12.3.10

moinhos, quixotes e sanchos panças / com coisas sérias não se brinca

21:52

Trata-se de um blogue que aprecio: jugular. Mas fiquei francamente revoltado com este post, que, supostamente a propósito desta notícia - Professor vítima de bullying preferiu morrer a voltar ao 9º B - reza assim:
Se resolvesse agora matar-me à facada romba, era por causa do meu colega que me ganhou o julgamento da semana passada, certo? Se um médico der um tiro na cabeça, tal deve-se, por certo, a um doente hipocondríaco. O talhante? Orelha de porco estragada, raio do fornecedor. O escritor tropeçou numa vírgula, a culpa é do professor de 4ª classe. O crítico perdeu um adjectivo: o culpado é o mesmo da questão anterior. Já o jornalista, esse, morreu de falta de vergonha na cara.
Verifiquei, pelo teste do comentário ao supra transcrito post (estas coisas não se podem citar parcialmente), que o respectivo autor não o tinha escrito num momento de precipitação. Ele queria mesmo escrever aquilo.
Então, repito aqui o que lhe disse em comentário: quem escreve isto, reflectidamente, é porque confunde escolas com os matadouros onde pode haver orelha de porco estragada, na expressão do escriba. Pelos vistos não é só da banda sindical que vem o desvario de reduzir os problemas da escola à luta político-jornalístico-sindical. É o vale tudo. Muito baixo.
A Ministra da Educação tem razão: “Queria apelar para a seriedade no tratamento destas questões que têm a ver com a vida das nossas crianças, das famílias e dos professores e que envolvem sofrimento”. Suponho que a eventual falta de seriedade de uns não desculpa a de outros.
Pelos vistos, há pessoas que não percebem que com certas coisas não se brinca. Muito menos se brinca a sério.
(Neste caso, a arrogânciazinha menor do escriba, lá na resposta ao comentário, nem é coisa que conte. Só para o currículo do dito, claro.)

o que faz falta, a partir de Lope de Vega, no Villaret / vão-se preparando

(clicar amplia)

orçamento

20:26


Segundo ouço, o Orçamento de Estado foi aprovado com a abstenção da direita parlamentar e o voto contra da esquerda da esquerda. Esta, esquerda da esquerda, virginal, acusou de se ter ali formado uma imensa maioria absoluta. Desejariam, talvez, que o país não tivesse orçamento.
É que, se queriam outro orçamento, em vez de orçamento nenhum, não bastaria votar contra: seria preciso ter dito o que seria preciso para terem um orçamento com que pudessem concordar. Sabendo que também eles, BE e PCP, também eles não obtiveram uma maioria absoluta nas últimas eleições (nem sequer relativa, claro, mas eles acham isso um azar dos távoras), teriam de aceitar fazer parte de uma solução, em vez do quero-quero-quero de quem acha que os votos dos seus eleitores valem mais do que os votos dos eleitores dos outros partidos.
É por estas e por outras que a maioria esmagadora do eleitorado socialista vê a "esquerda da esquerda" como parceiros impossíveis. É compreensível. Tudo o contrário do CDS, que, goste-se ou não das suas orientações políticas (e nós não gostamos), tem primado por dizer alto e bom som, antecipadamente, o que exige para entrar no jogo. Isso é negociar. O PCP e o BE, porque se acham no direito de diabolizar Sócrates, acham que não têm obrigação nenhuma de colocar as cartas na mesa. E depois bramam. Pois, sendo, assim, de que vale o vozeirão?


1966, Paris, Luís Cília, "Canção final, canção de sempre"

14:56

Luís Cília canta a sua canção de 1964 e hino de resistência, com poema de Manuel Alegre. A mesma foi divulgada em Portugal pela voz de Adriano C. Oliveira (devido à proibição dos discos de Luís Cília). É cantada num restaurante em Paris, como forma de "ganhar a vida".



tudo isto é españa



As Meninas de Velasquez.



As Meninas do Corte Inglés.


11.3.10

terremotos


O Chile voltou a tremer no dia da tomada de posse de Piñera. «Economista formado na Universidade de Harvard, o Presidente chileno prometeu durante a campanha um crescimento de 6 por cento naquela que é já uma das economias mais estáveis da América Latina, mas o terramoto veio comprometer esse objectivo.»

Se fosse cá diziam que o terremoto não tinha nada a ver.


o dilema de que fala George Steiner

19:12

José Ames, no Persona:
E o que a frase quer dizer, não é verdade, é que ou os alunos ensinam o mestre, que não sabe tudo e já se esqueceu, por exemplo, do maravilhoso mundo da infância e da aventura que é explorar esse mundo, ou é o mestre que ensina o que os miúdos não podem saber, sobretudo, porque ainda não têm idade para isso, numa relação assimétrica que nada tem a ver com o que se passa na vida política, onde entram conceitos como o de democracia, de igualdade ou dos direitos da pessoa.
Integramente, aqui: O dilema do mestre-escola.

não são só os putos que se passam

18:00

Excerto do artigo de Aurora Teixeira na Visão:
No passado dia 12 de Fevereiro, Amy Bishop, 44 anos, uma investigadora formada em Harvard e professora auxiliar de Biologia na Universidade de Alabama-Huntsville (E.U.A) assassinou a tiro três colegas e feriu três outros (dois gravemente) durante uma reunião de trabalho do departamento.
Para ver melhor o enquadramento, ler na íntegra aqui: "Publicar ou morrer" - "Publicar e matar": a fraude e a esquizofrenia na academia.

sexual objectification

dia europeu das vítimas do terrorismo

14:16

Estar hoje em Madrid faz lembrar que a minha fotografia poderia um dia ser acrescentada à lista. Aqui ou em qualquer lado, é certo. Por em qualquer lado podermos ser vítimas dos que matam em nome de ideias que podem defender por outros meios. E que assim cobardemente se mate, não podemos perdoar.



se queres ser amigo deles, parte-lhes os dentes


Sou dos que defendem uma outra forma de viver entre os partidos de esquerda em Portugal (falo do PS, do PCP e do BE). Defendo isso porque acho que a excessiva proximidade programática (a longo prazo) entre o PS e o PSD tem o enorme defeito de não proporcionar um grau suficiente de oferta de alternativas políticas aos cidadãos. E por achar que outra dinâmica, mais positiva, entre o PS e a "esquerda da esquerda", seria favorável à melhoria do conteúdo das políticas do PS - e seria também favorável a um melhor contacto com a realidade das propostas dos comunistas e dos bloquistas. O que é relevante dada a "vocação de poder" do PS e dada a força social daqueles partidos. Defendo isto mesmo sabendo que esta tese é muuuuuito impopular entre os militantes do PS e grande parte do respectivo eleitorado. E mesmo sabendo que a "esquerda da esquerda" tem mostrado grande dificuldade em conciliar um discurso eleitoral(ista) com a própria perspectiva de ser governo num país da UE.
Há inúmeros obstáculos a que se caminhe para aí. Alguns serão da culpa do PS, outros do PCP, outros do BE. De qualquer modo, um dos grandes obstáculos a qualquer esperança para esse cenário é o radicalismo deste tipo: Pedro Viana, no Vias de Facto, parece achar que a única forma de evitar a privatização dos CTT é ir para as barricadas. E ainda tem o desplante de convidar os militantes do PS para uma espécie de revolução de outubro dos pequeninos em que os oradores sejam os deputados do PCP e do BE. Acho que alguns apressados confundem a frente comum com o "até os comemos"...


as novas técnicas do golpe de Estado

Cavaco à deriva

09:16


Não vou escrever mais do que duas linhas (vá, três) sobre a conversa de Cavaco Silva na televisão, ontem. Ela é irrelevante. Para discutir se é relevante, teria de fazer um longo excurso sobre hipocrisia e impreparação. E tenho outras coisas para fazer.


10.3.10

privatizações em tropel ?


Jorge Bateira, no Ladrões de Bicicletas, escreve um post intitulado Um governo que privatiza os correios não é socialista. Uma argumentação séria e informada. Vale a pena ler na íntegra.
Vamos lá ver se não aproveitamos a crise para fazer mais uns tantos disparates. Ainda por cima daquele tipo de disparate que já deixaram ver os resultados. É que "meter o socialismo na gaveta" às vezes sai muito caro.



la solitude organisative


Miguel Barceló, La Solitude Organisative, 2008

O quadro que dá o nome à exposição patente no CaixaForum de Madrid até 13 de Junho. Uma exposição que dá a ver como o mundo, na sua materialidade, irrompe nos quadros de Barceló e se lhes agarra. Pintura cheia de vestígios, de marcas (coisas que as fotografias não passam: só olhando os próprios originais). Quanto a que os gorilas estejam necessariamente em solidão organizativa... bom, isso não é certo; se fosse essa a sugestão, poderia laborar num erro científico. A não  ser que este gorila seja humano...

os próprios fundamentos do debate



Um excelente texto de Miguel Serras Pereira, no novíssimo Vias de Facto, a falar com seriedade de coisas muito sérias:
Mas quem fala de reis, fala também de papas - dos papas e bolos com que se enganam e calam os tolos -, e quem fala de papas fala de Bento XVI. E, se quiser falar da visita política - e da política da visita - do Papa, para breve prevista à região portuguesa, deve falar também da sua original concepção da "democracia" determinada pela "lei natural".
Ler na íntegra Com Papas & Bolos.

PEC



Escreve a Sofia Loureiro dos Santos:
O PEC, mais do que um programa de relançamento económico e de tentativa de equilíbrio das contas públicas, para que os mercados e a Europa acreditem na economia portuguesa, expressão empregue por Sócrates ontem na conferência de imprensa que deu às 20h00, é uma visão do País. Visão essa que resulta da capitulação quase total deste governo à política defendida pelo PSD e pela Dra. Manuela Ferreira Leite.
Continuar a ler em Defender o Quadrado.

à atenção de Fernando Pinto

14:21

Fernando Pinto (TAP): “Greves são do século passado”.

As greves podem até ser do século passado. Mas há que dizer, no mínimo, que a subsistência dessas mesmas greves acompanha a persistência de práticas empresariais (e sociais) retrógradas. Claro, há que julgar caso a caso, nem tudo é igual. Uma parte do problema é que, infelizmente, já só os privilegiados podem fazer greve; os que verdadeiramente deviam fazer greve estão demasiado fragilizados para isso. Se calhar, o que seria de esquerda seria proceder a uma redistribuição do direito à greve: condicionar o direito à greve dos privilegiados e melhorar o acesso efectivo dos trabalhadores em geral a essa forma de luta. É que só há verdadeira negociação com quem tem armas para lutar: negociar com desarmados é uma farsa. E farsas há muitas; verdadeiras negociações, poucas.


Para reflexão, repito-me:
Chama-se “greve de zelo” a uma prática de contestação laboral usada em certa altura em alguns países.
Numa greve de zelo os grevistas não se recusam a trabalhar: limitam-se a aplicar de forma estrita todas as regras formalizadas (escritas nos regulamentos) que enquadram a sua actividade. O resultado de uma greve de zelo não é que as coisas funcionam melhor: é a inoperância – porque faltam aquelas práticas que, fugindo à letra dos regulamentos, fazem funcionar as coisas. Por exemplo, quando um funcionário subalterno toma uma iniciativa sem autorização superior, porque essa iniciativa é necessária ao andamento dos trabalhos e o funcionário “sabe” que a autorização seria dada se o chefe estivesse presente. E faz isso apesar de, em rigor, arriscar uma sanção por avançar sem uma certa assinatura no papel apropriado. Uma greve de zelo é a aplicação sistemática e generalizada, numa empresa ou sector, de todas as regras, tomadas à letra.

Será o zelo também coisa do passado?

especialistas da treta


A PCWorld.com fez o Top 10 das passwords que mais devem ser evitadas, por serem as mais previsíveis e, portanto,as mais vulneráveis. E ta-ra-ra-ran... as vencedoras são:

1. 123456
2. 12345
3. 123456789
4. Password
5. iloveyou
6. princess
7. rockyou
8. 1234567
9. 12345678
10. abc123

O mínimo que se pode dizer é: estes "especialistas" são doidos. Então, não incluíram a senha socrates2009 entre as mais perigosas?!

9.3.10

olhar para fora, olhar para dentro

20:16








os tiros e as culatras



Escrevi antes o seguinte:
De uma forma ou de outra, pretensas motivações políticas podem, afinal, ter motivações económicas e grandes "tiradas democráticas" podem representar apenas jogadas empresariais para obter ilegitimamente negócios em condições que o mercado não ditaria. Será de excluir que a actual agitação em torno de negócios com empresas de comunicação, debaixo do papão da ameaça à liberdade de imprensa, não passe de uma manobra empresarial para afastar concorrentes e limpar o terreno?
Anoto que Henrique Granadeiro disse hoje que «negócio gorado com a TVI é “página negra” de ingerência política em empresas privadas». Ingerência, sim, mas não deste governo - como ele explica.

Apanhados a fazer sexo no meio da estrada

19:36


Segundo o CM (via a jugular Isabel Moreira), «Um casal foi apanhado a fazer sexo no meio de uma estrada da cidade de Krefeld, na Alemanha. Não fazendo por esconder, a cena foi vista por várias pessoas que passavam no local.»

É compreensível que tenham sido apanhados. Não dá jeito nenhum ir correndo e... isso, coisando.

pressões, diz ele


Escreve Tomás Vasques, no hoje há conquilhas:
«O José Eduardo Moniz hoje foi tão claro que eu, finalmente, percebi: o conceito de pressão está associado aos adversários políticos e não aos amigos políticos. Afinal é um conceito simples. Mas Manuela Moura Guedes não foi muito clara. O Moniz sim, explicou bem".»
Ler na íntegra aqui.

falar grosso quando é preciso

16:30

8.3.10

notícias para historiadores da filosofia

questões alimentares

dia da mulher

14:43
(cartoon de Marc S.)




mundos quase vazios




7.3.10

fidalgos de fraca figura e a técnica do golpe de estado

22:16
 
Don Quijote y Sancho Panza (por Gustave Doré)


Miguel de Cervantes, que tinha uma ideia muito própria acerca da valia de coisas que outros consideravam sumamente relevantes, como os ideais plasmados nos romances de cavalaria, escreve o Don Quijote de la Mancha como se fosse um romance realista, uma narrativa de coisas veríssimas. Esse pretenso realismo carrega as cores da ironia global da obra. E Cervantes tem os seus caminhos para plasmar literariamente esse artifício de pretensão realista. Por exemplo, logo no primeiro capítulo da obra (da então chamada primeira parte, dada à estampa em 1605), faz como se houvesse uma hesitação nas fontes acerca do verdadeiro apelido original do fidalgo que haveria de fazer fraca figura: seria segundo uns "Quijada", segundo outros "Quesada", mas mais provavelmente "Quijana". Esse fingido cotejar de fontes divergentes daria uma aparência de verdadeira investigação histórica ou até filológica, um erudito pesar de diferentes hipóteses. Apesar de, verdadeiramente, estando-se dentro de uma obra romanesca, isso ser tudo, precisamente, artifício.

No caso de Cervantes, a demanda era literária. Mas há outras demandas, menos artísticas, em que também se faz de conta que há investigação séria, cotejo de fontes, ponderação de hipóteses, procura de algum tipo de verdade, um toque de realismo. Quando, na verdade, se trata apenas de ficção. É isso que se passa quando se continuam a fazer malabarismos de toda a ordem para tentar manter o nome de Sócrates ligado a processos que, já se percebeu, não têm nada a ver com esse homem que ora é PM de Portugal. Eis aqui mais um exemplo. Afinal, como escreve Leonel Moura, estas fracas imitações das técnicas literárias de Miguel de Cervantes não são mais do que uma nova forma que se vai dando ao método do golpe de estado: agora sem tanques, mas com juízes e jornalistas que não honram a sua profissão.

(links apanhados no Câmara Corporativa)

investigar es invertir en futuro

00:19

Hoje (ontem, 6), em Madrid, uma manifestação de investigadores contra a precariedade. Organizada pela "Plataforma por la Investigación".
Eu não fui à manifestação: cruzei-me com ela perto da Porta do Sol. De tantas manifestações, esses eventos começam a ser um cartaz turístico quase tão popular como a estátua do urso.
O ponto: os bolseiros não são estudantes, são trabalhadores, têm direito a uma carreira. Muitos bolseiros sustentam instituições às quais não têm de facto qualquer ligação sólida.

O argumento: investigação e desenvolvimento vão de par e essa ligação deve ser o cerne de uma estratégia política. Os manifestantes querem um Pacto de Estado para a Ciência e a Investigação. E entendem que a política para a ciência é pouco científica. (Mas teria de ser? Uma "política científica" soa-me estranho.)

Sem dúvida que este debate também existe em Portugal. Dizia-me um Professor universitário, com quem fui almoçar a seguir, que se calhar, para o país que temos, os "precários" não estão a medir bem o passo das suas exigências. É claro que é estranho que as bolsas estejam a desvalorizar há tantos anos, pelo menos há uns oito anos sem actualização.

E, como sempre, há quem leve a retórica longe demais: "democracia precária", por causa da "precariedade" dos investigadores? Não sei, não sei. Nenhuma "classe" deve confundir os seus interesses, por muito legítimos que sejam, com "o espírito da nação". Um certo folclore, também: coisa que conhecemos de outros lados.