28/02/11

congresso do PS: há qualquer coisa que me está a escapar


Talvez eu esteja enganado, talvez não tenha percebido bem. Mas parece-me haver qualquer coisa estranha na preparação do próximo congresso do PS. Parece que para apresentar uma moção política global (sobre o rumo do país e do partido) é preciso ter um candidato a secretário-geral. Talvez por isso pululam candidatos a secretários-gerais, alguns dos quais já fizeram notar que só o são por a isso serem obrigados por causa daquela regra - caso contrário teriam de prescindir das suas moções. Mas ao mesmo tempo parece haver quem diga que, dados os momentos difíceis que se atravessam, é preciso unidade e estabilidade. Em torno do secretário-geral. Isto quer dizer o quê? Que a unidade e a estabilidade se poderiam alcançar por via da não-discussão? Ou pela redução das alternativas a notas de rodapé à moção do actual secretário-geral? Há de certeza algo que me está a escapar. Não é possível que alguém dentro do PS pense que o melhor seria não haver grandes discussões para o congresso.

10 comentários:

Anónimo disse...

Há quem chame a isto ditadura subtil....era previsível.

Porfirio Silva disse...

Não concordo. Não é ditadura nenhuma. Há muitos "truques" nas organizações. Em todas, não é só nos partidos.
Há argumentos a favor de opções destas. Um é que o SG eleito não poderia ser obrigado a executar uma linha política de que discordasse.
O PS é provavelmente o partido com mais democracia interna em Portugal. O problema é que, por todo o lado, os colectivos se tornam armas de guerra, acossados por um escrutínio agressivo, por vezes mal informado, muitas vezes mal intencionado - por exemplo, da comunicação social.
E nem sempre há clarividência suficiente para optar pelos riscos do grande debate aberto. Isso é um problema de todos, da democracia, da cidadania. Não é ditadura nenhuma. Acho mesmo que só pode dizer isso ("ditadura subtil") quem não esteja a par das dificuldades correntes da participação cidadã organizada.
Que era previsível, se calhar era: quando os adversários de uma organização usam todos os recursos que ultrapassam a decência, essa organização tende a proteger-se das tentativas de extermínio. Como é isso que têm feito a esta direcção do PS, se calhar era previsível a tentativa de se proteger.

Anónimo disse...

Não me vou pronunciar sobre a orgânica interna dos partidos em geral, para saber se a do PS é mais ou menos aberta: há ciclos, também nestas coisas.
Agora, se me permite, discordo por completo que se infira qualquer coisa sobre a "participação organizada de cidadãos" a partir da vida de um partido político. Mais a mais de um grande partido. Se alguma coisa tenho constatado nestes 36 anos é que os partidos, sobretudo os maiores (digamos: com representação parlamentar, simplificadamente) asfixiam e torturam a capacidade interna de geração de novas formas de intervenção que não sejam suportadas "no curriculum" da militância histórica e activa. Repare que o PSD está entregue a um produto da respectiva Jota, e um dia destes, o palpite só me vincula a mim!, o PS está também nas mãos de um Seguro (um produto do carreirismo Jota). A abstenção das últimas presidenciais (e a soma dos votos nulos e brancos com os expressos no proto-candidato Coelho), são sinais claros que, para quem defende a democracia partidária, como parece ser o seu caso, deviam levar a uma muito ponderada reflexão.
Não tenho vinculações pessoais a partidos, e precisamente por isso lhe digo que era visível em muitas instâncias da sociedade, o gozo que a ideia de "CANDIDATURA DE CIDADÃOS", associada às presidenciais levanta. Nobre não era o "candidato da cidadania", mas uma vendetta porventura justificada. Os demais tinham conotações claras.
Experimentem remover o requisito das 7500 assinaturas verificadas para um número mais aceitável. Pode-se ser eleito governador de um estado americano maior que Portugal com 300 assinaturas. Incluindo da família. ISSO é um sinal de abertura à participação política organizada. O actual status quo partidário é um incentivo à participação dentro das estruturas em moldes de pré-formatação mental.
Expolosivo, digo eu, num contexto que favorece as margens do sistema, e em que a esmagadora maioria dos cidadãos não tem "pachorra" para partidocracias...

A.

Porfirio Silva disse...

Caro A.,
Acho tudo isso de um simplismo atroz. Julgar que a democracia vai mal por serem precisas 7500 assinaturas para formar um partido ou apresentar uma candidatura presidencial - não é apenas estar enganado. É querer estar enganado. A democracia vai mal por cada um tratar da sua vidinha (e mal, muitas vezes) e, no entretanto, estar a marimbar-se para o bem comum.
Entretanto, vai-de dando o exemplo dos States para boas práticas de democracia... só não querendo ver!
Os cidadãos não têm pachorra para a partidocracia?! Claro, culpar os cidadãos pela desgraça da cidade é que nunca, não vamos nós acabar como o Sócrates (o de Atenas)! Esse é o estado da opinião: ninguém quer culpar os verdadeiros culpados: nós todos. Todos os "comentadores" arranjam desculpas para o zé povinho - quando o zé povinho é que tem culpa disto tudo. Precisamente por pôr sempre as culpas para os outros.

Anónimo disse...

Despede-se o povo, é isso? Em lugar de mudar o sistema. Círculos unimonais, se não aprecia os states, o que diria a isso?
A.

Porfirio Silva disse...

Ah ah ah, essa é muito boa: se eu digo que a cidadania implica responsabilidade, isso sugere-lhe que eu quero despedir o povo?!
Uma coisa eu não quero certamente: uma república de irresponsáveis, míopes ainda por cima.

Os círculos uninominais até podem ter interesse. Mas, mais uma vez, não fazem milagres. Em algum sistema com círculos uninominais viu que isso fosse a chave para uma esplendorosa democracia?

Voltamos sempre ao mesmo: não há milagres. Só aqueles que nós próprios fazemos. Nós, todos. O resto é ar e vento, a parte desinteressante dos sonhos.

Anónimo disse...

Eu sugeriria que sabe bem o quanto o contexto partidário condiciona a intervenção pública. E que saberá bem que o contexto partidário (e quanto maiores os partidos, mais assim será) tende a gerar dinâmicas internas que têm pouco de apelativo para os cidadãos ou o povo ou o que lhe quiser chamar. Repare bem que desde as ditas elites às ditas camadas mais baixas há uma fuga generalizada, quase um repúdio por essa envolvência precisamente pelo que previamente chamava de "truques organizacionais". Truques esses que eu extendo à possibilidade de virmos a ter um dia destes eleições disputadas entre dois ex-líderes de jota: S e SD, ou se quiser Passos Coelho e Seguro. Meritocracia interna é alguma coisa em que qualquer pessoa que tenha tido ou tenha qualquer contacto com as máquinas dos partidos sabe que está fora de questão.
Os tempos são o que são. Parece-me é que não é difícil consensualizar (e não lhe chame insultos por favor), que um partido (ou um país!) que gera como PM José Sócrates e como alternativas a caricata sucessão de líderes do PSD devia levar a uma meditação profunda dos partidos: porque é que não se produzem dinâmicas geradoras das condições para os mais capazes se interessarem pela governação?
Porque sabe, as pessoas, os cidadãos, são mais altruistas do que julga. São capazes de se associar, quando desse associativismo vêem resultados. E até são capazes de promover nessas associações o mérito, porque tendem a valorizar o sucesso das associações. Não faltam em portugal estudos documentados de associativismo civil de sucesso. O problema é que a partir de certo ponto o associativismo precisa de mexer com a burocracia dos poderes públicos, e a inércia do status quo pesa desgraçadamente.
Sabe qual o destino das últimas petições de cidadãos, suportadas com milhares de assinaturas, nos corredores da AR?
Pois...
A polis até pode interessar a todos, mas infelizmente os políticos são cada vez menos os habitantes da polis! É um pouco o problema dos adeptos de futebol, num país que assiste a jogos no sofá, se quer uma metáfora que possa gozar. Conclui que não há interesse pelo jogo, pelo facto de os estádios estarem vazios? E que a culpa é dos espectadores?

Porfirio Silva disse...

Sabe, A., o que sinto? Sinto que há muito truque daquilo a que, precisamente, A. chama depreciativamente "político" - naquilo que escreve. Até dou de barato a mesquinhez de tratar Sócrates com esse desdém, logo Sócrates que foi dos políticos pós-25 de Abril que não se acomodaram a gozar a cadeira. Esse desdém não é um insulto para ele, é um insulto para quem se deixa cegar pela luta política imediata.
Para além disso, há o quê nos seus comentários? Indignação por ex-líderes das juventudes partidárias chegarem a líderes dos partidos? É isso que o preocupa, ou que mostra algo de importante acerca da política? Uma insistência anti-partidos, que vê condenados aos vícios da máquinas - como se as máquinas não tivessem todas "vícios"? O associativismo é que é puro e só mancha quando toca a burocracia pública? Faz alguma ideia do que é a "excelência" da maior das empresas, essas tão incensadas "PME" que em muitos casos são aberrações anti-económicas? Parece que não vê isso, talvez por preferir arranjar bodes expiatórios nos "políticos".
Deixe-me dizer-lhe com franqueza: essas banalidades são mais velhas que a Sé de Braga. São conversa de querer passar a mão pelo pêlo ao "povão" - porque, quando lhe digo que a responsabilidade é de todos nós, precisamente o "povão", fica escandalizado e pergunta-me se quero despedir o povo.
O que temos de mudar é comportamento e a atitude de todos nós. Menos esquemas, mais rigor, menos desculpas, mais responsabilidades assumidas, mais andar a horas, menos perder tempo com futilidades e ir ao essencial, mais solidariedade. Por todo o lado. Apontar o dedo aos "políticos" em geral é sempre, mas sempre, uma maneira de arranjar uma desculpa para evitar falar do que realmente conta.

Anónimo disse...

Vai-me desculpar, meu caro Porfírio, mas agora fui eu que não pude evitar sorrrir. Eu não falei em PMEs. Falei em associativismo: grass roots. Aliás fundamental se se quer implementar o tal "Portugal Techológico". Imagine um aluno seu (suponho que dá aulas?). Tem uma ideia. Quer criar um negócio com a ideia. Dois alunos. Já tem uma forma de associativismo. Seria uma PME? Muito menos que isso. Mas precisa de dinheiro. "Venture capital". Não há inovação sem capital de risco, se preferir a tradução. Ou "capital semente". De onde vem esse capital de risco? Aí é que reside o problema. Mostra o mais recente inquérito que conheço que a maior parte das micro empresas de alunos universitários não avança por falta de capital de risco. Há uma solução. Há quem lhe chame "business angels". Pessoas dispostas a contribuir para uma pool de fundos que financiam essas empresas nas incubadoras. São cidadãos. Pessoas com carreiras. Fora da política. Não são mais louváveis por ser fora da política, apenas são mais...meritocratas. Na média pelo menos.
Mas há muito outro associativismo em portugal. O que são os Bombeiros Voluntários? Têm defeitos? Claro. Mas o que são na base? Pessoas que contribuem para a comunidade.
Nem tudo nem são PMEs. E nem tudo são macrocefalias: como mega-partidos, ou grandes empresas. Há movimentos de cidadãos. E devem existir. Ter liberdade, arduamente conquistada, significa também liberdade de associação. Pode correr mal sem tocar a esfera pública? Claro que pode. A Máfia é o que é senão uma deturpação, nas suas variantes, napolitanas, sicilianas e afins, do associativismo? Mas se não vamos matar os partidos, não vamos matar as associações de base. Se não vamos matar as grandes empresas, não vamos matar as PMEs. Vamos deixar que o associativismo que nasce fora dos partidos exista. E cresça. E não precise, se não quiser, dos partidos. Porque não tem aspiraçãoes a constituir-se como partido. Se tiver, que siga a lei e se constitua.
O problema surge quando as elites que dinamizam as associações, fogem dos partidos. Eu concordo que Sócrates não foi um PM que se acomodasse. Fez coisas. Quis fazer coisas. Isso é de louvar. O meu problema não era esse. O meu problema era porque é num partido com a riqueza de quadros do PS, foi precisamente José Sócrates que chegou a secretário geral?
O meu problema não são os líderes das jotas. É a jota como carreirismo. Porque se mais oportunidades existissem na sociedade, menos jovens faziam a carreira de "jotinha". E essas oportunidades podem vir do associativismo.
A cultura empreendedora que 50 anos de corporativismo e 36 de socialismo democrático não fomentaram faz muita falta. Porque é a cultura empreendedora que cria as grandes estruturas a partir da base. Onde houver capital de confiança mútua, associação, ideias e um sistema que o apoie (não falo de subsídios, falo de uma justiça capaz por exemplo).

O Porfírio fala-me em solidariedade. Eu gosto do termo. Mas gosto mais de cooperação. E mais ainda de confiança. A base do progresso das organizações é a confiança mútua. E a confiança no futuro.
Acha honestamente que um partido político de envergadura promove a confiança mútua entre os seus membros? Da caneta do Manuel Monteiro na famosa eleição do líder parlamentar do PP, ao candidato Nobre que toda a gente sabe quem promoveu, às mil facas longas do PSD num impressionante canibalismo autofágico, para não falar da ostracização da Joana Amaral Dias, ou das folhas caducas do Álvaro Cunhal, acha que os partidos inspiram esse capital de confiança? Ou se quiser, de solidariedade?
E se acha, acha mesmo necessário que os cidadãos da polis tenham de percorrer os corredores dos partidos existentes, e não se possam e devam associar a seu bel prazer para a prossecução de objectivos comuns se legais e desejados por quem os prossegue?

O Estado torna-se um inimigo da sociedade quando asfixia a sua liberdade. Sabe que a Cáritas, cujos méritos suponho não disputa, despediu gente em Évora, por não suportar a subida do IVA?

A.

Porfirio Silva disse...

Caro A.,
Já vamos longe do assunto do post (ainda se lembra do que estamos a comentar?) e por isso vou ficar por aqui. Desde logo, porque A. "interpreta" livremente o que eu digo, até à absoluta distorção. Um único exemplo: escreve, para mim, "acha mesmo necessário que os cidadãos da polis tenham de percorrer os corredores dos partidos existentes". Onde é que leu isso? Neste post, nos comentários ou em qualquer outra coisa que eu tenha escrito? Até tenho escrito o contrário disso, preto no branco. Mas isso a si não lhe interessa nada. Portanto, desculpe a franqueza, mas tenho outras coisas para fazer.
Além do mais, não vale muito a pena andarmos aqui a fazer uma enciclopédia de lugares comuns numa singela caixa de comentários.
Haja saúde.