16/08/11

Paula Rego em 3D

Oratório, de Paula Rego, na Casa das Histórias.



"Para tratar do tema do abandono e da vulnerabilidade infantil, a artista apropriou-se de um objecto muito comum nas grandes casas portuguesas tradicionais, um móvel-oratório. onde as famílias podem rezar na intimidade, escolhendo e distribuindo nesse móvel as imagens mais evocativas das suas afinidades religiosas particulares."


"Um oratório é um objecto de devoção que serve exclusivamente para rezar e que, com a sua dupla dimensão religiosa e doméstica, permite uma relação mais próxima e directa entre a casa e o Divino."


Não sendo o Divino, a Artista hoje estava na Casa, tomando algo que poderia ser um pequeno-almoço, na cafetaria, aproveitando um escasso sol deste Verão, a caminho de ser entrevistada, com tomada de imagens no jardim da Casa.


"Os santos são as figuras mais presentes, pequenas esculturas, criadas também para proteger as famílias, dispostas nesses altares íntimos e sem intermediação, onde o sagrado toma as formas mais próximas do humano."



Sim, essa proximidade é assustadora. "Paula Rego apoderou-se desta ideia para construir um objecto tridimensional, um móvel com quase 3 metros de altura, na exacta equivalência dos oratórios portugueses, com o mesmo par de volantes e expressão volumétrica, onde desenvolveu pela primeira vez uma inesperada e intencional relação entre os desenhos, dispostos nas paredes do armário, e as esculturas colocadas sobre este fundo narrativo."



Este conjunto foi criado a convite do Foundling Museum, que guarda a memória das crianças abandonadas e recolhidas no hospital com o mesmo nome. O Oratório foi realizado entre 2008 e 2009. Resta ver se inaugura ou não uma nova senda criativa da artista, a três dimensões. Não me parece certo: os "santinhos" não acrescentam nada ao imaginário da pintora, sendo, antes, devedores, na sua força, da alma das personagens pintadas. O Oratório vale como conjunto, com as crianças, os seus torturadores e os seus amigos dispostos no teatro da tragédia humana, tomando o lugar da representação do sagrado numa forma "rica" de religiosidade domesticada por quem tem o dinheiro e o poder para isso. Nesse sentido, este Oratório deveria ter, algures, um espelho.



(As frases entre aspas são do desdobrável da exposição. As fotografias são de Porfírio Silva. Clicando nas imagens obtém-se uma versão um pouco maior. Mais informação no sítio da Casa das Histórias. A entrada é gratuita. Está patente outra exposição de Paula Rego, ambas até 31 de Dezembro.)

A completar a ironia: estender a mão à caridade ("Esmolas"):


1 comentário:

Ana Paula Sena disse...

Muito interessante. Tenho que ir lá!