26.11.11

Um Método Perigoso, Cronenberg.

16:51


O último filme de Cronenberg, de fresco entre nós, tem como título Um Método Perigoso. O filme envolve acontecimentos reais do nascimento da psicanálise e da psicologia analítica nas primeiras décadas do século passado, nomeadamente as relações, científicas e outras, entre Sigmund Freud, Carl Gustav Jung, Otto Gross e Sabina Spielrein.
O que nos interessa permanentemente em Cronenberg é a tematização do corpo como matéria do espírito, bem como a tematização múltipla da metamorfose como condição. A profundidade e diversidade dos olhares sobre essa paisagem, que o realizador canadiano nos tem oferecido desde o tempo em que o seu cinema era quase marginal, levou-me antes a chamar-lhe "o filósofo Cronenberg".
E agora?
Estamos, claramente, muito longe dos viscerais “A Ninhada” (1979), “Videodrome” (1983) ou “Crash” (1996), do narcótico “eXistenZ” (1999), mas também do mais "espiritual" “Spider” (2002) ou dos mais indirectos e depurados “Uma história de violência” (2005) e “Promessas Perigosas” (2007). Não vou ao ponto de dizer, como outros já fazem desde filmes anteriores, que este Cronenberg já não é um Cronenberg. A questão das relações tortuosas entre o corpo e a mente não fugiu completamente de cena. Contudo, na aparência, este filme trata essa questão num nível superior de abstracção, falando dos cientistas que estudam tal coisa e focando-se a maior parte do tempo nessa observação de cientistas. Admito que este filme pode ser visto apenas como uma história bem contada, ainda por cima sobre factos históricos, misturando um pouco de amores proibidos com investigação - mas, no conjunto, parecendo tudo bem comportado e relativamente domesticado (sim, o "doméstico" parece levar a melhor, pelo menos no caso de Jung).
Só que há outro buraco da fechadura por onde espreitar. Cherchez la femme. Estranhamente, alguns críticos de cinema falam do filme como se ele fosse acerca das relações entre Freud e Jung. Entre dois grandes do estudo do inconsciente. Quase esquecendo Sabina Spielrein, reduzindo-a quase a uma aprendiz que por ali anda no oceano de tensões entre os dois homens cientistas. Acho que essa centragem em Freud e Jung é um erro, por ser uma leitura historicista do filme, quase uma tentativa de leitura realista. Só que Cronenberg não pode ser lido assim. A mulher, Sabina Spielrein, é a personagem que encarna tudo o que há de permanente em Cronenberg. É ela que transporta a grande metamorfose que acontece no filme: é ela que passa de "doente", de "doida", de paciente, a psicanalista, a cientista ao mesmo título de Freud e dos outros. É ela que dá corpo ao duplo aspecto da metamorfose: a continuidade convive com a mudança. Peça perfeita de um puzzle sobre a psicanálise, o elemento de continuidade é o facto de Sabina se excitar com a dor e a humilhação. Esse é traço vincado da "doença" pela qual a hospitalizam, mas esse traço permanece depois de ela passar para o lado dos analistas. Mesmo a cientista, operada essa grande mudança, continua a procurar o mesmo tipo de prazer.
Afinal, este Cronenberg, que parecia ter intelectualizado o seu tema de sempre, passa uma ideia muito mais radical: evitam de tentar fugir aos recantos da vossa mente e do vosso corpo, evitam de tentar fugir pelo caminho da intelectualização, porque mesmo na intelectualização o que é fundador permanece.

Post Scriptum. Houve quem tratasse de Sabina Spielrein sem a reduzir a amante. Por exemplo, o documentário My Name was Sabina Spielrein, de que deixo um momento.






Golgona Anghel.

11:47

Vim porque me pagavam,
e eu queria comprar o futuro a prestações.

Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos de Páscoa e pulseiras
de lata.

A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo, falavam também de liberdade.
Quanto mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.

Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.

Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.

Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?
Eu só penso em como regressar a casa;
e que bonito me fica a esperança
enquanto apresento em directo
a autópsia da minha glória.

Golgona Anghel, in Vim Porque Me Pagavam (Lisboa, Mariposa Azul, 2011)

25.11.11

segundo Wittgenstein, se um leão falasse não o poderíamos compreender.




25 de Novembro.

14:31

Hoje é o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, assim declarado pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

É que, de acordo com as estatísticas oficiais da Justiça...

... em 2010, 31.679 mulheres caíram e bateram com a cara no lavatório em 3 locais diferentes.

... em 2010, 31.679 mulheres tropeçaram e bateram em cheio na maçaneta da porta.

... em 2010, 3.701 crianças caíram das escadas várias vezes seguidas.

(Esta linha anterior mostra uma parte da razão pela qual prefiro a expressão "violência doméstica", em vez de violência contra as mulheres. Mas isso não importa, quando não houver violência contra as mulheres, outras violências também estarão a ir pelo mesmo caminho.)



Portugal não é a Síria.

11:15

Do que vi acerca do dia de ontem, dia de greve geral, há dois factos que julgo extremamente preocupantes.

Primeiro, novos distúrbios frente ao parlamento, com uns "indignados" a pensar que a liberdade é um oceano sem margens e que os direitos deles são os únicos direitos à face da Terra. Além do mais, estes "indignados" servem magnificamente o propósito de desmobilizar a "gente normal", sendo que a "gente normal" sempre foi desprezada pelo radicalismo, estando aí uma das razões para o radicalismo nunca ter chegado a lado nenhum. Ouço dizer que estes "indignados" são precários qualificados, mas duvido dessas qualificações quando vejo na TV alguns exaltados a fornecer justificações de inteligência zero para os seus intentos, como aquela jovem que fala da invasão da escadaria como uma tentativa de chegar mais perto do órgão de representação popular. Quão mais perto querem chegar; querem sentar-se ao colo dos deputados para lhes explicarem palavra por palavra a sua indignação? Quanto mais esta "indignação" se tornar um circo, mais ela será, civicamente, uma fraude.

Segundo, aparecem relatos de agressões que teriam envolvido polícias à paisana a malhar duramente em jovens envolvidos nas manifestações mais ou menos inorgânicas (mas estando os jovens já fora das manifestações). A Shyznogud publica um desses relatos em vídeo. Sem querer precipitar-me, porque o vídeo não é evidente sem enquadramento, e porque não ouvi nenhuma tentativa de explicação alternativa, parece haver qualquer coisa de muito estranho. Designadamente, no vídeo é notório que um dos agressores, quando chega a polícia fardada, deixa tranquilamente o seu afazer de espancar, descobre a cabeça e permanece no local, observando, como se estivesse à espera que os polícias fardados limpassem o chão da porcaria que ele tinha estado a fazer. Estaria entre colegas? O vídeo é suficientemente explícito para permitir essa averiguação. E essa averiguação tem de ser feita. Se isto ficar impune, sem investigação transparente e sem consequências, deixamos de nos comparar com a Grécia para nos compararmos com a Síria. Sim, não temamos as palavras: se os aparelhos do Estado forem usados para reprimir, pelo uso ilegal da violência, cidadãos apanhados na rua e "justiçados" de improviso, estaremos no método sírio. E não vamos ficar à espera que chegue a nossa vez para começarmos a agir contra essa concepção totalitária de segurança e ordem pública. Ou vamos?

Do dia de ontem ficam-me estas duas preocupações profundas acerca da nossa vida pública. Espero a resposta desta democracia a estas duas situações. Ou vamos deixar andar até todo o país se tornar uma imensa Madeira jardinista? É que foi a complacência com o desmando que produziu o monstro da Madeira. Estamos cientes do perigo?

24.11.11

prendas para dia de greve. Europa.


E la nave va, de Federico Fellini.
A odisseia de um gigantesco transatlântico navegando em mares agitados, mas de plástico, com ondas feitas por gigantescas ventoinhas de estúdio. Uma cantora de ópera tão real que parece ser uma homenagem à Castafiore do Tintin. E um rinoceronte mal humorado, talvez aquele que o rei de Portugal mandou ao Papa de Roma e não chegou, com menos sorte do que o elefante celebrado por Saramago.
Europa, digo eu.
Cena final.



a arte da greve.

Greve, da ilustradora Catarina Sobral. Livro, animação.
Uma prenda com os meus respeitos para todos os piquetes de greve que fazem o seu trabalho de persuadir - e o fazem sem atacar o direito ao trabalho dos que pensam de modo diferente.
Uma prenda com a minha solidariedade para todos os que não fazem greve, querendo fazê-la, por ser insuportável a sua precariedade.

E o meu desprezo para os que tentam menorizar o direito à greve.


greve. será que com um desenho eles percebem?

Percebem o quê?! Razões para a greve, ora.


Tardi & Pennac, La Débauche

Para não deixar dúvidas, eis o descritivo do conteúdo da jaula:


de greve em greve.

um bom trabalho em dia de greve.

sondagem em dia de greve.

11:10

vim porque me pagavam.

10:34


Porque falta meia hora antes de

tomar o comprimido para dormir,
porque mesmo depois de tanto tempo
fazes de mim o filho com síndroma de Down
de Arthur Miller,
porque escrever não é só abrir cabeças
com o bisturi de Lacan,
e porque um poema não é a Isabella Rossellini
a chorar todos os sábados à noite,
nem o casal encontrado abraçado
na paralisia bucal do Vesúvio.
Porque a poesia não é a ponte Mirabeau
num cartaz de néon da adolescência,
porque hoje, quando ligaste,
era apenas porque te tinhas enganado no número,
porque estou cansado, voilà,
e não consigo evitar a noite,
penso agora em ti, Juliana,
heroína no sentido naturalista do termo,
penso sobretudo no teu arzinho
de provocação e de ataque.

Podias ter sido a Maria Eduarda
do cinema norte-americano,
a rapariga que ajudou a pôr fim à guerra em Vietname,
a Frida Kahlo e o Kofi Annan,
a estátua de Notre Dame.

O teu sentido reformista,
o teu olhar de Eça socialista,
cá está,
tinhas cabeças para embaixadora da boa vontade,
pés para andar nos corredores da ONU,
o feitio da botina, a mania, a despesa.

Mas continuas a dormir no teu cacifo húmido,
de cara para a parede
enquanto 20 repúblicas foram perpetuando
campanhas eleitorais e golpes de estado
nos jornais com os quais limpas os vidros da cozinha.

Coitada, coitadinha, coitadíssima,
permaneces na sala, um pouco pálida e fraca,
mas restituída aos deveres domésticos
e aos prazeres da sociedade!

O feitio da botina, a mania, a despesa,
o cheiro a terebintina,
Ó Juliana Couceiro Tavira, per omnia saecula,
chega para cá a garrafa e o cinzeiro;
temos assuntos por tratar e meia hora de créditos.



Golgona Anghel, in Vim Porque Me Pagavam (Lisboa, Mariposa Azul, 2011)

apontamentos sobre uma greve que corre hoje os seus trâmites.

10:05

Confesso que me faz uma certa confusão o "júbilo" de alguns comentadores focado na predominância do sector público como empregador dos grevistas de hoje. É sabido que isso se deve, em larguíssima medida, às represálias, directas ou indirectas, imediatas ou a prazo, a que estão sujeitos os trabalhadores do privado que arriscam tão clara exibição do seu posicionamento. A precariedade não é só para os "recibos verdes" e choca-me que haja quem aceite o medo como factor de relações laborais. Não sendo eu um especial entusiasta de greves, acho abominável que alguém quase se rebole de gozo por esse direito sofrer reais restrições para a maioria dos trabalhadores deste país.

há outro caminho.

09:00

23.11.11

«Não se pode mudar na rua o que os portugueses decidiram nas urnas.»


«Não se pode mudar na rua, o que os portugueses decidiram nas urnas», afirmou o ministro da Defesa hoje a propósito da greve geral.

Tem toda a razão. Os portugueses votaram em partidos que prometeram exactamente o contrário do que agora estão a fazer. Portanto, a greve geral parece ser a exigência de que o governo cumpra o programa com que se apresentou às urnas. Nem na rua, nem nos gabinetes: não se muda assim o que ditaram as urnas. Esse é o grande pecado deste governo.

E, já agora, também seria bom que o governo ouvisse o ministro da defesa, quando este acrescenta: «o país precisa que os sindicatos se tornem parte da solução». Sem dúvida. O governo vai começar a negociar seriamente, é isso?

BD e alta política.



Saiu na Casterman já este semestre, saiu entretanto em português no Brasil: 12 Septembre, l'Amérique d'après. Organizado por Pascal Dellanoy e Jean-Christophe Ogier, não é exactamente um álbum de Banda Desenhada, mas é um livro com banda desenhada, com ilustração e com textos de gente desse mundo, dos dois lados do Atlântico, a reflectir sobre o mundo depois do 11 de Setembro de 2001. Tem textos muito bons, alguns a cair para o intimista, em alguns casos são verdadeiras trocas epistolares, mas em geral num tom de seriedade plural e despretensiosa. Surpreendentemente (para mim), o texto de Art Spiegelman (dos Maus) é de uma banalidade atroz. Uma das belas peças deste conjunto é uma história curta de Joe Sacco (de Palestina), intitulada O projecto Nostradamus, uma ficção política acerca dos EUA num futuro tão distante quanto próximo. Damos apenas uma pequena sequência desta peça (cinco pedaços recortados e desmontados da prancha verdadeira, da versão brasileira).
É só para abrir o apetite.
E depois não se esqueçam: BD é cultura.





introdução ao dia de amanhã.


A saga do homem que queria ser Califa em vez do Califa.
Só isso. Tudo o resto que fazia ou dizia tinha apenas aquele propósito.
Iznogoud nunca lá chegou, porque René Goscinny e Jean Tabary eram tipos prudentes.
Mas nem sempre a história foi tão mansa com a arraia-miúda.
Acho que essa é uma razão que assiste a alguns dos que amanhã vão fazer greve.



Sócrates foi estudar sociologia para Berlim.

mapa da Europa.




Grafitos de Lisboa.

dúvidas manifestas.

11:01

Mário Soares, Pedro Adão e Silva, Joana Amaral Dias, Medeiros Ferreira, Vasco Vieira de Almeida, entre outras personalidades, tornam hoje público um manifesto em que apelam “à mobilização dos cidadãos de esquerda que se revêem na justiça social e no aprofundamento democrático como forma de combater a crise”.

Tenho muitas dúvidas que a mobilização útil seja a "dos cidadãos de esquerda".
Tenho mesmo dúvidas de que a tarefa principal seja a "mobilização", pelo menos o tipo de mobilização que se associa a manifestações e greves.
Isto não quer dizer que seja contra as greves ou contra as manifestações: cada greve e cada manifestação, além de actualizar um direito constitucional essencial ao moinho da democracia, deve ser apreciada pelo seu conteúdo concreto, objectivos, meios, justificações específicas. Abomino a condenação da luta que é feita com o espírito dos instalados e dos ordeiros.
Mas não acho graça nenhuma a que se compare, como faz este manifesto, a "rua árabe" com a rua das nossas democracias. A "rua árabe" é a rua da resistência à ditadura e à violência, "a rua" numa democracia tem outro sentido e outra responsabilidade. E outras alternativas. Confundir o essencial é bater nas pernas da liberdade até ela tombar. E isso não se pode admitir, porque "a rua" também pode servir para levar da democracia à ditadura.
Duvido que a tarefa principal seja a "mobilização", porque acho que a tarefa principal é compreender. O que nos atolou no individualismo no plano das relações sociais? O que instalou uns tantos à custa de muitos outros, sendo que "os instalados" não são só "os capitalistas", mas também os que recebem de troco mais do que aquilo que contribuíram. O que atolou a Europa neste novo nacionalismo mal assumido, que destruiu a noção de interesse comum? Que ideologias e que programas políticos fizeram com que os Estados perdessem o pé face ao poder de grupos específicos da finança internacional? Que ideias transformaram o trabalho na coisa menos valiosa do mundo, quando o trabalho somos nós e, assim, fomos nós que nos transformámos na coisa menos valiosa do mundo?
A tarefa principal não é "a mobilização", a tarefa principal é a compreensão - para não se dar o caso que "a mobilização" apenas queira voltar à rotina anterior à crise, a mesma rotina que nos trouxe aqui. As ciências sociais falharam, entre elas a Economia em primeiro lugar, mas não apenas ela. Falharam porque pensaram o humano que não existe, pensaram o mito moderno do humano feito de pés de barro, barro amassado com o mito moderno da razão mais o mito moderno da autonomia individual. As ciências sociais falharam porque se revelaram fundamentalmente incapazes de compreender os colectivos, e a relação entre o micro e o macro, e a importância do tempo (hoje todas as políticas são desgraçadamente de curto prazo e isso nos mata), e porque se revelaram incapazes de compreender como é que as ideias se entranham no mundo e o destroçam, que é o que o "atomismo social" agora pariu à vista do monstro e como monstro que é. A tarefa principal não é "a mobilização", a tarefa principal é a compreensão - e não compreende nada quem insiste em fazer de conta que a "velha esquerda" e os velhos tropismos da esquerda podem fazer hoje os milagres que não fizeram no passado, e pode evitar agora os crimes que cometeu no passado. Não compreende nada quem só vê Estado contra Mercado, não compreende nada quem esqueceu a necessidade de auto-organização dos cidadãos, de tomarmos em mãos partilhadas a nossa vida partilhada.
É, precisamente, por a tarefa principal não ser "a mobilização", mas, antes, a compreensão, que tenho muitas dúvidas que o destinatário útil de um manifesto actual sejam "os cidadãos de esquerda". Ser ou não ser de esquerda é um ponto essencial, concordo, porque hoje mais do que nunca é de "outra coisa" que precisamos seriamente. Só que ser ou não ser de esquerda não pode ser só uma coisa das tripas, tem de ser também uma coisa da capacidade para olhar para o mundo e pensar. Se for possível pensar juntamente com os "cidadãos de direita" que estão a ver a coisa mais negra cada dia, eu quero essa partilha. E, então, fazer isto ou aquilo, de esquerda ou direita, pode não ser o bilhete para o estádio da mobilização ou para o estádio do imobilismo: pode ser o resultado de uma nova capacidade para compreender o mundo, construída sobre as ruínas provocadas pelo pensamento habitual, que nos trouxe aqui. E esse "pensamento habitual" tem, decerto, muitos ingredientes: desde a "terceira via" ao novo trotskismo sem álcool para totós, passando pela acomodação a um pessoal político burocratizado e aninhado nos "lugares". Tudo bem misturado num cocktail onde a "resistência" tem muito mais de fenómeno físico do que de projecto social.
Siga para greve geral se houver que seguir - mas que isso não seja só fumo de palco a fazer esquecer o que falta fazer.


22.11.11

KAFKA MACHINE.

22:25

KAFKA MACHINE CENA 1: RECRUTAMENTO
24 de Novembro, 18h às 20h, Casa Conveniente
ENTRADA LIVRE

Um evento único com dezenas de participantes, na rua e para a rua, em dia de greve geral.

Na véspera do embarque num transatlântico rumo ao Brasil, três colectivos de Helsínquia (Mollecular Organization), Paris (Presque Ruines) e São Paulo (Cia Teatral Ueinzz) apresentam na Casa Conveniente a primeira etapa do projecto Kafka Machine.





uma coisa para ouvir enquanto lavo os pratos.

as ilusões dos filósofos. mesmo quando não são filósofos.

«A Psicologia é uma Superzoologia. Enquanto não for assim considerada e estudada, será apenas uma colecção de palavras gregas, vocábulos mortos de um valor misterioso (…). Lembranças, ideias, sentimentos, existem, como pessoas, no seu ambiente próprio. Formam uma espécie de sociedade teocrática ou presidida por um deus egoísta. Anima-a o instinto conservador; e é ela que determina os nossos actos. Somos escravos duas vezes: da sociedade que em nós vive e da outra em que vivemos.»

Teixeira de Pascoaes, Duplo Passeio (1942)



(Ilustração de Tiago Manuel, publicada com a coluna Boca de Incêndio, de João Paulo Cotrim, na Actual/Expresso de 24 de Junho de 2006)

notícias da arte portuguesa.


Há algum tempo demos aqui conta da exposição da peça "Oratório", de Paula Rego, que vimos na Casa das Histórias, em Cascais.
Nessa ocasião mostrámos que o oratório tinha associada uma peça, que na altura considerámos irónica.
Erro nosso, tremendo.
O governo de Portugal mandou fazer umas centenas de milhares dessa peça, que vai instalar em todos os espaços de onde consiga varrer os terríveis malefícios desse monstro que é o "Estado social". (É curioso como o tal "Estado social" só chega a ser verdadeiramente um monstro no país onde é mais fraco: entre nós, claro.)
Quando vos faltar uma escola, um hospital ou, tão somente, uma sopa, lá encontrarão este equipamento alternativo:


Em Defesa Da Dignidade, Do Trabalho e Do Estado Social.

13:34

Em Defesa Da Dignidade Do Trabalho e Do Estado Social

Como consumir cultura em tempo de crise?


O sound + vision tem em linha um inquérito sobre «Como consumir cultura em tempo de crise?». As respostas possíveis são as seguintes (possibilidade de seleccionar várias): Comprar menos discos, Ir a menos concertos, Comprar menos DVD, Comprar menos Blu Ray, Ir menos vezes ao cinema, Comprar menos livros, Comprar menos revistas, Comprar menos jornais, Comprar menos jogos, Procurar alternativas em 2ª mão, Procurar alternativas online em lojas no estrangeiro, Reler livros antigos, Ouvir mais vezes os discos, Rever filmes em DVD/Blu Ray, Tentar manter os consumos habituais.
É sempre muito fácil, eu sei, criticar estes inquéritos. Mas não resisto a comentar que é muito curiosa a ausência de certas outras possibilidades. Assim de repente: ir ver mais filmes à Cinemateca (bons e barato), frequentar bibliotecas públicas, descarregar música da internet (há sítios onde se pode fazer isso legalmente, não estejam já a pensar mal), visitar museus nos dias gratuitos (agora acho que são só horas), visitar galerias comerciais (onde não se paga para ver arte, por exemplo), fazer de penetra em inaugurações (onde muitas vezes não é preciso mostrar o convite, basta um pouco de descaramento). Devo dizer que tento praticar essas modalidades, com ou sem crise. E, já agora, visitar bons blogues culturais, não vale a pena?!

(A "teoria do inquérito", aqui.)

a sustentabilidade da ajuda internacional.


Novo pacote de sanções contra Irão devido ao seu programa nuclear.

As missões internacionais aos países "ajudados" pelo FMI-BCE-UE e de fiscalização ao programa nuclear do Irão vão ser fundidas. Não é tanto para poupar dinheiro, porque as centenas de milhões que eles nos cobram pela "assistência" dá até para os charutos. A ideia é sacar a bomba ao Irão e lançá-la nos PIGS++, tudo dentro da ideia de suavizar um pouco os actuais programas de ajustamento.

é Lisboa, mas já foi abaixo.



Alguém sabe onde fica(va)?

21.11.11

Anda um espectro pela Europa.


"Anda um espectro pela Europa - o espectro do Comunismo." Assim começava o Manifesto do Partido Comunista (ou Manifesto Comunista), publicado originalmente em 1848. (Podem estudar o assunto aqui - em pdf.)

Agora, anda outro especto pela Europa. Definitivamente, o grave não é que José Sócrates ainda venha de vez em quando jantar a Portugal, como alguns noticiam com pesar. O grave é que Sócrates ande a contaminar todo o pequeno continente.


também para um robô, jogar é uma coisa muito séria.




para quem o mau jornalismo é uma bênção.

15:51

O mau jornalismo é uma bênção para a sacanagem.
O Público de hoje (em papel, não vejo a notícia em linha) faz manchete com as iluminações de Natal e o fogo de artifício de Ano Novo na Madeira. E mistura duas coisas completamente diferentes: o preço das ditas iluminações; os métodos do jardinismo para gastar esse dinheiro.
O que a notícia diz acerca da entrega do negócio a uma empresa muito amiga do PSD local pode ser mais um indicador de um regime "autonomista" assente na maior desvergonha. Trata-se de um assunto sério, que deve ser tratado seriamente. O cidadão comum, que vai lendo estas coisas e nunca vê acontecer nada ao jardinismo, convence-se de que esta república está em geral aberta a que qualquer quadrilha tome conta de uma parte do país e aí se aloje tão solidamente como a lapa na rocha. Espera-se que o jornal continue, sem desfalecer, a informar-nos: não só do que fazem os ladrões, mas também do que fazem os polícias quando julgam ter topado os bandidos.
Ao mesmo tempo, a notícia faz umas comparações completamente disparatadas entre o que a Madeira gasta para abrilhantar a época e os cortes que certas câmaras municipais fizeram nas iluminações de Natal este ano. As comparações são disparatadas porque ignoram que a Madeira usa esse espectáculo como isco para turistas, numa escala que julgo muito mais relevante do que noutras localidades desta nossa terra. A implícita acusação de despesismo é ligeira - e, sendo ligeira, dá um excelente pé a AJJ para dizer que lá estão os tipos do continente a dizer disparates e a falar do que não sabem.
Deste modo, incapaz de separar questões diferentes e sempre a cair na tentação da demagogia com os milhões, o mau jornalismo leva a água ao moinho de quem, na aparência, está a denunciar. Só gostava de saber se isso acontece por pura incompetência - mas, incompetência numa matéria que faz manchete?!

(Acrescento: está há pouco em linha, aqui, a dita notícia. Não confirmei se há alguma mudança no conteúdo.)

pornografia.

12:18


Parece que o historiador Alain Fleisher pensa que a fotografia encontra o seu absoluto na pornografia.

Já a pornografia encontra o seu absoluto em outros domínios.

Philip Morris contesta lei australiana para retirar marca dos maços de tabaco.

O governo australiano quer que os maços de tabaco deixem de ser apelativos: deve desaparecer do pacote qualquer elemento de atracção, incluindo a marca, e ficar apenas um manto de fotografias nojentas de efeitos do consumo.
Posso não concordar com o maximalismo anti-tabágico, que por vezes me parece desproporcionado relativamente a outras substâncias perigosas que por aí andam com menos exposição aos cuidados públicos. Mas não suporto a arrogância de certas empresas: o seu direito a ganhar dinheiro parece-lhes acima da saúde pública. Acima de tudo, aliás. Essa é a grande pornografia deste tempo: querer que todos os debates sobre o bem comum sejam passados ao coador dos interesses comerciais.

20.11.11

já conhecem a nova moeda de 3 euros?

duques e biscas.

a pele onde eu vivo.



Lamento, mas não dá para perder muito tempo com este objecto. O último Pedro Almodóvar, La Piel Que Habito, não fica bem a este realizador. Uma história mal contada, previsível, cheia de cenas banais, onde até as fabulosas mulheres de Almodóvar ficam mal. Um objecto onde não cabe um pingo de reflexão, onde tudo o que existe está postado em frente do nosso nariz. Este filme é a prova provada de que não é Cronenberg quem quer. Mesmo a um grande como Almodóvar pode faltar a metafísica suficiente para fazer da carne algo mais do que uma peripécia macabra. Um filme de que não ficará rasto.

uma RTP ao serviço do MNE angolano.

11:05

Ontem foi um sábado dedicado a recuperar de erros de mau planeamento do calendário pessoal. 16 horas, Artistas Unidos no Teatro da Politécnica, Não se brinca com o amor, de Alfred de Musset. Uma peça do fundo do século XIX que eu não conhecia de todo e que me recuso a ver, hoje, como centrada nas hesitações de uma rapariga entre ir para o convento ou casar-se com um rapaz que lhe apetece, mas que consigo ler, especialmente com esta representação, como um quadro da infantilização das relações entre as pessoas. E, por esse lado, parece-me muito actual. Para este espectáculo, que estava ontem pela último dia em Lisboa, apanhei na passada quarta-feira o último ou quase o último bilhete regular disponível no mercado. Sem outra saída possível, portanto: até porque queria associar-me ao acontecimento de os Artistas Unidos estarem agora neste poiso estável no centro da capital do império. Segui, com lanche pelo meio, para as 21 horas, Teatro Municipal de Almada, Santa Joana dos Matadouros, de Brecht, numa encenação de Bernard Sobel, uma espécie de esclarecimento acerca das crises dos mercados no que elas têm de actual e de intertemporal, numa carreira que acaba hoje e que não queria de todo perder, até pela oportunidade de ver a Alice actuar.
Com seis horas líquidas de teatro para ver, não houve tempo para acabar de ler o Expresso ontem, pelo que só hoje cheguei à coluna de opinião de João Duque no suplemento Economia do hebdomadário. Graças à Shyznogud posso dar-vos o desprazer de acederem ao texto em linha. A concepção de informação deste Duque, mais primária do que a de António Ferro, retintamente cavada numa ideia totalitária, mas num totalitarismo versão zero-ponto-zero, continua a ser exposta com uma infantilidade atroz. O homem pensa que Portugal pertence ao mundo da Lego, ou quê? No post da Shyznogoud há um comentário que diz o essencial acerca do tenebroso duquismo: "A ideia de fazer jornalismo para agradar ao ministro dos negócios estrangeiros angolano é a melhor ideia de todos os tempos...". Eu nem quero imaginar a desgraça de um país onde um autor deste calibre pudesse ser "um académico"...