
10.5.26
Notícias da luta de classes em Portugal

18.7.25
Um risco existencial ameaça o PS
Intróito. Há momentos em que seria mais cómodo estar calado.
É nesses momentos que é preciso falar. Ir ao que dói. Alertar para os perigos.
Deixarmos de tratar com paninhos de lã o que ameaça o essencial. Por isso
escrevo hoje.
***
1. Quando, em 1969, as tropas do Pacto de Varsóvia, sob o comando da União Soviética, invadiram a Checoslováquia para impedir o “socialismo de rosto humano”, o processo de reformas democratizantes que tinha sido lançado pelo Partido Comunista daquele país, essa invasão abalou politicamente a esquerda, em especial os comunistas ocidentais. Por muitas razões políticas que separassem os observadores de esquerda daqueles acontecimentos, a rutura provocada foi uma rutura emocional: havia quem tolerasse a invasão de “um país socialista” por outro “país socialista” e engolisse as “explicações” ortodoxas – e havia quem não encontrasse maneira de tolerar tal ato de violência em nome do “socialismo real”. Foi um trauma para os comunistas ocidentais e mudou muita coisa na história desse movimento. Aconteceu aí um choque de emoções políticas que as razões não conseguiram conter.
O que interessa isto agora? Vejamos.
3. Quando, dentro de um partido, as emoções dividem, esse partido está em risco existencial. A própria viabilidade do coletivo estará em causa se, perante alguma opção séria, deixarmos o terreno das diferenças de opinião e passarmos ao terreno das diferenças de emoção. Quando uns olharem para uma situação real e a sentirem como humanamente insuportável, enquanto outros a consideram apenas um problema a resolver com as ferramentas da gestão legal, temos uma brecha perigosa perante nós. Sentirmo-nos violentados na nossa sensibilidade por qualquer coisa que outros consideram apenas um assunto a ser gerido pelas ferramentas legais que estejam mais à mão, já não é somente uma matéria de debate racional. Sem deixar também de ser isso, passou a ser um choque de emoções. Aí, estaremos noutro patamar. E o patamar das emoções democráticas é indispensável à democracia.
Um coletivo partidário afetado por um choque de emoções, que o divida, é um coletivo partidário em risco existencial. Lembro sempre (faço-o há alguns anos, dentro do meu partido e na praça pública) que os partidos também morrem. Os partidos podem morrer por variadas razões. Algumas dizem respeito apenas ao ecossistema: alguém passa a representar melhor os que eram representados por esse partido. Mas, as razões mais dolorosas para um partido morrer verificam-se quando a sua degenerescência vem de dentro. Quando as emoções de uns deixam de jogar com as emoções de outros.
Atentemos: a existência de um choque de emoções não significa que as razões estejam todas de um lado e o outro lado não tenha razão nenhuma. Raramente, num confronto, um lado tem todas as razões e o outro lado não tem razões nenhumas. Só que isso conta pouco como primeiro patamar de um choque de emoções. O choque de razões pode ser dirimido racionalmente. O choque de emoções pode ser impossível de sanar ou, pelo menos, custar muito suor e lágrimas – e muito tempo – para ser sanado. Podemos fazer marcha atrás num confronto de razões: amainar, arredondar, compor, articular, negociar. Não há, de imediato, nada que remedeie um choque de emoções.
Exemplo prático. Vemos crianças a dormir ao relento por efeito de uma ação de uma autoridade pública. As razões trocadas acerca da situação podem não estar exclusivamente, todas, em qualquer dos lados que se posicionam face à situação. Um debate racional acerca da situação podia ser viável. Só que é impossível juntar no mesmo barco os que se arrepiam por essa situação ter sido causada, os que veem essas crianças como o primordial problema do que está em causa, e os que encontram uma imensa lista de justificações para a ação que causou essa situação. O debate racional acerca da situação podia ser gerível; o choque de emoções básicas envolvidas não é gerível.
O choque de emoções básicas, tal como o tenho vindo a refletir aqui, tem todo o potencial para destruir por dentro uma agremiação política, um coletivo partidário. Este choque de emoções básicas nunca antes tinha acontecido no PS. Está a acontecer agora.

28.5.25
Reflexão, todos pedem reflexão. Em que é que o PS tem de refletir?

23.5.25
Carta aberta a José Luís Carneiro

22.5.25
PS, não nos esgotemos em etiquetagem

19.5.25
Renovar o PS em tempos difíceis
4. O foco do PS é o país, não é o país que deve esperar pelo PS. Todas as eleições são momentos de encontro entre os políticos e o país, mas é responsabilidade dos políticos pensarem primeiro no país. Aproximam-se umas eleições autárquicas. As autarquias são o terreno onde se joga muito da vida concreta das pessoas. A razão do sucesso autárquico do PS é a capacidade dos nossos autarcas responderem às pessoas município a município, freguesia a freguesia. Muito do que se joga nos territórios pode ser prosseguido com relativa autonomia da agenda política nacional, razão pela qual o PS pode voltar a focar-se nos trabalhos autárquico, dando-lhe agora a prioridade que nunca devíamos ter descurado. Para que isso se possa fazer, não faz sentido que o PS entre num processo eleitoral interno em paralelo com as autárquicas. O PS é uma instituição, tem órgãos em funcionamento, tem procedimentos – tem, portanto, os meios para ser dirigido, interinamente, deixando para depois das autárquicas a reflexão (que precisa de tempo) e a decisão maturada sobre o rumo a seguir nos próximos anos. Agora precisamos de foco nas autárquicas – sem distrações. Depois precisamos de reflexão, debate, decisão com sentido de futuro – sem pressa e sem concorrência de um ato eleitoral decisivo.
- os órgãos colegiais do partido têm de funcionar, com regularidade, a todos os níveis, servindo substantivamente para estudar e preparar as decisões a tomar e não apenas para ratificar aquilo que o “chefe” (a qualquer nível) já decidiu em “petit comité”;
- as escolhas de
representação democrática (candidatos a autarcas ou a deputados, por exemplo)
têm de ser guiadas para potenciar a capacidade de intervenção em nome de todos,
não podem ser instrumentos de luta interna (não faz sentido escolher um
candidato em vez de outro com a “encomenda” de ganhar assim posição privilegiada
para uma disputa interna numa federação ou numa organização autónoma, não faz
sentido afastar um candidato a presidente de câmara com potencial vencedor por
ele não apoiar este ou aquele numa disputa interna);
- não faz sentido subordinar a representação exterior do partido
a mensagens táticas que não respeitam a permanência e a pluralidade do partido
(como a inédita substituição de todos os eurodeputados numa eleição, em completa
incompreensão das condições de eficácia da delegação no parlamento europeu)
- não faz sentido tentar penalizar camaradas por delito de
opinião;
- não faz sentido afastar autarcas em funções de uma
recandidatura porque “escolheram mal” numa eleição interna (ou recorrendo a
misteriosas “sondagens locais” como cortina de fumo) …
Erradicar o aparelhismo-grupismo tem de vir a par com uma renovação do próprio funcionamento do PS: como é possível não termos um secretário nacional, de primeiro plano, para as questões do trabalho, que dialogue quotidianamente com os sindicalistas socialistas? Ou não termos um forte secretário nacional para as autarquias? Como é possível não termos falado de educação durante toda a campanha eleitoral (e de termos desprezado o trabalho interno anteriormente realizado nessa frente)? Como é possível não falarmos de alterações climáticas numa campanha eleitoral e depois queixarmo-nos de que a juventude se desinteressa de nós? Como é possível não termos nenhum trabalho organizado com os milhares de socialistas envolvidos em dinâmicas associativas por todo o país?
Aparentemente, empobrecemos a nossa tradicional diversidade de pensamento, as nossas raízes em inspirações diversas, e acabámos por nos acomodar a uma espécie de centralismo político que só valoriza as dinâmicas sociais empurradas pelo Estado, desvalorizando as dinâmicas de iniciativa das pessoas e das comunidades (deixando, desnecessariamente, o campo livre aos liberais de direita, quando há espaço na tradição socialista para as dinâmicas de iniciativa de baixo para cima).
Para mudar a política, é preciso mudar o partido. Mas, mudar o partido não passará, de modo nenhum, por desvalorizar o que fizemos antes. Reconhecer os erros, passados e presentes, é necessário. Avaliar o que fizemos e o que deixámos por fazer. Mas isso não é compatível com apontarmos apenas os erros dos outros camaradas, implica reconhecermos também os nossos próprios erros e não desvalorizarmos os erros de alguns só porque pertencem ao “nosso grupo”. E nunca deixarmos por mãos alheias os créditos do que fizemos pelo país, no passado mais antigo e, também, no passado mais recente. Não voltemos a cometer o erro de, por tática interna, menosprezar o muito que este partido deu ao país, em cada um dos nossos governos, em cada uma das nossas lideranças.
6. Só é vencido quem desiste de lutar. Só é vencido quem desiste de votar. Só é vencido quem desiste. Os militantes do PS farão com que a esquerda democrática não seja vencida de forma permanente. Estamos na luta, como sempre estivemos. Mas, cuidado: os que se apressem a avançar para a liderança do PS, por favor, não acreditem, ingenuamente, que basta navegar nas derrotas do Secretário-Geral cessante para ganhar o partido e conseguir renovar o PS. Aos putativos candidatos apelo a que não sejam complacentes consigo mesmos, não se sintam contentinhos com o que temos, porque o que há a fazer é muito profundo. Duro. Lento. Difícil. Mas indispensável. Salvar a democracia exige renovar o partido, na sua essência de movimento popular. E, aí, todos teremos uma palavra a dizer.

8.1.24
Quem escolhe o governo é o povo, não é o presidente
Camaradas,
O que nos move é o país. As pessoas concretas. O que ainda falta fazer.
Os nossos adversários são as desigualdades, são as injustiças, são as discriminações.
O nosso método é a solidariedade, é a redistribuição, é a responsabilidade coletiva de cuidarmos do interesse geral. É apoiarmos a iniciativa privada para que faça o seu trabalho e reforçarmos o Estado social para que rumemos a uma sociedade decente – sabendo que público e privado só entregam resultados em boa articulação.
É por isso que temos de derrotar a direita radicalizada que por aí anda, a recauchutada AD, que é a coligação dos pais e das mães do CH e da iniciativa neoliberal.
O PSD gosta muito de falar de reformas, mas, quando vê uma reforma a passar-lhe à frente do nariz, não a reconhece.
Foram contra a criação do SNS, essa reforma estrutural de primeira grandeza.
Quando aprovámos o alargamento da escolaridade obrigatória para 12 anos, o PSD absteve-se. Não percebeu que era uma verdadeira reforma estrutural.
Nós apostámos na educação de adultos, o PSD tentou destruí-la.
Quando Mariano Gago apostou na ciência, a direita resistia e dizia que havia doutorados a mais.
Quando o PS lançou a aposta nas energias renováveis, o PSD foi contra. E depois foi contra a mobilidade elétrica no transporte público. E depois foi contra o plano de redução tarifária.
É que como isto não é cortar salários nem cortar pensões, como isto não é cortar direitos sociais, o PSD não reconhece que sejam reformas estruturais.
É que só se fazem reformas a sério com tempo, estratégia, determinação, rumo, persistência.
Foi isso que fizemos, por exemplo, quando apostámos numa economia assente nas qualificações. Desde 2015:
- a percentagem de jovens com Ensino Superior subiu de 33% para 44% e já estamos acima da média europeia;
- o peso dos que NÃO concluíram o Secundário desceu de 33% para 17%;
- o abandono escolar precoce reduziu para metade;
- a percentagem de jovens com qualificação profissional de nível secundário subiu de 14% para 20%.
E o mercado de trabalho respondeu: o emprego privado cresceu, mas cresceu significativamente mais nos sectores que pagam salários acima da média.
Porque a persistência e o rumo dão resultados.
Isto é ser reformista. É no PS que está a capacidade reformadora da esquerda democrática.
Camaradas,
Há uma coisa que a direita já devia ter aprendido em 2015, uma coisa que o nosso camarada António Costa lhes explicou direitinho nessa altura, e lhes mostrou como funcionava, mas que pelos vistos eles ainda não entenderam.
E até é uma coisa simples de compreender para um democrata:
É que quem escolhe o governo é o povo, não é o presidente.
Quem escolhe o governo é o povo, através dos representantes que elege na Assembleia da República, não são aqueles que andaram a conspirar a dissolução do parlamento desde o primeiro dia da legislatura, nem são aqueles que desperdiçam a estabilidade.
Por isso, camaradas, termino deixando-vos um apelo: é preciso votar, vale a pena votar, é votando que se escolhe o país que queremos.
É por isso é preciso passar a mensagem:
Votar, votar, votar, por Portugal Inteiro.
(Intervenção no XXIV Congresso Nacional do PS, Lisboa, 5-7 Janeiro 2024)




