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16.12.14

“Mapas para as estrelas”, de Cronenberg.

16:40


É estranho que poucos se atrevam a dizer claramente que o mais recente filme de David Cronenberg parte de um tema relativamente corriqueiro, glosado de muitas formas no passado: Hollywood, a Meca de um certo cinema, é impiedosa: uma máquina de fazer e desfazer famas, que constrói estrelas com os destroços das pessoas que entram na fábrica das glórias efémeras. A questão mais específica da exploração das crianças-actores, que deixam de ser crianças para serem actores – e monstros – , é pouco mais do que um subtema do tema geral da especificidade da fauna hollywoodesca. Que interesse poderá ter um filme sobre um assunto tão visto?

Como há muito sigo com interesse este realizador, não poderia deixar escapar Mapas para as estrelas. Se já lhe chamei “o filósofo Cronenberg”, também já disse de um filme seu (Cosmopolis) que é uma porcaria. O que não consigo é escapar ao fascínio de tentar acompanhar as novas formas que toma o seu discurso sobre as metamorfoses do humano.

Cronenberg começou por interrogar-nos sobre os caminhos do corpo. Depois de muitos anos de obscuridade, o primeiro dos seus grandes êxitos, A Mosca, mostra um corpo humano e um corpo não humano que entram em confluência, não podendo a mente ficar indiferente a essas aventuras da sua base material. Em eXistenZ, o que é maquínico e o que é propriamente biológico estão já na mesma família.

A certa altura do percurso, as metamorfoses “estudadas” por Cronenberg passam a ser preferencialmente as que assentam nos processos mentais. Em Spider, por exemplo, revela-se que, se o cérebro nos fornecer leituras intermitentes do mundo, o mundo para nós se torna realmente uma intermitência entre vários mundos - e não há objectividade que resista a isso. Em Crash, o que Cronenberg nos propõe é o amor humano pela máquina. O desejo sexual pela máquina. As emoções em metamorfose mecânica. Em Um Método Perigoso, o realizador mete-se com a psicanálise e com a mutação de todo o sentido da vida de uma mulher (Sabina Spielrein), que passa de paciente a psicanalista, de doida a cientista.

Mais tarde, as metamorfoses do humano que interessam a Cronenberg passam a estar mais ligadas às mutações do papel social de certos indivíduos, como em Promessas Perigosas, onde se desenha um homem qual borboleta que, quando emergir do casulo, será totalmente surpreendente para uma organização que pensava saber bem com o que contava dele. Cosmopolis é outra tentativa (a meu ver falhada) de captar a lógica da desordem das nossas sociedades contemporâneas. E, proponho eu, este Mapas para as estrelas retoma a temática da desordem subjacente a fenómenos que toleramos nas nossas sociedades, como se fossem meros desvios do bom caminho, quando eles são mesmo perversões fundamentais do nosso viver em comum.

Mapas para as estrelas começa em tom de relativa bonomia. É típico num cineasta que vem do filme de terror cruzado com ficção científica: tudo parece calmo… porque estamos distraídos e não estamos a entender o que importa. Pouco a pouco, indício após indício, tudo se revela monstruoso – e essa monstruosidade aparece sob a forma de linguagem desbragada e violência despropositada ou injustificável. Para acabar em completa subversão de regras sociais e institucionais básicas. O que nos apanha desprevenidos é que nós não conhecemos a história das personagens. Tal como, na sociedade, a falta de atenção à história dos processos sociais provoca políticas suicidas inspiradas por “ciências exactas” alienadas (como certas tendências da “economia matemática” perfeitamente incapazes de entender a economia real como parte da sociedade real), neste caso a raiz da desordem é a quebra de um tabu fundamental, quebra que, como semente escondida, se perde na noite dos tempos, (literalmente) sob escombros.

Numa entrevista que David Cronenberg concedeu a Francisco Ferreira (revista Atual, do Expresso, de 13 de Dezembro 2014), o realizador, acerca da questão das crianças-estrelas de cinema, diz: “São crianças que já não têm pais, têm agentes.” Ora aí está: “agentes”, porque tratam da carreira dos actores (crianças), em vez de pais que tratam da felicidade dos filhos (pessoas, com ocupação eventual de actor). E, para quem tem algumas luzes da linguagem da inteligência artificial, “agentes” por terem certos comportamentos de interacção com outras “coisas” num certo ambiente, sendo que esses comportamentos podem, a certa luz, ter uma certa “racionalidade” – mas não têm de modo nenhum que ser comportamentos humanos. “Agentes” que podem ser, apenas, pequenos programas informáticos, pedaços de código, sem qualquer relação com a moralidade de um humano que age humanamente. E, focando-se em Hollywood, e mais especificamente nas taras que cercam as crianças-estrela, Cronenberg mostra uma metamorfose do social onde os únicos que não são monstros são os fantasmas. Todos os vivos são monstros, toda a relação social é monstruosa – e desta vez não é preciso envolver no processo nenhuma ficção científica para nos dar a ver essa metamorfose fatal.

Um filme que, chegando a Portugal perto da quadra do Natal, não tem nada de natalício. E que deixou vários expectadores indispostos. Mas que temos de ver se não fugimos à responsabilidade de interrogar a monstruosidade que se embrenhou em alguns aspectos das nossas sociedades.

9.1.14

O Totem Máquina.


As formas concretas de sociabilidade dos humanos são crescentemente influenciadas por novos tipos de objectos. Agentes artificiais ou «objetos inteligentes» estão cada vez mais presentes nas relações entre humanos no contexto social. Fenómenos como a «especulação automatizada» ou a «Internet das coisas» exemplificam a metamorfose de objetos com crescente impacto em domínios específicos da interacção social. Neste estudo interroga-se esta realidade com os instrumentos do debate em Antropologia sobre o totemismo e animismo nas sociedades não-Ocidentais ditas primitivas. Este debate, que teve início há algumas décadas e ainda prossegue, fornece conceitos que ajudam a questionar ideias e experiências históricas das Ciências do Artificial (especificamente a Inteligência Artificial). A partir deste ponto de vista são também postos em questão fenómenos mais recentes.

Este é o resumo do meu artigo "O Totem Máquina. O Futuro da Identidade e o Futuro da Comunidade na Máquina Universal", publicado na Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto - Série de Filosofia, no volume de 2012 (apesar de escrito e publicado em 2013), que passou agora a estar disponível gratuitamente em linha: basta clicar aqui.

Este texto teve origem numa palestra que dei na Universidade de Coimbra, a 31 de Maio de 2012, no Centro de Investigação em Antropologia e Saúde, a convite do Professor Luís Quintais, a quem agradeço ter-me levado para estes cruzamentos (que, aliás, tiveram muito a ver com a minha posterior ida e estadia para o Japão durante cinco meses de 2013).


1.10.13

Fabulosas raças de humanóides: monstros e robôs.



Acabou de sair na Kairos, Revista de Filosofia & Ciência, número 7, o meu artigo "Fabulosas raças de humanóides: monstros e robôs. A robótica humanóide e a captura da intencionalidade". Pode ser lido em linha (clicar no título). O sítio da revista pode ser visitado aqui: Kairos.

Trata-se de um texto cuja primeira versão apresentei em 2009 numa conferência em Offenbach am Main [“(Hi) story of Robotics” - Annual Meeting of the Society for the History of Technology, Germany)] e que esteve depois na base de uma apresentação que fiz no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, no quadro da Exposição corpoIMAGEM.

Deixo o resumo:

«Este texto discute as perspectivas da Robótica Humanóide no quadro historicamente alargado das visões humanas acerca dos humanóides. As crenças ocidentais nas raças fabulosas do Oriente, bem como aspectos da crise dessas crenças por ocasião dos Descobrimentos dos séculos XV e XVI, são usados para iluminar o significado mais profundo de aspectos recentes desta linha de investigação em Nova Robótica. É proposto que a dinâmica profunda dessa Robótica passa pelo que designamos como captura da postura intencional.»


7.7.12

elefantismo.


Um candeeiro do IKEA com uma doença tramada.


O designer Daan van den Berg fez um scan 3D do candeeiro LAMPAN do IKEA e depois infectou o documento com uma versão digital do vírus do Elefantismo (não tenho a certeza que seja assim que se designa a doença.)
Os mundos natural e artificial andam a cruzar-se. Depois não digam que eu não avisei.
 

3.7.12

29.5.12

Corpos racionais mastigam-se melhor.

Visto o corpo pelo olhar da racionalidade, por que razão não há-de ele ser susceptível de partição, de decomposição em partes - talvez segundo um critério funcional, segundo a razão de ser de cada um dos seus subsistemas? Tal como num computador podemos, por exemplo, separar os dispositivos de comunicação com o exterior (teclado e monitor, nomeadamente) da unidade central de processamento e da memória - porque não haveremos de poder desconstruir o corpo, cada peça para seu lado, segundo o uso padrão que lhe conferimos? Quem diz desmontar, diz re-montar; partir/compor; descontruir/reconstruir. Isto se, como foi dito, virmos o corpo pelo lado da racionalidade. Porque não haveremos de fazer humanos segundo a receita de Cindy Sherman? Chegará essa receita a ser um algoritmo? Ou haverá qualquer coisa que falha numa leitura do corpo que vai só pela racionalidade, mesmo que ela seja tecnologicamente dotada?


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Cindy Sherman nasceu em New Jersey em 1954. Foi antes de qualquer outra coisa fotógrafa. Em muitas das suas obras ela é o seu próprio modelo. "Ela", quer dizer, transfigurada de muitas maneiras. Nos anos '90 do século passado fez uma série de "bonecas": entre elas a que se vê abaixo.




Cindy Sherman, Untitled # 250

25.5.12

Cavar sentidos no corpo de carne.

Palimpsesto (s.m.) : papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado, para dar lugar a outro. (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)

Arnulf Rainer, um dos artistas do "accionismo vienense", pratica uma espécie de palimpsesto com as suas máscaras mortuárias: pinta sobre elas. Mas «Rainer nunca pinta para recobrir a pintura, mas antes para a clarificar na sua intencionalidade. Neste sentido, nada apaga e, simultaneamente, cobre para procurar a génese».[*]


Inscrevendo as minhas vidas nas tuas vidas, faço uma outra espécie de palimpsesto: inscrevo sentidos em vida e espero que o teu sentido esclareça o meu sentido, que o teu sentido seja gerador do meu sentido (e inversamente).


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[*] Carlos Vidal, O corpo e a forma. Dois conceitos, o mesmo tema. Cindy Sherman, Arnulf Rainer, Porto, Mimesis, 2003, p. 39





Arnulf Rainer, Cadaveri IV, 1980

22.2.12

repensando as artes do corpo.




«Há 13 anos criamos na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) um curso chamado Comunicação das Artes do Corpo. Até então, não se usava esse termo, hoje já tão disseminado.»
Continuar a ler Christine Greiner em MILPLANALTOS.

31.1.12

o peixe binário.

O que vos proponho agora é uma pequena reflexão acerca da cibernética da mitologia - ou será acerca da mitologia da cibernética?

Passo a transcrever um excerto de Claude Lévi-Strauss, capítulo 2 de Mito e Significado, originalmente publicado em inglês (Myth and meaning, 1987), resultado de uma série de palestras radiofónicas para o grande público. Existe em português, nas Edições 70, donde transcrevo. Os destaques são meus e têm a ver com o comentário que quero deixar depois.

Vamos agora considerar um mito do Canadá Ocidental sobre uma raia que tentou controlar ou dominar o Vento Sul e que teve êxito na empresa. Trata-se de uma história de uma época anterior à existência do Homem na Terra, ou seja, de um tempo em que os homens não se diferenciavam de facto dos animais; os seres eram meio humanos e meio animais. Todos se sentiam muito incomodados com o vento, porque os ventos, especialmente os ventos maus, sopravam durante todo o tempo, impedindo que eles pescassem ou que procurassem conchas com moluscos na praia. Portanto, decidiram que tinham de lutar contra os ventos, obrigando-os a comportarem-se mais decentemente. Houve uma expedição em que participaram vários animais humanizados ou humanos animalizados, incluindo a raia, que desempenhou um importante papel na captura do Vento Sul. Este só foi libertado depois de prometer que não voltaria a soprar constantemente, mas só de vez em quando, ou só em determinados períodos. Desde então, o Vento Sul só sopra em certos períodos do ano ou, então, uma única vez em cada dois dias; durante o resto do tempo a Humanidade pode dedicar-se às suas actividades.
Bom, esta história nunca aconteceu na realidade. Mas a nossa posição não se pode limitar a considerarmos esta história completamente absurda e a ficarmos satisfeitos ao taxá-la de uma criação imaginosa de uma mente entregue ao delírio. Temos de a tomar a sério e fazer a seguinte pergunta: porquê a raia e porquê o Vento Sul?
Quando se estuda minuciosamente o material mitológico na forma exacta em que é narrado, verifica-se que a raia actua com base em deter minadas características, que são de duas espécies. A primeira, é que a raia é um peixe, como todos os seus congéneres espalmados, escorregadio por baixo e duro por cima. E a outra característica, que permite à raia escapar com sucesso quando tem de enfrentar outros animais, é que parece muito grande vista de baixo ou de cima e extremamente delgada vista de lado. Um adversário poderia pensar que seria muito fácil disparar uma seta e matar uma raia, por ela ser tão grande; mas, enquanto a seta se dirige para o alvo, a raia pode virar-se ou deslizar rapidamente, oferecendo apenas o perfil, que, evidentemente, é impossível de atingir; e é assim que pode escapar. Portanto, a razão por que se escolheu a raia é que ela é um animal que, considerado de um ou outro ponto de vista, é capaz de responder – empregando a linguagem da cibernética – em termos de «sim» ou «não». É capaz de dois estados que são descontínuos, um positivo e o outro negativo. A função que a raia desempenha no mito é – ainda que, evidentemente, eu não queira levar as semelhanças demasiado longe – parecida com a dos elementos que se introduzem nos computadores modernos e que se podem utilizar para resolver grandes problemas adicionando uma série de respostas de «sim» e «não».
Apesar de ser obviamente errado e impossível (dum ponto de vista empírico) que um peixe possa lutar contra o vento, dum ponto de vista lógico pode-se compreender por que razão se utilizam imagens tiradas da experiência. Esta é a originalidade do pensamento mitológico – desempenhar o papel do pensamento conceptual: um animal susceptível de ser usado como, diria eu, um operador binário, pode ter, dum ponto de vista lógico, uma relação com um problema que também é um problema binário. Se o Vento Sul sopra todos os dias do ano, a vida torna-se impossível para a Humanidade. Mas, se apenas soprar um em cada dois dias – «sim» um dia, «não» o outro dia, e assim por diante –, torna-se então possível uma espécie de compromisso entre as necessidades da Humanidade e as condições predominantes no mundo natural.
Assim, dum ponto de vista lógico, há uma afinidade entre um animal como a raia e o tipo de problema que o mito tenta resolver. Dum ponto de vista científico, a história não é verdadeira, mas nós somente pudemos entender esta propriedade do mito num tempo em que a cibernética e os computadores apareceram no mundo científico, dando-nos o conhecimento das operações binárias, que já tinham sido postas em prática de uma maneira bastante diferente, com objectos ou seres concretos, pelo pensamento mítico. Assim, na realidade não existe uma espécie de divórcio entre mitologia e ciência. Só o estádio contemporâneo do pensamento científico é que nos habilita a compreender o que há neste mito, perante o qual permanecíamos completamente cegos antes de a ideia das operações binárias se tornar um conceito familiar para todos.

Excelente exemplo da penetração do pensamento cibernético na cultura intelectual da segunda metade do século XX. Impulsionado pelo fascínio pelo computador, o Autor pode ver um animal como um operador binário - e, mais ainda, pode ver que isso foi visto de forma mitológica antes de haver computadores ou de eles terem sido concebidos logicamente. Claro, a excitação é tanta que o Autor nem se atrapalha em reduzir um fenómeno como o vento que sopra a um problema discreto (sim ou não), quando, precisamente, o vento nos parece um daqueles fenómenos físicos que só no nosso espírito pode deixar de ser contínuo na sua variação. Trata-se, afinal, de escolher um ponto de vista. Tal como a circulação sanguínea: é contínua ou discreta? No coração, parece ser discreta: cada bombada, um evento circulatório; na extrema periferia, nos vasos capilares, uma circulação contínua. O contínuo e o discreto não se opõem absolutamente, na natureza; mas, num computador, essa oposição extrema-se, já que todo o controlo tem, no coração da máquina, de passar pelo carácter discreto (sim ou não, sem ambiguidade, sem meio termo) do finíssimo fluxo eléctrico. Para o famoso antropólogo, a raia e o Vento do Sul eram peças da grande máquina do mundo. Foi um sinal dos tempos - mas esses tempos não passaram.


26.11.11

Um Método Perigoso, Cronenberg.

16:51


O último filme de Cronenberg, de fresco entre nós, tem como título Um Método Perigoso. O filme envolve acontecimentos reais do nascimento da psicanálise e da psicologia analítica nas primeiras décadas do século passado, nomeadamente as relações, científicas e outras, entre Sigmund Freud, Carl Gustav Jung, Otto Gross e Sabina Spielrein.
O que nos interessa permanentemente em Cronenberg é a tematização do corpo como matéria do espírito, bem como a tematização múltipla da metamorfose como condição. A profundidade e diversidade dos olhares sobre essa paisagem, que o realizador canadiano nos tem oferecido desde o tempo em que o seu cinema era quase marginal, levou-me antes a chamar-lhe "o filósofo Cronenberg".
E agora?
Estamos, claramente, muito longe dos viscerais “A Ninhada” (1979), “Videodrome” (1983) ou “Crash” (1996), do narcótico “eXistenZ” (1999), mas também do mais "espiritual" “Spider” (2002) ou dos mais indirectos e depurados “Uma história de violência” (2005) e “Promessas Perigosas” (2007). Não vou ao ponto de dizer, como outros já fazem desde filmes anteriores, que este Cronenberg já não é um Cronenberg. A questão das relações tortuosas entre o corpo e a mente não fugiu completamente de cena. Contudo, na aparência, este filme trata essa questão num nível superior de abstracção, falando dos cientistas que estudam tal coisa e focando-se a maior parte do tempo nessa observação de cientistas. Admito que este filme pode ser visto apenas como uma história bem contada, ainda por cima sobre factos históricos, misturando um pouco de amores proibidos com investigação - mas, no conjunto, parecendo tudo bem comportado e relativamente domesticado (sim, o "doméstico" parece levar a melhor, pelo menos no caso de Jung).
Só que há outro buraco da fechadura por onde espreitar. Cherchez la femme. Estranhamente, alguns críticos de cinema falam do filme como se ele fosse acerca das relações entre Freud e Jung. Entre dois grandes do estudo do inconsciente. Quase esquecendo Sabina Spielrein, reduzindo-a quase a uma aprendiz que por ali anda no oceano de tensões entre os dois homens cientistas. Acho que essa centragem em Freud e Jung é um erro, por ser uma leitura historicista do filme, quase uma tentativa de leitura realista. Só que Cronenberg não pode ser lido assim. A mulher, Sabina Spielrein, é a personagem que encarna tudo o que há de permanente em Cronenberg. É ela que transporta a grande metamorfose que acontece no filme: é ela que passa de "doente", de "doida", de paciente, a psicanalista, a cientista ao mesmo título de Freud e dos outros. É ela que dá corpo ao duplo aspecto da metamorfose: a continuidade convive com a mudança. Peça perfeita de um puzzle sobre a psicanálise, o elemento de continuidade é o facto de Sabina se excitar com a dor e a humilhação. Esse é traço vincado da "doença" pela qual a hospitalizam, mas esse traço permanece depois de ela passar para o lado dos analistas. Mesmo a cientista, operada essa grande mudança, continua a procurar o mesmo tipo de prazer.
Afinal, este Cronenberg, que parecia ter intelectualizado o seu tema de sempre, passa uma ideia muito mais radical: evitam de tentar fugir aos recantos da vossa mente e do vosso corpo, evitam de tentar fugir pelo caminho da intelectualização, porque mesmo na intelectualização o que é fundador permanece.

Post Scriptum. Houve quem tratasse de Sabina Spielrein sem a reduzir a amante. Por exemplo, o documentário My Name was Sabina Spielrein, de que deixo um momento.






8.9.10

próteses

A ponte mais comum entre o natural (o que não fomos nós que fizemos) e o artificial (o que fomos nós, ou alguém por nós, a fazer) são as próteses. A ponte liga o lado de cá, de onde queremos sair (o corpo herdado e os seus caminhos que nada nos perguntam se queremos) com o lado de lá, para onde queremos ir (segundo as nossas necessidades percepcionadas, ou segundo a nossa imaginação desejante). Podemos querer realizar o sonho de Ícaro - ou podemos querer uma alma toda nova. Montados nas próteses, o calor do sol é o nosso limite. Tal como Ícaro aprendeu, contudo, tarde de mais... Pois.


Mock - up, 1985_web.gif

Panamarenko, Mock-up, 1985

3.9.10

música e neurociências, Damásio e Yo-Yo Ma


Para os mais atentos, é uma notícia velha. Mas eu não sou dos mais atentos.
«O compositor norte-americano Bruce Adolphe convidou o neurocientista português António Damásio e o violoncelista de origem chinesa Yo-Yo Ma para participarem na produção de uma peça musical multimédia sobre a evolução da consciência.» (Ciência Hoje)
A peça chama-se "Self Comes to Mind" e vai também ser título de livro do neurocientista. Antonio Damasio's new book, Self Comes to Mind, will be published by Pantheon on November 9, 2010.
Pelo que se pode ler, a combinação de música e ciência (e das imagens do cérebro com que Damásio já trabalha normalmente) não foi mero exercício de retórica. A experiência fenomenológica da música é uma das que tendemos a considerar mais sublimes - e mais uma das que não são fáceis de explicar a sério. Algo sobre isso aqui. Uma das coisas interessantes no método de Damásio é que, contrariamente a outros que acham que só é mesmo científico estudar o funcionamento do cérebro propriamente dito, ele cruza a observação exterior do cérebro (com toda aquela parafernália de máquinas para captar imagens do seu funcionamento) com "observação interior": testemunhos de pessoas que vivem situações de desfuncionalidade e relatam o que sentem e pensam na primeira pessoa.

Enquanto esperamos pelo próximo livro de Damásio, damos-lhe a ouvir a música. Composta por Bruce Adolphe, "Self Comes to Mind" é baseada num texto de António Damásio e desenvolve-se em três andamentos:
1. When Mind First in the Body Bloomed
2. Self Came to Mind
3. Discovery

Não é muito elegante a inserção que conseguimos fazer, mas pode ouvir aqui cada um dos movimentos separadamente.





30.3.10

a mente o mundo (ler um pouco de Andy Clark)

17:42
Que coisa é essa da "mente" (ou mesmo o "espírito", como alguns preferem dizer)?

Andy Clark é um filósofo que há muitos anos vem explorando uma nova visão da mente, segundo a qual estamos errados em considerar que a mente está fechada dentro do nosso corpo (ou dentro da cabeça, no cérebro). É que, acha ele, considerar que a pele e o crânio sejam fronteiras particularmente decisivas para delimitar onde está e onde não está a mente - não é muito proveitoso. O que Clark propõe é uma visão diferente da relação entre a mente e o mundo, com a ideia de que a mente, numa certa (cada vez maior) medida, está no mundo. Complicado? É uma ideia em que vale a pena pensar. Considere o leitor, por exemplo, a relação entre o seu telemóvel ou o seu computador e os seus processos de pensamento: como é que tudo isso se conjuga?
Por razões de trabalho, tive de pegar agora no último Andy Clark, Supersizing the Mind - Embodiment, Action, and Cognitive Extension (2008). Deixo o princípio da introdução, que espero seja estimulante para alguns continuarem a pensar sobre estas coisas.

Consider this famous exchange between the Nobel Prize–winning physicist Richard Feynman and the historian Charles Weiner. Weiner, encountering with a historian’s glee a batch of Feynman’s original notes and sketches, remarked that the materials represented “a record of [Feynman’s] day-to-day work.” But instead of simply acknowledging this historic value, Feynman reacted with unexpected sharpness:
“I actually did the work on the paper,” he said.
“Well,” Weiner said, “the work was done in your head, but the record of it is still here.”
“No, it’s not a record, not really. It’s working. You have to work on paper and this is the paper. Okay?”
Feynman’s suggestion is, at the very least, that the loop into the external medium was integral to his intellectual activity (the “working”) itself. But I would like to go further and suggest that Feynman was actually thinking on the paper. The loop through pen and paper is part of the physical machinery responsible for the shape of the flow of thoughts and ideas that we take, nonetheless, to be distinctively those of Richard Feynman. It reliably and robustly provides a functionality which, were it provided by goings-on in the head alone, we would have no hesitation in designating as part of the cognitive circuitry.

Boas leituras.

10.12.09

ninguém vive uma vida por outrém

14:20



Sam Jinks, Still Life, Pietá, 2007
(na Arte Lisboa 2009, foto de Porfírio Silva)


14.9.09

Corpos racionais mastigam-se melhor.


Visto o corpo pelo olhar da racionalidade, por que razão não há-de ele ser susceptível de partição, de decomposição em partes - talvez segundo um critério funcional, segundo a razão de ser de cada um dos seus subsistemas? Tal como num computador podemos, por exemplo, separar os dispositivos de comunicação com o exterior (teclado e monitor, nomeadamente) da unidade central de processamento e da memória - porque não haveremos de poder desconstruir o corpo, cada peça para seu lado, segundo o uso padrão que lhe conferimos? Quem diz desmontar, diz re-montar; partir/compor; descontruir/reconstruir. Isto se, como foi dito, virmos o corpo pelo lado da racionalidade. Porque não haveremos de fazer humanos segundo a receita de Cindy Sherman? Chegará essa receita a ser um algoritmo? Ou haverá qualquer coisa que falha numa leitura do corpo que vai só pela racionalidade, mesmo que ela seja tecnologicamente dotada?




Cindy Sherman, Untitled # 250



(Cindy Sherman nasceu em New Jersey em 1954. Foi antes de qualquer outra coisa fotógrafa. Em muitas das suas obras ela é o seu próprio modelo. "Ela", quer dizer, transfigurada de muitas maneiras. Nos anos '90 do século passado fez uma série de "bonecas": entre elas a que se vê acima.)