11.11.11

O único facto que volta a ser novo é que chegou a nossa vez.

Passo a citar:
[…] Tudo segue uma rota de exclusão da pujança. Instalou-se um processo imparável de exclusão; está de volta o medo, embora difuso e diverso, de uma exclusão ainda maior. Eu tenho medo que me excluam do texto, o meu vizinho sei que teme ficar desempregado, a rapariga que me ajudava nas limpezas temia todos os dias perder o marido, que andava com outra. Eu achava que o texto era o único necessário, mas ia dizendo que era tudo a mesma coisa, que eram nomes diferentes para o falcão que sentíamos faltar no punho. […]
Só agora viram os escritores que o corpo, a leste e a oeste, no Norte e no Sul, é impotente, não consegue, não consegue, está mal, sente-se mal, deprimido, sem alegria e desfalcado por não conseguir fazer o mundo. Só agora viram (mas onde estiveram, então, até agora?) que é o mundo que faz estes homens – sem-corpo-de-poder? Como, se perto e a longa distância, o querer, o desejar, um calor de amor, um pouco de sentido, alguns segundos de escuta atenta produzissem invariavelmente a catástrofe do contrário. Não é uma questão de boas intenções nem de boas vontades. Basta olhar os factos sem os cobrir com um véu de esperança, basta ler as histórias que os nossos textos contam. O homem comum está continuamente a ser excluído e espoliado da pujança. O único facto que volta a ser novo é que chegou a nossa vez. Ou pensava-se que tínhamos um estatuto de impunidade? Ou imaginávamos que a razia ia poupar os observadores? Que o corpo do narrador iria ser poupado? Mas porque é que o poder iria ter mais consideração por nós do que pelo comum dos mortais? […]

Maria Gabriela Llansol, “Está de volta o medo” ( texto enviado ao Parlamento Internacional de Escritores, reunido em Lisboa em Setembro de 1994, publicado no JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias de 28 desse mesmo mês, agora parcialmente republicado no livro Europa em Sobreimpressão – Llansol e as Dobras da História, organização de João Barrento, Assírio & Alvim e Espaço Llansol)

10.11.11

um país atrasado.

Habitar no bairro central da capital do país, na "freguesia" que tem o nome da cidade. Pedir instalação de serviço de telefone, televisão e internet. Pedido aceite, como se tudo fosse correr bem. Não acontecendo nada, insiste-se para receber informação. Finalmente, a luz: não há slots livres, na pior das hipóteses a espera pode chegar aos seis meses. Ainda propõem a alternativa de internet móvel, que já sabemos que não é alternativa nenhuma, porque a velocidade não passa dos 2 MB. Qualquer tuga do costume diria "isto só em Portugal". Mas não. É mesmo Bruxelas, capital da Bélgica, "capital" da Europa. Um país atrasado, claro.

9.11.11

Memórias. Berlim, 1989, um dia como este, um muro como qualquer outro.




Na noite de 9 de Novembro há 22 anos, o governo da então chamada República Democrática Alemã anuncia de forma desastrada (por não corresponder exactamente ao que queriam fazer, que era uma liberalização cautelosa das saídas para o estrangeiro), anuncia, dizíamos, que os cidadãos desse país poderiam atravessar as respectivas fronteiras (de dentro para fora...) livremente. Em consequência, logo nessa noite, cerca de vinte mil alemães de leste atravessaram o posto fronteiriço de Berlim Leste para Berlim Oeste. No dia 11, as máquinas começaram a abrir mais passagens através do muro da vergonha, já que os postos normais não davam vazão à enchente dos que queriam experimentar o sabor dessa nova liberdade. Logo foram anunciadas conversações para a abertura da simbólica Porta de Brandemburgo, que só viria a tornar-se uma ampla passagem entre dois mundos em Dezembro desse ano. No fim de semana seguinte à abertura, cerca de dois milhões de alemães orientais visitaram Berlim Ocidental.
Tive a sorte de estar nessa Berlim esfuziante por esses dias. Tinha ido à conferência "Security in Europe: Challenges of the 1990's", organizada pelo Politischer Club Berlin e pela Amerika Haus Berlin,  que decorreu entre 15 e 17 desse mês, tendo ficado mais uns dois ou três dias. A conferência acabou na tarde de sexta-feira (17) e, desde aí até ao regresso no domingo, deambulei como uma esponja pela cidade que era nessa altura o centro do mundo. Havia, além do povo que estava a fazer a sua história, uma multidão de jornalistas por todo o lado, especialmente postados em frente à Porta de Brandemburgo, por haver então a expectativa de esse local histórico ser aberto imediatamente.
Descobri há algum tempo duas folhinhas que escrevi na altura, "do lado de lá", no meio da agitação. Estão a ficar roídas pelo tempo. Antes que desapareçam, transcrevo-as para este arquivo-pessoal-público.

Folha 1. "Aqui é a Marx-Engels Platz, em Berlim Leste. Hoje são 17 de Novembro de 1989. O Muro já tem aberturas mas ainda falta muita coisa. Aqui está a ocorrer uma manifestação (ou concentração) de estudantes (pelo menos parecem, pela sua juventude, apesar de também haver gente mais velha). Vim para aqui directamente da estação de metropolitano, onde comprei o meu visto e troquei os obrigatórios 25 DM por 25 marcos da DDR. Do lado de lá vale, não 1 para 1, mas 1 para 10 ou ainda mais. Há o pequeno pormenor de que tenho a máquina fotográfica da Guida ao ombro, mas não consigo tirar nenhuma fotografia. Até o azar pode ser histórico... Outro pormenor é que está um frio danado, que entra por todo o lado apesar de estar com dois pares de meias calçados, camisa, camisola de gola alta, casaco de inverno e gabardina. São aqui 15.50H."
Folha 2. "No mapa, tenho aqui uma indicação sobre a Igreja de S. Nicolau, no centro histórico de Berlim. Fui para entrar, vi que se pagavam entradas e que havia um museu. Como não estou com grande tempo para museus, fui perguntar se também se pagava para ver a igreja. Resposta: «Isto não é uma igreja. Isto é um museu.» Entendi: estamos, realmente, no Leste. São 16H 13M."

Memórias das minhas ingenuidades, pois. Como se vê, ainda havia muita coisa por mudar. Eu não falava uma palavrinha de alemão, mas recolhi um comunicado da SPARTAKIST - Herausgegeben von der Trotzkistischen Liga Deutschlands, com o título "Für eine leninistisch-trotzkistische Arbeitpartei!". E em baixo de página: "Für den Kommunismus von Lenin, Luxemburg und Liebknecht!". Ainda tenho uns jornais, uns autocolantes, uns "alfinetes de peito", desses dias. E, claro, umas pedrinhas pequeninas que eu próprio rapei do muro, à unha, enquanto outros já andavam em cima dele com picaretas.

O mundo, realmente, mudou muito. Nem tudo correu bem, como se sabe. Só que ninguém, sabendo do que fala, pode desprezar o valor da liberdade - haja o que houver, com todos os defeitos que as democracias possam ter. Isso sentiu-se naqueles dias (e ainda se sente) em Berlim. Claro, ainda há quem, por cegueira ideológica, ache que tudo não passou de uma operação das forças reaccionárias conspirando por todo o mundo. Por hoje, a esses nada a dizer.
(Republicação)

8.11.11

recorrências.

… os metais preciosos vieram aliviar momentaneamente os problemas financeiros de Portugal. O desequilíbrio da balança comercial entre Portugal e Inglaterra, que se tornara um dado estrutural a partir do início do século XVIII, foi por vários anos compensado pelo ouro vindo do Brasil. Os metais preciosos realizaram um circuito triangular: uma parte ficou no Brasil, dando origem à relativa riqueza da região das minas; outra seguiu para Portugal, onde foi consumida no longo reinado de D. João V, em especial nos gastos da Corte e em obras como o gigantesco palácio-convento de Mafra; outra parte, finalmente, de forma direta, via contrabando, ou indireta, foi parar em mãos britânicas, acelerando a acumulação de capitais na Inglaterra.

Boris Fausto, História Concisa do Brasil, EDUSP, pp. 52-53

(este post foi corrigido após a publicação)

6.11.11

nothing else matters.


Vá lá, ouçam isto sem preconceitos. Os Apocalyptica tocam Nothing Else Matters, dos Metallica.



crónicas da vida animal.

16:00

A brasileira "Veja", na edição desta semana (suplemento para o Rio), trazia a notícia: moradores do bairro de Ipanema, um dos mais "bem habitados" da cidade, manifestaram-se contra os planos de construção de uma nova estação de metro na sua zona. Pretexto frontal: vão derrubar árvores. Razão mais profunda, mas contada mais à boca pequena: com o metro, chegará gente "diferente". Ou seja: habitantes de um bairro "bom", ou "bem", estão contra a expansão da rede de metropolitano para manterem um elevado nível de segregação espacial. Apesar de os estudos demonstrarem que, em todo o lado, a proximidade do metro valoriza a propriedade, além de promover a mobilidade sustentável. Mas há quem pense primeiro em termos de jaulas de um zoo humano.
Que mundo.

Os Evangelhos segundo José Rodrigues dos Santos.


O Público de ontem (P2, pp. 4 e 5) trazia um trabalho muito interessante (“Os Evangelhos segundo José Rodrigues dos Santos”, por Natália Faria) sobre a polémica teológica em torno do último livro do apresentador. Vários teólogos mostram à-vontade em admitir que nada do que JRS escreve é novidade, que são coisas que os teólogos discutem há séculos. Ao mesmo tempo repudiam a pretensão de certeza e de infalibilidade com que JRS se apresenta à discussão, bem como o truque, indesejável numa discussão séria, de misturar teses científicas com um texto de ficção, protegendo-se assim do contraditório. Anselmo Borges espeta mesmo o dedo nessa ferida ao desafiar JRS a escrever um artigo científico, ou uma tese, sobre o assunto, aceitando assim o método consagrado para ser escrutinado pela comunidade científica. Concordo genericamente com tudo isto, já que, desde Saramago, me irrita a sobranceria de autores que, necessitados de vender livros, como é natural, se metem a teólogos de pacotilha, cheios de certezas mal-amanhadas, e falam com voz grossa de coisas que apenas conhecem pela rama, da leitura de dúzia e meia de livros. Todos precisamos de ganhar a vida, mas nem todos atropelamos a honestidade intelectual por causa disso.
Contudo, o que os tais teólogos escamoteiam, pelo menos no que é dado ler no trabalho jornalístico mencionado, é de outra ordem. Se é certo que eles discutem muitas coisas nas faculdades de teologia, também é certo que as igrejas a que pertencem propõem dogmas de fé onde não há espaço nenhum para essa discussão. Um exemplo. José Tolentino Mendonça refere que se deverá a um erro de tradução da profecia de Isaías a tese de que Maria, a mãe de Jesus, seria virgem. O que se lê no hebraico é que a mãe do Messias seria uma “mulher jovem”, mas o tradutor para grego colocou “virgem” e foi essa versão que os evangelistas Lucas e Mateus compraram por boa, já que não sabiam ler o original hebraico. Segundo este responsável pela pastoral da cultura, é uma questão conhecida. Outros estudiosos da Bíblia, como o padre Carreira das Neves, dão outras leituras possíveis. Está, portanto, em aberto uma discussão histórica sobre como se chegou à ideia da virgindade de uma certa mãe (além, claro, de uma discussão ideológica sobre o interesse de acreditar que seria preciso fazer intervir uma monstruosidade biológica na pureza de um deus-homem). Só que – pormenor! – para os crentes católicos nada disso está em discussão, porque são “obrigados” a acreditar no dogma da virgindade da mãe de Jesus. Para que precisa uma religião, ou uma igreja, de ter dogmas como este? Eu até acho que isso tem uma explicação, uma explicação baseada no carácter institucional da história humana, na historicidade das comunidades humanas, mas parece-me errado que se insista em tradições autoritárias que se mostram incapazes de revisitar o passado das suas crenças e, quando aconselhável, na respectiva revisão.
Em resumo, este é um debate muito interessante, embora, mais uma vez, condenado a ficar pela rama. JRS tem explorado, de forma bastante primária, um nicho de mercado que é o revisionismo das grandes religiões do Livro. Mas essa estratégia de vendas só funciona por certas igrejas das religiões do Livro, designadamente a Igreja Católica, continuarem a viver excessivamente de dogmas – e cada vez menos da sua pertença à história viva dos povos.

quando for grande quero...

11:00

... quero, já não digo saber escrever assim, mas, ao menos, saber dizer assim.



MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GÂNDIA SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL
de Sophia de Mello Breyner Andresen