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13.2.22

Em resposta à senhora num recital que perguntou qual é o trabalho de um poeta

22:42
Este é um poema recente do poeta polaco Jacek Dehnel e aparece traduzido para inglês, no número 2/2022 de The New York Review of Books, por Ann Frenkel e Gwido Zlatkes. A minha versão em português é certamente imperfeita, por incompetência minha, mas tive uma grande vontade de vos deixar aqui este poema. 
 
 ***
 


 

O trabalho de um poeta é sentar-se de manhã a uma secretária

e peneirar as notícias que crepitam com a vida de outras pessoas.

 

O trabalho de um poeta é imaginar entrar nessas vidas

como vestir a roupa de outra pessoa.

As roupas apertam. As roupas são beliscadas por comida, são beliscadas por bebida, esperam eles.

 

O trabalho de um poeta é imaginar uma linha de controlo

com árvores de folha caduca ou coníferas relva pisada um rosto atrás de uma folha de bardana

alguns olhos algumas fendas no corpo da fronteira um poeta deve imaginar o som

de sapatos molhados e a sensação de meias molhadas, tanto no pé esquerdo como no pé direito gelados.

 

O trabalho de um poeta é examinar palavras e frases desconfiadamente e os poetas perguntam a si próprios

porque a quem mais podem perguntar o que significa o corpo de uma mulher com feições não eslavas

um poeta deve experimentar estas palavras e perguntar-se se o próprio corpo do poeta fosse encontrado

perto da linha de controlo se o relatório manuscrito descreveria as feições do poeta como eslavas ou não eslavas.

 

O trabalho de um poeta é experimentar estas palavras como o sapatinho na cansada Cinderela

sobre pessoas que o poeta ama e cujas feições são por vezes completamente eslavas

ou um pouco não-eslavas ou não-eslavas de todo; um poeta deve experimentar estas palavras

sobre a própria mãe do poeta que também tem certas feições um poeta deve experimentar estas palavras no seu cabelo

olhos nariz contra aquele corpo morto com o seu olhar morto experimentá-las contra o seu corpo vivo e olhar vivo

e isto faz com que o poeta fique frio à secretária.

 

O trabalho de um poeta é discernir nas palavras traços visíveis de um cadáver a ser arrastado da Polónia

para a Bielorrússia não apenas os contornos de um mapa mas também galhos partidos rasgadas

folhas de relva um rasto de caracol prateado junto a uma sola as suas vísceras manchadas

sobre uma folha castanha; um poeta deve visualizar um besouro que momentaneamente parou

nas suas seis pernas vendo um cadáver a ser arrastado da Polónia para a Bielorrússia e depois virado

de costas balançando ligeiramente; um poeta deve sentir e cheirar a casca húmida do prado a apodrecer

e o toque do metal porque

 

o trabalho de um poeta é ler que ao lado do corpo estavam três crianças entre os 7

e os 15 anos de idade bem como um homem e uma mulher mais velha e um poeta não pode parar

de ler mas deve continuar a tropeçar nestas linhas húmidas e lamacentas

e um poeta deve tentar ter entre 7 e 15 anos de idade e todas as idades intermédias

naquele lugar na floresta aquele lugar de escuridão aquele lugar de humidade aquele lugar

onde o cadáver foi arrastado um cadáver que é o cadáver da própria mãe do poeta

sobre quem é difícil dizer se as suas feições são eslavas ou não-eslavas um poeta deve tentar ter sete

anos de idade permanecendo ao lado do corpo da mãe como aparentava então um poeta deve tentar isto.

 

O trabalho de um poeta não pode parar aqui por isso um poeta lê que

foram forçados a caminhar a pé até à fronteira e depois a atravessar a fronteira polaco-

-bielorrussa sob a mira de uma arma que é o metal; um poeta deve pensar em como

um cadáver é arrastado é puxado pelas axilas ou pelos tornozelos é puxado

com luvas ou com as mãos nuas as mãos perdem a aderência juntamente com os sapatos molhados e enlameados

naquele lugar de escuridão na floresta; um poeta deve pensar se os sapatos as amoras silvestres

a bardana os olhos das crianças entre os 7 e 15 anos os olhos

do homem e da mulher mais velha estão no caminho se o coldre ou o walkie-talkie pressiona

nas costelas se se sente algum desconforto se as pinças do uniforme estão sujas ou desonradas.

 

Tudo isto é trabalho de um poeta e dura o dia todo e depois o poeta vai dormir e

sonha em escoltar crianças entre os 7 e 15 anos de idade na mira de uma arma e escoltar

um homem e uma mulher mais velha na ponta de uma arma e sonha em experimentar roupas contaminadas e

sonha em experimentar um uniforme e experimentar aquela coisa fria que nos aterroriza na cama

e sonha em regressar a casa depois de uma noite de trabalho num carro com um cão daqueles que abanam a cabeça

no tabliê e tirar o seu uniforme apertado comendo e bebendo e observando as crianças

que no sonho são os seus filhos são os filhos do uniforme e têm entre 7

e 15 anos de idade e ele observa a sua esposa com as suas feições eslavas pelas quais

o seu corpo pode ser arrastado e os tornozelos pelos quais o seu corpo pode ser arrastado com os sapatos a escorregar

e o poeta nunca acorda daquele frio que enlameia aqueles bosques.

 


(Poema do poeta polaco Jacek Dehnel, aparece traduzido para inglês, no número 2/2022 de The New York Review of Books, por Ann Frenkel e Gwido Zlatkes. A versão em português, a partir do inglês, é certamente imperfeita, por incompetência minha.). 
 

4.10.15

um dia poético.

13:30

Hoje é dia de eleições e não venho falar de eleições. Venho falar de uma das minhas outras vidas, de eventos dos últimos dias que não tive tempo para partilhar convosco. Coisas das minhas actividades poéticas.


A revista "folhas, letras & outros ofícios", do Grupo Poético de Aveiro, acaba de aparecer no seu nº 14, contendo dois poemas meus: "As mães" e "O insecto da sombra". Antes de passar a outra notícia, aqui vos deixo esses dois poemas de minha autoria.




A outra novidade é que o poeta Luís Quintais me deu a honra e o prazer de publicar uma recensão dos meus "Monstros Antigos" no nº 190 da "Colóquio Letras" (revista da Fundação Calouste Gulbenkian), dirigida por Nuno Júdice.


Aqui vos deixo a recensão.

***



Porfírio Silva, Monstros Antigos, Lisboa, Esfera do Caos, 2013.

A poesia hoje poderá ser um eco disso, uma simulação disso. A poesia poderá e será hoje não o género literário claro, delimitado que foi um dia - e que deve muito a uma determinada aceção do que é a prosódia, a síntese e a intensidade -, mas outra coisa que se define por uma determinada aceção do fazer linguagem. A poesia será aquilo que da linguagem nos é alheio, será, se quisermos, a alteridade ou a diferença que subsiste, que teima em subsistir, na linguagem que julgámos nossa, e, nesse sentido, habitável.

Tudo isto a propósito de «Monstros Antigos», um livro de poemas de Porfírio Silva. Sendo um filósofo da ciência com um trabalho considerável no domínio, com textos importantes sobre Paul Feyerabend, a cibernética, e o artificial, o autor parece convocar no seu livro uma forma de escrita que é, até pelas suas declinações de carácter mais meta-representacional e ecfrástico, uma extensão das suas preocupações de filósofo e estudioso da ciência.

Não é comum encontrar poetas no cânone português que se tenham consagrado a pensar a ciência e a relação que ela estabelece com a nossa condição moderna. Teria a poesia portuguesa ignorado esse dado civilizacional e cultural básico que marcou e marca tão profundamente o nosso quotidiano? Raríssimos nomes escreveram a partir dessa experiência dilacerante que se prende com o modo como a ciência destronou certezas e convicções. O conjunto de nomes não nos permitiria fazer uma antologia de vulto e interesse. Poderíamos citar Vitorino Nemésio, António Gedeão, ou, mais recentemente, Manuel António Pina. Poderíamos, lá atrás, convocar a figura de Pessoa, em particular o seu heterónimo Álvaro de Campos. Mas não há antologia nenhuma da poesia portuguesa do século XX - que é o século da ciência, diga-se o que se disser, dadas as suas figurações mais trágicas e inquietantes -, que não exija ou não seja perpassada pela presença ou ausência de Pessoa. Porém, a densidade e dimensão de tal antologia seria quase irrelevante.

A pergunta, com tonalidades sociológicas óbvias, será afinal esta: porquê? Não responderei aqui a ela. Mas é manifestamente sintomático que a poesia possa ser assimilada ao monstruoso em declínio, a uma certa pulsão arcaica, tribal, antecedente, talvez perigosa porque remissível para o não categorizável, para aquilo que escapa, para a fluidez mercurial do texto e dos seus desígnios (também eles de aferição improvável). Continuamos a fazer essa associação, e é essa associação a algo agónico que nos seduz tanto em poetas como Herberto Helder, justamente porque, em Herberto, encontramos essa pulsão vital por algo que transborda, que não é modelável pelos regimes de classificação e mobilização que a ciência e o desencantamento do mundo moderno trouxeram. Se Hölderlin se despede ainda à beira do Neckar desse mundo em que os deuses recuam, é também porque, num poeta como Herberto Helder, a despedida se reatualiza e se ritualiza através de uma perspetiva sobre a linguagem e sobre o tempo que tememos ter perdido irreversivelmente. Atravessámos a fronteira do respirável, poderíamos dizer num idioma próximo ao de Hölderlin.

Atravessámos há muito essa fronteira, e foi a ciência e os seus híbridos que nos mostraram como não podemos voltar para trás - isto a aceitar que o projeto moderno se esgotou, o que não é assim tao claro como a minha escrita poderá aqui sugerir. A poesia é o eco desse tempo já mudo, o eco de um canto, o símile de uma demora que atravessa a má- consciência do presente. Num livro como aquele que me proponho recensear, essa sensibilidade parece percorrer os seus melhores momentos. Porfírio Silva escreve poemas que vêm depois da Razão e da sua trágica inscrição no mundo, e fá-lo como quem sabe que poderá estar a trilhar um caminho improvável, de onde a poesia portuguesa se parece ter eximido. A ousadia estará porventura numa vontade em libertar-nos de um certo sono dogmático que se prende, afinal, com o modo como permanecemos distantes do mundo secularizado que a ciência nos legou, no qual a poesia se assemelha a uma inconsequente resposta, a uma hipótese de sentido não inteiramente esgotada, mas pouco recetiva a presentismos ou afirmações de contemporaneiade que não sejam aquelas que a disforia permite.

O poeta é aquele que, usando a metáfora arqueológica, pressente uma morfologia de cidades escondidas ou subterrâneas jazendo sob a tranquila rotina do seu escritório: «Há trinta e três cidades subterrâneas / no meu escritório / de casa. // Não resulta tão certo número de cidades subterrâneas / da idade exacta de qualquer deus / na terra» (p. 13). Mas mais que esse labor subterrâneo, esse resgate de cidades invisíveis ou incompletas, dir-se-ia que a linguagem procurada é antes o limite do que pode ser explicado. Não se trata tanto de nomeação (o que não pode ser nomeado), mas antes de explicação e seus limites. Assim, logo após o poema «Cidades Subterrâneas», Porfírio Silva faz incluir no seu livro um outro que se intitula «A explicação do mundo», onde escreve: «Se o axioma da conservação da continuidade explicasse o mundo / e o demónio de Laplace conhecesse os estados iniciais / de todas as partículas e todas as forças / de que é composto o universo, / então os modelos de funções analíticas explicariam / a génese e mutação das formas / o nascimento e a morte dos alicerces / o gérmen de fissura nas caves da construção / a multiplicação dos exércitos de um homem só / as crianças com uma face que ri e outra que chora / e os lagos como o de Balkashe: metade é salgado, metade é doce / os peixes de água doce na metade salgada / os peixes de água salgada na metade doce. / Mas não explica» (p. 14). É neste «não explica» que estará porventura essa alteridade ou diferença que a poesia procurará fazer reverberar.

«Monstros Antigos» não é assim um livro de poesia sobre os efeitos cognitivos ou políticos que a ciência nos legou, mas um livro sobre o que está nos limites ou nos interstícios desses efeitos. É sobre a «clareira da ausência» (p. 15) que parece abrir-se a cada passo neste mundo secularizado e ateu (a primeira civilização ateia de que há memória). Trata-se de um lugar onde a poesia só pode assumir a função de uma metafísica secular, como nos diria certamente Wallace Stevens.

Este mundo que forças históricas obscuras ergueram, onde ninguém «dorme debaixo da metafísica» (p. 32), e onde o humano se degrada como possibilidade, sentido ou expectativa, a poesia é o topos do que talvez já não possa acontecer. Uma negatividade que é, porém, uma afirmação, ainda que toldada pela melancolia e pela constatação de que todas as línguas se sujaram, ou que, no limite, agonizam ou estão mortas: «E afinal todas as línguas humanas são já línguas mortas» (p. 33). Toda a poesia que ainda resta revolve-se sobre um magma de coisas feitas, ditas, acabadas, esquecidas. Uma representação sobre outra representação, sobre outra representação ainda. Toda a poesia, hoje, é fundamentalmente ecfrástica, procurando encontrar o contra-campo e o fora-de-campo nesse território de imagens que ameaçam o tempo e o espaço com uma promessa de transparência. Assim é este «Monstros Antigos». Poemas como «Retrato da Princesa Joana Santa» (pp. 8-9), «Capelas imperfeitas» (pp. 50-51) ou «De seus labirintos digo» (p. 56), denunciam esta procura meta-representacional que parece atravessar todo o livro de Porfírio Silva.

Uma das implicações mais notórias desta dimensão ecfrástica e meta-representacional é de cariz político. Como fazer a linguagem e a pólis (elas são mutuamente constitutivas) num tempo de esgotamentos e premissas contaminadas pelo desastre da história? O autor não responde à pergunta, mas ergue parábolas, analogias, incursões onde articula o self com uma lei moral que parece, em todo o caso, ausente. Sintomático disso mesmo é um poema como «Da prudência», onde a phrónesis aristotélica é também uma restituição do valor da palavra: «desde que a palavra chegou à cidade / e nada nunca mais da dureza do mundo lhe foi indiferente» (p. 46). Sintomático disso mesmo é a inarticulação entre emoção e razão, sangue e território, que se traduz em poemas como o que cito aqui em toda a sua extensão: «Que interessa o meu medo? / O meu medo não é assunto da cidade. / Da cidade é a palavra / porque as linguagens privadas não existem / e os muros, becos e pontes / essas estruturas basilares dos locais / andaimes do que é inteiramente público / só tem uma matéria: palavra. / Não cuides do meu medo / o meu medo é uma lavoura da casa / e não devem plantar-se em terra / bacelos de videiras marinhas» (p. 38). A referência implícita a Wittgenstein é decisiva: toda a linguagem é pública. A pólis é o seu lugar, e a inversa também é verdadeira: a linguagem é o lugar da pólis. Não haverá poesia senão aquela que essa dimensão pública consentir. Não haverá outra coisa senão poemas políticos, mesmo quando as ilusões da pessoalidade se parecem querer sobrepor aos desígnios da cidade. É Seamus Heaney que nos sugere algures - e cito de memória - que o fim da arte é a paz. Porfírio Silva poderia subscrever esta afirmação, dizendo-nos o mesmo mas de outro modo: o fim da arte é a cidade, essa ecologia da palavra e da poesia.


Luís Quintais




3.4.15

enterrar os vivos.

12:28


Enterrar os vivos.


À volta do teu corpo frio corre agora
sem decoro um rio de aplauso unânime.
Tocam o cadáver recente com as mãos besuntadas
de um conhecimento vulgar, indecente, da tua obra:
cada um, prestimoso, cobra os créditos do copo de água
que te beberam do cântaro num dia de estio,
todos escrutinam esplendorosamente o génio; o engenho
do defunto é como se se colasse às bocas dos que o elogiam
e isso explica talvez a profusão de orações fúnebres
recitadas por estes dias por tantos que deitaram à fome
e ao desprezo os que amassavam os adobes dos teus edifícios.
Como vem sendo habitual nestes concursos, pobre panteão,
querem meter o panteão dentro de ti e atafulhar-te com honrarias
até todas as tuas imagens se afogarem no mar escuro das convenções.
Os mortos tratam, afanosamente, de enterrar-te.

2.2.15

o problema da biografia.



o problema da biografia

(para o Luís Quintais, a ler O Vidro)


Na noite fresca do jardim,
crendo-se a coberto da desarrumação do mundo,
o anjo mete as mãos por baixo da camisola
sobre os seios quentes da rapariga
e os beijos são lentos e sinceros.
Tudo desacelera.
Tudo o que importa na história universal
contempla com benevolência essa pausa.
A eternidade é uma avaria do instante.

(Imagem e texto © Porfírio Silva)

25.1.15

alguns dos meus poemas gregos. hoje, não por acaso.

20:22



As mulheres de Delos

O lago sagrado no centro de Delos está seco.
Secou a água, secaram os deuses, secaram os homens.

Vista a vida nas casas das famílias desta cidade,
é tarde para perguntar às mulheres de Delos

por quê.


***


A explicação do espiritual


O azul move-se em colunas entre o mar e o céu,
espesso como o som das cigarras o dia inteiro.
Linguagens humanas várias movem-se
leves na mesma conversa;
as mulheres nadam ao largo,
os homens ficaram a falar em casa,
os do mar cuidam dos de terra,
os de terra cuidam dos do mar,
os conhecidos dos desconhecidos
e sobre todos paira a cítara que Hara lida no terraço.
O sol amassa todo o arquipélago num único ponto do tempo,
fora do presente.
Isto e nada mais são todos os deuses do Olimpo.
A explicação do espiritual é tão simples como uma salada grega:
a diversidade é o logos da unidade.


Imagem: Ísis em Delos.



***


a invenção de Apolo

Delos, exausto no teu seio, pergunto-te: como pôde
uma ilha inteira sem uma sombra
tornar-se uma casa de deuses?
Respondes-me, muito mais claramente que o oráculo,

em prosa,
porque a poesia é para as questões inúteis e obscuras,

que um santuário é um campo de batalha
onde os deuses nos venceram,
uma ilha purificada pela proibição de nascer e de morrer.
Um santuário é uma promessa de deserto.
Delos, exausto no teu ventre, pergunto-te: como pôde
uma ilha cercada de ausências,
sem plantas nem carneiros, sem mel nem vinho,
como pôde a aridez em símbolo produzir deuses?
E Delos responde-me que Apolo
fez o centro do mundo, um nada em pedra,
com a matéria do lugar geométrico do melhor cruzamento das rotas.
E Apolo levanta-se do túmulo para protestar
que culpa pode um pobre deus ter
de terem feito do seu templo
o primeiro banco da Antiguidade.


Imagem: lugar do templo de Apolo em Delos


***


a ilusão panóptica

No mar da madrugada contornamos a temida Babel.
Todos nadando no mesmo azul

dizemos sem palavras a mesma porção do mundo.
À míngua de equívocos fenece a torre erecta

mas Babel espera apenas que regressemos
a terra; só na nossa ilusão ela está quieta.


***




As Cíclades


duzentas e vinte ilhas mal contadas fizeram de ti,
Delos, casa de Apolo, o centro do universo.

nunca tão claramente o comércio dos homens
foi a agricultura da semente dos deuses.

agora, vazia a ágora,
o deserto do presente é de novo e finalmente eterno.

[imagem: Delos, casa de Cleópatra]
***




a pedra suspensa


A pedra que pesa suspensa sobre a cabeça de Tântalo
não se explica a si mesma.

Os palácios do Príncipe, marcados
como espaços vazios nos atlas da cidade,

não testemunham deuses irados nem catástrofes naturais:
o silêncio na parte comum do mundo é uma invenção

humana
incompreensível.
***




(Textos e imagens © Porfírio Silva)

Mais em Monstros Antigos. Ou aqui.


8.1.15

JE SUIS CHARLIE.

14:21



JE SUIS CHARLIE


Eu podia negar. Responder-te que não
fui eu que falei a fala livre.
Abanar a cabeça como se eu não
tivesse desenhado palavras no chão da cidade.
Como se não carregasse o fardo da responsabilidade
de avançar contra o vento.
Eu podia renunciar - mas apenas no sentido
de esse ser o outro caminho,
a porta de uma estrada que eu não tento.
Tive que dizer-te que sim, era eu
a mão que tu procuravas para cortar
"oui, c'est moi"
E agora o meu corpo frio voa
e a minha mão desenha no ar
tudo o que ainda tinha por inventar.

Há um traço imenso a ligar todos os nós
da corrente dos que morrem
sempre que morre a liberdade do outro.
E tu, quieto, desenhas esse traço continuamente.

Porfírio Silva (sobre o 7 de Janeiro de 2015 em Paris)

22.11.14

quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça.

13:11

Este é o primeiro poema do meu livro Monstros Antigos {poesia}. Um poema sem título.


14.11.14

Kajetan Kovič (1931-2014).

16:40

Em Junho de 2007, por amizade a sua filha Nina Kovič e seu genro Želimir Brala, que se despediam de uma estadia diplomática em Portugal, publicámos neste blogue um apontamento com um fragmento da obra do escritor e poeta esloveno Kajetan Kovič (n. 1931). Hoje voltamos a publicar um dos poemas que então escolhemos, ainda e sempre guiados pelo carinho que temos por Želimir e Nina, mas desta vez para homenagear a memória de Kajetan Kovič, que faleceu há uma semana (07/11/14). O poema, Mon père, foi um dos declamados na cerimónia de despedida, que teve lugar esta terça-feira. A imagem é a que estava no féretro.
Želimir e Nina: em sua homenagem, e à poesia, lemos hoje este poema, em voz alta, cá em casa.

(Kajetan Kovič, foto por Tone Stojko,1999)

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Mon père

Mon père,
não sei porque te chamo assim,
não falavas francês,
mas isto provavelmente terias entendido,
talvez eu to diga numa língua estrangeira
por causa da distância,
conseguíamos amar-nos
apenas assim:
não muito de perto.
Estávamos sentados
em velhas tabernas,
bebíamos um riesling
ou um šipon
ou, mais frequentemente,
qualquer vinho ácido,
falávamos
das coisas muito comuns.
A vida parava
por de trás das portas,
numa distância segura.
Parecia impetuosa demais
para lhe dar um nome.
Tínhamos medo,
mon père,
das palavras fortes demais.
Agora és apenas
uma foto na parede
e uma tumba num bonito cemitério.
Acendo-te uma lamparina,
trago-te flores.
Não a ti,
aos teus ossos.
Conto-te
tantas cousas.
E tu calado.
Apenas a tua lápide.
Com as datas.
De – a.
Meu Deus,
que cousas os filhos não dizem
hoje aos pais.
Aos vivos e aos mortos.
Mon père,
nenhum era
como tu.
Tão só,
tão meu,
tão pai,
perdido neste mundo
como eu.

Kajetan Kovič (1931-2014)
(tradução de Želimir Brala) in Litterae Slovenicae / Slovenian Literary Magazine, 2 – 1999 – XXXVII – 95 – Número integralmente em português, dedicado a “Nove poetas eslovenos contemporâneos” (pp. 21-22)

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Para enquadramento: «A poesia de Kajetan Kovič considera-se o marco divisório, erguido em ambas partes, que representa a passagem da poesia tradicional para a poesia moderna. Kovič faz parte do grupo dos poetas que publicaram “Permi štirih” (“Os Poemas dos Quatro”), a compilação que introduziu “o intimismo” e a postura poética apolítica que acabou por ser entendida, porque se afastou do realismo social e adrede tomou a atitude contra “a poesia de alvião” que pateticamente glorificava o trabalho e a colectividade e onde quase sempre figurava o sujeito “nós”, como um acto político.» (Matej Bogataj)

6.7.14

poesia e política.

13:52

Não acredito na poesia fora da cidade. Julgo que outras vozes poéticas também não julgavam tal exílio concebível. Veja-se o seguinte poema de Sophia:


O Rei de Ítaca


A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão

Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado


Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das coisas (1977)

Isso terei aprendido com alguns dos grandes. Aprendido à minha maneira, claro, que pode ser fiel ou não. No meu livro de poemas Monstros Antigos, por sempre me entender como parte da comunidade política, isso transparece. Deixo-vos um dos poemas em que toco mais directamente essa questão:



Contudo, que a minha poesia está, como eu, sempre dentro da cidade, é consubtancial a toda a minha escrita. Nuno Júdice, na apresentação do livro, explica, a meu ver bem, como é essa relação. Deixo, por isso, o pequeno vídeo onde o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana 2013 resume tudo: "não é uma poesia política, crítica, de forma muito directa, mas..."



(Circunstância: Nuno Júdice apresenta "Monstros Antigos" {poesia} de Porfírio Silva, a 22 de Abril de 2014, no Centro Nacional de Cultura (Lisboa). Toda a crítica de Nuno Júdice aqui: http://youtu.be/ye8RlIBesD0 )

3.7.14

na noite passada, num certo sítio da cidade.

11:12

À noite, despedidos os convidados, fechadas as portas e com uma lua quase nova, o presidente levantou-se da arca tumular e, com uma autoridade desusada, bateu as palmas sonoramente, convocando a trupe de imortais à praça central, onde, reunidos, enfim, lhes disse: Já não era sem tempo, creio que todos os pecados nos terão sido perdoados. Não conheço o motivo, nem entendo a escolha do momento e, verdadeiramente, estava desprevenido. Contudo o sinal é seguro. Chegou Sophia. Sophia, levanta-te e lê-nos palavras das tuas. Não poupes no tom, ninguém lá fora na cidade poderá suspeitar da festa imensa e luminosa que vai ora na obscuridade do Panteão. Afinal, não sabíamos nada de teologia: não se sobe aos céus; apenas se espera que surja entre nós a certa e límpida voz. Sophia, que alegria, afinal a redenção existe e está agora entre nós.

11.6.14

dedicado a uns livros de poesia que devem ser magníficos, espero que não por andarem sempre desaparecidos em parte incerta, mas não sei porque não consigo chegar a vê-los.

14:41


O TEMPO

O tempo é um filtro suave e espesso
que nunca te diz francamente “não”:
essa seria uma desajeitada confissão dos episódios por vir.
O tempo é um par de guardanapos embrulhando as tuas mãos,
dobrados em cones de pano que guardam cada ramo de dedos
na forma de terminações inúteis, pontiagudas,
como se servissem uma ameaça de sevícias. Como se vissem,
em serem lanças curtas, a cautela do mundo.
Os teus membros continuam intactos,
promessas actuais de agarrarem o pão e a sopa
que nos trouxeram aqui, à Mittleleuropa:
ainda prometem colher o necessário
para matar a fome, mas o pano do tempo,
como uma máquina agarrada às tuas mãos,
envolvendo as tuas mãos como um protector passivo,
faz de ti um espectador.
Se quiseres ainda comer terás de baixar a boca às terrinas, como gamelas,
como um selvagem.
O tempo é um dispositivo que abre os braços para te mostrar
toda a extensão do momento presente
como se ele fosse por natureza um país sem fronteiras,
aberto, plano, transitável, receptivo,
mas depois coa todos os efeitos dos teus gestos
até o mundo se tornar igual
a um universo paralelo onde tivesses simplesmente renunciado.
O tempo é uma manta delicada e densa
que cobre as pessoas estaladiças
para nos proteger de riscarmos o mundo.
No fim dos tempos, fomos todos espectadores.



(ilustração: Michaël Borremans, Time, 2007, lápis e tinta branca sobre papel)

30.4.14

Soneto dos anjos bruscos (e de por que te procuro).

11:12

Leio "Soneto dos anjos bruscos (e de por que te procuro)" na sessão de apresentação do meu livro "Monstros Antigos" (poesia).




27.4.14

Há pouca gente neste mundo (Vasco Graça Moura).

19:41

A morte de Vasco Graça Moura faz-me pensar. Não o conhecendo pessoalmente, percebo, pelo que leio por aí, confirmando a impressão que já tinha, que VGM era, nas relações pessoais, uma pessoa estimada. Alguns dos que o elogiam sem reservas são pessoas que me merecem toda a confiança. Quanto à obra, a minha modesta opinião alinha pela opinião de quem sabe mais do que eu, aqueles que valorizam muito o que deixou como poeta e como tradutor. Perguntarão: que tem isto de especial? Não tem nada de especial, mas faz-me pensar.
Faz-me pensar porque VGM, em certas vertentes da sua vida pública (a política, designadamente) sempre me pareceu uma pessoa com uma interpretação demasiado confrontacional das virtudes da clareza (contra os adversários) e da lealdade (com os correligionários). Quero dizer, sem amaciar as palavras pelo seu falecimento: ele adoptava um estilo de dureza na intervenção que eu não aprecio e que, em geral, tendo a considerar poluição dos debates públicos. Tendo a considerar erosão emocional da argumentação. Lembro-me, há muitos anos, de ver debates na televisão francesa e abominar um estilo agressivo, que por cá ainda não se praticava mas lá já era corrente, nomeadamente nos debates políticos. Isso hoje é o pão nosso de cada dia por cá, mas VGM esteve à vontade nesse estilo desde há muito tempo.
Aquela veia confrontacional que eu vi e ouvi, aconteceu. As virtudes que reconhecem aqueles que tomo por gente que fala verdade, existiram certamente. Qual das visões está errada? Acho que nenhuma. Acho que cada um de nós é muitos, cada um de nós é plural. Em particular, aquilo que somos em privado e aquilo que somos em público – podem ser faces muito diferentes de um mesmo mundo pessoal. Não há mal nenhum nisso. Mas há mal em que não haja no mundo espaço suficiente para múltiplos de cada um de nós.

Deixo, abaixo, o que interessa de um poeta: algo da sua poesia. Anda-se uma vida toda a tentar escrever um verso que valha a pena. E depois morre-se.

***

O caminho de Ohrid


do alto das muralhas de ohrid onde
acorrera aos gritos desvairados dos vigias,
o rei samuel avistou o seu exército desfigurado,
arrastando-se entre as montanhas da macedónia.

aos catorze mil homens tinham sido
arrancados os olhos por ordem do imperador
e a um em cada cem mandara ele, basílio II,
fosse poupado um olho para conduzirem o regresso

dessa manada cega. depois de atravessarem altas neves
vinham-se agora despenhando para o lago,
tropeçando, agarrados uns aos outros,
a tortura espelhada nas contorções das faces,

o sangue a empapar-lhes os andrajos. e o rei,
tomado pela angústia, deu um grito de dor e morreu
no alto da muralha sobre a colina e os seus bosques e pomares
que o lago placidamente reflectia.

nesse instante compreendeu como era ambígua
a força cega do destino e em nenhum mosteiro
podia a iconostase explicar-lhe esse cruel mistério:
os santos, com feições dos retratos do fayoum,

entre as chamas trémulas emudeciam
nos seus frescos e as vozes dos jovens monges,
no seu canto austero e imperturbado,
elevavam uma grave primavera na penumbra.



Vasco Graça Moura, in Laocoonte, rimas várias, andamentos graves, Quetzal, 2005



(foto de Tim Walker)



25.4.14

que interessa o meu medo?

15:33
A minha contribuição pessoal para a comemoração dos 40 anos do primeiro 25 de Abril.


24.4.14

quarenta Abril depois.

15:00





Desarrumado, é esse o estado do meu sonho.
Os sonhos costumam ser inteiros,
mundos vistos de dentro com a precisão da aparência,
perfeitamente calculados com pouca geometria
e voo, muito voo.
Mas este desarrumou-se:
todos parecem poder brincar lá dentro,
dizer palavras temporárias como verdades eternas
tentando aplacar esta nudez das colinas na cidade
ou sussurrar de cócoras memórias proscritas
escondidos nas cortinas de veludo
enquanto os principezinhos da república brincam à cabra cega
com os sérios e impolutos herdeiros do espírito do ballet rose
a sonhar, que eles também sonham
(o que é teu é sonho, o que é meu é crime)
com a caça à lolita nos jardins do hierarca.
Desarrumado, é esse o estado do meu sonho.
Sem perceberes que a razão do naufrágio do titanic
foi não serem afinal suficientemente estanques
os compartimentos que mantinham o universo a navegar,
julgaste que os sonhos se cumpririam dentro de ti,
que os sonhos atravessariam os desertos recolhidos nas tuas mãos,
que podias resolver o problema da habitação | a paz | o pão sozinho,
julgaste que sonhar é coisa para sonhadores
e olha, o sonho e o crime fizeram casas nos mesmos bairros,
procriaram anões tremendamente eficazes, fortes como touros
alimentados pelo sangue das virgens e o leite dos centauros
e hoje, que já não se distingue um criminoso pelas intenções,
o estado do meu sonho é isto: desarrumo.

23.4.14

parece que hoje é o dia mundial do livro.

15:11

Ontem, no Centro Nacional de Cultura, foi mostrado ao mundo o meu livro de poesia "Monstros Antigos". Nuno Júdice fez a apresentação, que aqui partilho em vídeo.