27.3.10

da linguagem comum


O filósofo Donald Davidson (1917-2003) começa o seu ensaio “The Method of Truth in Metaphysics” (1977) com a seguinte frase: “In sharing a language, in whatever sense this is required for communication, we share a picture of the world that must, in its large features, be true.” Vamos lá ver o que é que isto interessa aqui e agora.

Davidson insere-se numa linha de investigação filosófica que toma como objecto a linguagem comum. Como escreveu John Austin, outro filósofo desta linha, que teve há algum tempo em Portugal um invulgar direito de antena popular proporcionado pelo gato fedorento RAP, "a nossa comum provisão de palavras incorpora todas as distinções que os homens, no decurso de muitas gerações, verificaram ser vantajoso traçar e as conexões que verificaram ser vantajoso assinalar: são seguramente mais numerosas, mais credíveis - uma vez que passaram o longo teste da sobrevivência dos mais aptos - e mais subtis, pelo menos em todos os assuntos práticos correntes, do que qualquer outra que tu ou eu possamos conceber sentados nos nossos cadeirões - o método alternativo preferido". Assim sendo, analisar a linguagem comum resulta em analisar a realidade: "quando examinamos o que havemos de dizer e quando, que palavras haveríamos de usar em que situações, não estamos a olhar apenas para palavras (nem para "sentidos", o que quer que isso seja), mas também para as realidades, para falar acerca das quais usamos as palavras: estamos a usar uma pronunciada capacidade das nossas palavras para penetrar a nossa percepção dos fenómenos - embora não como um árbitro definitivo". [1]

Ora, para Donald Davidson [2], a existência de uma linguagem que serve para comunicar, prova que os falantes que partilham essa linguagem também partilham uma visão do mundo que, em linhas gerais, é verdadeira. Davidson coloca no foco da sua análise a actividade interpretativa, consistindo em procurar compreender o discurso de outros falantes como compreensão daquilo em que eles acreditam: é esse intérprete que, para compreender o discurso alheio, tem de partilhar com o autor desse discurso uma visão do mundo globalmente correcta. Vejamos o argumento.
Acreditar em alguma coisa, e identificar e descrever essa crença particular, só é possível dentro de um sistema alargado e complexo de crenças inter-relacionadas. Por exemplo, que eu acredite que "uma nuvem está a passar em frente do sol" e descreva essa crença, só é possível sobre o pano de fundo de uma densa malha de outras crenças apropriadamente associadas com essa: que o sol existe, que as nuvens são feitas de vapor de água, que a água pode existir no estado líquido mas também no estado gasoso, ... , e assim sucessiva e indefinidamente.
Precisamente pela mesma razão, eu só posso compreender o que outra pessoa diz se o meu método de interpretação do seu discurso não supuser que o seu sistema de crenças é fortemente errado. Se eu suponho (por exemplo, porque ela o diz) que outra pessoa acredita que (A) = "uma nuvem está a passar em frente do sol", suponho que essa pessoa tem uma malha de crenças (α) relacionada com (A). E, para eu poder interpretar a crença dessa pessoa como sendo a crença em (A), tenho de supor que (α) seja suficientemente parecida com a minha própria malha de crenças relacionadas com (A). Isto é: interpreto a outra pessoa na base das minhas próprias crenças; eu só posso compreender o que os outros dizem se os interpretar como partilhando comigo um vasto (mesmo se não total) acordo acerca do que está relacionado com o que é dito. Mesmo para poder discordar de algumas das coisas em que o outro acredita, tem de haver uma ampla base de acordo entre nós: é sobre o pano de fundo das concordâncias que as discordâncias são inteligíveis. Não posso compreender alguém acerca de quem suponho que a generalidade das suas crenças são erradas.
Mas, o que me garante que o nosso domínio de acordo coincida precisamente com o que é verdade? Nada garante. Não posso garantir quais são as partes do domínio de acordo entre mim e os meus interlocutores que são verdadeiras: no entanto, muito tem de ser verdade para que algo seja falso. Davidson pretende demostrar isso com o argumento do "intérprete omnisciente", a que não vamos passar (até por o considerarmos falacioso, como já tivemos oportunidade de explicar noutro local).

O que me interessa aqui e agora é aplicar o raciocínio acima a uma comunidade política. Por exemplo, a democracia portuguesa. Se, como tem acontecido, continuarmos a rasgar a base de comunicação decente dentro desta comunidade, vamos acabar mal. Se vivemos no mesmo mundo, no mesmo barco – e se precisamos de nos entender acerca do que fazer para navegar melhor – não podemos continuar a julgar como basicamente errado quase tudo aquilo que afirmam e julgam os outros membros da nossa comunidade, como se eles vivessem noutra terra e pudessem ser completamente indiferentes à nossa sorte comum. Sob pena de perdermos de vista o próprio mundo que nos é comum e não espera parado que saibamos o que queremos. Grande parte da política portuguesa nos últimos tempos tem passado pela desqualificação da própria palavra dos agentes: distorcer, desconfiar, desqualificar, baralhar os planos (tornar conversas privadas em assunto político, por exemplo).

Continuar nesta linha de destruição do outro como interlocutor e pensar que o país pode ser viável dessa maneira - é como pensar que é possível existir um par de namorados ligado por um grande amor apesar de cada um julgar o outro absolutamente inconsciente, irrealista, mal informado, perverso, mentiroso, …

_______________________

REFERÊNCIAS

[1] AUSTIN, J.L., "A Plea for Excuses", in Philosophical Papers, Oxford, Clarendon Press, 1979 (para a terceira edição, sendo a 1ª edição de 1961; trata-se de uma reimpressão do texto publicado pela primeira vez em 1957), p.182

[2] , DAVIDSON,D., "The Method of Truth in Metaphysics", in Inquiries into Truth and Interpretation, Oxford, Clarendon Press, 1984 (republicação do original de 1977), pp.199-205


o Sócrates do PSD?


Pedro Passos Coelho é o novo líder do PSD.

Passos Coelho é o novo líder do PSD.

Penso que PPC pode ser um bom líder para o PSD. Por "bom líder" entendo alguém que dê um rumo à casa, que faça uma oposição sustentada e que, desse modo, convença o eleitorado de que pode ser vizir em lugar do vizir. PPC é um tipo de político pouco apreciado em Portugal: um tipo que não tem galões nenhuns mas decide preparar-se para exercer uma função e se bate para ter a sua oportunidade. Pode ser um pouco radical em certas coisas, mas isso só faz bem ao país e ao PSD: que haja uma alternativa, quer dizer, que se proponham políticas diferentes.
Também ninguém dava nada por Sócrates e, afinal, os adversários, para o tramarem, tiveram que deixar de fazer política para fazer porcaria (com a imprensa, com os tribunais). Porque Sócrates se mostrou de uma determinação e coragem políticas surpreendentes. Há uma diferença: Sócrates, quando apareceu, era menos interessante do que os "padrinhos" que o arranjaram para tomar conta da casa. PPC, tanto quanto é dado saber, é mais interessante do que os "padrinhos" que conseguiu arranjar. Vejamos o que isso lhe vale.
O país precisa de política, para sair do chiqueiro. Vamos ver se PPC tem coragem para isso.

Passos Coelho sublinha que o resultado “é inequívoco”.

26.3.10

a santa aliança


Escreve o Miguel Abrantes, no Câmara Corporativa:
Voltando ao tema das audições, foi desde muito cedo claro que haveria que ouvir os protagonistas da única conspiração conhecida para condicionar o direito de informação dos cidadãos, a célebre “inventona” das escutas de Belém. Surpreendentemente (para quem ainda se surpreenda com estas coisas), Luciano Alvarez e Tolentino de Nóbrega não estiveram para se maçar e disseram-se indisponíveis para ir ao Parlamento. Vai daí, o BE achou por bem também não incomodar Fernando Lima, o ex e actual assessor do Presidente da República. Parece que a Santa Aliança ainda mexe.
Integral aqui.

palhaçadas monárquicas

16:23


Público: Sapadores de bombeiros retiram bandeira monárquica que susbtituiu a nacional.

i: Bombeiros retiram bandeira monárquica.

Isabel Moreira, no jugular:
Bonito é roubar a bandeira republicana e colocar, no seu lugar, a bandeira monárquica. E no Parque Eduardo VII. Um parque assim baptizado em honra de Eduardo VII, de Inglaterra, famoso pelas suas infidelidades conhecidas e toleradas pela obediente esposa, um verdadeiro playboy, o que me parece indiferente, mas que é o retrato tão actual da queda dos valores conservadores que as monarquias europeias pretendiam e pretendem hipocritamente representar.

Desta vez o PPM não conhecerá os autores e não fará uma capa de jornal a toda a largura e coisa e tal? Ou a legalidade e a ilegalidade dependem da amizade?

Inês de Medeiros, deputada, e o calado Gama (a honra das pessoas)

16:15

Fernanda Câncio, no Diário de Notícias, excerto:
«A não ser, espera, que Inês de Medeiros não tenha dado uma morada falsa. Que o seu dossier de candidatura diga, claramente, no local de residência, "Paris, França" - aliás à imagem do seu BI, emitido em 6 de Dezembro de 2005. E que a decisão de candidatar uma portuguesa residente em Paris pelo círculo de Lisboa tenha - obviamente - sido do partido que a convidou, que como os outros partidos candidata residentes nos Açores para o círculo de Bragança e terá considerado que a residência num país do espaço de livre circulação europeu não limita os direitos de cidadania nem restringe as possibilidades de representação política. E que a existir uma limitação ela teria sido, decerto, detectada e apreciada aquando da submissão da candidatura aos serviços competentes. Ou não?
É certo que a deputada se mantém inscrita como eleitora em Lisboa, mas na mesmíssima situação de desencontro estão muitos milhares de concidadãos: confundir tal com falsificação será no mínimo estulto. Mais ainda o é o facto de, tendo sido os serviços da AR que, após a eleição, informaram Medeiros do seu direito legal ao pagamento das viagens que faz à residência, ser à deputada que se pedem explicações, enxovalhando-a e denegrindo-a meses a fio. Ainda que a calúnia e difamação sejam já a normalidade, talvez não fosse má ideia perguntar, simplesmente, aos serviços do Parlamento o porquê da "confusão". E a Jaime Gama porque está tão calado.»
Via jugular.


grafitos de madrid

preparativos para a páscoa

25.3.10

federação ibérica de juventudes anarquistas

Um cocktail com muitos temperos. Quem dera que alguns dos mencionados entrassem em todas as receitas.


pelas ruas de madrid


melancolia europeia

17:00
(Cartoon de Marc S.)
(clicar para ampliar)

estamos todos a dar o máximo

16:40
(Cartoon de Marc S.)

a fátima sempre a fazer das suas (obrigado, fátima, por às vezes salvares os dias)

13:18
(clicar na imagem para ir)

só neste país é que se diz "só neste país"



A lei sobre a reforma do sistema de saúde nos Estados Unidos terá de ser votada de novo pela Câmara dos Representantes devido a uma irregularidade processual.Depois de horas a tentar bloquear o texto, os republicanos encontraram duas disposições relativamente menores que violam os procedimentos do Senado. Lê-se no i.

«Debruçasse-se alguém, com o mesmo zelo e objectividade, sobre nosso rating político para lhe atribuir uma notação, e verificaria que este não está apenas abaixo de zero, está também abaixo de cão.» José Aguiar, no Albergue Espanhol.

Misterio del Cristo de los Gascones, pela Nao d'Amores

08:46

A companhia é espanhola (residente em Segóvia) e tem nome (Nao d'Amores) retirado de um auto de Gil Vicente, o espectáculo já pôde ser visto (e vimos) em Lisboa (no Teatro do Bairro Alto, integrado no Festival de Almada, edição 2008), agora (ontem) pudemos reencontrar uma e outro em Madrid.

A companhia, especializada no reportório renascentista, apresenta um trabalho baseado num dos primeiros elementos do teatro espanhol: uma recriação contemporânea da cerimónia litúrgica da Paixão como tinha lugar na Igreja de San Justo em Segóvia. O "Cristo de los Gascones" era (e é agora outra vez) uma imagem do Cristo, policromática e com os braços articulados, quase do tamanho de um humano adulto, que o sacerdote oficiante nessa igreja usava (e agora usam os actores) para explicar alguns episódios da vida, morte e ressurreição de Cristo segundo as crenças católicas. A música utilizada nesta versão tem como ponto de partida uma obra do "Cancioneiro da Catedral".

Desta feita, a oportunidade aconteceu na Basílica de San Francisco el Grande, numa apresentação integrada nas comemorações da Semana Santa de Madrid 2010. Apesar de já conhecermos o trabalho, soube a diferente esta apresentação numa igreja (cheia), com as luzes apagadas ao princípio da noite (só com o zimbório e os vitrais iluminados a partir do exterior), explorando o espaço bem diferente daquele que existe no Teatro do Bairro Alto. A acústica não facilitava a compreensão detalhada do texto: nesse aspecto, estivemos mais confortáveis em Lisboa, apesar de termos, neste texto, um espanhol mais próximo do português do que é o caso na actualidade. Curiosamente, recebidos numa igreja, este texto e representação parecem mais heterodoxos do que vistos num teatro. São exemplos disso o quadro do baptismo de Cristo, envolvendo o herói num divertimento quase infantil com as águas, ou o episódio da Madalena, apresentado como uma tentação erótico-amorosa do Cristo.
O vídeo que se segue, bem como o cartaz que acima se reproduz, não apontam para esta representação em concreto, mas são produto genuíno da companhia.



24.3.10

trocado Gama / trocado eu


Devo um pedido de desculpas a Jaime Gama
. O Secretário de Estado chama-se mesmo Trocado. Quanto ao resto, continuo a achar que o comportamento de Gama foi arrogante, raiando o malcriado. Assinado: Porfírio Silva, Madrid, a 24 de Março de 2010. Citações judiciais para o endereço habitual.

"a diplomacia não tem estados de alma"



Exactamente, Eduardo Pitta. A coragem não é tomar atitudes - é assumir-lhes as consequências.

(Na altura pensei que era uma vergonha o governo não fazer respeitar a autoridade do Estado. Afinal, estava-se apenas à espera do momento.)


esquerdas, a deles e a nossa

10:00

Vi, recentemente, gente da esquerda portuguesa, incluindo simpatizantes do PS, festejar aí pela blogosfera a vitória, em França, da esquerda lá deles (deles, dos francos, claro). Coisa que envolve, assim para começar, o PSF, a Frente de Esquerda (comunistas incluídos) e a coligação Europa Ecologia. E, das regionais de agora, já com o olho nas presidenciais.
Alguns desses festejantes e contentes, ao mesmo tempo iam escrevendo na página ao lado acerca da impossibilidade absoluta, e até do notório desinteresse, de um entendimento luso entre o PS e aqueles que se reclamam como a esquerda da esquerda.
Deve ser o PS lá deles que é muito vermelho, a esquerda da esquerda francesa que é muito cor de rosa, ou então escapa-me qualquer coisa.
Por que é que há coisas que "os outros" podem fazer e em Portugal, e para os portugueses, são sempre "impossíveis" (para as nossas cabeças, claro)?


23.3.10

Calígula, de Camus, um excerto para filósofos da polis

.
.
.

(estamos no fim da Cena VII do I Acto)

CALIGULA
Et bien, j’ai un plan à te soumettre. Nous allons bouleverser l’économie politique en deux temps. Je te l’expliquerai, intendant… quand les patriciens seron sortis.

Les patriciens sortent.

(Cena VIII)

Caligula s’assied près de Cæsonia.

CALIGULA
Écoute bien. Premier temps : tous les patriciens, toutes les personnes de l’Empire qui disposent de quelque fortune – petite ou grande, c’est exactement la même chose – doivent obligatoirement déshériter leurs enfants et tester sur l’heure en faveur de l'État.

L’INTENDANT
Mais, César…

CALIGULA
Je ne t’ai pas encore donné la parole. À raison de nos besoins, nous ferons mourir ces personnages dans l’ordre d’une liste établie arbitrairement. À l’occasion, nous pourrons modifier cet ordre, toujours arbitrairement. Et nous héritions.

CÆSONIA, se dégageant
Qu’est-ce qui te prend ?

CALIGULA, imperturbable
L’ordre des exécutions n’a, en effet, aucune importance. Ou plutôt ces exécutions ont une importance égale, ce qui entraîne qu’elles n’en ont point. D’ailleurs, ils sont aussi coupables les uns que les autres. Notez d’ailleurs qu’il n’est pas plus immoral de voler directement les citoyens que de glisser des taxes indirectes dans les prix de denrées dont ils ne peuvent se passer. Gouverner, c’est voler, tout le monde sait ça. Mais il y a la manière. Pour moi, je volerai franchement. Ça vous changera des gagne-petit. (…)
.
.
.

eu pensava que grande parte da esquerda era laica

09:32


Eu pensava que grande parte da esquerda era laica. Que não espera que caia maná do céu. Que acreditava na necessidade do nosso próprio empenhamento responsável na modificação das nossas condições. Mas não: certas tomadas de posição relativamente ao PEC, que fazem passar a ideia de que "tudo é possível", não são apenas idealistas: são profundamente "religiosas", quer dizer, vivem de "fézadas". É que uma coisa é propor outras opções perfeitamente compatíveis com o quadro que enfrentamos (como alguns membros do PS têm proposto, por exemplo aqui), outra coisa é querer convencer alguém de que podemos ir, a gosto, de qualquer ponto da história a qualquer outro ponto da mesma história do mundo, sem limitações de espécie alguma. Como se a cabra pudesse optar por ter um pescoço de girafa para maior facilidade em alcançar as folhas das árvores mais altas.
Por outro lado, não me surpreende o "orgulhosamente sós" de algumas dessas vozes que se reclamam de esquerda da esquerda. Uns tantos dos que criticam o PEC entendem, no fundo, que Portugal viveria bem era sem os constrangimentos da Europa e do Euro e dessa tralha toda. Autarcia. O velho sonho salazarista. Sós contra o mundo. Talvez também fechar as fronteiras, o que faria uma bela ponte ideológica com a direita mais extrema. Comer o pão das nossas searas. Beber o vinho das nossas cepas. Respirar o ar das nossas serras. E estiolar à sombra da irresponsabilidade de uma esquerda que deixou de ter tomates para dizer a verdade. E a verdade é que o "socialismo" ou qualquer outra coisa que se queira prometer, mesmo que seja apenas um pouco mais de igualdade e de equidade, só lá vai com esforço. "Por nossas mãos, por nossas mãos", como dizia a canção.
(Isto, claro, não me deixa ter menos pena da pobreza de espírito daqueles que, "do nosso lado", tratam as divergências como "traição". Mas essa é outra história.)

22.3.10

trocado Gama


Este vídeo parece ser o vídeo da cena em que o presidente do parlamento português ridicularizou um secretário de estado, no plenário daquele órgão de soberania, por ele não se dirigir aos representantes do povo com a fórmula regimental. Mas não é. Este vídeo é, ou parece ser, o vídeo que mostra que o presidente do parlamento português dá a palavra a um membro do governo com uma descortês troca de nomes, chamando-lhe "trocado" em vez de Torcato. Talvez seguindo a moda, lançada por outros mais dados a palhaçadas com as autoridades.
Sou eu que ouço mal e Gama falou certo? Espero bem que sim, que seja eu a estar errado. Caso contrário, o mesmo presidente do Parlamento que embarca em teses populistas e demagógicas contra os deputados, também não pratica o respeito pelos titulares de que tão ostensivamente se quer mostrar defensor.

Acrescento mais tardio do que o desejável: Devo um pedido de desculpas a Jaime Gama. O Secretário de Estado chama-se mesmo Trocado. Quanto ao resto, continuo a achar que o comportamento de Gama foi arrogante, raiando o malcriado. Assinado: Porfírio Silva, Madrid, a 24 de Março de 2010. Citações judiciais para o endereço habitual.


o estrangeiro nosso de cada dia

«Los extanjeros están ahí, son parte de nuestra sociedad, de nustras ciudades, y hay que buscar una solución de vida conjunta que no pase por el relativismo.»

«Ahora, es necesario recuperar la polis y, con ella, el sentimiento de hospitalidad al que nos debemos.»
Lola Blasco Mena, Generación

Fotografias de Pierre Gonnord, da série Terre de Personne







França: o Presidente mantém o rumo


(Cartoon de Marc S.)




quando a política vale a pena

09:37


Obama faz história com aprovação da reforma da saúde.

Reforma da Saúde histórica aprovada no Congresso dos EUA.

Por muito que Obama tenha tido que ceder para conseguir a aprovação desta reforma - e foi muito - este acto legislativo é um daqueles que representam o melhor da política. Esta peça teve também do pior que há na política americana: o uso de todos os meios, incluindo as mais baixas calúnias, para ocultar a verdadeira discussão com acusações torpes ao Presidente e aos Democratas. Contudo, em saldo global, trata-se de uma decisão que realmente interessa a milhões de cidadãos: os que serão directamente beneficiados e os que preferem viver num país com mais decência humana. É isto que precisamos aprender com esta batalha: a política só vale a pena se lutarmos por causas. Mesmo que estejamos errados. Sem isso, a política é um mau telejornal. E disso já temos que baste.


21.3.10

o Calígula de Camus

A companhia teatral L'OM-IMPREBÍS, nascida em Valencia, está a apresentar em Madrid, no Teatro Fernán Gómez, a peça de Albert Camus “Calígula”. A peça, em que Camus tencionava representar ele próprio o papel principal, teve um primeiro manuscrito em 1939; aquando das primeiras representações, em 1945, foi entendida como uma fábula sobre os horrores do nazismo; continuou a ser significativamente reelaborada até 1958, sendo, para Camus, acerca de um problema mais geral do que qualquer horror historicamente localizado. Esta é uma reflexão sobre a procura do impossível. Nas palavras do próprio Camus, esta peça, junto com Le Malentendu, tratava de precisar o pensamento expresso em L’Étranger e em Le Mythe de Sisyphe. Pertence, pois, ao pensamento sobre o absurdo.
No princípio, Calígula queria a Lua, uma das (poucas) coisas que não possuía. Com o passar do tempo e uma mais aguda compreensão do seu lugar como imperador, querer o impossível torna-se um programa para o poder: “Acabo finalmente de compreender a utilidade do poder. Ele dá ao impossível a sua oportunidade. De hoje em diante, a liberdade não mais terá fronteiras” (Acto I, Cena IX). Em Calígula, que se declara “o único homem livre neste império” (Acto I, Cena XI), a tirania não é uma loucura. Como diz Cherea de Calígula: “Imperadores loucos, nós conhecemos disso. Mas este não é suficientemente louco. E o que detesto nele é que ele sabe o que quer” (Acto II, Cena II).

As ideias perigosas não são ideias peregrinas, repentinas, não vão de mãos dadas com o impulso. As ideias perigosas são grandes sistemas. Na peça, Cherea diz aos patrícios que vai colaborar no golpe de Estado contra o imperador, não pelas pequenas razões deles, que querem vingar-se de afrontas pessoais várias, mas antes “para lutar contra uma grande ideia cuja vitória significaria o fim do mundo”. Essa “grande ideia”, nascida na cabeça do poder que se quer suficientemente absoluto para obter o impossível, tem a sua própria lógica, é capaz de sistema filosófico. Não há-de ser por isso que devemos ceder: podemos ser esmagados pela retórica do sistema, mas temos de encontrar os nossos meios de lhe fazer frente. Como conclui Cherea: “Il faut bien frapper quand on ne peut réfuter” (Acto II, Cena II). Essa realidade política é muitas vezes ignorada: quantos estão tão convencidos da sua razão que esquecem que “vencido” e “convencido” são coisas distintas.
Às “grandes ideias”, à demanda do “impossível”, pode opor-se a gente “normal”, com ou sem aspas, com ou sem os desprezos que a qualificação por vezes acompanha. Cherea, respondendo a Calígula, que lhe perguntava por que quer ele matar o imperador, diz (Acto III, Cena VI): “Gosto e necessito de segurança. A maior parte dos homens são como eu. São incapazes de viver num universo onde o pensamento mais bizarro pode num segundo entrar na realidade – onde, a maioria das vezes, entra como uma faca num coração. Eu também não quero viver num tal universo.”


A versão que vimos desta peça, ontem em Madrid, tem uma força que assenta no próprio texto. Contudo, o desempenho de Sandro Cordero, no papel de Calígula, ajuda muito a tornar verosímil o que vemos e ouvimos. O comportamento do imperador parece, à nossa sensibilidade burguesa, tão bizarro – esquecidos que às vezes estamos da nossa capacidade de produzir horror e de pactuar com o horror – que o objecto teatral camusiano arrisca parecer-nos fantástico, uma fábula. Calígula, que não se contenta em ir mandando matar ou matando pelas suas próprias mãos os que o rodeiam, quer ser, para contrariar um consulado demasiado morno, quer ser a própria peste que a natureza não mandava. Manda fechar os celeiros para haver fome. Assume-se como um deus. É amante da irmã e de outras, que não se impede de estrangular. Organiza um “sistema de impostos” assente no assassinato. E por aí adiante, numa lista de crimes que exibem grande imaginação. O actor, mostrando a quase inocência juvenil com que vai amadurecendo a liberdade do tirano, dando a ver como a inteligência pode servir o puro desprezo por todos os outros seres, humanizando em carne e osso a infantilidade do experimentador com o poder, torna tudo aquilo acreditável. E esse é um feito necessário: temos de compreender que tudo aquilo é possível. Que a história não é menos absurda que a peça.
Camus escreveu desta peça que não se tratava de teatro filosófico – quando ela é, manifestamente, teatro filosófico. Tal como este Calígula diz que não é um tirano porque os tiranos matam por ideias e ele não tem ideias – quando ele tem a mais poderosa de todas as ideias, a ideia de querer a utopia.


gente que andá brincar com a tradição cultural do ocidente

agenda política na justiça


Jorge Sampaio em entrevista ao Público.
Pergunta - Há uma Justiça com agenda política ou é uma desconfiança?
Resposta - Há uma profunda desconfiança sobre isso e não pode haver de todo. Por exemplo, de acordo com o que veio nos jornais, o processo do procurador Lopes da Mota deixa-nos alguma preocupação; por isso os votos de vencido na instância de recurso são da maior importância. Sabe-se agora que, afinal, se tratou de uma única conversa, a sós, entre Lopes da Mota e os procuradores do caso Freeport, que dão versões diferentes, sobretudo quanto ao tom e quanto ao sentido da conversa. E sabe-se também que a única pessoa que ouviu as versões de ambas as partes, a procuradora distrital de Lisboa, Francisca van Dunen, votou contra a punição por não haver qualquer razão objectiva para preferir qualquer das versões. Vale a pena que continue a esclarecer-se o porquê da punição, cuja justiça, neste enquadramento, deixa as maiores dúvidas.
Aqui.