matérias.

Duas afirmações traduziam o desejo de uma reacção radical do governo face à luta dos professores. Era claramente o caso com [“O governo não deve negociar com os representantes dos professores se estes não participarem nas estruturas de acompanhamento que concordaram criar para analisar dificuldades”], que teve 74 votos. Outra frase também traduz algum radicalismo, mas presta-se a outra interpretação: [“ Os professores que arranjarem maneira de não ser avaliados têm de ser prejudicados na carreira”], com 84 votos. Alguns podem ter entendido esta frase como uma constatação, como se dissesse “serão prejudicados”, porque de facto sem avaliação não progridem. Mas, como estava redigida, parece-me traduzir também um desejo de “partir a espinha” à contestação. Será que alguns leitores julgam que essa é também a minha posição?

É curioso comparar o número dos que concordariam com uma linha de acção radical contra a contestação (frases acima) com o número dos que fazem uma crítica de fundo à posição dos professores: os 118 que escolheram [“A maior parte dos professores quer uma avaliação sem consequências, por isso nunca se manifestaram contra o modelo antigo”] estão a endossar uma interpretação do problema que muitos professores detestam ouvir. Mas estes “críticos de fundo” da posição dos professores são muito mais numerosos do que os “radicais” das afirmações anteriores. Sinto-me confortado, por esta ser em parte a minha ideia: muitos professores têm motivações erradas para a luta, mas isso não nos obriga a querer que o governo radicalize a sua própria posição.

Uma afirmação marcadamente ideológica destacou-se como a menos preferida pelos respondentes: [“Estas querelas resolviam-se todas com a entrega da gestão das escolas a entidades privadas”] teve apenas a preferência de 29 respondentes.

A única afirmação positiva que estava disponível, [“Devia ser dada muito maior autonomia às escolas em todos os aspectos, incluindo a avaliação], foi escolhida por menos de metade dos respondentes, 162 votos, mas, mesmo assim, foi a segunda mais escolhida. Olhamos para a metade vazia do copo (os respondentes só tinham uma opção “positiva” e mesmo assim não a escolheram maioritariamente) ou olhamos para a metade cheia do mesmo copo (no meio de tanta tensão, ainda há quem pense em termos positivos)? Não sei.


Um esclarecimento

Disse acima que a afirmação [“O modelo de avaliação deve garantir que todos os professores possam chegar ao topo da carreira”] contém uma grave ambiguidade. Vejamos. Tal como está formulada, essa afirmação é, na prática inócua, uma vez que todos os professores podem chegar ao topo da carreira – no sentido de que qualquer professor pode chegar ao topo da carreira, tanto no modelo antigo como no novo. Isso só não seria o caso se houvesse algum impedimento a que cada um dos professores pudesse singrar até ao topo. Por exemplo, se houvesse uma regra segundo a qual os professores do género feminino não poderiam ser titulares.
O que traduziria correctamente uma crítica frequente ao actual desenho da carreira seria uma frase diferente, do tipo “O modelo de avaliação deve garantir que os professores possam chegar todos ao topo da carreira”. Quer dizer: todos podem (qualquer um pode) chegar ao topo, mas não podem chegar todos.
Devo confessar que só me dei conta deste problema depois de ter colocado o “inquérito” no blogue – e, a partir daí, só poderia corrigir o erro apagando o próprio inquérito. Decidi deixar andar, até para ver se alguém me assinalava o defeito. Nenhum dos que escreveram a insultar-me acerca do inquérito chamou a atenção para isto. Provavelmente por pena de mim. Para não me perturbar. Ou com receio de que eu não compreendesse tamanha subtileza. Fico-lhes grato pela caridade.

E agradeço aos que participaram.

E “desagradeço” aos que me escreveram a dizer que não participavam por, alegadamente, o “inquérito” traduzir uma visão a preto e branco do problema. Foi por causa desses que agora coloquei alguma "cor" neste apontamento.

E pronto. Vamos "partir para outra".