Os primeiros resultados do PISA 2025
O contexto internacional
O debate sobre a escola precisa ser elevado a um novo patamar de maturidade
Recorrentes tentativas de manipular politicamente os dados do PISA
A educação precisa do longo prazo

«O tempo é um dispositivo que impede que tudo aconteça de uma vez.» (Bergson)



Creio que está na altura de voltarmos a falar do Projeto de Lei n.º 214/XVII - "Aprova
o regime de direção, gestão e administração dos estabelecimentos públicos da
educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário" - apresentado pelo Grupo Parlamentar do PS e que ainda aguarda discussão na especialidade na Assembleia da República.
O projeto de lei foi entregue em setembro de 2025, foi discutido na generalidade em plenário da Assembleia da República num debate de agendamento potestativo do GPPS,
juntamente com várias outras propostas educativas, em 16 de outubro e baixou sem votação à Comissão de Educação e Ciência, para apreciação na especialidade. (Baixou sem votação, porque estava anunciado que o PSD votaria contra, para evitar a discussão na especialidade.) Ainda não foi discutido na especialidade.
Fazemos aqui um breve resumo da proposta e deixamos o documento para que possa ser consultado na íntegra.
O projeto de lei propõe uma revisão do regime de direção,
gestão e administração dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas, sem
pretender uma rutura com o modelo em vigor. A intenção assumida é introduzir
melhorias a partir da experiência acumulada, reforçando a autonomia das
escolas, a participação da comunidade educativa, a integração da escola no
território, as lideranças intermédias e a participação dos alunos. A proposta
distingue entre aquilo que deve ficar fixado na lei — os aspetos estruturantes
do regime — e aquilo que pode ser regulado depois pelo Governo ou decidido em
cada escola através do regulamento interno. Esta opção é justificada pelo
princípio da subsidiariedade: cada escola deve poder ajustar soluções
organizativas ao seu contexto, aos seus alunos, à sua comunidade e ao
território onde se insere.
A lógica global do diploma é a de uma escola mais
participada, colaborativa e colegial. Para isso, propõe-se um reequilíbrio
entre órgãos, não no sentido de retirar competências a uns para as transferir
simplesmente para outros, mas de clarificar e reforçar cada órgão nas suas
funções próprias. O Conselho Geral passa a estar mais centrado na direção
estratégica e na ligação à comunidade; a Direção é reforçada como órgão
executivo colegial; o Conselho Pedagógico ganha maior centralidade
técnico-pedagógica; e o Conselho Administrativo mantém-se, em termos gerais,
sem alterações significativas.
No que respeita ao Conselho Geral, a alteração mais
relevante é deixar de lhe caber a eleição da Direção. Assim, separam-se duas
dimensões: por um lado, o processo eleitoral da Direção; por outro, a função
estratégica do Conselho Geral, especialmente a ligação entre a escola, a
comunidade educativa e o território. A experiência mostra que, muitas vezes, a
eleição da Direção pelo Conselho Geral contamina este órgão com dinâmicas
político-partidárias locais. Assim, procura-se libertar o Conselho Geral dessa
função eleitoral e recentrá-lo na orientação estratégica, incluindo a
elaboração e aprovação de uma estratégia de inserção da escola na comunidade
local.
O projeto reforça também a presença de personalidades
externas no Conselho Geral. Estas devem ser escolhidas pelo seu mérito
individual e pela sua representatividade nas dinâmicas locais. Os membros
externos passam a ocupar uma parcela relevante dos lugares do órgão, deixando
alguma margem ao regulamento interno para definir a dimensão concreta do
Conselho Geral e a distribuição entre os diferentes corpos. O presidente do
Conselho Geral poderá ser um membro externo ou um docente, e certas
deliberações estratégicas podem ser instruídas por pareceres elaborados por
membros externos. Reforça-se igualmente a independência dos membros do Conselho
Geral: depois de eleitos ou designados, exercem o mandato em função do
interesse geral do serviço público de educação e não podem ser destituídos
pelos que os elegeram ou designaram, salvo em caso de falta grave e por decisão
do próprio órgão.
Outra proposta relativa ao Conselho Geral é a abertura das
suas reuniões à comunidade. As reuniões ordinárias, e eventualmente algumas
extraordinárias, passam a ser públicas e a incluir um período de intervenção do
público. Esta medida é apresentada como forma de afirmar o agrupamento ou
escola não agrupada como verdadeira instituição da comunidade. Os
representantes dos pais e encarregados de educação e os representantes dos
alunos devem ser, preferencialmente, eleitos diretamente pelos respetivos
representados, contribuindo para um Conselho Geral mais plural e autónomo.
Quanto à Direção, o projeto propõe o seu reforço
enquanto órgão executivo do agrupamento ou escola não agrupada. A primeira
alteração destacada é a passagem para um órgão colegial, formalizando uma
prática já existente em muitas escolas: equipas diretivas coesas, baseadas no
trabalho colaborativo e no espírito de equipa. Ainda assim, mantém-se uma
diferenciação interna de funções entre diretor, diretor adjunto e vogais. O
diretor conserva competências relevantes de autoridade executiva, representação
e simbolismo institucional, mas com margem ampla para delegação, permitindo
ajustar o funcionamento da Direção a diferentes perfis de liderança.
A Direção passa a ter também uma relação funcional mais
clara com os coordenadores de estabelecimento e de escola. Estes são colocados
na linha funcional da Direção, podendo ser mais ou menos integrados na dinâmica
diretiva conforme as necessidades e o estilo de gestão de cada contexto. No
plano pedagógico, prevê-se que o diretor ou o diretor adjunto presida ao
Conselho Pedagógico, permitindo diferentes configurações funcionais da equipa
diretiva.
A eleição da Direção deixa de caber ao Conselho Geral e
passa a ser feita por uma assembleia eleitoral própria, convocada
especificamente para esse ato e dissolvida depois dele (professores,
funcionários, representantes dos alunos, representantes dos encarregados de
educação). Assim, é quebrada a rede de relações institucionais que, no modelo
anterior (em vigor), misturava a função de eleger o diretor com a função
estratégica do Conselho Geral. O projeto procura ainda clarificar a relação
entre escolas e autarquias no quadro da transferência de competências,
afirmando expressamente que a descentralização não deve servir para comprimir a
autonomia das escolas.
Mantém-se um mecanismo excecional de garantia do serviço
público, exercido pelo Governo e que pode ser desencadeado, em regime
extraordinário, pelo Conselho Geral (dissolução extraordinária dos órgãos).
Relativamente ao Conselho Pedagógico, ele é assumido como
peça central da organização técnico-pedagógica da escola. O projeto não fixa
exaustivamente a composição e organização do Conselho Pedagógico, deixando
margem a cada agrupamento ou escola não agrupada para definir estruturas
pedagógicas próprias no regulamento interno. Não se estabelece, por exemplo, um
número legal fechado de membros, precisamente para permitir soluções adaptadas
a realidades escolares distintas.
O objetivo é densificar as competências do Conselho
Pedagógico e garantir a sua centralidade nos assuntos técnico-pedagógicos. Há
dois riscos a evitar: uma submissão excessiva das estruturas pedagógicas à
Direção e, em sentido inverso, uma oposição sistemática dessas estruturas à
Direção. Para equilibrar estes riscos, propõe-se uma solução mista. Os
coordenadores de departamento são eleitos sem o atual condicionamento por lista
de pré-seleção; os diretores de turma são designados pela Direção; e os
regulamentos internos definem outras estruturas de coordenação pedagógica e
respetiva representação. Em qualquer caso, fica garantido que os membros
designados pela Direção não podem prevalecer numericamente sobre os membros
eleitos pelos seus pares.
É dedicada atenção específica à participação dos alunos.
A ideia central é que a cidadania ativa não deve ser apenas ensinada, mas
praticada. Por isso, o projeto atribui à Assembleia de Delegados de Turma
funções relevantes de representação dinâmica dos alunos, abrangendo matérias
relacionadas com o seu processo de aprendizagem e com o seu bem-estar. Esta
valorização não prejudica o papel próprio das associações de estudantes, mas
acrescenta uma estrutura institucional de participação mais diretamente ligada
à vida quotidiana das turmas. O projeto regula ainda a participação dos alunos
no Conselho Pedagógico e nos conselhos de turma, procurando equilibrar os
direitos de participação com garantias deontológicas adequadas.
Em síntese, a proposta procura reforçar a escola como instituição autónoma, democrática e enraizada na comunidade, reorganizando os seus órgãos para promover maior colegialidade, maior participação, maior clareza funcional e melhor articulação entre gestão executiva, orientação estratégica, dimensão pedagógica e cidadania escolar.
A "exposição de motivos" do projeto de lei explica com mais detalha a lógica da proposta e as mudanças em que ela se concretiza.


Para os profissionais dos serviços públicos, especialmente os intensos em contacto humano, os últimos anos têm sido muito duros, também por causa da pandemia. Com a agravante de que as sequelas das crises anteriores, financeiras, não tinham sarado completamente. É o caso dos profissionais da educação. Essa é uma realidade em muitos outros países. Ainda recentemente, o Le Monde trazia em manchete o “mal-estar docente” e lembrava que há vários anos que desce e é insuficiente para as necessidades a adesão aos concursos para a carreira docente.
Conformamo-nos? Não! Por isso há sete anos mudámos de ciclo político, também na educação. Em vez de dispensar dezenas de milhares de professores, de desinvestir da sua formação, de apressadas reformas curriculares retrógradas e sem diálogo, de tentar fazer da escola mais um crivo de seleção e discriminação social; em vez de desinvestir no público para gastar no privado, virámos o rumo para uma escola mais inclusiva e com mais meios para atender à diversidade de interesses dos alunos (das artes às profissões até à educação de adultos), com mais professores, mais professores vinculados e menos precários, mais assistentes, mais técnicos especializados, começando a devolver a escola à escola e à comunidade, com mais autonomia e mais flexibilidade que abre novos horizontes de desenvolvimento da profissionalidade docente e melhor resposta ao contexto, descongelando a carreira docente, investindo na formação relevante, …
Está tudo feito? Não está. Para continuamos, o ministro da Educação escolheu rever o regime de recrutamento docente, para começar a acabar com a “casa às costas” dos professores. O objetivo é combater a instabilidade e a precariedade. Definir com rigor as necessidades permanentes, escola a escola, para permitir acelerar as vinculações estáveis a quadros de escola. Diminuir a extensão das zonas pedagógicas, para diminuir as distâncias potenciais casa-escola. Sem entregar nenhuma competência nesta matéria às autoridades municipais ou intermunicipais, e sem perda de vínculos adquiridos.
Está em curso um processo de revalorização da Administração Pública que, de facto, se tornou necessária para corrigir longos anos de perda no mercado global do emprego público e privado, perda acentuada pelas respostas austeritárias às crises financeiras internacionais. Naturalmente, os professores olham para esse processo não querendo ser mais nem menos do que os outros servidores públicos. É justo. Mas não podemos perder esta oportunidade: o ministro da Educação é um praticante coerente do diálogo com a classe, com as suas associações e sindicatos. Não podemos perder a oportunidade de fazer, agora, um acordo para uma boa revisão do regime de recrutamento. Até para podermos abrir caminho para outros acordos noutras matérias.
Todas as profissões mais qualificadas se desvalorizaram relativamente, devido à forte expansão das qualificações. Há situações onde os servidores públicos são expostos a situações inaceitáveis de desrespeito pelas suas pessoas e funções, por parte deste ou aquele utente. Uma coisa é certa: ninguém mais do que este Ministério da Educação é aliado empenhado dos profissionais da educação em sua defesa e valorização. Faltar ao respeito aos professores é tentar a sua infantilização, supor que pedem vénias, quando o que querem é soluções compatíveis para a sua carreira e para a escola pública. Faltar ao respeito aos professores é dizer-lhes, contra toda a evidência que eles conhecem, que nada se fez nos últimos sete anos pela escola pública e pela valorização dos seus profissionais.



Rio vem advogar como novidade a adoção de uma “flexibilidade pedagógica”, que está longe de ser uma proposta inovadora. Aliás, a sua existência foi consagrada pela Lei de Bases do Sistema Educativo, em vigor desde o ano de 1986, sendo uma das premissas da educação em Portugal.
O referido programa anuncia o fim das turmas mistas, situação que se encontra em contradição com a autonomia pedagógica que advoga. Nesse quadro, parece esquecer experiências que tiram bom proveito da heterogeneidade dos grupos. Acresce que não diz como é que é possível erradicar essas turmas, qual o orçamento necessário para o efeito e se para tal existem recursos humanos disponíveis.
Na amálgama das propostas surge também a indicação de que farão depender a abertura de novas ofertas formativas de um estudo de viabilidade apresentado pelas escolas ao Ministério da Educação. Mas esse é já hoje o procedimento adotado.
A proposta com que Rui Rio se apresenta às eleições insiste num “currículo centrado no conhecimento”, que gostaria de ver proscrito o desenvolvimento de competências, a mobilização do saber fazer e a aplicação prática das aprendizagens. Reitera-se com essa proposta o pior da política educativa de Passos Coelho.
Esquecendo que são as escolas em que os alunos obtêm piores resultados aquelas que necessitam de maior atenção, o PSD propõe atribuir mais recursos humanos (sob a forma de crédito horário) aos estabelecimentos em que se verifique uma progressão dos resultados escolares. Para trás ficarão aqueles que necessitam que a escola continue a ser um elevador social, que lhes permita vencer o cerco da pobreza e que, nessa medida, se verão privados de recursos essenciais.
Entre as ideias peregrinas que apresenta, surge a de se criarem três academias para a formação de dirigentes escolares. Neste contexto, Rio e a sua equipa ignoram o papel dos estabelecimentos de ensino superior, universitário e politécnico, espalhados pelo país, que têm, com sucesso, formado os docentes para os processos de gestão e administração escolar. Querem também atribuir ao Ministério da Educação a responsabilidade de conferir a formação profissional aos docentes, ignorando que são as universidades e os politécnicos que têm a experiência, o conhecimento, a investigação e os recursos para esse efeito.
Mais grave é o facto de quererem colocar em causa a Autonomia e Flexibilidade Curricular, não percebendo que esta não corresponde a um currículo feito “à vontade do freguês”, em que cada qual “dá o que quer”. Mas que, ao invés, pretende conferir sentido a um conjunto de aprendizagens essenciais, iguais para todos, organizadas e adequadas a cada grupo e a cada território, estabelecendo relações de sentido com os conhecimentos dos alunos, os seus contextos e oportunidades de aprendizagem.
O ensino profissional é também apoucado nas propostas do PSD. Com efeito, denunciam algum mal-estar com a dimensão de dupla certificação, que existe no nosso sistema. Em Portugal, estas ofertas formativas não são becos sem saída, mas permitem aos alunos ingressarem no mercado de trabalho ou num curso superior. O modelo defendido por Rio assume que o Ensino Profissional é só para “ensinar uma profissão”.
Desconhecendo que existe no país um sistema de antecipação das necessidades de qualificação, o programa do PSD vem pomposamente propor que se listem as qualificações entendidas como prioritárias. Também ignora que os setores empregadores são ouvidos para a definição de novos referenciais de formação, medida que vem agora sugerir com o entusiasmo de quem julga estar a inventar a pólvora.
Este documento propõe ainda acabar com as provas de aferição do 2º e 5º anos de escolaridade, que servem, dada a sua disposição nestes períodos intermédios, para detetar atempadamente problemas e promover estratégias de melhoria. Rio quer recuperar as provas finais no 4º e no 6º ano, que Nuno Crato foi buscar a um ultrapassado pensamento pedagógico, numa perspetiva que transforma estes momentos de avaliação num fim em si mesmo, ao serviço da rotulação precoce das crianças e jovens.
O atual programa do PSD prevê ainda “desenvolver uma educação estética, transversal ao curriculum escolar”. Também aqui, parece desconhecer a relevância e a profundidade do trabalho que hoje é levado a cabo por todo o território nacional pelo Plano Nacional das Artes, pelo Plano Nacional de Cinema e pelo Programa de Educação Estética e Artística. Com iniciativas e estruturas que promovem, nas escolas, a realização de projetos de natureza transdisciplinar, que desenvolvem aprendizagens mais integradas, significativas e duradouras.
O programa de Rio para a Educação é também uma amalgama de contradições, de desconfianças e de ocultação de resultados. Criticando, por um lado, o aumento do número dos profissionais docentes disponíveis e a despesa global com a Educação (como se esta não fosse um relevante investimento para o Futuro do país), por outro, apresenta a escrutínio um conjunto de medidas vagas, sem qualquer indicação de impacto. Trata-se, pois, de um documento que oculta resultados que nos devem, hoje, orgulhar, como são os casos da evolução do abandono escolar precoce, da melhoria das taxas de aprovação dos alunos ou da melhoria das conclusões do ensino secundário.
Em suma, o programa do PSD revela, na sua globalidade, um absurdo desconhecimento sobre o atual sistema educativo português e sobre as premissas essenciais de uma educação do século XXI. Apresenta um arrazoado de desconexas generalidades e de ideias com resultados duvidosos, alicerçadas em narrativas ultrapassadas, lembrando um já velhíssimo Crato, ensopado em naftalina.
