23/11/11

dúvidas manifestas.


Mário Soares, Pedro Adão e Silva, Joana Amaral Dias, Medeiros Ferreira, Vasco Vieira de Almeida, entre outras personalidades, tornam hoje público um manifesto em que apelam “à mobilização dos cidadãos de esquerda que se revêem na justiça social e no aprofundamento democrático como forma de combater a crise”.

Tenho muitas dúvidas que a mobilização útil seja a "dos cidadãos de esquerda".
Tenho mesmo dúvidas de que a tarefa principal seja a "mobilização", pelo menos o tipo de mobilização que se associa a manifestações e greves.
Isto não quer dizer que seja contra as greves ou contra as manifestações: cada greve e cada manifestação, além de actualizar um direito constitucional essencial ao moinho da democracia, deve ser apreciada pelo seu conteúdo concreto, objectivos, meios, justificações específicas. Abomino a condenação da luta que é feita com o espírito dos instalados e dos ordeiros.
Mas não acho graça nenhuma a que se compare, como faz este manifesto, a "rua árabe" com a rua das nossas democracias. A "rua árabe" é a rua da resistência à ditadura e à violência, "a rua" numa democracia tem outro sentido e outra responsabilidade. E outras alternativas. Confundir o essencial é bater nas pernas da liberdade até ela tombar. E isso não se pode admitir, porque "a rua" também pode servir para levar da democracia à ditadura.
Duvido que a tarefa principal seja a "mobilização", porque acho que a tarefa principal é compreender. O que nos atolou no individualismo no plano das relações sociais? O que instalou uns tantos à custa de muitos outros, sendo que "os instalados" não são só "os capitalistas", mas também os que recebem de troco mais do que aquilo que contribuíram. O que atolou a Europa neste novo nacionalismo mal assumido, que destruiu a noção de interesse comum? Que ideologias e que programas políticos fizeram com que os Estados perdessem o pé face ao poder de grupos específicos da finança internacional? Que ideias transformaram o trabalho na coisa menos valiosa do mundo, quando o trabalho somos nós e, assim, fomos nós que nos transformámos na coisa menos valiosa do mundo?
A tarefa principal não é "a mobilização", a tarefa principal é a compreensão - para não se dar o caso que "a mobilização" apenas queira voltar à rotina anterior à crise, a mesma rotina que nos trouxe aqui. As ciências sociais falharam, entre elas a Economia em primeiro lugar, mas não apenas ela. Falharam porque pensaram o humano que não existe, pensaram o mito moderno do humano feito de pés de barro, barro amassado com o mito moderno da razão mais o mito moderno da autonomia individual. As ciências sociais falharam porque se revelaram fundamentalmente incapazes de compreender os colectivos, e a relação entre o micro e o macro, e a importância do tempo (hoje todas as políticas são desgraçadamente de curto prazo e isso nos mata), e porque se revelaram incapazes de compreender como é que as ideias se entranham no mundo e o destroçam, que é o que o "atomismo social" agora pariu à vista do monstro e como monstro que é. A tarefa principal não é "a mobilização", a tarefa principal é a compreensão - e não compreende nada quem insiste em fazer de conta que a "velha esquerda" e os velhos tropismos da esquerda podem fazer hoje os milagres que não fizeram no passado, e pode evitar agora os crimes que cometeu no passado. Não compreende nada quem só vê Estado contra Mercado, não compreende nada quem esqueceu a necessidade de auto-organização dos cidadãos, de tomarmos em mãos partilhadas a nossa vida partilhada.
É, precisamente, por a tarefa principal não ser "a mobilização", mas, antes, a compreensão, que tenho muitas dúvidas que o destinatário útil de um manifesto actual sejam "os cidadãos de esquerda". Ser ou não ser de esquerda é um ponto essencial, concordo, porque hoje mais do que nunca é de "outra coisa" que precisamos seriamente. Só que ser ou não ser de esquerda não pode ser só uma coisa das tripas, tem de ser também uma coisa da capacidade para olhar para o mundo e pensar. Se for possível pensar juntamente com os "cidadãos de direita" que estão a ver a coisa mais negra cada dia, eu quero essa partilha. E, então, fazer isto ou aquilo, de esquerda ou direita, pode não ser o bilhete para o estádio da mobilização ou para o estádio do imobilismo: pode ser o resultado de uma nova capacidade para compreender o mundo, construída sobre as ruínas provocadas pelo pensamento habitual, que nos trouxe aqui. E esse "pensamento habitual" tem, decerto, muitos ingredientes: desde a "terceira via" ao novo trotskismo sem álcool para totós, passando pela acomodação a um pessoal político burocratizado e aninhado nos "lugares". Tudo bem misturado num cocktail onde a "resistência" tem muito mais de fenómeno físico do que de projecto social.
Siga para greve geral se houver que seguir - mas que isso não seja só fumo de palco a fazer esquecer o que falta fazer.


6 comentários:

outofworld disse...

Que bem escrito e explicado está isto, Porfírio!
Concordo completamente consigo, a "rua árabe" não é a nossa rua. Querer fazer da nossa rua a "rua árabe", é infantilizar a luta que nos deve mover a todos, caso a compreendamos e lhe predigamos o crescimento de tentáculos. Porque estão a crescer, no sentido da destruição das nossas sociedades livres e democráticas.

Francisco Clamote disse...

Excelente reflexão, Porfírio. Tenho, porém, muitas dúvidas que a direita esteja interessada em seguir pelo caminho proposto: a compreensão.É que só vejo sinais de confrontação.

Porfirio Silva disse...

Francisco, não penso tanto na "direita" como conjunto de aparelhos, mas nas "pessoas de direita", que, na sua maioria, são tão tramadas com tudo isto como o "povo de esquerda". Mas, sim, há uma estratégia de confrontação que dificulta furar o nevoeiro.

Manuela disse...

Sou leitora assídua, embora comente pela primeira vez. É que ao ler "Que ideias transformaram o trabalho na coisa menos valiosa do mundo, quando o trabalho somos nós e, assim, fomos nós que nos transformámos na coisa menos valiosa do mundo?" senti-me finalmente acompanhada na minha mais recente dúvida existencial. Será esta a "million dollar question" do nosso tempo?

Porfirio Silva disse...

Manuela, a questão é importante, mas importante mesmo é a resposta. Eu não tenho a resposta. Mas arrisco uma pista: nós transformámo-nos a nós próprios em coisas por termos colocado à frente de tudo o projecto da modernidade de sermos donos e senhores da natureza, nas palavras de Descartes. Daí até querermos ser donos e senhores das outras pessoas, foi um pequeno passo. Um passo que durou algum tempo, mas "logicamente" pequeno. Aí, um belo dia acordamos e somos coisas para a máquina do mundo.

António P disse...

Estavas inspirado, caro Porfírio.
Assino por baixo.
Um abraço