19.3.10

Gama é um infoexcluído?



Deputados socialistas batem com as tampas dos computadores
.
«O protesto dos deputados aconteceu quando Jaime Gama respondia a uma interpelação do deputado socialista, e presidente do Conselho de Administração da AR, José Lello, que se queixou de os repórteres fotográficos captarem imagens dos écrans dos computadores dos deputados, violando a sua privacidade. O presidente da AR respondeu que os computadores não são pessoais e que há regras para o trabalho dos repórteres, estando ao alcance dos deputados mudarem essas regras se o entenderem. Estas declarações de Gama suscitaram também uma vozearia na bancada do PS.»

Razão tem a Maria João: «Cá para mim o Jaime Gama é um infoexcluído. A questão não é o instrumento, é o que se faz com ele (sim, também se aplica aqui, esta máxima). Se o deputado estiver a consultar a sua conta bancária, são dados privados. Se estiver a ver o mail, são dados privados, se estiver a inserir passwords, são dados privados. O computador pode ser um bem público, mas o que se faz com ele pode (e muitas vezes deve) ser privado.»

Mas, além disso, mais preocupante é que também Gama esteja a enveredar por atirar rebuçados ao populismo, aos que querem tratar os deputados (e qualquer pessoa com responsabilidades de interesse público) como se não tivessem direito ao seu espaço pessoal e tivessem de se considerar sempre "na arena". Se é com a ajuda dessas palhaçadas que Jaime Gama se quer projectar (não sei bem para onde), faria bem lembrar-se que nunca conseguiu fazer-se eleger para nada a que tenha concorrido em seu nome pessoal. Isto só para não lhe darem ideias. Se já nem o Lello o atura...

dia doS paiS (o dia do pai comemoro em privado)

09:52

Relatório Estrela: Eurodeputada portuguesa luta por licenças maiores para os pais.
Ricardo Bação, 34 anos, "Key Account Manager" da Optimus, empresa de telecomunicações do grupo de Belmiro de Azevedo, vai ser pai pela primeira vez daqui a dois meses e garante - com toda a certeza e alguma emoção - que vai gozar a licença de paternidade. "Porque considero que é um momento único. E não podemos desperdiçar estes primeiros dias de vida", afirma, reconhecendo que a mãe é mais importante do que o pai, "nos primeiros tempos". Ricardo Bação sublinha que quer estar com o bebé e também com a mulher e mãe da criança. "É muito importante dar apoio e estar ao lado da mulher nestes momentos".
Continua no Diário Económico, aqui.

Sobre o "relatório Estrela", a "entrevista Estrela".

um quase post aberto a José Sócrates

09:38

PEC causa fractura no governo socialista de José Sócrates. «Há quem admita que o próprio José Sócrates estará desconfortável com o PEC, mas incapaz de dizer que não a Teixeira dos Santos.»

Congelamento das prestações sociais abre divisões entre ministros de Sócrates.

Este pode ser o momento de viragem deste governo. Ou Sócrates toma a coisa a peito, mostra quem manda e mostra que o programa eleitoral é para cumprir - e pode recuperar a iniciativa política, redesenhando a equação própria do PS e os desafios que ela deve colocar aos outros partidos e forças sociais (incluindo sindicatos e patronato); ou o PS, Sócrates, o grupo parlamentar e os fazedores de opinião socialista calam a boca por conveniência - e acabou a festa, pá. A partir daqui será sempre a cair. O outro dirá "porreiro", mas já sem o "pá", claro.

Em política há que os ter no sítio. Especialmente se se quer liderar alguma coisa. Não se pede a Sócrates que tenha lido Platão. Pede-se que mostre que sabe o que prometeu aos portugueses. Eu lembro só uma dessas coisinhas.

18.3.10

quê



Escreve Francisco Clamote, no Terra dos Espantos:
A Comissão de Inquérito é o lugar apropriado para Ferreira Leite apresentar prova das suas acusações, com todas as consequências que ao caso couberem. Seria, aliás, estranho que à autora das acusações não fosse dada a oportunidade de prová-las.E direi mais: estranho é que não seja ela própria e o seu partido a exigir a prestação do seu depoimento.
Integral: Andamos a brincar às acusações ou quê?
Francisco, a resposta é: "quê"...

Poema para Galileu, de António Gedeão,dito por Mário Viegas

mais alertas

19:10

De outro perigoso extremista, o deputado pelo PS, João Galamba:
(...) apetece-me deixar aqui um proposta de alteração do PEC. Dado que os bancos lucraram com a generosa política monetária do BCE e não têm injectado o que devem na economia real, e tendo em conta que foi o sector financeiro que nos meteu neste aperto, que tal anunciar um aumento da taxa efectiva de IRC. Quanto? Tanto quanto necessário para, primeiro, não impôr tectos cegos e injustos na despesa com o RSI e, segundo, para não cortar no investimento público. Seria uma medida da mais elementar justiça e contribuiria para uma maior dinamização da actividade económica.
Integral: proposta de alteração do PEC.

Ou de outro jugular, João Pinto e Castro:
A mim, não me faz espécie uma eventual privatização dos CTT, mas estranho que a decisão apareça assim caída do céu, como se fosse a coisa mais natural e inquestionável do Mundo. Dir-se-ia que os espíritos dormem durante anos e depois, acossados por uma qualquer emergência, despertam para a vida e se ofuscam com a luz. (...) A falta de dinheiro não é desculpa para se brincar às políticas.
Integral: Revoadas de políticas.

morte acidental de um anarquista



Ontem fui ver Muerte Accidental de un Anarquista, versão do texto de Dario Fo pelo Suripanta Teatro (Extremadura), que se apresentou na XV Muestra de Teatro de las Autonomías, a decorrer no Circulo de Bellas Artes (Madrid).
Para muitos, esta é a melhor peça do italiano Dario Fo, um escritor que nunca fugiu às implicações políticas do teatro e que aqui  não destoa. Prémio Nobel da Literatura, viu a Academia Sueca considerá-lo como um herdeiro dos jograis medievais, na função de ridicularizar os poderes estabelecidos e restaurar a dignidade dos oprimidos. Nesta peça, estreada há quase 40 anos, ridiculariza a hipocrisia dos que defendem a "versão oficial" a todo o custo - e também aqui recorre ao riso como ácido revelador e corrosivo. O cómico mistura-se com uma trama de novela policial enredada, fazendo-nos rir sem nos dispensar de pensar.
O ponto de partida é um acontecimento histórico: o ferroviário anarquista e pacifista Giuseppe Pinelli, acusado de participar num atentado em que tinham morrido 16 pessoas, está a ser interrogado na polícia quando... cai de uma janela... e morre suicidado! Ninguém tem dúvidas de que o homem foi assassinado pela polícia (reportar que um suicidado morreu por acidente é uma das gaffes do enredo em que a polícia, na peça, se enreda), mas os juízes arquivam o caso, supostamente pressionados pelo governo. Guiados por um dos "loucos" inteligentes de Fo, vamos seguir as peripécias de caso tão revelador.
Nesta versão, para meu gosto, o cómico ridículo é, a partir de certa altura, levado um pouco longe demais: é tanta a bofetada e a zaragata que o objecto perde um pouco de credibilidade, a ponto de prejudicar a compreensão do que está a ser dito nas entrelinhas do burlesco. Se a companhia achava que a estratégia geral dos enganos proporcionados pelo louco encartado, apesar de brilhante, podia cansar - havia de ter buscado outras linhas de ataque. O excesso, a partir de certa altura, faz vir ao de cima o aspecto estereotipado das personagens aqui mostradas, o que não tinha necessariamente de ser com um texto inteligente como este. De todos os modos, em geral, foi mais uma agradável visita ao teatro que se faz em Espanha.
Note-se que está em causa nesta peça um tratamento desajustado dado pela polícia a um suspeito de terrorismo, estão em causa métodos pouco ortodoxos de "inteligência" policial face aos grupos terroristas - e isto encena-se num país que sofre de terrorismo e também já teve os seus episódios de "terrorismo policial" no combate ao terrorismo. O teatro é assim: é para pegar no touro pelos cornos. Doam a quem doerem (os cornos).


Cavaco e a TVI

00:29

A ler n'O Jumento:
Cavaco deve ir à comissão de inquérito dizer com base no quê falou na liberdade de expressão e de informação e quais as suas motivações para pressionar politicamente num mercado acabando por prejudicar uma empresa e favorecer outra. A verdade é que a intervenção de Cavaco Silva não resultou na continuação de Manuela Moura Guedes no seu pasquim da sexta-feira mas sim numa oportunidade de negócio para a Ongoing de José Alberto Moniz.
Integral aqui.

17.3.10

alertas

23:42

voando mais alto vê-se mais longe

12:58

eu voto Rangel

12:46


Parece-me, pelo tom, que muitos opinadores próximos do PS temem que Rangel ganhe o PSD. Acharão que Passos Coelho é mais suave e, além de tolhido pela boa educação, morrerá às mãos do seu liberalismo. Rangel, pelo contrário, é visto como uma máquina de guerra contundente que faria estragos. Não estou nada de acordo.
Rangel em seis meses perderia qualquer réstia de credibilidade, quando o país percebesse que ele passa a vida a dizer a primeira coisa que lhe vem à cabeça. E lava a cabeça todos os dias. Ganhou as Europeias porque a refrega foi curta, porque Vital foi insuficiente - e porque alguém estudou os dossiers por ele. Mas não passaria do segundo set em qualquer bom encontro de ténis, puxado pelo peso da sua própria raquete (retórica, quero dizer).
Passos Coelho, pelo contrário, tem-se preparado. Claro que, neste país, ninguém dá importância nenhuma ao "preparar-se" e as pessoas tendem até a desprezar os tipos que estudam os assuntos. Mas essa preparação pode dar-lhe uma respiração própria: um líder não pode subir as escadas de um gabinete qualquer a pedir que lhe façam uns resumos do país, como me parece que seja o estilo de Rangel. Quanto aos excessos de liberalismo de Passos Coelho, eles são bem-vindos: se o PSD for apenas mais do mesmo, não vai a lado nenhum. A ruptura de Rangel é folclore, um liberalismo que lembrasse o que isso dói - acordaria a malta: os que pensam que isso os (nos) salvará, bem como os que estão destinados a pagar a factura da experiência e assim talvez aprendam que nem tudo vale o mesmo.

a criatividade do Público em franca expansão


Acho bem: em qualquer caso, dar nomes de ruas a pessoas, é mau. Muito mau. Já viram o que seria homenagear José Manuel Fernandes, o saudoso ex-Director, dando-lhe o nome de Rua da Betesga?


incluindo arrancar olhos

329 palavras cantadas

09:05


Toranja: Carta, de "Esquissos"



16.3.10

Marcelo e o movimento perpétuo


PSD: Marcelo Rebelo de Sousa diz que sanções a militantes são constitucionais e critica "erro de ir atrás do PS".

O Professor Marcelo continua a dar cambalhotas no arame. Acerca da alteração estatutária, aprovada no passado fim-de-semana no congresso do PSD, que alguns chamaram "lei da rolha", destacou duas vantagens da aprovação desta norma. Uma dessas vantagens é, no suposto de que o PS tem norma idêntica, dar ao PS a possibilidade de rever a matéria. Quanto a este ponto, espero a vez do PS vir comparar as normas. A outra das vantagens que Marcelo vê na aprovação desta norma neste congresso é dar a possibilidade ao PSD de "emendar a mão” no próximo congresso. Ora aí está o que é fazer o pino em cima do gargalo: façamos asneira hoje para ganharmos a heróica possibilidades de fazer coisa boa amanhã. Está descoberto o princípio do movimento perpétuo em política.

liberdades




Que a liberdade de imprensa dê guarida a certas "notícias" que alguns órgãos de comunicação social têm divulgado - é como se a liberdade de circulação autorizasse passeios por cima do teu corpo.


primaveras



Alexander Dubček - um breve líder da Primavera de Praga que tentou transformar um regime comunista num regime democrático nos idos de 1968-69, que entrou na escuridão política após a invasão soviética e ressurgiu depois da Revolução de Veludo, tendo chegado a presidente do Parlamento Checoslovaco - é homenageado por um busto que permanece na praça entre as faculdades de filosofia e de direito da Universidade Complutense de Madrid. Mas a homenagem não parece muito respeitada, a julgar pelas pinturezas suplementares. Provavelmente, a maior parte dos frequentadores nem faz ideia quem tenha sido o homem.
Entrando, lá dentro, no átrio do edifício das faculdades de filosofia e de filologia, está anunciado (estava lá a primeira vez que aí pisei) um seminário sobre Lénine. Parece este mais vivo do que aquele.
Primaveras há muitas... Algumas são invernos.

15.3.10

natureza morta



(P.S., Natureza Morta 1)


(P.S., Natureza Morta 2)

uma ideia para certos congressos partidários


Notícia: o Público dá uma notícia que talvez não seja enviesada (mas não garantimos sem ir antes ler o Câmara Corporativa, onde estão dos melhores destapa-carecas-de-pasquins que nos é dado conhecer). Reza assim:
«A mais recente sensação da Internet conta com mais de dois milhões de visualizações no YouTube em um par de semanas: é um vídeo musical de 1976, no qual o cantor romântico soviético Eduard Khil trauteia a melodia de uma canção à qual os censores do Kremlin não deixaram passar a letra por falar de um cowboy cuja namorada ficava em casa a tricotar meias. O cantor, hoje com 75 anos e a viver em São Petersburgo, não compreende como se deu este renovado sucesso – não sabe bem o que é a Internet – e acha que estão a gozar com ele quando lhe falam do êxito mundial alcançado.»
O método parece-me de aplicação útil em certos congressos partidários: se poupassem a letra e dessem só a música seria preferível.



o efeito china na internet



(Cartoon de Marc S.)


as leis e os hábitos

09:58

Leio no Público:

Há mais homens a tirar licenças de parentalidade desde a entrada em vigor, em Maio de 2009, do decreto-lei que alarga a licença de quatro para cinco meses, paga a 100 por cento, quando parte desse período é partilhado entre pai e mãe. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social, o número subiu de 605 em 2008 para mais de 12 mil em 2009.
(...)
"O ideal seria que 50 por cento das licenças fossem gozadas pelo pai para que as mulheres não sejam discriminadas no trabalho", diz Clara Sottomayor.

As leis podem, de facto, ajudar a mudar os hábitos. E as mentalidades. Essa coisa simples é difícil de compreender para alguns.


14.3.10

fds

22:29




a imagem na ciência e na arte

outro teatro / outro mundo

20:18

A 8 de Novembro de 2009, um público emocionado, entre o qual se contava a sobrinha (Laura) de Federico García Lorca, acolheu oito mulheres ciganas a representar La Casa de Bernarda Alba. Essas mulheres agora actrizes não sabem ler nem escrever. Donas de casa no bairro de lata El Vacie (talvez a “chabola” maior e mais antiga da Europa), em Sevilha, quando deixam a sua cidade para prosseguir esta tournée de êxito, preocupam-se é com as condições em que ficam os seus maridos e filhos. Condições – ratos e imundície – a que voltam elas mesmas quando acaba mais uma série de representações. A encenadora é Pepa Gamboa, do TNT – Centro Internacional de Investigación Teatral, que alberga a companhia de teatro Atalaya na capital da Andaluzia. Calhou-nos a sorte de ver tudo isto, agora em Madrid, no Teatro Español (ontem, 13 de Março). Marga Reyes, com o papel de Poncia, é a única actriz profissional (e a única não pertencente à comunidade cigana) em cena, representando no palco o património de teatro social e experimental da companhia.




A peça La Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, escrita em 1936, terminada um mês antes do fuzilamento do poeta pelos Falangistas, é por demais conhecida. É um estudo sobre a condição da mulher nas aldeias de Espanha, sobre a repressão social (de que podem mulheres ser vítimas e outras mulheres agentes), a repressão sexual (com o homem a polarizar medo e desejo, a par com o desrespeito machista, e a ausência – nesta peça os homens nunca aparecem em carne e osso), uma ordem tradicional que coloca as aparências acima das pessoas (a fala de Bernarda perante cada evidência da desgraça é “no pasa nada”). Tendo Lorca sido um amigo dos ciganos, uma das comunidades mais perseguidas e discriminadas, ainda hoje, mesmo nesta Europa que se julga muito “social”, a escolha desta peça para dar esta oportunidade a estas mulheres foi muito acertada.


Rocío Montero faz Bernarda Alba, um corpo grande e uma voz poderosa a suportarem uma dose extra de realismo: deve ser a primeira actriz a representar Bernarda que tem mais filhos (7) do que a própria personagem (5). Carina Ramírez, de 23 anos, faz de Amélia. Com a sua graciosidade, já se vê a ficar como actriz. Sonia da Silva faz de Adela e nesse papel dança maravilhosamente. Mari Luz Navarro faz María Josefa, a mãe louca de Bernarda, divertidíssima. Nunca tinham ido ao teatro antes, nem tinham ouvido falar de Lorca – e agora mostram-nos quanto é possível levar a efeito quando há pessoas que o sonhem e tenham coragem para deitar mãos à obra.

 

Esta encenação teve origem numa oficina de iniciação ao teatro que a companhia organizou para aquela comunidade do limiar de Sevilha. As coisas não começaram com facilidades: como Rocío contou espontaneamente no encontro com o público, no princípio elas queriam que lhes pagassem para ir à tal oficina – e não percebiam por que haveriam de ir se assim não fosse. No final, as mulheres, tendo gostado, quiseram representar uma peça para as suas famílias – e a companhia respondeu que teriam uma peça se a fizessem como os demais actores o fazem, para quem quiser ir ver. E assim foi.
É certo que a encenadora tomou liberdades com o texto para conseguir uma peça o mais próxima possível daquilo que aquelas actrizes melhor poderiam compreender e assumir. Trata-se, nesta versão, de uma sequência de quadros, com muita música e dança pelo meio, que se vê melhor se se conhecer algo da história previamente. Mas a forças das mulheres que interpretam é enorme, na alegria e na dor, e isso passa para a sala com muita nitidez.

 

Apesar de este espectáculo tem tido forte repercussão política (foi tomado como um dos acontecimentos culturais relevantes da “Presidência Espanhola da União Europeia” e do Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social), Pepe Gamboa, a veterana encenadora, conhecida por insistir na fusão entre o teatro e o flamenco, sublinhou desde o princípio que seria inapropriado ver este espectáculo apenas como uma acção social: trata-se de um acontecimento artístico que vale como arte. Tendo assistido, achamos que ela tem razão.


No domingo 7 de Março, depois da função, as actrizes e a equipa apresentaram-se a um encontro com o público, a que comparecemos. Rocío, a Bernarda, falou pelos cotovelos, com grande presença, clarividência e fluidez. Só se calou por uns momentos, quando se emocionou ao lembrar quando, numa das saídas do grupo, o marido lhe telefonou a dizer que estava a chover e a casa inundada. Mas explicou que o marido se estava a sair muito bem da tarefa de tratar dos filhos e dos netos, e da casa em geral, quando ela estava fora. Quando lhe perguntaram a razão do seu sotaque aportuguesado, elas respondeu que o sotaque era galego, por ter família em Santiago de Compostela. E contou dos nervos no dia da estreia. E mostrou como estavam felizes por terem chegado àquele ponto.

Num certo sentido, nada disto vai mudar o mundo. Nesse encontro com o público, um dos elementos da companhia (não cigano) contou que, na noite anterior, depois do espectáculo, tinham ido a um café da zona para beber algo – e os empregados tinham-nos posto na rua. Livro de reclamações, uma salganhada até às tantas – as coisas não mudam no palco. Mas, noutro sentido, as coisas vão mudando devagar. Hoje, manhã cedo, deparámos com algumas das actrizes desta peça às compras n’El Rastro. Que excitação, ver aquelas actrizes ali no meio do povo! Acho que foi a primeira vez que vi ciganas a comprar, em vez de estarem a vender. Pequena inversão, comparada com tantas coisas que precisam tanto de maior mudança.

Um "resumo" do espectáculo em vídeo:


Rocío Montero, que faz o papel de Bernarda, dá aqui um testemunho que não carece de outra interpretação. (Este vídeo faz parte da campanha Esto solo lo arreglamos entre todos, uma campanha promovida designadamente pelo associativismo empresarial, que defende a necessidade de injectar uma atitude positiva na cidadania como meio de sair da crise.)


(Todas as fotos são da companhia. Só é nossa a foto do encontro com o público. É fraquinha como foto [e clandestina] mas é memorial.)

qual lei da rolha, qual carapuça

19:26


Leio no Público que o congresso do PSD aprovou uma norma "que determina a expulsão dos militantes que apoiem, sejam mandatários ou protagonizem candidaturas adversárias às apresentadas ou apoiadas pelo PSD". Os candidatos a presidentes desse partido dizem todos, todos quatro, que estão contra. Não vejo como é que um congresso aprova uma norma, proposta por Pedro Santana Lopes com aplauso de Manuela Ferreira Leite, que tem a oposição de todos os candidatos a presidentes. Ou melhor, vejo: eles não estão assim tão contra como isso, mas disseram aos seus exércitos que deixassem a coisa passar enquanto eles pessoalmente faziam o papel de bonzinhos. Um exercício de hipocrisia, parece-me. Mas, porquê esse exercício de hipocrisia?
Pela simples razão de estar completamente de pernas para o ar o respeito que devia merecer a função dos partidos. As candidaturas que um partido apresenta a eleições são a expressão mais directa daquilo que esse partido pretende dizer ao país, à região ou ao concelho nesse momento. Quem, sendo militante, está contra a candidatura de um partido, está contra o que esse partido tem a propor. Nesse caso, das duas uma: ou aceita que está em minoria interna nesse momento, mas a divergência não é grave e salvaguarda o essencial - e nesse caso respeita os procedimentos internos e não vai contra a candidatura dos seus; ou a divergência é essencial, ferindo princípios políticos importantes ou princípios de conduta, por exemplo se o partido apresentou um candidato indigno. Neste caso, essa pessoa abandona esse partido e faz o que bem entender, nomeadamente candidatar-se contra os seus antigos correlegionários. Ninguém é obrigado a permanecer num partido. Agora, ficar e actuar contra? Se acha suficientemente grave a candidatura do seu partido, a ponto de ela lhe merecer uma contra-candidatura, deve agir em conformidade: abandonar esse partido. Isso seria o natural assumir de responsabilidades. Permanecer numa instituição (um partido) e agir contra ela, é que não se percebe.
Estas são as razões pelas quais penso ser descabido escrever, como alguns por aí têm feito, que esta decisão do PSD é a lei da rolha. Não é. É apenas sublinhar o respeito que os partidos devem merecer. Em primeiro lugar aos que são seus membros.

Acrescento: nova notícia do Público diz que a norma aprovada "pune com a suspensão de membro do partido até dois anos ou com a expulsão os militantes que violem o dever de lealdade para com o programa, estatutos, directrizes e regulamentos do partido, especialmente se o fizerem nos 60 dias anteriores a eleições". Se isso é assim, já me parece grave: o que é o "dever de lealdade"? Demasiado vago, demasiado vasto, demasiado incerto, demasiado arbitrário portanto. Coisa muito ao estilo de PSL - bem acompanhado por MFL.