26.3.11

Passos Coelho acaba de anunciar o programa de governo





"The Ultimate Machine" foi concebida por Claude Shannon,o inventor da palavra "bit" e pioneiro da idade da informação. Passos Coelho foi convencido por Miguel Relvas de que a máquina, com essa origem, devia ser um prodígio. Acontece que a perfeição da máquina está... em nada fazer. Pois: a perfeição só é imaginável por quem nada faz.

o recenseamento da população e as forças do mal


Bruegel "O Velho", O recenseamento de Belém, 1566
(Museu Real de Belas Artes da Bélgica, Bruxelas)

“Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria. Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida.” Lucas 2, 1-5

Sabemos que há seitas que vislumbram a terrível mão opressora do Estado em todo o lado. Alguns indivíduos nem precisam de seita para isso: constituem uma espécie de seita individual onde cultivam a imaginação literária em forma de delírio político. Há um bloguer, que visitamos regularmente para sabermos novidades dessa parte do mundo, que anda agora a convocar as forças do céu contra... contra... adivinham bem: contra o recenseamento, essa manobra diabólica que ameaça a liberdade individual. Carlos, veja se se acalma: se calhar esta modalidade de recenseamento até vai acabar, não em Portugal mas no conjunto dos países civilizados que fazem estas coisas, por ser muito cara e poder ser feita de outra maneira. Entretanto, não se esqueça que, segundo os Evangelhos, se não fosse um certo recenseamento, o Menino Jesus não teria ido nascer a Belém. Só não sei é se isso o torna mais ou menos desfavorável ao recenseamento...

25.3.11

notícia da excursão de Passos Coelho a Bruxelas




aviso à população: roubo de identidade


Em momentos de mais alta "temperatura" política, é usual certos blogues - e autores de blogues - serem atacados de diversas maneiras. No caso do que se passa aqui neste blogue, não dou exemplos para não dar ideias. Contudo, sobre o caso mais recente, tenho de dar notícia: anda alguém - pela noite de breu à procura? não! - anda alguém a espalhar comentários em meu nome em caixas de comentários de outros blogues. Nestas circunstâncias declaro que entro, a partir de agora, em jejum absoluto de comentários: até nova indicação, nenhum comentário que apareça em outros blogues deverá ser reconhecido como meu.

uma pequena lengalenga sobre as greves dos transportes e o FMI


As greves nos transportes continuam. As greves nos transportes são más para os trabalhadores que fazem greve, porque ganham menos (mas deve ser por isso que certas greves são mais bem sucedidas com grupos profissionais que ganham melhor do que se pensa). As greves nos transportes também são más para o pessoal que precisa de se deslocar, porque fica apeado. Contudo - como praticava Tomás de Aquino, há sempre um "contudo" - contudo, as greves nos transportes são boas para as empresas de transportes, porque poupam uma data de massa em salários, em energia, em desgaste do material circulante e coisas que tais. Talvez as greves nos transportes sejam uma maneira de recuperar financeiramente essas empresas. Poupança forçada ou disfarçada (disfarçada + forçada = disforçada). Assim, até nos vamos preparando para a vinda do FMI. Em vez de ter de ser o governo a decretar que a CP só funciona dia sim dia não, para poupar, as greves poupam esse incómodo e ainda facilitam a poupança. Só com uma alteração legislativa a fazer: todas as greves nesses sectores têm de se prolongar durante pelo menos seis meses e decorrer de forma interpolada, dia sim dia não. Sempre é melhor do que fechar simplesmente essas empresas, que dão prejuízo, como lembrava "o outro".

(Ilustração: Cartaz do Sindicato Único dos Transportes [Confederação Nacional do Trabalho, Espanha], sobre a colectivização dos serviços públicos urbanos.)

Os vulgares e os outros (ou "epístola aos deterministas")


Dedico este excerto de uma obra de Dostoiévski a todos aqueles que acreditam que nós somos apenas peças de uma grande máquina, peças sem liberdade, cujas "acções" são apenas movimentos dos nossos constituintes físicos, determinados inexoravelmente pela longa sequência de tudo o que aconteceu antes.

- (…) Acredito apenas na minha ideia principal, que consiste precisamente em que as pessoas, pelas leis da natureza, se dividem em geral em duas categorias: a inferior (vulgares), ou seja, por assim dizer, o material que serve unicamente para engendrar semelhantes; e os homens propriamente ditos, ou seja, as pessoas que possuem o dom ou o talento de dizer, no seu meio, uma palavra nova. (…) a primeira categoria, ou seja, o material, consta em geral de pessoas conservadoras por natureza, correctas, que vivem na obediência e gostam de ser obedientes. (…) A segunda categoria consta dos que violam a lei, que são destruidores ou têm propensão para o serem, consoante as suas capacidades. (…) A primeira categoria é sempre senhora do presente, e a segunda é a senhora do futuro.
- (...) Mas diga-me uma coisa: como se podem distinguir os vulgares dos invulgares? Têm alguns sinais de nascença?

Fiodor Dostoiévski, Crime e Castigo (1866)
Tradução portuguesa publicada pela Editorial Presença, 2002, pp. 245-246

24.3.11

vamos ter mais disto?



da linguagem comum

12:15

O filósofo Donald Davidson (1917-2003) começa o seu ensaio “The Method of Truth in Metaphysics” (1977) com a seguinte frase: “In sharing a language, in whatever sense this is required for communication, we share a picture of the world that must, in its large features, be true.” Vamos lá ver o que é que isto interessa aqui e agora.

Davidson insere-se numa linha de investigação filosófica que toma como objecto a linguagem comum. Como escreveu John Austin, outro filósofo desta linha, que teve há algum tempo em Portugal um invulgar direito de antena popular proporcionado pelo gato fedorento RAP, "a nossa comum provisão de palavras incorpora todas as distinções que os homens, no decurso de muitas gerações, verificaram ser vantajoso traçar e as conexões que verificaram ser vantajoso assinalar: são seguramente mais numerosas, mais credíveis - uma vez que passaram o longo teste da sobrevivência dos mais aptos - e mais subtis, pelo menos em todos os assuntos práticos correntes, do que qualquer outra que tu ou eu possamos conceber sentados nos nossos cadeirões - o método alternativo preferido". Assim sendo, analisar a linguagem comum resulta em analisar a realidade: "quando examinamos o que havemos de dizer e quando, que palavras haveríamos de usar em que situações, não estamos a olhar apenas para palavras (nem para "sentidos", o que quer que isso seja), mas também para as realidades, para falar acerca das quais usamos as palavras: estamos a usar uma pronunciada capacidade das nossas palavras para penetrar a nossa percepção dos fenómenos - embora não como um árbitro definitivo". [1]

Ora, para Donald Davidson [2], a existência de uma linguagem que serve para comunicar prova que os falantes que partilham essa linguagem também partilham uma visão do mundo que, em linhas gerais, é verdadeira. Davidson coloca no foco da sua análise a actividade interpretativa, consistindo em procurar compreender o discurso de outros falantes como compreensão daquilo em que eles acreditam: é esse intérprete que, para compreender o discurso alheio, tem de partilhar com o autor desse discurso uma visão do mundo globalmente correcta. Vejamos o argumento.
Acreditar em alguma coisa, e identificar e descrever essa crença particular, só é possível dentro de um sistema alargado e complexo de crenças inter-relacionadas. Por exemplo, que eu acredite que "uma nuvem está a passar em frente do sol" e descreva essa crença, só é possível sobre o pano de fundo de uma densa malha de outras crenças apropriadamente associadas com essa: que o sol existe, que as nuvens são feitas de vapor de água, que a água pode existir no estado líquido mas também no estado gasoso, ... , e assim sucessiva e indefinidamente.
Precisamente pela mesma razão, eu só posso compreender o que outra pessoa diz se o meu método de interpretação do seu discurso não supuser que o seu sistema de crenças é fortemente errado. Se eu suponho (por exemplo, porque ela o diz) que outra pessoa acredita que (A) = "uma nuvem está a passar em frente do sol", suponho que essa pessoa tem uma malha de crenças (α) relacionada com (A). E, para eu poder interpretar a crença dessa pessoa como sendo a crença em (A), tenho de supor que (α) seja suficientemente parecida com a minha própria malha de crenças relacionadas com (A). Isto é: interpreto a outra pessoa na base das minhas próprias crenças; eu só posso compreender o que os outros dizem se os interpretar como partilhando comigo um vasto (mesmo se não total) acordo acerca do que está relacionado com o que é dito. Mesmo para poder discordar de algumas das coisas em que o outro acredita, tem de haver uma ampla base de acordo entre nós: é sobre o pano de fundo das concordâncias que as discordâncias são inteligíveis. Não posso compreender alguém acerca de quem suponho que a generalidade das suas crenças são erradas.
Mas, o que me garante que o nosso domínio de acordo coincida precisamente com o que é verdade? Nada garante. Não posso garantir quais são as partes do domínio de acordo entre mim e os meus interlocutores que são verdadeiras: no entanto, muito tem de ser verdade para que algo seja falso. Davidson pretende demostrar isso com o argumento do "intérprete omnisciente", a que não vamos passar (até por o considerarmos falacioso, como já tivemos oportunidade de explicar noutro local).

O que me interessa aqui e agora é aplicar o raciocínio acima a uma comunidade política. Por exemplo, a democracia portuguesa. Se, como tem acontecido, continuarmos a rasgar a base de comunicação decente dentro desta comunidade, vamos acabar mal. Se vivemos no mesmo mundo, no mesmo barco – e se precisamos de nos entender acerca do que fazer para navegar melhor – não podemos continuar a julgar como basicamente errado quase tudo aquilo que afirmam e julgam os outros membros da nossa comunidade, como se eles vivessem noutra terra e pudessem ser completamente indiferentes à nossa sorte comum. Sob pena de perdermos de vista o próprio mundo que nos é comum e não espera parado que saibamos o que queremos. Grande parte da política portuguesa nos últimos tempos tem passado pela desqualificação da própria palavra dos agentes: distorcer, desconfiar, desqualificar, baralhar os planos.

Continuar nesta linha de destruição do outro como interlocutor e pensar que o país pode ser viável dessa maneira - é como pensar que é possível existir um par de namorados ligado por um grande amor apesar de cada um julgar o outro absolutamente inconsciente, irrealista, mal informado, perverso, mentiroso, …

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REFERÊNCIAS

[1] AUSTIN, J.L., "A Plea for Excuses", in Philosophical Papers, Oxford, Clarendon Press, 1979 (para a terceira edição, sendo a 1ª edição de 1961; trata-se de uma reimpressão do texto publicado pela primeira vez em 1957), p.182

[2] , DAVIDSON,D., "The Method of Truth in Metaphysics", in Inquiries into Truth and Interpretation, Oxford, Clarendon Press, 1984 (republicação do original de 1977), pp.199-205

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Publiquei este texto aqui no blogue há um ano, contado quase dia por dia. Agora que alguns, depois de terem aberto a cova, vão começar a lembrar-se de pedir moderação na linguagem política, eu (1) apoio e (2) viro-me para os fautores do clima de antagonismo reinante e digo-lhes que o primeiro passo para uma nova convivência é reconhecer o mal que fez à comunidade o "vale tudo".

proposta de revisão constitucional apresentada por sectores iluminados da direita pós-modernaça


Artigo novo
Alínea 1. O cidadão José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa goza de todos os direitos políticos e cívicos previstos na Constituição e na lei, com as seguintes excepções temporárias: não pode ser militante de nenhum partido, não pode ser secretário-geral do PS, não pode candidatar-se a eleições legislativas, não pode ser primeiro-ministro, nem ministro, nem secretário ou subsecretário de estado, nem director-geral, nem pode participar em Conselhos Europeus onde estejam em análise assuntos que interessem a Portugal.
Alínea 2. O termo "temporário" na alínea 1 deve ser entendido no seguinte sentido: durante os próximos 200 anos, com a possibilidade de renovação por dois, três ou quatro períodos de igual duração.

(Não é isto que ilumina estas coisas?)

produtores de crises de categoria global

10:45

A crise portuguesa agrava a crise europeia, como notam vários órgãos da imprensa estrangeira. Portugal pede solidariedade à Europa e, em troca, agrava-lhe as dificuldades. Isso faria parte do plano de Passos Coelho, vingar-se das instituições europeias que poderiam evitar-nos um governo do FMI, assim dificultando a coligação PSD+FMI?

(imagem surripiada ao Miguel)

23.3.11

a mais recente contribuição de Manuela Ferreira Leite para a teoria política pós-moderna

22:54

Passos Coelho tem um programa eleitoral, apresentado por via oral deste modo: «Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.» Foi isso que disse Cavaco Silva na tomada de posse como PR, é isso que diz PPC às segundas, quartas e sextas. Esse programa eleitoral será substituído na primeira oportunidade exactamente pelo seu contrário, por um vendaval de destruição do Estado e entrega dos bons negócios aos privados, rendendo algum dinheiro no curto prazo e empobrecendo ainda mais o país quando se tornar evidente que o interesse comum não é o somatório dos interesses das empresas privadas. A questão é saber como vai o PSD fazer a transição do programa eleitoral para o programa de um eventual governo Passos Coelho. Aí entra a mais recente contribuição de Manuela Ferreira Leite para a teoria política pós-moderna.
Hoje, no Parlamento, questionada sobre as alternativas (o projecto de resolução do PSD era o único que tinha uma alínea para rejeitar a proposta do governo, mas não tinha nenhuma alínea sobre a alternativa), Manuela Ferreira Leite respondeu: "Não quis entrar em politiquices, por isso não falei de medidas concretas." É essa a receita: "política de verdade", nada de politiquices, o PSD está contra mas não vai agora andar a discutir medidas alternativas. Era o que mais faltava. Esperem que logo verão.
De momento, essa conversa já convenceu as direcções partidárias do CDS, PCP, Verdes e BE, que votaram o projecto do PSD que consagra essa ideia de que "medidas alternativas é politiquice".

prendas ricas a preços extraordinários


O livro La Traversée de la Langue: Sur "Le Livre de l'Intranquillité" de Fernando Pessoa, da autoria da Professora Maria Augusta Babo, editado pela Livros Labcom, da Universidade da Beira Interior, acaba de ser disponibilizado em linha (formato pdf), de forma completamente gratuita e completamente legal. Encontra-se aqui.

programa de governo da coligação negativa

20:07

Acabou no Parlamento a votação dos projectos de resolução sobre o PEC.

Foram aprovados todos os projectos de resolução (PSD, PCP, BE, CDS, PEV), com votos a favor de PSD, CDS, PCP, BE, PEV e votos contra do PS.
Só o projecto de resolução do PSD foi aprovado na íntegra, porque não tinha nenhuma alínea com propostas alternativas. Nos outros casos foi aprovada a primeira alínea (rejeição da proposta do governo) e rejeitadas as demais, que continham ideias para um PEC alternativo.

Portugal é grande

19:00

As modalidades do reforço do fundo de socorro do euro (EFSF) só vão ser definidas pelos líderes europeus em Junho devido às dificuldades políticas e eleitorais de alguns países que os impedem de assumir compromissos até lá.

Isto promete: a Europa, não apenas Portugal, arrasta os pés no ataque à crise. A coligação negativa deve ficar satisfeita, porque assim ficamos mais "soberanos" (menos Europa, mais soberania, dizem por esse lado).



novas oportunidades, casos de abuso


Manuela Ferreira Leite, quando era presidente do PSD, achou que Pedro Passos Coelho nem pinta para deputado tinha. Por isso não o deixou ser candidato. Agora acha que ele serve para primeiro-ministro? Ou a mudança de discurso é apenas vingança?

politiquice, diz ela

17:33

Manuela Ferreira Leite no debate do PEC: "Não quis entrar em politiquices, por isso não falei de medidas concretas."

resumo do discurso de Manuela Ferreira Leite no debate do PEC

17:28
O que Manuela Ferreira Leite, ex-ministra das finanças do PSD, disse resume-se a isto:

«Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.»
Cavaco Silva, tomada de posse como PR, 9/03/2011, aqui

«Poder-se-á dizer que [Cavaco ] esqueceu a crise externa e a influência da crise externa na nossa própria crise.»
General Ramalho Eanes, presidente da comissão de honra da candidatura de Cavaco Silva a PR, sobre o discurso de posse, aqui
O que Manuela Ferreira Leite não disse:
“Não posso prometer que não haja aumento de impostos.”
Pedro Passos Coelho, num encontro com blogues, 18/03/2011.

Este é o filme da rasteira pedida por António Capucho.

no diário da Mulher Aranha

alguém pensou a sério no dia seguinte?

13:08

Teresa de Sousa, hoje no Público:
(…) Não se sabe ainda como reagirão os nossos parceiros à nova condição em que o primeiro-ministro chega a Bruxelas nem em que medida isso afectará as negociações do Conselho Europeu. Mas uma coisa é certa: a crise política aberta pelo PSD anula, de um só passo, todo o esforço desenvolvido até agora. (…) Tínhamos ao nosso alcance uma bóia. Conseguimos o feito, verdadeiramente histórico, de optar por um naufrágio. Quisemos afastar o destino da Grécia. É esse, porventura, o destino inevitável que nos espera. (…) Passos Coelho (...) tem de dizer o que pensa que vai acontecer no Conselho Europeu e como é que tenciona lidar com a situação. Não no médio prazo, que é o que corresponde às suas ideias sobre as reformas de que o país precisa para sair deste garrote financeiro e económico. Essas conseguem compreender-se. Mas no curto prazo, que por sinal é já amanhã. O dia seguinte ao Conselho, quando não conseguirmos honrar os compromissos da dívida e nos mandarem recorrer imediatamente ao fundo. Na versão a que tivermos direito. Provavelmente aquela que virá acoplada a um PEC bem mais duro.(…)
Resta saber se o efeito pretendido pelo PSD não é mesmo forçar a vinda do FMI, uma profecia de Passos Coelho que estava a falhar. E, de preferência, forçar a vinda do FMI durante o governo Sócrates, para daí limpar as mãos. A história de Pedro e o Lobo desta vez é diferente: Pedro não pede que o socorram do lobo; Pedro convida o lobo e depois grita "ai que ele come-vos, ai que ele come-vos".

(Citação roubada ao Miguel.)

santos de pau carunchoso

09:48

Cavaco culpa Sócrates pela falta de acordo político.

Cavaco Silva, presidente-candidato, insistiu, durante a última campanha eleitoral, em discutir temas de governação e, aí, mostrar-se sempre crítico do governo. Cavaco Silva aproveitou a noite da vitória, depois de um dia de reflexão e um dia de votação a separá-lo da campanha eleitoral, para colocar ácido nas feridas que deviam ter começado a ser tratadas nesse dia. Cavaco Silva aproveitou a tomada de posse como PR para verbalizar a sua oposição ao governo, para estender a mão a manifestações de rua "contra a situação" e para se posicionar do lado dos que defendem que os portugueses não podem fazer mais sacrifícios. Isto é: Cavaco Silva posicionou-se, repetida e coerentemente, como vértice da oposição. Vem, agora, com pezinhos de lã, fazer-se de vítima. Não tem razão nenhuma para isso: o primeiro factor de crise foi um PR que, clara e repetidamente, deu ao país sinais de que estava em Belém para correr com o governo. Um PR de quem se poderia esperar que usaria toda a informação que Sócrates lhe desse para a usar contra Sócrates, contra o governo, a favor dos seus amigos políticos. Nesse sentido, a crise em curso é o primeiro fruto da última eleição presidencial.

22.3.11

A Cacatua Verde

18:18


“A Cacatua Verde”, de Arthur Schnitzler, ainda está no D. Maria até 27 de Março, encenada por Luís Miguel Cintra, numa co-produção com o Teatro da Cornucópia. Já fomos ver a 5 de Março, mas ainda não houve tempo para falar disso aqui. Façamo-lo agora, embora brevemente.
A peça, em si mesma, como texto, é deslumbrantemente filosófica e política. A acção desenrola-se na noite desse emblema da Revolução Francesa que foi a tomada da Bastilha, numa cave de Paris, numa taberna original. Original por aí se fazer cada noite uma estranha performance: há actores que fazem de marginais, que se gabam das malfeitorias que praticaram, dando a ideia de serem gente perigosa que pode a qualquer momento revisitar os mesmos crimes; há nobres à procura de excitação que vão à taberna para sentirem o frémito do perigo, de estarem no meio daqueles “criminosos”, de que já não se sabe se o são com ou sem aspas. E depois há os que praticaram crimes e fazem de conta que só fazem de conta o que verdadeiramente fizeram. E, a páginas tantas, a mentira e a verdade tornam-se indistinguíveis para muitos dos circunstantes, circunstantes que deixam de estar claramente distribuídos pela categoria dos actores e pela categoria dos espectadores. Estar do lado da verdade ou estar do lado da mentira torna-se um problema vivido, tal como estar do lado dos que ludibriam ou dos que são ludibriados deixa de ser fácil de distinguir. Eu, que nem sou grande apreciador do tema do teatro dentro do teatro, leio este texto como uma excelente apropriação dessa questão para a ultrapassar e lhe dar uma volta filosófica pertinente, ao mostrar que o problema maior é a nossa dificuldade em distinguir as várias camadas da realidade e as várias máscaras com que ela se nos apresenta.
A leitura do texto cria (pelo menos a mim, criou) a expectativa de um turbilhão: com um elevado número de personagens/actores em palco simultaneamente (25), num crescendo de ambiguidades que se retorcem sobre si mesmas, orquestradas pelo taberneiro/demiurgo daquele universo fechado a espelhar o vasto mundo convulso que está cá fora, a caminho de uma violência engendrada pela própria dinâmica de certas duplicidades – esperava a visualização de um vórtice em palco. Fiquei um pouco surpreendido por um ritmo contido, que por momentos funciona, por deixar espaço ao espectador para digerir as voltas que o mundo dá – mas, ritmo contido esse que, outras vezes parece uma “câmara lenta” forçada. Esse ritmo de slow motion pode perfeitamente ser um recurso estilístico, destinado a obrigar-nos a pensar em algo que não deve ser consumido como se fosse uma representação naturalista – e que somos obrigados a aceitar como encenação, como artifício, como apresentação, como quadro pintado com as tintas escolhidas pelo pintor e não fotografia de reportagem. Talvez seja isso, mas, naquele dia, esse tempo lento imposto a uma história em turbilhão causou-me desconforto. O que, para teatro do bom, não é mau.
Vale muito a pena. Sugiro a leitura do texto, antes ou depois de ver: vale uma valente reflexão sobre a política.
Ah, já me esquecia: “A Cacatua Verde” era o nome da tal taberna. E não há cacatuas verdes.

(Nota: texto corrigido após comentário de JPN.)

campanha eleitoral

12:50

Olhando para o PEC apresentado ontem no Parlamento, uma coisa salta à vista: o governo não está em campanha eleitoral. Poderá dizer-se o mesmo de todos os agentes políticos relevantes?

para que serve o próximo congresso do PS ?

11:08


Em democracia representativa, os partidos políticos servem para gerar respostas aos desafios que a comunidade enfrenta, para apresentar alternativas na base das quais o eleitorado pode escolher de um leque suficiente de opções diferentes. Todos os partidos têm de pensar a sua actuação à luz dessa sua responsabilidade e missão.
Vem isto a propósito de um congresso do PS que está aí à porta. Até há pouco tempo, um espectador desprevenido, como eu, pensaria que tal congresso não passaria de mais uma cerimónia para marcar calendário. Vistas as evoluções recentes, e as previsões meteorológicas, não pode ser assim. A presente situação nacional coloca a esse partido – e ao seu congresso – acrescidas responsabilidade. O congresso do PS tem de poder debater e escolher entre as principais opções que se abrem a esse partido quanto ao papel que pode jogar no actual momento e no futuro próximo.
Quem defende que o PS deve coligar-se com o PSD para salvar o país, deve apresentar-se ao congresso a defender isso. Os que acham que é tempo de o PS se entender com a esquerda da esquerda para mudar o rumo à governação, noutra atitude face "aos mercados" e face "a Bruxelas", devem apresentar-se ao congresso a explicar bem o que isso quer dizer. Os que entendem que o PS deve continuar contra tudo e contra todos, continuando a bater na tecla de um governo minoritário (o "PS sozinho"), têm de ir ao congresso levar a votos essa opção. Além disso, no caso de Sócrates chegar a demitir-se de PM, chegou o tempo de o PS discutir se quer continuar a tê-lo como líder ou não.
Em suma: o congresso do PS tem de decidir se quer beber o cálice deste ciclo até ao fim, com este rumo e este SG - ou se quer mudar de vida e entrar numa nova fase. Qualquer uma dessas opções é respeitável. O que não é respeitável é que um partido democrático não arranje maneira de discutir o seu futuro, em toda a liberdade.
Um grande partido nacional como o PS não pode, chegado a este ponto, gastar um congresso a discutir questões interessantes mas irrelevantes para o fulcro do que aí vem. Nem pode fazer uma eleição para secretário-geral em que os oponentes a Sócrates sejam apenas uns ilustres militantes que se apresentaram como candidatos a líderes apenas por truque regulamentar destinado a permitir-lhes apresentar uma moção de orientação política global (circunstância que já aqui critiquei anteriormente)... enquanto os "verdadeiros candidatos" se arrastam pelos corredores a conspirar baixinho. Isso seria, face ao país, pouco sério. E poderia ser, para o próprio PS, uma espécie de suicídio ritual (embora, em política, quase todos os suicídios sejam temporários).
Se é preciso mudar à última hora os regulamentos, mudem-nos. Não caiam é na loucura de apresentar ao país um congresso que pareça um jogo de sombras.

santa ingenuidade

10:12

Mário Soares pede intervenção de Cavaco para “impedir uma catástrofe”. «Mário Soares, ex-Presidente da República e ex-primeiro-ministro, acredita que só Cavaco Silva pode evitar que a crise política agrave a crise financeira do país e pede ao Presidente que intervenha na contenda entre PS e PSD para “impedir uma catástrofe”.»

Cavaco Silva há muito que deixou de se interessar por essas "questões menores". Comparado com a sede de vingança por terem mostrado as suas estreitas relações com o bando do BPN e por terem tido a ousadia de falar em voz alta do exemplar "momento português" da casa da Gaivota, o país não interessa nada. A narrativa do herói português, do Professor que consegue andar vinte anos no topo do Estado e continuar a falar de fora "dos políticos", foi manchada - e CS não perdoa isso. Só lhe está a custar que a vingança não venha do seu clã, já que à mentalidade política de CS interessa mais o clã do que o partido. Mas essa preocupação está a milhas de um olhar presidencial sobre o país.
E, claro, não se pode dizer em voz alta qual a verdadeira explicação para Sócrates não ter dito antecipadamente a Cavaco o que ía fazer a Bruxelas na semana passada. Não se pode dizer em voz alta que, se Cavaco soubesse (ou pudesse assumir que sabia), tinha estourado com a estratégia de Sócrates para convencer os outros líderes europeus que Portugal está determinado em honrar os seus compromissos e merece o apoio dos seus pares.
Ter um homem em processo de vingança no topo do Estado é muito perigoso. Seria bom que os que o julgam um aliado compreendessem isso, tal como já compreenderam os que estão na mira de fogo.

(Quanto ao resto, podemos começar a conversa por aqui.)

20.3.11

conversas portuguesas


- Por favor, diga-me, para que lado fica o Rossio?


- Tu és um labirinto. E eu sem mapa. Orienta-me, vá lá. Podes dar-me a mão, um labirinto é um lugar difícil, temos de ser uns para os outros para não nos perdermos.

- O Rossio! O Rossio!

- Sempre em frente, sempre a descer.