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16.12.14

“Mapas para as estrelas”, de Cronenberg.

16:40


É estranho que poucos se atrevam a dizer claramente que o mais recente filme de David Cronenberg parte de um tema relativamente corriqueiro, glosado de muitas formas no passado: Hollywood, a Meca de um certo cinema, é impiedosa: uma máquina de fazer e desfazer famas, que constrói estrelas com os destroços das pessoas que entram na fábrica das glórias efémeras. A questão mais específica da exploração das crianças-actores, que deixam de ser crianças para serem actores – e monstros – , é pouco mais do que um subtema do tema geral da especificidade da fauna hollywoodesca. Que interesse poderá ter um filme sobre um assunto tão visto?

Como há muito sigo com interesse este realizador, não poderia deixar escapar Mapas para as estrelas. Se já lhe chamei “o filósofo Cronenberg”, também já disse de um filme seu (Cosmopolis) que é uma porcaria. O que não consigo é escapar ao fascínio de tentar acompanhar as novas formas que toma o seu discurso sobre as metamorfoses do humano.

Cronenberg começou por interrogar-nos sobre os caminhos do corpo. Depois de muitos anos de obscuridade, o primeiro dos seus grandes êxitos, A Mosca, mostra um corpo humano e um corpo não humano que entram em confluência, não podendo a mente ficar indiferente a essas aventuras da sua base material. Em eXistenZ, o que é maquínico e o que é propriamente biológico estão já na mesma família.

A certa altura do percurso, as metamorfoses “estudadas” por Cronenberg passam a ser preferencialmente as que assentam nos processos mentais. Em Spider, por exemplo, revela-se que, se o cérebro nos fornecer leituras intermitentes do mundo, o mundo para nós se torna realmente uma intermitência entre vários mundos - e não há objectividade que resista a isso. Em Crash, o que Cronenberg nos propõe é o amor humano pela máquina. O desejo sexual pela máquina. As emoções em metamorfose mecânica. Em Um Método Perigoso, o realizador mete-se com a psicanálise e com a mutação de todo o sentido da vida de uma mulher (Sabina Spielrein), que passa de paciente a psicanalista, de doida a cientista.

Mais tarde, as metamorfoses do humano que interessam a Cronenberg passam a estar mais ligadas às mutações do papel social de certos indivíduos, como em Promessas Perigosas, onde se desenha um homem qual borboleta que, quando emergir do casulo, será totalmente surpreendente para uma organização que pensava saber bem com o que contava dele. Cosmopolis é outra tentativa (a meu ver falhada) de captar a lógica da desordem das nossas sociedades contemporâneas. E, proponho eu, este Mapas para as estrelas retoma a temática da desordem subjacente a fenómenos que toleramos nas nossas sociedades, como se fossem meros desvios do bom caminho, quando eles são mesmo perversões fundamentais do nosso viver em comum.

Mapas para as estrelas começa em tom de relativa bonomia. É típico num cineasta que vem do filme de terror cruzado com ficção científica: tudo parece calmo… porque estamos distraídos e não estamos a entender o que importa. Pouco a pouco, indício após indício, tudo se revela monstruoso – e essa monstruosidade aparece sob a forma de linguagem desbragada e violência despropositada ou injustificável. Para acabar em completa subversão de regras sociais e institucionais básicas. O que nos apanha desprevenidos é que nós não conhecemos a história das personagens. Tal como, na sociedade, a falta de atenção à história dos processos sociais provoca políticas suicidas inspiradas por “ciências exactas” alienadas (como certas tendências da “economia matemática” perfeitamente incapazes de entender a economia real como parte da sociedade real), neste caso a raiz da desordem é a quebra de um tabu fundamental, quebra que, como semente escondida, se perde na noite dos tempos, (literalmente) sob escombros.

Numa entrevista que David Cronenberg concedeu a Francisco Ferreira (revista Atual, do Expresso, de 13 de Dezembro 2014), o realizador, acerca da questão das crianças-estrelas de cinema, diz: “São crianças que já não têm pais, têm agentes.” Ora aí está: “agentes”, porque tratam da carreira dos actores (crianças), em vez de pais que tratam da felicidade dos filhos (pessoas, com ocupação eventual de actor). E, para quem tem algumas luzes da linguagem da inteligência artificial, “agentes” por terem certos comportamentos de interacção com outras “coisas” num certo ambiente, sendo que esses comportamentos podem, a certa luz, ter uma certa “racionalidade” – mas não têm de modo nenhum que ser comportamentos humanos. “Agentes” que podem ser, apenas, pequenos programas informáticos, pedaços de código, sem qualquer relação com a moralidade de um humano que age humanamente. E, focando-se em Hollywood, e mais especificamente nas taras que cercam as crianças-estrela, Cronenberg mostra uma metamorfose do social onde os únicos que não são monstros são os fantasmas. Todos os vivos são monstros, toda a relação social é monstruosa – e desta vez não é preciso envolver no processo nenhuma ficção científica para nos dar a ver essa metamorfose fatal.

Um filme que, chegando a Portugal perto da quadra do Natal, não tem nada de natalício. E que deixou vários expectadores indispostos. Mas que temos de ver se não fugimos à responsabilidade de interrogar a monstruosidade que se embrenhou em alguns aspectos das nossas sociedades.

26.11.11

Um Método Perigoso, Cronenberg.

16:51


O último filme de Cronenberg, de fresco entre nós, tem como título Um Método Perigoso. O filme envolve acontecimentos reais do nascimento da psicanálise e da psicologia analítica nas primeiras décadas do século passado, nomeadamente as relações, científicas e outras, entre Sigmund Freud, Carl Gustav Jung, Otto Gross e Sabina Spielrein.
O que nos interessa permanentemente em Cronenberg é a tematização do corpo como matéria do espírito, bem como a tematização múltipla da metamorfose como condição. A profundidade e diversidade dos olhares sobre essa paisagem, que o realizador canadiano nos tem oferecido desde o tempo em que o seu cinema era quase marginal, levou-me antes a chamar-lhe "o filósofo Cronenberg".
E agora?
Estamos, claramente, muito longe dos viscerais “A Ninhada” (1979), “Videodrome” (1983) ou “Crash” (1996), do narcótico “eXistenZ” (1999), mas também do mais "espiritual" “Spider” (2002) ou dos mais indirectos e depurados “Uma história de violência” (2005) e “Promessas Perigosas” (2007). Não vou ao ponto de dizer, como outros já fazem desde filmes anteriores, que este Cronenberg já não é um Cronenberg. A questão das relações tortuosas entre o corpo e a mente não fugiu completamente de cena. Contudo, na aparência, este filme trata essa questão num nível superior de abstracção, falando dos cientistas que estudam tal coisa e focando-se a maior parte do tempo nessa observação de cientistas. Admito que este filme pode ser visto apenas como uma história bem contada, ainda por cima sobre factos históricos, misturando um pouco de amores proibidos com investigação - mas, no conjunto, parecendo tudo bem comportado e relativamente domesticado (sim, o "doméstico" parece levar a melhor, pelo menos no caso de Jung).
Só que há outro buraco da fechadura por onde espreitar. Cherchez la femme. Estranhamente, alguns críticos de cinema falam do filme como se ele fosse acerca das relações entre Freud e Jung. Entre dois grandes do estudo do inconsciente. Quase esquecendo Sabina Spielrein, reduzindo-a quase a uma aprendiz que por ali anda no oceano de tensões entre os dois homens cientistas. Acho que essa centragem em Freud e Jung é um erro, por ser uma leitura historicista do filme, quase uma tentativa de leitura realista. Só que Cronenberg não pode ser lido assim. A mulher, Sabina Spielrein, é a personagem que encarna tudo o que há de permanente em Cronenberg. É ela que transporta a grande metamorfose que acontece no filme: é ela que passa de "doente", de "doida", de paciente, a psicanalista, a cientista ao mesmo título de Freud e dos outros. É ela que dá corpo ao duplo aspecto da metamorfose: a continuidade convive com a mudança. Peça perfeita de um puzzle sobre a psicanálise, o elemento de continuidade é o facto de Sabina se excitar com a dor e a humilhação. Esse é traço vincado da "doença" pela qual a hospitalizam, mas esse traço permanece depois de ela passar para o lado dos analistas. Mesmo a cientista, operada essa grande mudança, continua a procurar o mesmo tipo de prazer.
Afinal, este Cronenberg, que parecia ter intelectualizado o seu tema de sempre, passa uma ideia muito mais radical: evitam de tentar fugir aos recantos da vossa mente e do vosso corpo, evitam de tentar fugir pelo caminho da intelectualização, porque mesmo na intelectualização o que é fundador permanece.

Post Scriptum. Houve quem tratasse de Sabina Spielrein sem a reduzir a amante. Por exemplo, o documentário My Name was Sabina Spielrein, de que deixo um momento.