19.3.11

paint it black


Paint It Black - The Rolling Stones.




Lamentamos mas o dia vai longo e os nossos melhores sonhos já foram vendidos


(Foto de Porfírio Silva, algures na China)

Este post era para ser dedicado às forças políticas que estão agora à procura de uma maneira de nos explicar que afinal os portugueses podem aguentar mais sacrifícios. Tanto podem que há quem (essas mesmas forças políticas) esteja mesmo a esforçar-se para garantir que venham aí mais sacrifícios, deitando para o lixo o esforço que os portugueses já estavam a fazer. Este post era para ser dedicado a essas forças, mas não: este post vai, afinal, dedicado às vítimas dessa loucura.

não devias ter insistido para eu tirar o vestido


(Ponte de Lima, Setembro de 2006. Foto de Porfírio Silva)

há quem só goste de eleições tipo primavera marcelista

11:05

Henrique Monteiro, na última página do caderno principal da edição de hoje do Expresso, no seu estilo ultimamente habitual de escrever banalidades convenientes com tom de grande sabedoria. São "sete perguntas sobre a crise" e as esplendorosas respostas de HM.
Então, qual é a receita? «As eleições são o modo natural de em democracia ultrapassar impasses. São a melhor saída.» Sim senhor, uma opinião perfeitamente democrática: é em eleições que se fazem as grandes escolhas. Mas quais escolhas? Escolhas nenhumas, escreve HM: «Há alternativas ao PEC? Não há alternativa em termos gerais.» Mas, se não há alternativa política, servem para quê as eleições? Talvez para se escolher quem governa, será essa a ideia de HM? Não, nada disso, porque as eleições não podem ser ganhas por qualquer um, mas apenas por aqueles que HM aprove. Escreve ele: «E se Sócrates ganhar as eleições? Nesse caso, o país merece a crise que tem.»
Quer dizer: Henrique Monteiro acha necessárias eleições, desde que as eleições dêem a vitória a quem ele "escolhe" e com o programa que ele "escolhe". Este era o modelo das "eleições" da primavera marcelista: fazemos um voto mas condicionamos quem pode ser eleito (mais vale, então, condicionar logo quem se candidata) e quais os programas admissíveis. HM até acha inevitável o PEC proposto por Sócrates (logo, que ninguém se atreva a propor políticas alternativas), mas quer outro "estadista" para o aplicar. Falta a Henrique Monteiro o último passo para aplicar a sua receita ao país: ele deveria ser autorizado a escolher também os líderes e os programas das oposições, para a peça ser mais controlada.
O que é trágico é que um jornalista que até já foi director do Expresso escreva estas coisas com ar de quem dá lições de democracia ao país. Quando, afinal, raciocina no pressuposto de que a democracia só pode produzir a solução, programática e de equipa, que ele próprio preconiza. Tantos anos depois, os aspectos piores do raciocínio marcelista acerca da democracia. E parece difícil de explicar que estes simplismos coloridos são precisamente um dos ingredientes da nossa crise.

18.3.11

queen of denmark


Uma inspiração do Pedro.


ilusões quotidianas | a percepção do movimento


Como é que nós, andando pela rua, sabemos que nos cruzamos com pessoas e não com robots? A questão parece-lhe tola? Então pense que, se nos cruzássemos com uma "coisa" parecida com uma pessoa, precisávamos de "pistas" para fazer a distinção. Não "abrimos" as pessoas para vermos se têm coração, estômago, pulmões. Nem, geralmente, as interrogamos para saber se têm ideias, sentimentos, memórias. Na verdade, em geral, pelo menos até um certo grau de aproximação, fiamo-nos nas aparências. Isso, no que parece ser o caso. E no hábito, no passado, num certo número de pressupostos.
Isso acontece com outras espécies animais. Como exemplifica este vídeo. Temos uma pomba a ver um vídeo. Nesse vídeo vê-se um pombo virtual a simular o comportamento de um pombo real a fazer a corte a uma pomba. A pomba, real, reage (responde) como se estivesse perante um pombo de carne e osso a fazer-lhe a corte. A percepção do movimento, fundamental nas espécies animais que têm de se desembaraçar em ambientes complexos e potencialmente ameaçadores, assenta no reconhecimento de certas pistas, que provavelmente se tornaram significativas por via evolutiva. É esse mecanismo que aqui é exemplificado.
Até que ponto poderemos nós, humanos, ser assim iludidos?



(republicação)

excerto do debate sobre o estado da nação esta manhã

11:54

Sócrates, pelo governo, e Assis, pela bancada do PS, no debate sobre o estado da nação esta manhã, em resposta a um discurso frouxo de Miguel Macedo:
(a) António Capucho, conselheiro de Estado pelo PSD, fez há pouco tempo as seguintes declarações: “o governo tem de levar uma rasteira e sair”. Como não veio o FMI, que o PSD anda há meses a convidar; como não veio o desastre na execução orçamental, que o PSD esperava como desculpa; veio a rasteira. Esta é a rasteira do PSD: provocar uma crise política. Mas, por quê agora? Passos Coelho abre uma crise no país para escapar a uma crise interna no PSD, onde já se afiavam as facas para o derrubar.
(b) O anterior governo PSD/CDS apresentou o PEC em Bruxelas – não as linhas gerais, não a proposta de partida, mas a sua versão final – sem o apresentar no parlamento português. Não têm agora esses partidos nenhuma moral para se queixarem de uma “mera” apresentação pública das linhas gerais, com todo o tempo para passar ao debate das medidas propriamente ditas - garantindo que o PEC apresentado em Bruxelas não será uma "surpresa" para o país.
(c) Na preparação, no ano passado, do orçamento para 2011, Passos Coelho, pelo PSD, recusou-se a negociar previamente: o PSD exigiu que o governo apresentasse primeiro as suas propostas e as divulgasse, só aceitando negociar depois. Agora, o governo apresentou publicamente as linhas gerais da sua proposta e quer negociar, segundo o procedimento exigido pelo PSD – mas, agora, o PSD exige o contrário do que exigiu o ano passado e, com essa desculpa, recusa-se a negociar. E não diz uma palavra sobre alternativas.
(d) A prova de que a posição de Passos Coelho é a “rasteira” pedida por Capucho, com o único fito de Passos Coelho se salvar do golpe que os seus “companheiros” lhe estão (estavam) a preparar, sacrificando o país à guerra de barões do PSD – a prova está na evolução do discurso do PSD durante a sexta-feira passada, dia de cimeira europeia. Desde manhã, com Sócrates em Bruxelas a negociar com os seus parceiros europeus, o secretário-geral do PSD foi dizendo durante o dia que o seu partido apoiava as medidas que fossem no sentido de controlar o défice. O presidente do mesmo partido acabou o dia a tirar o tapete à posição do governo português. Por quê: Passos Coelho viu a sua oportunidade da tal rasteira conveniente.
O debate continua.
O país também.

não pagamos?

10:16

Eu não sou situacionista: não confundo "o que está" com "o que tem de estar". Entendo perfeitamente aqueles que dizem que a austeridade imoderada, em vez de resolver os problemas económicos do país e da Europa, os agrava. Já não entendo aqueles que fazem de conta que Portugal tem as mãos livres para se comportar como entender. Pretender que o nosso país poderia, simplesmente, dizer "não pagamos", e que isso não teria consequências, é vender gato por lebre. Mas, e há sempre um mas, também pode não ser completamente avisado afastar liminarmente a possibilidade do "não pagamos", por exemplo numa fórmula mais suave do tipo "pagamos, mas não pagamos tudo já". Há, nesta matéria, muita gente em posições fechadas, em certezas absolutas que não se coadunam nada com o extraordinário da situação em que vivemos. Valeria a pena discutir isto melhor.
A sugestão de José Castro Caldas, um dos Ladrões de Bicicletas, merece reflexão:
É uma escolha difícil: continuamos a aceitar a austeridade punitiva que nos está a levar à recessão e à incapacidade de financiar o deficit e pagar a dívida a prazo, ou preparamos a reestruturação da dívida já?
Os Islandeses quando tiveram de decidir se pagavam as dívidas dos “seus” bancos falidos optaram por fazer um referendo e escolheram não pagar, pelo menos de imediato. Já os Irlandeses não escolheram nada porque ninguém lhes perguntou.
O que nós escolheríamos na eventualidade improvável desta experiência mental se tornar realidade não sei. Só uma coisa me parece segura como resultado: o susto que os credores que actualmente mandam no euro apanhariam só com o debate público do assunto e as alternativas sensatas que, nesta eventualidade, lhes iriam ocorrer.
Há várias questões, na sugestão de JCC, que me parece necessitarem de esclarecimento. Por exemplo:
(1) A Islândia foi fortemente ajudada, numa base bilateral, por "países amigos", quer com base na solidariedade nórdica, quer com base na rede de interesses financeiros que passavam pela grande ilha gelada: pergunto a JCC quais são os países que acha que poderiam fazer isso por nós, abrindo os cordões à bolsa como bons samaritanos. (Além de que, na Islândia, o problema estava muito centrado nos bancos, não sendo esse o nosso caso.)
(2) Nesta altura do campeonato, já não há uma pequeníssima Islândia para salvar, mas vários pequenos e não tão pequenos: acha JCC que seria ainda fácil encontrar, fora do plano multilateral (UE e FMI), dinheiro suficiente para tão variados e amplos apoios de boa vontade? ("Fora do plano multilateral", porque, nesse plano, já sabemos como são atrozes as condições para qualquer ajuda.)
(3) A reacção da Islândia foi de uma imensa mobilização política e social do povo para enfrentar as condições que criaram a crise e mudar institucionalmente o cenário: acha JCC que o estado de espírito dos portugueses está para aí virado?
Isto já, claro, para não fazer perguntas do género: se simplesmente dissermos "não pagamos", vamos viver como sem o dinheiro que nos tem sustentado? Se quisermos, mais moderadamente, reescalonar a dívida ("pagamos, mas com outros prazos"), o que estamos dispostos a fazer para que acreditem em nós - e para que consigamos cumprir a promessa, já agora? Para a mentalidade portuguesa actual, isso não seria simplesmente adiar o momento da verdade?
Noutro plano, outra pergunta. O texto de José Castro Caldas tem o título: E se fizéssemos um referendo? Um referendo faria sentido, talvez. Não obstante, se "por acaso" houver eleições proximamente, não é preciso referendo nenhum: basta, por exemplo, que o BE ou PCP se apresentem às eleições com essa alternativa. Isso dará ao povo português uma oportunidade de discutir essa alternativa, de eventualmente a escolher - e, se calhar, até pode dar um bom resultado eleitoral ao BE. E, vantagem não dispicienda, obrigará outros partidos a pensar alto sobre isso. Por que de facto a gravidade da situação obriga a ter todas as hipóteses em aberto. Não podemos é fazer de conta, como JCC parece fazer de conta, que não há riscos nenhuns em dizer aos mercados "habituem-se, que aqui a malta só paga se nos apetecer".

17.3.11

Wolfgang Amadeus Phoenix, Love Like a Sunset (Animal Collective Remix)



miguel de vasconcelos a ser entrevistado por mário crespo

21:27

Mário David, o fiel de armazém de Durão Barroso, está em directo com Mário Crespo a explicar que falou em inglês no Parlamento Europeu (onde os deputados costumam falar na língua do seu país) para que a imprensa internacional absorvesse melhor o acto de campanha contra a imagem de Portugal que ele lá se dispôs a proferir. Apenas para poderem os meus leitores aquilatar da enormidade das pérolas que o homem está a propalar, vejam esta: à diferença entre as previsões para o crescimento da nossa economia em 2011, consoante a fonte seja a Comissão Europeia ou o governo português, a essa diferença Mário David chama "buraco". "Buraco orçamental". Qual buraco, Miguel de Vasconcelos, qual buraco? A economia portuguesa cresceu 1,4% em 2010. Lembra-se, Miguel de Vasconcelos, qual era a previsão da Comissão Europeia? Parece que o buraco está na sua lata, Miguel Mário David de Vasconcelos...

não sei bem se isto é uma coisa simples que parece complicada ou, antes, uma coisa complicada que parece simples

19:55

Deve ser complicado ser Presidente da República. Não sei até que ponto irá a dureza da tarefa, porque nunca fui, nem conto vir a ser, tal coisa. Mas de certo seria pesado demais para as minhas pobres costas. Assim sendo, não devo ter a arrogância de pretender que faria melhor do que este ou aquele.
Contudo, não resisto a pensar que qualquer pessoa simples saberia que certas coisas um PR não faz. Por exemplo, acho que é meridianamente claro que um presidente de todos os portugueses não se deve misturar na luta partidária, não deve dizer coisas que toda a gente interpreta como apoio ou condenação genérica de certas forças políticas em presença. Penso isso, não por achar que um presidente deva ser um eunuco, que não deve, mas por me parecer que um presidente deve ver além dos diferentes interesses dos actores político-partidários e sociais - e deve usar essa visão para captar, melhor do que os demais poderes, como potenciar o que é comum. Sublinhar as linhas de convergência.
E, levando um pouco mais longe o meu atrevimento, também digo que, em certas circunstâncias, um presidente tem a obrigação de não se encolher e deve impor o que entende serem condições institucionais mínimas para o país enfrentar os seus desafios mais prementes. Por exemplo, face ao actual estado do país e ao olhares que os lobos e as ovelhas deste mundo lançam para nós neste momento, eu acharia normal que o presidente dissesse aos partidos portugueses:
meninas e meninos, está visto que um governo minoritário não tem condições para criar confiança nos mercados e nos parceiros europeus, portanto arranjem um governo maioritário. E depressinha que se faz tarde.
Poderia eu, até, pessoalmente, não gostar da solução que daí saísse; provavelmente eu preferiria outra maioria que não aquela que acabaria por se formar. Certamente que eu continuaria a achar, como já acho, que esta incapacidade portuguesa para o compromisso e para a negociação é uma tara do subdesenvolvimento da democracia portuguesa. Quer dizer, eu até poderia detestar o significado profundo de tal gesto do presidente. Mas, pelo menos, teria de pensar: tem tomates este PR. Vai directo ao nó górdio, sem conceder especial protecção nem aos seus amigos nem aos seus críticos. É capaz de atacar um bloqueio institucional sem cair nas maluqueiras dos governos de iniciativa presidencial à la Eanes do século passado. E, acabado de ser reeleito, deve ter força para obrigar a uma solução dessas, sem as tentações caudillistas que deixaram de se usar com a "normalização" da democracia.

Estou a ver a coisa simples demais? Ou complicado é ter em Belém um presidente que pensa demasiado em proteger os seus amigos políticos e no protagonismo alargado que pode alcançar se o país entrar em erupção?

desta vez um enigma que não interessa nada ao futuro da nação


Seja que a combinação e disposição de letras que vemos abaixo representam uma adição. Sabendo que cada letra diferente representa um algarismo diferente entre 0 e 9, que cada letra representa sempre o mesmo algarismo e que D = 5, qual é a atribuição de algarismos a letras que faz com que o resultado seja uma adição correcta?

    D  O  N  A  L  D
+  G  E   R  A  L  D
    -------------------
    R O   B   E  R  T

o que o PSD teme

11:02

Execução orçamental: Governo atinge superavit histórico de 836 milhões de euros até Fevereiro.

Se os sacrifícios que os portugueses estão a fazer não servirem para nada, será trágico. Se os sacrifícios que os portugueses estão a fazer forem consumidos por uma crise política evitável, ou mesmo artificial, será uma insanidade colectiva. Passos Coelho fez de conta que não sabia que Portugal teria de apresentar um PEC agora. É uma "ignorância" significativa. E Passos Coelho efabula com a má execução orçamental. É um "tiro ao lado" que arrisca partir-lhe a louça toda na São Caetano à Lapa. E é por estas desculpas esfarrapadas que PPC quer desperdiçar os sacrifícios dos portugueses?

Afinal, o PSD de Passos Coelho teme que as coisas corram mal a Portugal - ou o que o PSD teme mesmo é que as coisas corram bem a Portugal?

***

Acrescento (com uma dedicatória especial para quem venha a pedido de Miguel Noronha): peçam ao Miguel Noronha que faça um quadro, para os últimos anos, a comparar, por um lado, as previsões das instituições internacionais (incluindo europeias) acerca do desempenho da economia portuguesa com, por outro lado, os resultados da execução. Pode ser que, assim, com esse exercício, ele se aperceba da importância de Portugal responder mesmo às previsões mais pessimistas, com um plano que cubra mesmo as previsões daqueles que se "enganam" sempre contra Portugal. Talvez, de caminho, Miguel Noronha meta qualquer coisa na cabeça sobre a importância das expectativas em economia. (A resposta tem de ser aqui, porque o polemista do cachimbo não deixa que lhe respondam no mesmo sítio onde coloca a pergunta. Sabe-se lá por quê.)

16.3.11

prognósticos só depois do jogo

23:01

Para a semana o Parlamento vai discutir as linhas gerais para o PEC de 2012, proposto pelo governo, que será o enquadramento para o orçamento de Estado de 2012. Esse procedimento correrá, mais dia menos dia, em todos os Estados Membros da UE, porque esse é um exercício comum, dentro do chamado "semestre europeu".
Se aquilo que Sócrates tem dito é correcto, essa proposta do governo não terá uma palavra sobre 2011 - já que todo o esforço suplementar para este ano estará dentro dos limites do que foi aprovado com o orçamento para 2011.
Nesse caso, a oposição pode votar contra a proposta e assumir uma de duas coisas: ou está contra o objectivo de baixar o défice para 3% em 2012; ou está a favor mas quer uma via alternativa - alternativa mesmo, no sentido forte, porque não estarão em discussão medidas concretas, mas a orientação geral. Nesse caso, o PCP talvez proponha que não se pague a dívida, ou que se peça emprestado à Bielorrússia, como alternativa à União Europeia. Quanto ao PSD, não estou a ver muito bem o que proporão como alternativa.
Ainda nesse caso, não haverá uma única linha na proposta do governo que dê desculpas à oposição para dizer que o executivo está a ir mais além, em matéria de sacrifícios para este ano, do que foi aprovado no anterior orçamento, para o ano corrente, com o acordo do PSD.
Confesso que estou com curiosidade para ver como, nestas condições, o passismo explica ao país a abertura de uma crise que só pode piorar a situação dos portugueses.

de quem é o truque?


Há sempre uma explicação qualquer para circunstâncias em que um "grande empresário" se comporta em público como um carroceiro. Às vezes é apetite pelo poder. Outras vezes é para disfarçar, para evitar que as pessoas olhem para o seus métodos. Outros vezes nem chegamos bem a perceber. Neste caso, de quem será "o truque"?

Tribunal dá razão ao fisco e considera que o grupo Jerónimo Martins tentou fugir ao IRC.
"Pormenores", citando ainda o Público:
«A sociedade Recheio SGPS, que integra o universo empresarial do grupo Jerónimo Martins (JM) - proprietário da cadeia de supermercados Pingo Doce - perdeu a primeira batalha para impedir a cobrança de 20,88 milhões de IRC. (...)
O Tribunal Central Administrativo Sul considerou que um conjunto de empréstimos realizados entre empresas do grupo tiveram um único fito - transformar juros tributáveis em 65 milhões de euros de dividendos isentos de imposto, contribuindo para 113,3 milhões de prejuízos fiscais.(...)
Alexandre Soares dos Santos, que controla a JM, é o segundo homem mais rico de Portugal (1,7 mil milhões de euros, segundo a revista Forbes). Tem assumido posições públicas em favor da ética política e empresarial.»

forma e conteúdo na crise in(s)talada

11:26

A entrevista que o PM José Sócrates deu ao país ontem à noite foi muito clara: a cara de espanto que o PSD faz por serem precisas medidas adicionais para baixar mais o défice para 2012 e 2013 é uma máscara de teatro; as medidas que o governo anunciou ainda para 2011 não afectam directamente o "bolso" dos portugueses, já que consistem basicamente em rigor acrescido, do lado do Estado, no que já estava no orçamento aprovado pelo parlamento. O ponto está em que Passos Coelho fez as contas e concluiu que, se não precipita eleições, será apeado da presidência do PSD pelos seus companheiros - e ele não andou a investir tanto tempo nesta empresa para estender o tapete a Rui Rio e ao cavaquismo. Basicamente, o que conta para PPC é, agora, a sua própria sobrevivência política.
Quanto ao resto, que é o país e as pessoas que tem dentro, vamos lá ver se nos entendemos: a receita económica que está a ser aplicada é errada. A austeridade excessiva prejudica o funcionamento da economia e algumas das medidas previstas não favorecem nada o necessário crescimento da economia. Quer dizer: os sacrifícios até podem ser necessários, mas a dose é anti-económica.
Dito isto, o que fazemos, como nação? Dizemos aos mercados que eles são doidos e prescindimos dos empréstimos, vivendo com o que temos? Declaramos falência e deixamos de pagar o que devemos, com a consequência de que por uma boa meia dúzia de anos ninguém nos dá um tostão? Se alguém defende isso, que o diga claramente ao país.
A outra alternativa é sermos protegidos da voracidade dos mercados por algum mecanismo europeu, sem FMI. É o que começou a ser conseguido na semana passada, com a ajuda da corajosa intervenção de Sócrates junto dos seus pares: ninguém vem dar-nos a receita da governação, o BCE intervém para travar a voracidade dos especuladores quando nós vamos ao mercado pedir dinheiro, Portugal não sai do mercado nem entra em falência. A contrapartida é que a Europa, com a Alemanha à cabeça, exige "sinais" que relevam mais da sua ideologia política do que da racionalidade económica (como a ideia de embaratecer os despedimentos). Isso é mau, pois é. Mas qual é a alternativa? Podemos dizer que não fazemos nada disso - e eles dizem que então não há mecanismo de ajuda para ninguém, ou que só há para quem aceitar as condições. Mais uma vez, se alguém quer sugerir que Portugal se desenrasque só com o que produz, prescindindo dos empréstimos dos outros e do dinheiro dos parceiros europeus - se alguém quer sugerir isso, que o faça abertamente. Não façam é de conta que podem comer o bolo e continuar a ter o mesmo bolo para exibir na montra.
Sócrates deu ontem explicações claras. Devia ter dado essas explicações claras ao país antes de ir para a reunião europeia da semana passada. Aquilo que foi anunciado na semana passada foi uma trapalhada. Mesmo para quem conhece bem os mecanismos e percebia que estava a ser antecipado o anúncio de algo que de qualquer modo tinha de ser apresentado até Abril, e sabia que o anúncio dizia em parte respeito aos próximos anos e não a 2011, mesmo esses não ficaram com os dados suficientes para distinguir as várias questões anunciadas. E, com essa falta de clareza no anúncio, mais uma certa falta de preparação institucional do "pacote", o governo deu o flanco à fome que Passos Coelho tem de se antecipar ao assassinato que os seus pares lhe preparam (ou preparavam).
Nessa matéria, Sócrates esteve particularmente mal quando afirmou que lhe interessa a substância, enquanto outros se entretêm com a forma. Inaceitável. A protecção da democracia está na forma. Não vamos voltar à história da "democracia formal", que era conversa "revolucionária" contra a democracia que realmente existe, em contraponto com a "democracia substancial", que ninguém sabe o que é. Percebe-se que o filme não está fácil e a ginástica que se exige aos governantes é muita: mas há pontos em que é preciso compreender quanto conteúdo vai na forma. Em democracia, a forma é uma garantia. Ferir a forma não deixa intocado o conteúdo.
De qualquer modo, caminhamos provavelmente para uma clarificação. O que é bom. Pode ser que os responsáveis políticos ainda arranjem forma de o país não pagar com língua de palmo essa clarificação. Valerá alguma coisa, ainda, a ideia de responsabilidade partilhada?

(O Tiago Tibúrcio, tal como outros que já comentaram este texto, discorda de um aspecto deste apontamento. Talvez tenham razão. O Tiago expõe essa crítica aqui.)

(título "corrigido", pela inserção de um "s" entre parêntesis... por me ter apercebido que a brincadeira não estava a ser, digamos, compreendida como tal...)

15.3.11

"ir ao pote"


Em entrevista a Judite de Sousa (17-02-11), querendo sublinhar que o PSD não tem pressa de chegar ao governo, Pedro Passos Coelho disse: "O PSD não está cheio de vontade de ir ao pote". Tal declaração, a denunciar uma estranha mentalidade acerca do que é o poder em democracia, tem sido muito glosada - naturalmente. (Pode ver e ouvir aqui, por volta do minuto 12.)
Agora, tentando virar o bico ao prego, vem este blogueiro dizer que é "a socrática malta do costume" que quer ir ao pote. Afonso Azevedo Neves acha que esses tais socráticos assim "revelam mais sobre o que pensam sobre o Estado e o país do que deveriam". Identificada a fonte da expressão "ir ao pote", Afonso Azevedo Neves haverá de dizer agora que isso "revela mais sobre o que Passos Coelho pensa sobre o Estado e o país do que deveria". Se não o fizer, confessa ipso facto uma lamentável desonestidade intelectual.

escrever palavras como os ouriços viajam


Para que precisamos de Misericórdia se queremos ver os "Livros Vivos" de Alexandra Mesquita? Porque está na Babel, livraria, nessa rua que sobe para o Camões.

(Só hoje, 17/03/2011, alguém me chamou a atenção para o facto de a Rua da Misericórdia não subir para o Camões, mas subir "do" Camões.)

Japão, em pleno presente

coisas que me fazem confusão

M. Guarnido, L’Histoire des aquarelles (tome 2), pormenor de prancha sem falas


Faz-me confusão que se veja a realidade a preto e branco, só.
Faz-me confusão que haja quem pense que resolve os problemas do país removendo "a classe política" - e faz-me confusão que a "classe política" (com extensões na blogosfera) não perceba que se proteste contra a classe política.
Faz-me confusão que, tão revolucionários que nós fomos que até gostámos do Maio de '68, agora falemos com desprezo dos tipos que vão a manifestações só por estarem contra e sem terem um programa alternativo - e faz-me confusão que haja tipos a ir a manifestações contra tudo e mais alguma coisa e que no dia seguinte continuam a pensar que mudar a vida e o mundo é coisa simples e se faz indo de casa para a escola e da escola para o bar e do bar para casa e depois outra vez tudo na mesma.
Faz-me confusão que se diga com desprezo que "isto" é tudo invenção das redes sociais, tipos com computador e outras mordomias - e faz-me confusão que haja uma página no facebook para "derrubar o governo com um milhão no facebook", em vez de, com um milhão, fazerem o tal partido novo, ganharem as eleições e levarem Portugal, finalmente, para os amanhãs que cantam.
Faz-me confusão quem critica a forte presença do Estado em todo o lado, mas também critica que o Estado "corte" isto e aquilo, como se quisesse que o Estado fosse embora mas deixasse a máquina de imprimir notas verdadeiras - e faz-me confusão quem critica a precariedade e ao mesmo tempo despreza os sindicatos e as forças políticas que se opõem à desregulação selvagem do mercado de trabalho.
Faz-me confusão que alguém critique um licenciado por querer ganhar mais do que mil euros, ou por estar chateado por viver a recibos verdes - e faz-me confusão por haver tantos licenciados chateados por ganharem mil euros que não estão nada chateados por haver tantos pais e mães de família que ganham o ordenado mínimo que é menos de metade disso, e faz-me confusão nunca ter visto esses licenciados nas manifestações pelo aumento do ordenado mínimo.
Faz-me confusão que não se constate o mal estar social, que transparece nas manifestações da geração à rasca, tratando-o depreciativamente como coisa de meninos instalados, como se fosse preferível ter os camionistas a descer a avenida - e faz-me confusão que o partido do proletariado engrosse a voz com manifestações pequeno-burguesas, para os seus critérios.
Faz-me confusão que a direita se excite com as mesmas manifestações que excitam a esquerda - e faz-me confusão que os mesmos partidos que têm de se evitar cuidadosamente no parlamento para não calhar votarem a mesma moção de censura, sejam capazes de se encontrar na rua sob o mesmo protesto.
Faz-me confusão que não se resolva tudo isto com uma grande festa. Nessa festa, haveria dois grandes sectores: o sector dos que acreditam que a festa resolve tudo, o sector dos que não acreditam em nada disso. A questão está em saber qual de dois resultados seria melhor para o futuro das gentes: que no fim da festa a divisão entre sectores permanecesse igual; ou que no fim da festa estivesse tudo baralhado. Essa é a grande questão do actual momento político. Digo eu, que de vez em quando escolho uma questão e digo "esta é a questão". O que também deveria fazer-me uma certa confusão.

aspectos do Japão, antes e depois do terremoto e do maremoto

Imagens impressionantes. (Clicar para ampliar.)

 

Ishinomaki, antes e depois



Natori, antes e depois

 


Sendai, antes e depois



Yuriage, antes e depois




Aeroporto de Sendai, antes e depois



Mais comparações aqui.

E, depois de tudo isto, vem o nuclear, que os seus próceres juram ser seguro, muito seguro ... É que só aprendem à custa da desgraça: e são precisas desgraças de grande magnitude para verem?

14.3.11

testar a paciência dos grandes homens


O Expresso ofereceu no sábado passado uma biografia de Nelson Mandela, com um prefácio de Mário Crespo, pessoa esta que foi membro do Gabinete de Imprensa Militar de Kaúlza de Arriaga, em Moçambique, donde fugiu à "bagunça" do 25 de Abril para a África do Sul, onde na Joanesburgo branca nunca se deu conta do que se passava no Soweto, até porque, segundo ele próprio declarou há não muito tempo, "não fazia sentido naquela altura" ser combatente anti-apartheid, já que "não havia motivação para o ser".

13.3.11

É precisa uma pedrada no charco

13:17

A crise do país é profunda. Financeira, económica, política, social, cultural.

Há uma crise financeira, porque não produzimos à medida do que gastamos. Bem sei que há hoje muita gente a passar mal, mas há anos que vejo a quantidade de roupas, brinquedos, electrónica de entretenimento, acessórios de embelezamento, et cetera, em aquisição glutona por quem não tem sequer dinheiro para comer bem ou educar-se e educar os seus filhos. E que se endivida para comprar porcarias ou para pagar bens e serviços que, sendo valiosos em si mesmos, não devem tomar o lugar das primeiras necessidades. Por trás dessa crise financeira há, em parte, uma crise económica, até certo ponto devida ao domínio do financeiro sobre o económico, mas também devida a agentes económicos irresponsáveis do ponto de vista social: todos achamos que a culpa é do outro. Entre os “empresários”, ainda dominam largamente os “patrões”, que se estão nas tintas para o interesse do país, para os direitos e a qualidade de vida dos trabalhadores que lhes dão a vida a ganhar. Ao nível do país, a qualificação média dos empregadores continua a ser inferior à qualificação média dos empregados, mas isso está legitimado por um discurso social que valoriza mais comprar uma playstation do que concluir uma formação profissional e académica sólida. Entre os assalariados, é grande a massa dos que pensam que aquilo que a empresa lhes deve pagar não tem nada a ver com aquilo que eles produzem. A vozearia dos que pedem subsídios ou isenções para qualquer empresa, sem demonstração de que essa empresa é económica e socialmente responsável, junta-se amiúde à vozearia dos que clamam por intensa fiscalização a quaisquer dez euros que o Estado dê a uma família carenciada.

Há uma crise política, porque vivemos num permanente jogo de sombras. Uma certa esquerda, que sempre foi anti-europeia, tem agora imensas ideias acerca de como a Europa nos deve ajudar. Uma certa direita clama contra a austeridade, ao mesmo tempo que vai lançando quase-programas de governo que implicam mais austeridade e mais salve-se quem puder e mais cada um por si. Há umas vozes que, clamando contra os mercados sem especificar como nos podemos livrar deles, vendem a ilusão de que podemos simplesmente deixar de pagar as nossas dívidas - faltando-lhes, contudo, a coragem para explicar como viveríamos só com o que produzimos actualmente (deveriam dizer que, só com o dinheiro que é nosso, teríamos de voltar para o campo e produzir a nossa própria alimentação).

Há uma crise social, porque o “passa culpas” é generalizado. Só um exemplo: quantas famílias vêem os seus filhos abandonar precocemente a escola, ou arrastar percursos escolares de insucesso arrasador, e acusam o resto do mundo pelo facto, não se questionando um segundo acerca do que deveriam fazer melhor para desenhar as coisas de outro modo? A sociedade da desresponsabilização – alimentada pelo apontar do dedo “aos políticos” como os primeiros ou únicos culpados – é uma sociedade infantilizada, por isso incapaz de tomar em mãos o seu próprio caminho. É uma sociedade que espera um pai, um messias… ou um ditador. Uma sociedade doente, portanto. Há uma crise social, porque a sociedade está mobilizada para criticar, mas não para resolver. Há centenas de milhares que saem à rua (com toda a legitimidade) para criticar a avassaladora precariedade que inunda a sociedade portuguesa, precariedade que é um verdadeiro atentado à liberdade e dignidade individual, mas a maioria dos manifestantes acham que o governo é o principal, único, grande responsável por isso. Não lhe passa pela cabeça que deveriam exigir às associações patronais e aos sindicatos que se deixem de rodriguinhos e concluam verdadeiros acordos sociais para organizar o mercado de trabalho de outra maneira, com mais produtividade e mais segurança, com mais justiça e melhores resultados económicos. Uma “geração” que não percebe que isso passa por uma luta social mais micro, e menos contra os alvos políticos fáceis e mediáticos, não é uma geração rasca nem à rasca: é uma “geração” atomizada, onde a solidariedade e o combate deixaram de ser concretos e se ficam pela vozearia e pela rua (sem que, de algum modo, eu lhes queira negar o direito à rua). Os sindicatos e o patronato funcionam como uma espécie de partidos políticos disfarçados, que falam do que lhes não cabe na mesma linguagem dos políticos, e as gerações aflitas nem se apercebem de que isso lhes retira o verdadeiro plano da luta social e económica que deveria valer a pena. A luta social, transformada numa luta a favor ou contra o governo, convém às oposições incapazes de falar verdade, mas manieta a própria luta social, retirando-lhe horizontes e possibilidades.

Há uma crise cultural, porque se tornaram hegemónicos os discursos simplistas, os discursos que separam os diagnósticos das propostas alternativas. A união das forças políticas e mediáticas faz-se em torno do “isto está péssimo” – e esse é o discurso que ganha festivais da canção tal como ganha um coro de oposições no parlamento, tal como ganha as conversas de café ou os bitaites de intelectuais encartados. Que, depois, essa união seja impossível de traduzir em programas, em caminhos, em alternativas, parece não afligir ninguém. Quando esse deveria ser o ponto central da aflição: o não estar a emergir uma via de saída alternativa, mas apenas discursos com pressupostos contraditórios, incapazes de produzir outra governação, é o abrigo da demagogia irresponsável. Essa não é já uma questão política. Em política desenham-se caminhos diferentes e os cidadãos escolhem que caminho seguir. Estamos a um nível mais profundo de degradação: a ética do debate apodreceu. O assumir da responsabilidade pelas próprias propostas, o colocar no espaço público os dados da discussão para ela poder acontecer – são factores prévios ao próprio exercício político, que estão ausentes.

Face a isto, é preciso um sobressalto. O governo está a tentar a porta estreita: obter dos parceiros europeus a possibilidade de uma ajuda que nos retire das mãos do homem do fraque (ou do dono do “prego”) e nos dê algum tempo. As receitas da Grécia e da Irlanda não estão a resolver problema nenhum, pelo que a esperança de Passos Coelho (que venha uma intervenção externa para o PSD poder governar com o programa do FMI) é fútil. Sócrates, que continua com a atitude do combatente – fazer tudo o que pode para contrariar a maré – tem de saber que, do ponto de vista estrutural, nada pode estar substancialmente melhor nos próximos dez anos. E, certamente, o PS não pode aspirar a ficar no governo até “isto mudar”: o PS já está no governo há tempo demais, se contarmos desde 1995 e descontarmos a dinastia Barroso-Santana. E, em boa verdade, o governo do PS está a ser manietado pela direita europeia, dominante nos governos da UE, na Comissão Europeia, no BCE e sei lá onde mais - direita europeia essa que está a impor as suas políticas de destruição do Estado Social aos países aflitos em troca de uma eventual possível futura ajuda.

Está, pois, na hora, de obrigar cada um a assumir as suas responsabilidades. Não vale a pena conversar com o PSD, porque o PSD não existe. Existe Passos Coelho, que quer qualquer coisa que evite a descida de Rui Rio à capital, e cujo principal exercício político é disfarçar. Disfarçar as políticas que quer tentar, resumidas no “salve-se quem puder”. Existe Rui Rio e os que querem um PSD “credível” para tomar conta da intendência, mas que ainda não acabaram de ultimar o plano de assalto ao palácio de inverno. E existe o chefe da oposição, que reside oficialmente em Belém.

Assim sendo, Sócrates, como PM e SG do PS, deve ir a Belém e dizer a Cavaco Silva: “o senhor Presidente acha que os portugueses não podem fazer mais sacrifícios; os seus aliados nas instituições europeias passam os dias a exigir-me que peça mais sacrifícios aos portugueses; os seus aliados nos partidos portugueses concordam consigo que isto vai lá sem mais sacrifícios – e eu não estou a ver como; o senhor Presidente teve a sua manifestação da maioria silenciosa, que ajudou a convocar no seu discurso de tomada de posse, na sua habitual abrangência política alimentada pela crítica sem alternativa, porque a alternativa é onde a porca torce o rabo; portanto, senhor Presidente, eu vou-me embora, o PS vai para a oposição, que já se esforçou o suficiente, e o senhor Presidente assuma as consequências do seu activismo e arranje uma solução”.

É preciso saber sair a tempo. Sócrates não quer deixar a sua obra por mãos alheias, compreendo – mas o julgamento de Sócrates não terá lugar agora, mas daqui a dez anos, quando as estatísticas mostrarem o que mudou radicalmente por consequência da sua governação. E o grande sobressalto de que o país precisa é ser confrontado com as responsabilidades próprias dos cobardes que falam para não serem entendidos. O chefe de orquestra, que está em Belém, que trate do concerto. Única objecção razoável: o país não suporta uma crise política. A minha resposta: crise ou mudança, como lhe queiram chamar, terá sempre de acontecer antes de o país voltar a entrar nos eixos; assim sendo, que não tarde. O país precisa de uma pedrada no charco do faz de conta. Sócrates pode ser o autor de mais esse serviço ao país, habituado como está a fazer os lances decisivos.