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26.1.26

A Montanha, de José Luís Peixoto

23:37


Acabei de ler “A Montanha”, de José Luís Peixoto.

À partida, parece ter um assunto: pessoas com cancro. Aquelas coisas que se leem antes de ler o livro, que são objeto da nossa bisbilhotice na livraria quando estamos a decidir comprar, indicam que o livro está povoado de pessoas com cancro, que são consideradas por terem essa experiência… de vida… e de morte. A promessa é razoavelmente clara e deixa-nos à espera de uma certa densidade emocional em torno de experiências que se nos apresentam sempre como experiências-limite: experiências-limite para quem as vive, promessas de experiências de susto para quem as lê, ou ouve, ou acompanha. O livro estará povoado de pessoas com a experiência do cancro. De variados cancros.

A Infopédia diz que “romance” é um “género narrativo ficcional em prosa, mais longo que a novela e o conto, em que as personagens são apresentadas com maior densidade psicológica, e o tempo e o espaço são categorias mais elaboradas”. Outras fontes acentuariam a complexidade do enredo, personagens que evoluem, a construção de um ambiente (uma época, um lugar, um contexto histórico ou social).

“A Montanha” é um romance. Neste “A Montanha” há um romance. Há a complexidade que se pode encontrar em personagens de um romance. Há um enredo. Há um contexto em que nos afundamos (vá: em que nos aprofundamos).

O que pode acontecer é que as personagens complexas que evoluem talvez não sejam aquilo que passamos grande parte do livro a pensar que sejam. Talvez o que está a evoluir – quem está a evoluir – não seja quem nós pensamos que está a evoluir. Talvez se possa dizer que passamos grande parte do livro a pensar que o “contexto” é um, quando, afinal, é outro.

Durante boa parte do livro, pensamos que a trama do romance se cruza com uma certa e determinada teoria sobre a literatura. Faz, mesmo, sentido, que assim seja, porque a forma como as pessoas com cancro nos aparecem (nos são apresentadas) está sintonizada, ou mesmo sincronizada, com essa tal teoria acerca da literatura. Parecemos estar a ser levados por histórias de vidas cuja narração se justifica, ou pode ser espelhada, naquela teoria sobre literatura. Acreditamos estar numa viagem intelectual onde se pensa o trabalho do escritor olhando para um produto concreto do trabalho de um escritor concreto. É a teoria a dizer coisas verificáveis sobre a prática. Um milagre, caramba!

Só que, num determinado ponto do caminho, o que parecia mais uma caminhada numa longa série de caminhadas de um mesmo estilo, desvia-se do compreensível a essa luz. Suspeitamos que podemos ter-nos perdido numa vereda e estarmos a experimentar dificuldades respiratórias que afetam o funcionamento do nosso cérebro e prejudicam a nossa lucidez para aperceber as circunstâncias. O território da estranheza instala-se como um plano próprio do romance. Andamos às voltas, imaginamos possíveis luzes que sejam capazes de dar sentido ao que estamos a ler, mas não parecem funcionar: não são particularmente iluminantes e sentimos que estamos a deslocar-nos para uma obra que se desviou para o campo do fantástico. Eu não tenho experiência com este Autor e não tenho ferramentas para perceber se ele costuma descarrilar assim, o que se torna um pouco mais preocupante quando ele insiste amiúde que está a fazer coisas que faz recorrentemente em todas as suas obras romanescas. 

O narrador, em todas estas convoluções, age como alguém que lida com grande destreza com uma rede de relações humanas complexas, onde alguns nodos são as tais pessoas com cancro, outros nodos dessa rede sempre profissionais de várias especialidades que lidam com essas pessoas com cancro. O narrador domina toda essa rede de relações, baralha e torna a dar os elos, amparado na tal teoria sobre literatura, é o mestre da obra, vê de cima e com uma brutal capacidade de distanciamento aquele mundo que observa, descreve e escreve. É o seu romance e ele é o romancista. 

Mas, contudo, há o tal momento onde a estranheza se entranha. Onda a estranheza passa a dominar. Onde avançamos mais devagar, procurando sítio para pisar sem os pés se enterrarem: isto é, vamos avançando hipóteses acerca do que aquilo é.

E, mergulhados nessa estranheza, chegará o momento de ver a luz. É o momento do esclarecimento. É certo que esse esclarecimento se fará à custa de todas as qualidades do narrador, que teremos de rever radicalmente. Mas chega esse momento, o momento do esclarecimento. Só que, então, será preciso repensar tudo acerca de qual é o contexto, de quais são as personagens que evoluem, que evolução é essa. A hipótese simples acerca da relação entre uma teoria da literatura e o enredo romanesco deste romance deixa de ser uma hipótese simples e encontra outros mundos. É uma revelação. É uma revelação interior, porque denuncia radicalmente a incerteza fundadora de tudo o que possamos pensar que sejam as nossas certezas. Não é só o leitor que anda muito enganado. Outros grandes enganos estruturam o terreno.

Poucas vezes me terá acontecido isto: voltar a ler, no dia seguinte, os dois últimos capítulos do romance. Não que não tivesse compreendido a volta que aí se dá. Eu tinha compreendido. Mas não tinha compreendido. Precisava de voltar a percorrer esse caminho. Para gozar, mais completamente, a solidez da coerência com que a obra cose o turbilhão de mudanças que nela se opera.

Esta “A Montanha” não é “A Montanha Mágica”. Talvez, também, porque o embotamento dos sentidos sociais, que n’A Montanha Mágica está nas personagens, aqui está no leitor. No leitor d’A Montanha. Que ficamos a dever a José Luís Peixoto.



Porfírio Silva, 26 de Janeiro de 2026
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3.4.21

LIFE, Páscoa com Ryuichi Sakamoto


 
 
Para esta Páscoa, podíamos voltar a ouvir A Paixão segundo São Mateus, de Bach. Contudo, numa abordagem mais agnóstica, mas suficientemente pós-materialista, podemos sugerir a ópera LIFE, do japonês Ryuichi Sakamoto, estreada em 1999.
 
LIFE é um olhar global sobre os nossos caminhos no universo, através das palavras de outros - palavras que deixaram marcas na humanidade em momentos importantes de encruzilhada, palavras de guerra, palavras de libertação, palavras poéticas - e um olhar sobre alguns becos sem saída, algumas desgraças auto-infligidas. Sakamoto dizia, há alguns anos, que não tem religião nenhuma, embora se interesse por religiões. Sakamoto vê o planeta como uma espécie de ser vivo global, o que não é precisamente original. Sakamoto é um activista anti-nuclear, o que é compreensível num japonês, mesmo que ele não seja um japonês caseiro. Sakamoto constrói a sua obra com as obras de outros, muitos desses outros sendo ocidentais, recusando fechar-se num só canto do mundo.

LIFE é uma experiência difícil de reproduzir, porque é, no fundo, uma ópera em vídeo, não fazendo muito sentido ouvir sem ver o que ela contém. Ou, antes, fazer sentido faz, mas é outro sentido. LIFE é uma obra que faz tudo para não se exibir. Tenho, vinda do Japão, a caixa de materiais que deve fazer-nos sentir um pouco da experiência. Contém as gravações das performances de Tóquio e de Osaka, tem um álbum com todos os textos usados na ópera, incluindo as transcrições das palavras de Churchil ou de Oppenheimer, e dos outros, tem a partitura, tem o planeamento de todos os sons e imagens que são mobilizadas segundo a segundo, tem uma entrevista com o compositor, tem materiais imagéticos sobre o processo de criação... mas tudo o que é de ler é, as mais das vezes, difícil de acompanhar. Papel imaculadamente branco, letras muitas vezes difíceis de seguir (ou porque são pequenas, ou porque têm uma estranha organização), uma ligação entre diferentes partes que exige uma enorme atenção e procura de caminhos. Ninguém é obrigado a entrar: entrando, que assuma o desafio.

Nada em LIFE se submete ao consumismo reinante. Nada é para ser fácil. Em geral, tudo o que está disponível são fragmentos de uma experiência, aquela experiência que foram as apresentações ao vivo desta ópera, provavelmente impossíveis de reproduzir. Quem quer participar tem de se esforçar.

Mesmo assim, num assomo de espírito pascal, assumi que posso dar folar a pessoas de quem não sou padrinho e deixo-vos as poucas ajudas que se podem dar a quem quer ter uma noção do que é esta obra especial: partes relevantes, em vídeo, da LIFE. Creio que vale a pena fruir e deixar-se questionar pelas interrogações transportadas.

A numeração dos excertos apresentados deixa entrever que são, apenas, partes do conjunto completo.

Aviso: pode acontecer que tenham de sair deste blogue e ir para o youtube para ver alguns dos vídeos.
 
 
 
 1-1 War and Revolution
 
  
 
1-2 Science and Technology
 
  
 
 
 
 3-1 Art
 
   
 
 3-3 Light
 
   
 
 
 
 Porfírio Silva, 3 de Abril de 2021
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8.1.20

Os dois Papas, o filme e a realidade




Aproveitando a hospitalidade que me deram de Domingo passado para Segunda-feira, vi "Os Dois Papas" na Netflix, serviço que não tenho em casa. Achei o filme curioso, mas acho abusiva a tentativa de colocar na boca do agora Papa Francisco uma suposta confissão de cumplicidade com a ditadura militar argentina. Não me conformo com modalidades acusativas que tendem a bloquear a capacidade do visado para apresentar o seu ponto de vista. O humor político serve muitas vezes para fazer verdadeiras críticas de que os visados não se podem defender, porque seria ridículo que argumentassem com o humorista; a ficção também pode ser uma forma ínvia de crítica, porque é sempre possível ridicularizar uma resposta séria a uma obra de ficção.

Mesmo assim - ou, talvez, por isso mesmo - entendi retomar aqui o tema da actuação de Jorge Mario Bergoglio durante a ditadura argentina. Digo retomar por ter lidado com esse tema, aqui no blogue, há já vários anos. E, também, porque vou limitar-me a relembrar materiais que aqui publiquei anteriormente.

Ainda em 2013, publiquei o texto A lista de Bergoglio - ou o Papa Francisco na ditadura argentina. Trata-se, basicamente, da recensão de um livro importante e bem documentado sobre a questão. Em modo secundário, apresento, nesse texto, já vai para sete anos, uma visão sobre o que se poderia esperar do então novo Papa Francisco. Mas, principalmente, documenta bem todas as razões que posso ter para desconfiar da tese que o filme "Os dois Papas" apresenta sobre Jorge Bergoglio.

Noutra ocasião, o Papa Francisco e a ditadura argentina, socorri-me da opinião e dos conhecimentos de Leonardo Boff, um teólogo brasileiro que personifica exemplarmente as correntes mais progressistas do catolicismo, tendo, no passado, pago um alto preço por essa condição face à intolerância dos mais conservadores na hierarquia.

Ainda escrevi noutras ocasiões sobre o homem que veio a ser o Papa Francisco, apesar de não ser franciscano. Mas os dois textos que menciono acima são suficientes, creio, para mostrar as razões que julgo ter para considerar abusiva a leitura que se tenta passar no filme "Os dois Papas" sobre o passado de Bergoglio.

Ficam à vossa consideração, clicando nos links:

- A lista de Bergoglio - ou o Papa Francisco na ditadura argentina ;

- o Papa Francisco e a ditadura argentina .


Porfírio Silva, 8 de Janeiro de 2020


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1.1.20

Luanda, Lisboa, Paraíso


"Luanda, Lisboa, Paraíso" é um romance de Djaimilia Pereira de Almeida. É uma história de família e de amizades, entre Angola e Portugal fora da estrada. Linguagem muito poética em certos momentos, muito veloz de narrativa noutros passos. É o primeiro livro que leio desta escritora e gostei.

Deixo-vos um excerto (início do capítulo XXVII) que, para mim, representa o rationale de toda a obra.


«Todos os Cartola de Sousa se viram adiados pela doença. Cartola pôs-se entre parêntesis por Glória e mudou de vida por causa do calcanhar do filho. Justina deixou os sonhos pela mãe, tornada dona de casa quando o pai e o irmão partiram para Lisboa. Aquiles foi atravessado pelo calcanhar malformado, que deixou Cartola às suas costas.
Não eram vítimas uns dos outros, nem ninguém tinha torcido os seus sonhos de propósito. No comboio de dívidas, resignação, fome, má vontade e zelo em que a família de cuidadores viajou quase um quarto de século, talvez dentro de cada doente houvesse um tirano e dentro de cada cuidador um carrasco.
Aquiles arrastava pelo pé o homem que o arrastava ao pescoço. A sua meninice tinha sido para o pai um martírio alegre e a sua juventude a negação de Cartola de que recomeçara a vida quando ela já lhe tinha passado ao lado. O seu calcanhar era a pena e a substância do velho, como tinha sido para ele um calvário tomar conta da mulher, prova que tinha aprendido a superar desejando tanto a morte dela como desejava as melhoras. Justina tanto fingia que Glória tinha morrido como daria a vida por ela. Tinha-se apaixonado pelo cuidado que lhe tinha para poder sobreviver a uma vida abortada. De Lisboa, em cartas e telefonemas, Cartola alimentava as esperanças da mulher como quem rega o canteiro de flores de uma sepultura. A mãe Glória vinha à tona empoleirada nos ombros deles e renascia sem se lembrar de que tinham morrido por sua causa.
Não estavam unidos pelo ressentimento, ainda que no fundo da dedicação de Cartola houvesse um bago de arroz bolorento, ainda que a entrega de Justina exalasse um cheiro a flores mortas no jarro, ainda que Aquiles nunca tenha perdoado ao pai o calcanhar que se habituou a encarar como um sinal.
Também não podiam entristecer-se muito com as reviravoltas em que o destino os tinha lançado. Não se sentiam agentes da desgraça. Glória caiu em virtude de um parto azarado. Justina ficou encravada no quarto da mãe, porque o irmão nasceu coxo. Aquiles nasceu assim. Cartola era o pai.
Tanto os doentes-cuidadores quanto os cuidadores-doentes foram-se tornando a cara chapada de alguém que nenhum deles conhecera, mas parecia ser a mãe de todos, tornados irmãos uns dos outros. Não era um antepassado defunto nem a criança que os pais não tinham chegado a ter. A milhares de quilómetros de distância, Justina parecia-se com Aquiles, igualmente sem brilho, embora viva. Os lábios de Cartola velho lembravam os da mulher na cama, muito depois de terem terminado os beijos deles às escuras, ambos sem forma definida, sem luz. Já não pareciam pessoas diferentes, individuadas, mas um mesmo ser feito de partes de outros, homem, mulher, rapaz, rapariga, um monstro em diferentes estádios da vida, situado em diferentes latitudes, alimentado de aspirações dissonantes.»

Djaimilia Pereira de Almeida, Luanda, Lisboa, Paraíso, Lisboa, Companhia das Letras, 2018



Porfírio Silva, 1 de Janeiro de 2020

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16.10.16

a sociedade do ruído.



Temos ideias feitas sobre muitas coisas correntes. Às vezes, as ideias feitas são erradas. Outras vezes, estão certas mas não temos modo fácil de as testar. De vez em quando, é possível confirmar pequenas coisas.

A crítica (uma das críticas) que muitos fazem às "redes sociais" é que elas são pasto para a superficialidade numa forma extrema. Sendo certo que colhemos muita informação relevante nas ditas redes, é fácil descartar aquela crítica dizendo que "há de tudo, como na mercearia". Só que, na realidade, a febre com que muitos se comportam nas ditas redes pode ser ilustrada de muitas maneiras.

Acabei de fazer um teste. Não no ambiente frequentemente agressivo do Twitter, mas no mais pacato Facebook. Publiquei a imagem acima, acompanhada da seguinte mensagem: «Os comentários a este "anúncio" são bem o retrato de muita coisa que se passa no FB... Há quem diga que é mentira, que a mudança de hora não é este fim-de-semana, que já bastam as mentiras dos políticos... Quer dizer, muito mais "opiniães" do que gente a ler e a interpretar o que lá está.» Quer dizer: o texto, basicamente relatando o que tinha visto na página de outra pessoa, já apontava para a armadilha, não a explicando, mas assinalando a sua existência. Mesmo assim, muitos comentários vieram fazer a caridade de me expplicar que a hora não mudava este fim-de-semana... Julgo poder concluir que muita gente não percebeu o jogo da imagem... e que, do mesmo modo, muita gente nem leu o texto de acompanhamento (ou não o entendeu).

Dispenso-me grandes considerações. Sem excessiva teoria, este pequeno experimento mostra o jogo de aparências em que vivemos nestas "redes de nodos esburacados", nodos pelos quais passa muita informação que não deixa nada de consistente. Qualquer dia explicarei melhor como enquadro isto no problema "redes vs. instituições".

16 de Outubro de 2016

15.10.16

Nobel da Literatura 2016.

23.8.15

O Japão é um lugar estranho.





Uma crítica a dois livros sobre o Japão: "O Japão é um lugar estranho", de Peter Carey; e "Caderno de Tóquio", de minha autoria. Aqui: O eterno desconhecido.


5.3.15

Um Contrato com Deus.



O Público faz hoje anos. 25 anos. Parabéns. Com fases boas e com fases más, desde que apareceu que o Público é o jornal que eu leio. Parabéns, repito, e continuem.
Mas, claro, como sou um chato, não venho só dar os parabéns. Deixo dois apontamentos de amigo.
Primeiro, é um apontamento crítico. A edição de hoje é magnífica. E é gratuita. Que bom, gratuita. Sim, mas faz parte das armadilhas da vida. Comprado, o jornal arranja-se sempre. Gratuito, em muitos postos de venda é preciso reservar para não ficar sem ele - logo no dia de hoje. Em prejuízo dos que normalmente compram. Eu percebo o método, mas é uma armadilha para os amigos de todos os dias. É como a história da edição digital: quem compra em papel não tem nenhuma vantagem no acesso à edição digital (contrariamente a outros exemplos que andam por aí). É preciso estimar os amigos!
Segundo apontamento, um elogio. O Público é sempre mais do que o Público. Agora está a sair uma colecção de novela gráfica. Já vai hoje no segundo de doze volumes. Não é novidade, mas em geral este esquema para vender mais é aproveitado pelo Público para fazer melhor. Gosto. Sou apreciador de Banda Desenhada (como sabem os que me conhecem) e esta colecção começou com uma obra magnífica: "Um Contrato com Deus", de Will Eisner. Leiam esta novela gráfica, uma forma intelectualemnte sofisticada de combinar desenho com palavras, e compreenderão completamente por que dizemos que BD é cultura. E, em concreto, este "Um Contrato com Deus", talvez o primeiro clássico do "género" novela gráfica, oferece uma extraordinária oportunidade de reflexão sobre a capacidade que temos para distorcer o que poderia ser importante no mundo.

11.2.15

O presidente do PS vs. um presidente que era para ser de todos os portugueses.


Carlos César a tentar evitar que Passos embarque o PR no "conto de crianças".



conversa de blogues.



Chamaram-me a atenção para o facto de Maria João Marques, hoje no Observador, se referir a um post meu sobre as relações entre partidos de esquerda. Fui ver e não me espantei. Quando uma pessoa quer tresler o que outra pessoa escreve faz uma pseudo-citação e NÃO facilita a vida ao leitor para ir verificar. É o que faz Maria João Marques, que poderia ter dado o link do meu post... mas não deu. Percebe-se: estaria a facilitar ao leitor a constatação do grau de seriedade do texto que ela assina.

Nem dou muita importância ao facto de a articulista escrever que o meu texto é de 2014, quando ele na verdade é de 2012. Não mudo facilmente de opinião em questões essenciais, embora o indício revele o "cuidado" com o que se escreve.

Valeria a pena tentar explicar a Maria João Marques que, tendo eu escrito dezenas de textos sobre o tema das relações entre o PS e outras forças de esquerda, a escolha de uma frase tirada do contexto para "representar" o meu pensamento é um procedimento demasiado gasto?
Não; não vale a pena; não vale a pena pela simples razão de que, mesmo a frase que escolheu para me "incriminar" (!!!) não autoriza nada das suas elocubrações supostamente baseadas nas minhas palavras.

Enfim, como acredito na inteligência dos meus leitores, deixo os links para os textos em causa. O texto de Maria João Marques. O meu texto.

(Imagem: Cloud formations by Alex Antas.)

25.1.15

piratearam o facebook do deputado comunista Miguel Tiago?



No Facebook do deputado do PCP Miguel Tiago lê-se a seguinte posta: «Se, como parece, a burguesia grega tiver de facto reagrupado no SYPIZA, lá terá o capitalismo mais um balão de oxigénio, quando só mesmo a sua morte nos libertaria o caminho.»

Eu preferia não fazer nenhum comentário. Mas faço. Há em algumas esquerdas quem se ocupe principalmente a desejar que as outras esquerdas se espalhem ao comprido. Quem se ri e aproveita com isso? Não a esquerda, certamente.

A minha esperança é: piratearam o facebook do deputado comunista Miguel Tiago.

24.1.15

o primeiro-ministro anda esquecido.


Passos aplaude decisão do BCE de comprar dívida, mas já foi contra. Embora agora diga que nunca foi contra. Mas foi. Contra. E agora aplaude. E diz que nunca foi contra. Mas foi.

Será que o senhor pensa que os portugueses se habituam ao seu hábito de "se esquecer" ?


Encontra-se cada coisa na net...



30.12.14

Top Blog Awards 2014.


Damos hoje notícia de uma iniciativa do Top Imprensa. Trata-se de uma escolha de blogues preferidos em certas categorias.

Apesar de solicitado, não fiz publicidade à iniciativa, pela simples razão de que isso me parecia auto-promoção, coisa que eu não desejava.

Hoje (só hoje) dei com o resultado. Deixo-vos a fatia que me tocou. Agradeço aos promotores da iniciativa e aos que lhe deram vida pela participação.

Os resultado completos podem ser consultados aqui.


6.10.14

a obra de fomento e a obra financeira.



Glória Rebelo, numa crónica de 2011 agora republicada no seu livro "Estado Social e Austeridade", das Edições Sílabo (obra que recomendo), cita António Sérgio:

«A obra de fomento precedeu a obra financeira. É essa a verdadeira cronologia económica... É pavoroso o nosso défice financeiro, mas deem-nos boa economia e logo teremos boas finanças. Enriquecer Portugal, eis todo o problema financeiro.»

Dácadas depois, é preciso voltar a dizê-lo. E, mais do que isso, é preciso fazê-lo. Para deixarmos de chamar "austeridade" ao que é apenas empobrecimento. E para ultrapassarmos a operação ideológica de confundir as causas com os efeitos.


11.7.14

uma descida aos infernos.



O Teatro La Monnaie, de Bruxelas, oferece regularmente uma prenda aos amantes de teatro com música: terminada uma série de apresentações de uma dada encenação operática, ela pode ser vista em linha gratuitamente durante alguns dias.

Por estes dias pode ser visto um espectáculo que não devem perder. Hector Berlioz fez uma versão francesa do "Orfeu e Eurídice" de Christoph W. Gluck e, agora, Romeo Castellucci dá-lhe uma encenação que nos faz descer aos infernos de mão dada com os protagonistas clássicos.
É verdade que Stéphanie d'Oustrac faz um Orfeu emocionante, mas esta obra espantar-vos-á, mais do que pela beleza, pela crueza da descida aos infernos que nos propõe.

Liguem-se à internet, usem a ligação que vos deixo, mobilizem o melhor ecrã que esteja ao vosso alcance, escolham as legendas em francês ou em flamengo (embora as palavras cantadas sejam em francês, as legendas em ópera ajudam sempre), tomem atenção a cada aspecto da história que vos vai ser desvendada - e reservem 80 minutos para descer aos infernos no meio de grande beleza musical e humana.

Esta transmissão está disponível só até 29 de Julho. Vão aqui: Orphée et Eurydice.


30.5.14

As sugestôes do João Miguel.




[o que é isto?]



Para conseguirmos faire marcher le devoir et l'amour. (Carmen, 2º acto)


Por vezes é difícil conciliar a escrita das sugestôes e o seu aproveitamento, havendo semanas mais compensadoras que outras… Desta vez beneficiei, no facebook, da indicação de um link relativo à exposição de Relógios de Sol (aqui).
Já está disponível a programação das Festas de Lisboa 2014.

A decorrer:

  • De 30 de Maio a 1 de Junho, na Atouguia da Baleia, 5º Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia - MIA 2014
  • Das 8h00, de 31 de Maio, às 24h00, de 1 de Junho, Serralves em Festa! 40h non-stop (mais de 250 eventos; directos na RTP2 às 10h00, 12h00, 19h00 e 21h40, no domingo não está prevista a emissão das 21h40) (0€)
  • Até dia 2 de Junho, no El Corte Inglês (Ponto de Informação, Piso 0), inscrições (grátis) para o curso História da Europa (por Lourenço Pereira Coutinho; 8 sessões, às 15h30 de segundas e quartas, com início a 16 de Junho) (www.elcorteingles.pt)
  • De 4 a 6 de Junho, no Salão Nobre do Palácio Azurara, Museu de Artes Decorativas Portuguesas/ Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, colóquio Luso-Brasileiro: A Casa Senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro (sécs. XVII, XVIII e XIX). Anatomia dos Interiores, (0€, inscrição prévia: 218 814 695, ou casa.senhorial.lisboa.rio@gmail.com.)
  • Até 15 Junho, no Parque Eduardo VII, Feira do Livro


(Se o texto parece acabar aqui, clicar em Read More para ver as sugestões por dia.)

24.5.14

A nave dos loucos.


O Presidente do Instituto Superior Técnico, Prof. Arlindo Oliveira, escreve um artigo no Público. Deixo-vos o seguinte excerto:

Considere-se o exemplo de uma portaria recentemente publicada que impõe a obrigatoriedade de consultar a Direção-Geral da Qualificação dos Trabalhadores em Funções Públicas (anteriormente designada e ainda conhecida por Instituto Nacional de Administração, INA) antes da abertura de qualquer concurso que implique a criação de uma relação jurídica de emprego público. Se a ideia base é, em si, louvável, uma vez que, conceptualmente, permite usar mais eficazmente os recursos do Estado, a sua aplicação cega a todas as posições na administração pública, sem exceção, e a todos os contratos de prestação de serviços é inconcebível, ridícula e inexequível. Considere-se o caso de uma escola de engenharia como o IST que, numa perspectiva de manutenção da competitividade internacional, decida abrir, por exemplo, um concurso internacional para uma posição de Professor Catedrático em Fusão Nuclear (ou em Tecnologia Mecânica ou em Informática Industrial ou em Nanomateriais). Fomos devida e inequivocamente esclarecidos pela entidade competente que, a partir de 26 de Março passado, deve o IST consultar sempre o INA antes de abrir qualquer destes concursos para inquirir se não estará porventura disponível, naquela instituição, um funcionário público com as condições e competências necessárias para exercer o cargo. Só por si, esta abstrusa situação, caso venha a ser conhecida no estrangeiro, cobrirá o sistema de ensino superior português e os seus responsáveis de ridículo.

Mas a referida portaria vai mais longe. Ao equiparar qualquer prestação de serviços a uma relação jurídica de emprego público, obriga as universidades (e as outras instituições públicas) a consultar o INA caso necessitem de adquirir uma passagem aérea ou transporte entre o aeroporto e o centro de uma cidade. Presume-se que o legislador terá imaginado que o INA tem à sua disposição pilotos, aviões e um batalhão de taxistas em todas as cidades do mundo, para além, naturalmente, de técnicos de manutenção de microscópios eletrónicos, e de espectrógrafos de massa (para dar apenas dois exemplos), e de um sem fim de outras especialidades. A implementação e regulamentação do que era originalmente uma ideia positiva é tão desastrada que acaba por impor mais um nível de ineficiência e de burocracia a um sistema já tão sobrecarregado com obrigações inúteis.

Para ler na íntegra: A nave dos loucos.

23.5.14

as sugestôes do João Miguel.




[o que é isto?]



Para conseguirmos faire marcher le devoir et l'amour. (Carmen, 2º acto)


No cumprimento do objectivo de acinzentar (mais rigorosamente: enegrecer) as nossas vidas, o Ali Bábá de Massamá vai acabar com a gratuitidade das visitas dominicais aos Museus: a partir de 1 de Junho só é aplicável no primeiro domingo de cada mês. O mesmo diploma fixa em 10€ a entrada nos Jerónimos e cria 14 modalidades de bilhetes-circuito (agregação de várias entradas num único título, válido por um ano). Esta iniciativa pode atenuar o agravamento de preços, mas quando do assalto aos utentes dos transportes públicos não usaram o argumento da simplificação tarifária para eliminarem as modalidades menos dispendiosas? (Um exemplo: acabaram com o passe do Metro, obrigando à compra do Passe Metro e Carris). Claro que ele tem mentiras maiores …
Já está disponível a programação da Gulbenkian Música 14/15 (vou analisar logo que conclua esta edição).

Fui a Cascais para:
  • visitar a exposição: Os Relógios de Sol e a Matemática, no Forte de S. Jorge de Oitavos. Interessantíssima! Pena que não tenha um «catálogo» para guardar, estudar e recordar. Assim, tive de tirar apontamentos (4 preciosas páginas A5), ultrapassando a hora de fecho, sem ser interrompido nem incomodado!
  • assistir à conferência: A Viagem em William Shakespeare, por Mário Vítor Bastos (apresentado como Prof. Universitário especialista em Shakespeare). Uma desgraça! Um alinhamento de lugares comuns ao nível da TV generalista. Completa ausência de associações e de ideias relativas ao tema. O Sr. Prof. nem se lembrava da outra peça, para lá do Mercador de Veneza, que se passa em Veneza … Se (por lapso) voltar a sugerir uma conferência dele, não vá!

Uma sugestâo do Jorge Calado (recebida às 23h30): Vim agora da Gulbenkian do "Written on Skin" - uma experiência inolvidável. A melhor ópera dos últimos cem anos? Avisa os subscritores das Sugestões. … e para notarem a harmónica de vidro (copos), instrumento fundamental no Written on Skin. (Dica: falo da harmónica no Haja Luz!, a propósito do Benjamin Franklin) Os detalhes: última oportunidade, sexta-feira, dia 23, às 19h00, na Gulbenkian (imensos lugares disponíveis de 11 a 22€).


A decorrer:
  • Abertas inscrições para a visita guiada Um Percurso pelo Modernismo Português: Bairro Residencial de Nova Oeiras, às 10h00, de 28 de Maio (0€; 214 408 536, 214 408 544, dct@cm-oeiras.pt)
  • De 29 de Maio a 15 Junho, no Parque Eduardo VII, Feira do Livro.

(Se o texto parece acabar aqui, clicar em Read More para ver as sugestões por dia.)