Mostrar mensagens com a etiqueta 6. Memórias e objectos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 6. Memórias e objectos. Mostrar todas as mensagens

31.5.26

José Pedro Croft – Reflexos, Enclaves, Desvios


Vinte e cinco anos depois, José Pedro Croft volta ao CCB com uma grande exposição. São obras de 2003 a 2026, retomando a “antologia” no momento seguinte à anterior passagem por aquela casa (em 2002). Não venho apresentar-vos José Pedro Croft, porque quem lê não precisa, porque o artista dispensa apresentações e, antes de tudo, porque eu não seria capaz. Venho, para (minha) memória futura, dizer-vos de uma visita a “José Pedro Croft – Reflexos, Enclaves, Desvios”, que estará no MAC/CCB até 13 de setembro de 2026 (abriu a 30 de abril). 

(Aviso - ou sinal de trânsito, ou lá o que seja: não sou crítico de arte, não escrevo crítica de arte.)

São desenhos e gravuras, em séries, de grandes dimensões. E são esculturas, em geral de grandes dimensões e realizadas em materiais pesados (principalmente ferro e vidro): como dizem, “grandes sólidos vazios” delimitados com linhas muito leves. Croft diz, em entrevista, que num dos seus ateliês, que está numa fábrica no Norte, “tenho chapas de vidro que pesam uma tonelada”. Para lidar com esses materiais são necessárias máquinas poderosas – e, no entanto, diz ele, “eu continuo a usar as mãos”. E a tomar o seu tempo, desacelerador.




A primeira impressão quando se entra no espaço da exposição é que há um reenvio constante entre as obras a duas dimensões (gravuras) e as obras a três dimensões (esculturas), na medida em que, além de as gravuras estarem em séries (diferença e repetição, repetição e diferença, com formas geometricamente des-ordenadas a originarem respostas a si mesmas), as esculturas (maioritariamente pousadas no chão) parecem emergências das mesmas vidas geométricas que se encontram momentaneamente estacionadas naquelas paredes. Talvez durante a noite, por ocasião das distrações dos vigilantes, as esculturas se dispam de uma dimensão e pousem como gravuras nas paredes, enquanto as gravuras se agigantam para a terceira dimensão e repousam no chão como esculturas saídas das mesmas mãos. Teríamos de lá pernoitar para testar esta hipótese, correndo o risco de interromper essa transformação, que, obviamente, aquelas gravuras e aquelas esculturas quererão esconder dos mortais.






Esta possibilidade de que as obras de José Pedro Croft possam errar pelo espaço e mudar o seu carácter nessa deambulação, mudando-nos a nós também nesse processo, não é um delírio metafísico. É, outrossim, um traço essencial da obra de Croft e dos modos como ela nos desafia. A obra move-se, a obra vive do facto de se mover – e, por isso, exige-nos que sejamos móveis nós também. Como alguém já evocou, se pegar numa destas esculturas em ferro e espelhos e os espelhos forem trocados de lugar (um espelho passa a ocupar outra face do “grande sólido vazio”), isso vai modificar a relação da escultura com quem passa, porque passou a ocupar o espaço de outra maneira – sendo ela, agora, outra escultura, e sendo nós, então, expostos a outro mundo. 

É difícil controlar (racionalizar) as variações possíveis desses mundos em aberto. Quando (nos) olhamos ao espelho, e quando aí mudamos de posição, o nosso controlo sobre as variações que daí resultam não é cristalino; é, por vezes, difícil antecipar para onde se move o mundo sob o efeito dos movimentos do nosso corpo (que arrasta os nossos olhos). Se os espelhos são múltiplos e há linhas de vista entre eles, a complexidade da relação entre os nossos movimentos e o mundo só pode aumentar. Deslocando-nos entre as esculturas espalhadas de José Pedro Croft temos um vislumbre da complexa pertença ao mundo que desfiamos atravessando-o. Esse efeito das esculturas no mundo é ainda mais estonteante se tivermos em conta que elas são objetos pesadíssimos pousados no chão (ou pendurados fixamente nas paredes). 

As imagens que incluo, para tentar transmitir a sensação de entrar nesta exposição, espero que façam entender o que vinha dizendo, nessa múltipla relação entre as peças presentes à nossa visita.

Numa entrevista ao Diário de Notícias (edição de 9 de maio de 2026), Croft diz que o espelho “é a introdução da imagem dentro da escultura”, “mostra-me coisas que não estão dentro da escultura, que vai buscar fora”. Creio que as palavras determinantes são “vai buscar fora”. Só duvido do sujeito: é a escultura que “vai buscar fora”? Diria que não. E explico-me. Noutro momento dessa entrevista, perguntado “não sente necessidade de dar título às peças?”, Croft responde: “Não. O título é já uma forma de nomear e, necessariamente, orientar a leitura da obra.” Portanto, não dá título para não orientar a leitura da obra. E, não orientando, a leitura tem de ser construída percorrendo outro caminho. Esse outro caminho é “ir buscar fora”: o “espectador” tem de fazer por ir buscar fora (da própria obra) essa leitura. Mas, talvez, os espelhos indiquem caminhos possíveis.





Espelhos.

Na obra de José Pedro Croft sempre vi espelhos. Espelhos como janelas. Espelhos como reflexões: o espelho não te devolve o que tu és (quem sabe o que tu és? tu sabes realmente o que és? se a existência precede a essência, como podes saber agora quem és?), mas sim algo que podes ser, que talvez sejas, dubitativamente, que talvez se encontre no que se pode ver de ti visto de fora, o espelho devolve-te certas possibilidades que se soltam da tua imagem quando captada do exterior. Só podes ser ingénuo quanto ao espelho se nunca te aconteceu a surpresa de te veres ao espelho e ires a correr rearranjar qualquer coisa que mostrava uma tristeza, ou uma fraqueza, que querias esconder – ou uma centelha tão prometedora que não podia ser desperdiçada fora de uma arquitetura mais forte do que o momento.

O espelho, ao ser uma janela, pode oferecer uma visão sobre bairros que não costumas visitar, bairros que não costumam visitar-te. Pode aparecer no espelho, surpreendentemente, talvez apenas fugazmente, o anjo encarregue de te matar a sede em momentos de aflição, ou o demónio cujo trabalho é atormentar-te quando amas descuidadamente. Esse aparecimento pode resultar somente de uma distração momentânea do anjo (ou do demónio), ou resultar do bem ou mal intencionado propósito de te lembrar que existe, apesar das críticas metafísicas que impugnam esses seres. Só que o universo está repleto de seres impugnados, impossíveis, inacessíveis à física teórica e aplicada. 

E, aí está, os espelhos de José Pedro Croft podem apontar para as profundezas do universo. Não apenas para a imensa intensidade desapercebida dos irmãos de sangue, ou dos irmãos criados nas travessias de florestas e desertos, mas também para a imensidão do campo das estrelas. Por isso inseri, no meu livro de poesia Público, Privado, o poema “Medida Incerta”, escrito aquando da inauguração da obra Medida Incerta, de José Pedro Croft, na Bienal de Veneza 2017. (Consultável aqui: Medida Incerta - publicação inicial, em blogue.)

Regressemos àquelas salas do CCB.

Naquelas salas, alinhadas de tal modo que as reflexões das obras de José Pedro Croft não se confinam a um dos alvéolos e são transportadas para as salas ao lado, há uma tal densidade de linhas de reflexão (há um espelhamento generalizado daquele universo entre paredes) que podemos esconder-nos das nossas reflexões interiores. Muitas reflexões exteriores abafando reflexões interiores, o que pode ser, momentaneamente, uma dádiva. (Pode estar aí uma das explicações para o sucesso das chamadas “redes sociais”, que são largamente associais, mas impedem a reflexão a quem não a suporta.) Os efeitos dos espelhos cruzam-se de tal modo uns com os outros, intensificam-se uns aos outros a tal grau e de tais modos que podemos apenas deixar-nos atravessar e pausar a reflexão interior. Embora ela possa vingar-se regressando abruptamente e ainda mais afiada depois de atravessado o campo das reflexões exteriores. Movemo-nos à procura de novos espelhamentos (o que mais posso ver daqui à custa deste segmento espelhado desta peça) e isso liberta-nos, por momentos, de responder às perguntas interiores que bailavam à procura de um sentido para aquele dia desta vida (daquela vida). 





Estou a dizer que a reflexão especular das obras de José Pedro Croft interferem com o pensamento, pausam o pensamento, interrompem o pensamento? Na verdade, todo o pensamento perturba outro pensamento. Contudo, é uma pergunta que perde alguma relevância se admitirmos simplesmente que não precisamos de estar acordados para pensar. Que, provavelmente, pensamos mais (vezes) quando não pensamos que estamos a pensar, porque os cordelinhos estão a reorganizar o espaço do jogo sem que os jogadores estejam atentos. Talvez por isso a arte não tenha de ter programa para ter programa – o que me faz dar pouca atenção a uma afirmação de Croft que o Diário de Notícias trouxe para título daquela entrevista já referida: “Uma das coisas maravilhosas da arte é não ter programa. Não quer dizer nada e não serve para nada.” O programa de uma criação artística, de uma série de obras de arte, não depende necessariamente de um programa concebido pelo artista em modo intencional e racionalizado. Pretender que a obra de arte não tem programa é reduzir a obra de arte ao que o artista fez, quando, afinal, a obra de arte será a forma da sua recepção no mundo. E, igualmente, o seu programa.




Outros espelhos.

Há um tipo de espelhos que José Pedro Croft coloca no mundo e que talvez não sejam, materialmente, espelhos. A refeitura da fachada do edifício que abriga o MUZEU (dst), em Braga, ficou a cargo de Croft. “Ficar a cargo” poderia ser lido num modo distante: ele olhou, perspectivou, concebeu, desenhou, projetou. E alguém executou. Não sei. Na verdade, não sei como foi. Podia procurar, podia perguntar-lhe, mas não é assim tão importante neste momento. Mas é concebível que tenha tido uma intervenção material na concretização, pondo as mãos em jogo nos materiais e nas ferramentas. Sei lá, talvez até escalando a fachada para materializar este ou aquele momento. Não sei. Mas podia ter acontecido, porque muitas das obras de Croft, sendo de uma materialidade pesada, saem mesmo de mãos e máquinas a que o artista não foge. Como um operário. Embora não como um proletário.

De qualquer modo, entrando no MUZEU, deparamo-nos – e, nisso, este centro de arte não é diferente de outros – deparamo-nos com obras que espelham os ocupantes do espaço circundante: outras obras, visitantes, vigilantes. É banal a experiência, de que nos tornamos especialmente cientes quando tentamos fotografar amadoramente uma obra exposta, de encararmos como poluição o reflexo de outras circunstantes na superfície mais ou menos vidrada que resguarda a obra que queremos fotografar. Podemos tentar evitar ou podemos brincar com isso: ficar propositadamente na imagem como autorretrato, combinar reflexos e sermos autores da mistura, sobrepor a nossa cara a este ou aquele segmento da obra – mas, facto básico, temos repetidamente essa experiência de reflexão indesejada. Reflexão indesejada: como se nos viessem à cabeça ideias que não procurámos e que nada acrescentam à nossa felicidade. Pelo menos, que nós saibamos.




Que o espelho, em lugar de ser um acidente numa visita a uma exposição, algo que se sofre ou com que se brinca, passe a ser uma reinvenção indefinida do imaginado, por obra e graça do trabalho de José Pedro Croft, devolvendo-nos uma possibilidade de sermos agentes de certas olhadelas sobre o mundo, sendo as possibilidades que nós experimentamos infinitamente distintas das possibilidades experimentadas por outrem, é razão suficiente por nos regozijarmos com esta possibilidade patente, agora, no MAC/CCB.



Porfírio Silva, 31 de maio de 2026
Print Friendly and PDF

21.3.19

Entre ignorância técnica e ignorância social




O Público dá hoje à estampa uma notícia que merece mais reflexão do que possa parece à primeira vista: “Passageiro multado em dois mil euros por ouvir música no telemóvel durante voo”. Por favor, não a vejam como mais um caso anedótico em que a competência técnica acusa os decisores de ignorância ou em que alguém é penalizado por estar muito à frente em termos tecnológicos face aos burocratas de serviço. Nem resolvam o que pensar sobre isto com a facilidade da escapatória “mais uns juízes disparatados”.

 Vamos por partes.

Comecemos pelo resumo da notícia.

Um passageiro de avião resiste à ordem para desligar o telemóvel na fase de preparação para a aterragem (embora tenha acabado por o fazer). O seu argumento é que o modo de voo do telemóvel é precaução suficiente, não devendo ser impedido de continuar simplesmente a ouvir música no aparelho. O comandante da aeronave solicita à autoridade policial a identificação do passageiro e o registo da ocorrência. A ANAC (Autoridade Nacional de Aviação Civil) virá a aplicar ao passageiro uma multa de 2.000 euros. O passageiro recorre, um tribunal de primeira instância iliba-o da multa, com o argumento de que a evolução tecnológica tinha feito com que o modo de voo fosse suficiente para impedir que o telemóvel, embora ligado, causasse qualquer risco de segurança – razão pela qual as indicações dos envolvidos nas operações aéreas deviam ter evoluído em conformidade. Em recurso, um tribunal superior ditou que o passageiro terá mesmo de pagar a multa. Um docente de Comunicações Móveis daquela que se considera a mais importante escola de engenharia do país fala de “ignorância técnica dos juízes” (referindo-se aos juízes do tribunal superior que decide pela multa).

Para explicar o que quero dizer tenho de acrescentar aqui alguns sublinhados, socorrendo-me apenas da informação contida na notícia.

Primeiro, parece não haver contestação de que, na altura do incidente, estavam já amplamente disponíveis telemóveis que, colocados em modo de voo, não representam qualquer ameaça conhecida à operação dos equipamentos das aeronaves. Não vou considerar uma questão subsidiária, que é a de saber se podemos exigir aos tripulantes das aeronaves que saibam se o modelo de telemóvel usado por cada passageiro é ou não de um modelo que dê essas garantias. Descontada esta questão, podemos assumir, para simplificar o argumento, que, em geral, os telemóveis em uso são seguros em modo de voo.

Segundo, atendamos à razão que levou o chefe de cabine a mandar desligar o telemóvel: as instruções do fabricante da aeronave eram no sentido de que se desligassem os aparelhos, não bastando colocá-los em modo de voo. O tribunal de primeira instância, que começou por ilibar o passageiro da multa, argumenta precisamente que os fabricantes e operadores tinham de atender a essa evolução tecnológica e não fazer exigências aos passageiros que sejam injustificadas por essa razão.

Ora, temos aqui uma questão central, que não é tecnológica, nem sequer apenas jurídica. É uma questão relativa à forma como entendemos o funcionamento da sociedade.

Quando um reputado especialista em comunicações móveis acusa os juízes da Relação de “ignorância técnica”, está a argumentar com base num pressuposto: aquela situação concreta, naquele voo naquele avião naquele dia, devia – ou podia – ser decidida com base no conhecimento técnico da situação. Sendo verdade que o melhor conhecimento técnico disponível indica que se podia continuar a ouvir música no telemóvel, sem o desligar, bastando coloca-lo em modo de voo… o passageiro tinha o direito de agir com base nesse conhecimento técnico e, portanto, o direito de desobedecer à tripulação da aeronave. Não devendo, portanto, ser penalizado por ter desobedecido.

Em minha opinião, o raciocínio acabado de descrever está totalmente – e perigosamente – errado. A ideia de que, em sociedade, agimos geralmente com base em argumentação racional específica sobre cada situação concreta, é uma ideia errada. É errado, e perigoso, supor que podemos, nos poucos minutos disponíveis para preparar a aterragem de um voo comercial, travar um debate científico ou técnico sobre comunicações móveis e decidir o que fazer com base nessa argumentação. O chefe de cabine, e o comandante, seguem as instruções do fabricante da aeronave, no pressuposto de que o fabricante assegura, por via dessas instruções, um nível de segurança superior ao que se podia atingir com debates científicos entre tripulantes e passageiros, caso a caso, acerca do que é mais actual do ponto de vista técnico. Além de que, de outro modo, havia o risco de as responsabilidades legais do fabricante se extinguirem, como também argumentou o tribunal de recurso.

Quer isto dizer que desprezamos a acção com base no conhecimento? Não. Os fabricantes de aeronaves foram, progressivamente, adaptando as suas instruções à evolução dos telemóveis. Hoje, em geral, não ocorrem incidentes deste tipo nos voos que fazemos. O conhecimento, portanto, vai penetrando no funcionamento das relações sociais mediadas por artefactos. Mas não é na interacção local, indivíduo a indivíduo, com argumentos técnicos, tecnológicos ou científicos, que se decide o que fazer em cada momento. Há rotinas, rotinas geridas por instituições, organizadas em procedimentos, que tornam realizável um conjunto de operações, sem exigir que exista em cada voo um cientista de comunicações móveis para discutir com os passageiros relutantes o que fazer em cada caso.

É por isso que, ao acusar os juízes da Relação de ignorância técnica, o cientista demonstrou uma perigosa ignorância social. Reputo a ignorância social de muito mais perigosa, em geral, do que a ignorância técnica.

Precisamos voltar a pensar nas relações entre conhecimento e sociedade.




Porfírio Silva,21 de Março de 2019


Print Friendly and PDF

22.9.17

A Fábrica de Nada.

18:58


O filme A Fábrica de Nada pode querer ser uma homenagem a uma experiência de auto-gestão iniciada em 1975. Mas, para quem se senta na sala de cinema a ver o filme, ele começa por ser sobre a crise. É preciso estar relativamente bem informado acerca de certas coisas, e muito atento, para não estar a ver aquilo e a pensar nesta crise mais recente. Isto estabelece um olhar que dificulta a compreensão do filme como estando a dizer algo sobre um episódio que começou há muito tempo.

Olhando assim, o filme parece uma colagem de dois meios-filmes etnográficos. Uma metade sobre a crise. A outra metade sobre uma certa esquerda. O meio-filme etnográfico sobre a crise nunca será demasiado realista, apesar de tudo. O meio-filme etnográfico sobre uma certa esquerda é cruel. Injustamente cruel. Se alguém pretendesse fazer um filme para ridicularizar uma certa esquerda alternativa, não faria melhor do que este filme.

Qualquer um tem direito a fazer filmes cruéis sobre uma certa esquerda. Mas duvido que as pessoas envolvidas neste filme tivessem querido fazer precisamente isso.

Porfírio Silva, 22 de Setembro de 2017


Print Friendly and PDF

25.4.17

Testemunho de uma noite mágica



[Em 2012, na véspera do 25 de Abril, publiquei aqui o texto abaixo. Volto a publicar, porque é um texto que vale a pena voltar a ler num 25 de Abril.]


A Júlia Matos Silva teve a enorme amabilidade de me dar a ler este seu "testemunho de uma noite mágica", a noite de 24 para 25 de Abril de 1974. Um testemunho na primeira pessoa, de uma gente e de um tempo em que a "primeira pessoa" era sempre uma enorme partilha com outras pessoas. Gostei do texto, achei-o relevante e bonito, apeteceu-me que fosse partilhado - e a sua autora, gentilmente, autorizou que aqui o publicasse. Faço da prenda de 25 de Abril, que a Júlia me endereçou, a vossa e nossa prenda de Abril, graças à Júlia Matos Silva. Daqui lhe agradecemos, Júlia - e passo-lhe imediatamente a palavra.

***  

TESTEMUNHO DE UMA NOITE MÁGICA


A minha noite de 24 para 25 de Abril de 1974 foi «a noite mais bela de todas as noites que me aconteceram», citando Ary dos Santos. A par dos muitos e outros deslumbramentos da minha vida, eu tive o privilégio de viver uma noite inigualável, na qual eu pude conjugar os valores da exigência utópica com o exercício fulcral da luta contra a ditadura. Esta é a memoria de um jornada particular, incrivelmente única.

Às cinco da tarde, o Fernando, o meu marido e cineasta Fernando Matos Silva, telefonou-me para o emprego e disse: «Júlia, não te esqueças que hoje temos o tal jantar. É muito importante. Convinha que viesses cedo.» Esta era a frase de código que havíamos combinado entre ambos para significar aquilo que ambos sabíamos que iria acontecer nessa noite.

No meu emprego, eu estava a viver uma situação profissional particularmente difícil. Desempenhava uma função, desde o princípio de Abril, que me recusara explicitamente a aceitar no início do ano, quando fora nomeada. Ameaçada de despedimento por desobediência à entidade patronal, eu vi-me forçada a assumir essa função, com uma promessa de ser transferida logo que houvesse um lugar compatível. Entretanto, durante os três meses anteriores, o meu dia-a-dia na empresa multinacional onde trabalhava há oito anos, decorrera de uma forma humilhante: sem função, nem telefone, nem gabinete e secretária, cumpria o horário de trabalho, de uma forma totalmente precária e insultuosa: sentada numa cadeira de uma sala pertencente a outra divisão. Estava totalmente proibida de entrar nos andares ocupados pela divisão de marketing. Com o ingresso de um novo diretor da divisão de marketing, um português torna-viagem vindo do Canadá, fora nomeada «assistente de marketing», cujo desenho de funções significava substituir-me ao serviço de pessoal e ser «os olhos e os ouvidos do rei», segundo as suas palavras. O meu papel seria controlar todos os cartões de ponto e contabilizar todos os minutos e segundos de não cumprimento do horário de trabalho, bem como relatar por escrito todas as conversas telefónicas que não fossem de serviço, ou controlar a produtividade dos vendedores, com critérios absolutamente subjetivos. Tinha ainda a missão de medir a produtividade do novo «pool» de dactilografia (formada por secretárias despromovidas a dactilógrafas), nomeadamente na contagem de linhas dactilografadas por pessoa. «Se for caso disso, quero um relatório da receita do sal e da batatinha e do nome de quem a deu ou o nome de quem anda a «brincar» fora do casamento e com quem», afirmava o diretor, para mim e para as outras duas pessoas que haviam sido nomeadas. No meu caso, nunca ele recebeu qualquer nota. De castigo, passei aos dias a imprimir rótulos com uma máquina de «dymo» para classificar as pastas do arquivo de todos os departamentos de vendas, segundo uma lógica totalmente determinada pela sua assistente pessoal.

Assim, imediatamente a seguir ao telefonema, fechei a minha secretária e abandonei o gabinete que partilhava, sem passar cavaco a ninguém. Naquele preciso momento, eu tive a certeza de que nunca mais iria sofrer uma tal humilhação. Saí simplesmente, sem falar com ninguém e ansiosa por chegar a casa.

O Fernando Matos Silva fazia parte de um pequeno círculo de civis, ligado ao MFA, completamente mobilizado para desenvolver várias ações. O centro dessa mobilização passava pelo jornal «República». Na qualidade de cineasta, o seu desígnio seria o de testemunhar e registar de câmara na mão, desde a primeira hora, todos os acontecimentos que se iriam suceder – e foram muitos de sua autoria. Admitia-se, no entanto, em várias reuniões clandestinas, a possibilidade de o Fernando e outros terem que ir para a televisão, no caso de os oficiais do MFA responsáveis pela ocupação da televisão, virem a enfrentar uma total resistência dos profissionais nucleares que nela trabalhavam (o que felizmente não aconteceu, embora as equipas de televisão só tivessem começado a sair na manhã do dia 25 de Abril.)

Quando cheguei a casa, já lá estavam o Fernando Matos Silva e dois importantes jornalistas do Jornal «República»: o Álvaro Guerra e o José Martins Garcia. E assim, fiquei a conhecer toda a cronologia de acontecimentos militares que iriam desencadear-se, a partir de uma determinada hora. Num outro prédio, numa rua perpendicular à nossa casa, estavam o cineasta João Matos Silva e uma equipa, juntamente com todos os equipamentos necessários.

Então, o cenário em minha casa, simultaneamente ansioso e temerário, era composto por quatro adultos, absolutamente convictos e dispostos a arriscar a alma e o físico. Para além deles, estavam os meus pais, dois antifascistas convictos que haviam vindo a Lisboa para uma consulta médica e um bebé de onze meses, a minha filha Cristina.

Na sala, que era, ao mesmo tempo de estar e de jantar, sentámo-nos à volta da mesa onde comemos bastante cedo, de uma forma rápida e nervosa. Quase ninguém comeu e quase ninguém falou, porque no meio de nós estavam dois adultos que não deviam ser envolvidos, por razões óbvias.

«Então não se pode ligar a televisão?», perguntou o meu pai, muito surpreso, por não se ouvir o telejornal. «Hoje não, pai! Eles precisam de trabalhar. Têm uma reunião.»

Levantámos a mesa rapidamente e no centro dela, foi posto um rádio ligado, perfeitamente sintonizado e pronto a fazer soar as surpreendentes senhas musicais. Entretanto, sentámo-nos à volta da mesa, embora, cada um de nós, com o nervosismo, se levantasse e sentasse repetidamente. Fumavam-se cigarros, uns atrás dos outros e pouco se falava, para que os meus pais não fossem envolvidos.

Antes da hora marcada, a campainha da porta tocou por duas vezes, com a diferença de alguns minutos. Naquele preciso momento e sem se conhecerem mutuamente, visitavam-nos dois amigos, totalmente estranhos ao que estava a suceder: o publicitário António Reis, com quem o Fernando estava a fazer um filme de publicidade e o meu primo Vicente Trindade, bailarino no Teatro S. Carlos. Nenhum deles percebeu o que acontecia, nem foi, envolvido de qualquer maneira. Guardou-se total segredo, porquanto tinham que ser protegidos de algo que não se sabia ainda como iria acabar. No dia seguinte, cada um deles manifestou a forma como tinham ficado surpreendidos com o facto de ninguém ter desenvolvido uma conversa de jeito e de terem achado estranho que um rádio a tocar dominasse a atenção de todos nós.

Assim, à hora marcada, os quatro adultos implicados, ouviram, num silêncio de bronze e sem poderem manifestar-se, o som gritante da 1ª senha. Para dar início às operações militares a desencadear pelo Movimento das Forças Armada. João Paulo Dinis, aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa dizia:
«Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74, “E Depois do Adeus...”».
E assim, a voz de Paulo de Carvalho inundou a sala e dominou os olhares, a voz contida e o frio na espinha de todos aqueles que a aguardavam, sofregamente, como um banho de luz no meio da maior escuridão.

Felizmente que os dois visitantes decidiram ir-se embora. Quando ficámos sós, entre abraços e sorrisos, saltámos todos num desconcerto. Havia que saborear aquela imensa alegria tão contida. E, excitados, ali ficámos todos, debruçados sobre o rádio, aguardando a hora da 2ª senha.

Sinalizando a continuidade das ações militares do MFA, no programa Limite da Rádio Renascença, ouviu-se a canção Grândola, Vila Morena, de José Afonso, gravada por Manuel Tomás e posta no ar por Leite de Vasconcelos. À meia-noite e vinte, Leite de Vasconcelos lê a primeira quadra da Grândola Vila Morena, marcando a leitura com o som dos passos arrastados que iniciam a canção: «Grândola, vila morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade. //»

E o timbre inconfundível e arrebatador de Zeca Afonso espraiou-se naquelas quatro paredes, desarrumando os gestos daqueles que a aguardavam como o signo de todas as liberdades. Já não pudemos ouvir com atenção a leitura de poemas que se seguiu da autoria do jornalista da República Carlos Albino, que era colaborador naquele programa e que, a pedido de Álvaro Guerra e do Comandante Almada Contreiras, havia sido desafiado a enviar mais e prodigiosos sinais.

Naquela altura, era vital avisar outras pessoas significantes do Jornal República. Foi decidido que seríamos eu e o Fernando a fazê-lo. Antes de sair e muito seriamente, o Fernando dirigiu-se ao meu pai e à minha mãe – que já tinham, entretanto, sido informados de tudo o que estava a acontecer – e explicou o que íamos fazer.

«Pai Barata, Mãe Amélia, nós vamos avisar umas pessoas. Se nos acontecer alguma coisa tomem bem conta da nossa filha.»

E aqueles dois avós, antissalazaristas e antifascistas ferrenhos, ali ficaram calma e generosamente aguardando os factos, ao mesmo tampo que uma criança dormia serenamente, no quarto ao lado.

Quais namorados (ah! e tão amantes verdadeiramente!) saímos os dois num carro que não era o nosso, para cumprir um trajeto pré-definido: num prédio nas Amoreiras, avisámos o jornalista Alberto Arons de Carvalho; num outro prédio, na Av. Duque de Ávila, à porta do qual estava estacionado um carro, com dois homens com um ar pidesco, entrámos abraçados num longo beijo, para avisar o Belo Marques, responsável comercial do Jornal República; terminámos a ronda, num andar alto de um prédio na Avenida de Roma, onde morava o jornalista José Jorge Letria.

Destas investidas aventurosas, ficou-me a lembrança de uma noite anormalmente deserta e árida, como se a cidade numa paralisia excruciante estivesse já a pressentir o som áspero e cavernoso da queda do regime.

Quando regressámos a casa, sobraram, em todos nós, as horas sonâmbulas de uma expetativa insana. O telefone de casa já tinha sido cortado. Multiplicando-se em gestos e olhares e tremendamente ansiosos, cada um de nós aguardava, nervosamente, o grande sinal, simultaneamente pacificador e significativo de que o golpe vingava.

E às 04:20 da madrugada do 25 de Abril, fomos tocados pelo alcance de uma voz séria e ritmada, que significava, para todos nós, ou o início de todos os perigos ou o princípio da redenção:

«Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas.
As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo. Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica, esperando a sua ocorrência aos hospitais, a fim de prestar a sua eventual colaboração que se deseja, sinceramente, desnecessária.»

E assim na madrugada desse dia «inteiro e limpo», tal como o cantou a poeta Sophia, cada um de nós viveu as mais intensas e rútilas memórias da sua geração.

Pouco tempo depois, os jornalistas Álvaro Guerra e José Martins Garcia partiram para o Jornal República cumprindo a sua missão nuclear: dar vida à voz da liberdade. O Fernando Matos Silva e a equipa partiram pelas ruas de Lisboa, captando as imagens grandiosas da expressão generosa de uma aliança entre as armas e o povo. E são muitas dessas imagens que ainda hoje prevalecem para documentar o gesto grandioso de um país que venceu a ditadura, sem lágrimas de sangue. O olhar e a câmara do Fernando Matos Silva – que tinha visto o seu primeiro filme «O Mal-Amado» totalmente proibido pela censura – hão-de ficar indelevelmente livres, testemunhando os atos e as emoções dos militares e do povo.

Eu, perdi-me nas ruas do bairro, batendo às portas dos amigos, a maior parte deles convencidos que era um golpe do Kaúlza de Arriaga. Nem o relato da minha noite os conseguiu convencer totalmente sobre o que estava em andamento!

Teixeira de Pascoais dizia que «a saudade é a velha lembrança gerando um novo desejo». E da saudade que eu tenho desse tempo, só me resta o desejo de que o povo português se mantenha fiel à liberdade que conquistou no 25 de Abril. Nesta terrível liquefação dos valores vinculativos e estruturantes das sociedades democráticas do pós-guerra, aqui e na Europa, regressam os vampiros como se fosse uma festa!

Júlia Matos Silva


16.12.16

de luto pela Cornucópia.


(foto de Luís Santos)

A companhia Teatro da Cornucópia encerra as suas actividades. Uma notícia que magoa.

É amanhã..

Fico demasiado triste para investir mais palavras. Apenas repito um poema que dediquei ao Luis Miguel Cintra em 2014 (mais precisamente a 9 de Março de 2014, dia das últimas representações de “Ilusão”, no Teatro da Cornucópia.) E neste poema abraço também a Cristina Reis e todos os outros que lá conheci - e também os que não conheci e, mesmo assim, pertenceram àquela casa.



«o mundo é um brinquedo sem dono»



(para o Luis Miguel Cintra, com Lorca ao fundo)


não é o dono, Federico, que complica:
que as cheias devastem as habitações
enquanto corpos secos povoam as terras,
que os animais do campo escrevam os contos edificantes
esquecidos pelos bichos das repúblicas,
que deve isso ao dono ou à sua ausência?
quem viu, Federico, que a ferida estava no brinquedo,
no próprio brincar sem folguedo, foi o Luis Miguel,
com peças várias da tua herança,
esquecendo por momentos a teologia do dono,
arriscando mesmo um certo panteísmo
para mostrar a diversidade dos jeitos,
a pluralidade dos modos em que somos
brinquedos quebrados, sim,
mas tão-somente das mãos e juízos uns dos outros.

é terrível a vida simples:
o mundo é um brinquedo sem o conforto do dono,
mas contigo nós atravessámos a cidade como navios do deserto
transportando a água que calou por momentos os calvários dentro de nós.




---
16 de Dezembro de 2016

25.9.16

Música, Wedekind, Cornucópia



Depois de um período no São Luiz, antes do Verão, está agora no Bairro Alto mais esta criação do Teatro da Cornucópia: o espectáculo vai buscar o seu título, “Música”, à peça de Frank Wedekind que serve de base ao conjunto, mas há mais lá dentro. Como veremos adiante, Luís Miguel Cintra cose um espectáculo com vários tecidos para dar uma vestimenta ao seu tamanho.

Pode ser que interesse para o caso: Frank Wedekind foi um dramaturgo alemão, que viveu entre 1864 e 1918, e que navegou alterosamente entre o direito, a literatura, o jornalismo, a publicidade, a filosofia, ou, mais prosaicamente, entre boémias várias com actores, palhaços, libertinos e outras alternativas ao que ele considerava a corrupta moralidade burguesa. Envolver-se, ainda no século XIX, em temas afins à liberdade sexual, trouxe-lhe longas batalhas com a censura. Ser, depois, acusado de insultar o Kaiser, não tornou o seu caso mais fácil. Fugir para Paris atrasou a punição, mas não a evitou: voltou e pagou com a prisão a ousadia. Acabou por alcançar algum reconhecimento, tendo desenvolvido uma escrita para teatro com soluções que fugiam do naturalismo. Começou a representar ao serviço das suas próprias peças e, pouco a pouco, rendeu-se à necessidade de aceitação e reconhecimento. Alguns dos seus textos mais tardios chegam a ser claramente moralistas.

“Música”, de 1906, é o texto-base deste espectáculo. Pelo tema (confronto entre a vida e a arte, a cantora que queria ser grande e acaba por se envolver sexualmente com o professor de música casado, o aborto como problema e como grande oportunidade social para a hipocrisia), “Música” não seria, hoje, um texto desafiante. Repete coisas que estão ditas e pensadas em múltiplas formas. Luís Miguel Cintra, na segunda vez que fui ver a peça, não fosse eu começar a inventar interpretações delirantes, disse, em tom de aviso discreto e amigável: “tem coisas que às vezes parece que vão por aí fora, que têm muita filosofia, mas, afinal, é mesmo só aquilo”. Certo, é mesmo só aquilo. Não obstante, este espectáculo coloca no mesmo palco e no mesmo tempo, além de “Música”, outra peça, “A Censura”, também de Wedekind, escrita ao mesmo tempo e como reflexão sobre a outra. “A Censura” dá uma série de entremezes, que pouco a pouco deixam de existir separadamente e passam a um regime de sobreposição com o texto principal. E, lá está, isto não tem filosofia nenhuma, mas este dispositivo, habitual em Cintra (fazer espectáculos com textos vários recombinados à sua maneira), acaba por acrescentar uma profundidade aos textos de partida. Ainda há, como epílogo, uma adaptação de “A Hora do Amor”, de von Horváth, porque, afinal, para o encenador trata-se do amor e daquele pensamento (aviso, precaução) final: “O homem mata sempre o que ama.”

Este espectáculo é intrinsecamente diverso e plural. Por ser um momento de criação de um dramaturgo complexo, como literato e como pessoa. Pela combinação de peças num objecto único. Por misturar tons muito contrastantes, entre o profundamente depressivo e o ligeiro e esperançoso. Mas, em larga medida, por criar momento de infinitas camadas em produção síncrona. Exemplo máximo dessa fusão de todos os planos num único ponto no espaço e no tempo – é o quadro em que a actriz Luísa Cruz, que representa na peça central o papel de vigilante na prisão, aparece num entremez a fazer o playback de uma ária, entre o artificioso do playback e a emoção do seu gesto, entre a delicadeza amorosa da ária e a figura pesada da vigilante prisional, entre o ridículo da figura deslocada entre dois mundos e o apelo da personagem à redenção pela verdade da sua presença, rimos por vezes e por vezes aderimos, balançando ali entre todas as emoções contraditórias deste espectáculo.

O encenador é um pouco anarquista como o autor do texto. Mas o encenador é um homem de fé. E não renuncia nem a uma coisa nem a outra. Porque, como procura explicar no seu costumeiro texto “Este espectáculo”, há imensas coisas na vida e a vida é todas essas coisas sem exclusão de nenhuma e na vida hão-de caber tantas diferenças que nenhuma vida particular abarca. E o encenador tenta sempre, cada vez mais, que caibam no palco muitas vidas de cada vez. Neste “Música” podemos variar bastante de humor, ao sabor do vai e vem dos empurrões em direcções diversas que nos são dados – e nisso se encena a complexidade da vida.

Luis Miguel Cintra andou décadas a construir um teatro metafísico – e aproxima-se agora, em espectáculos como este, de uma riqueza mais sensorial e afectiva, onde é mais complexo sentir do que pensar. Saí, na segunda ida ao Bairro Alto para mais este produto Cornucópia, a pensar que Cintra está, com este “Música”, mais perto do que nunca de um teatro para toda a gente. Não pensei gostar de dizer isto. Mas está dito e deixa-me uma interrogação para o futuro. Viva o futuro, pois.
“Música” está em cena até 9 de Outubro. Mais informação aqui.

25 de Setembro de 2016


14.2.16

Parabéns, Cristina Reis!



Boas notícias: «O Prémio da Crítica 2015 distinguiu a cenógrafa Cristina Reis, da Cornucópia, “pela arquitectura de cena que criou para o espectáculo Hamlet", anunciou este sábado a Associação Portuguesa de Críticos de Teatro.»

A mesma notícia explica: «O comunicado do júri sublinha “a admirável arquitectura de cena” que Cristina Reis concebeu para Hamlet, uma co-produção do Teatro da Cornucópia e da Companhia de Teatro de Almada. “Ainda que integrando-se no projecto criativo do encenador Luís Miguel Cintra, destacou-se não apenas pela expressiva configuração em palco do universo concentracionário, que a peça sugere, mas também pela plasticidade e valor icónico dos elementos cénicos que convocou”, argumenta o júri. “Jogando com soluções inesperadas e contrastivas”, acrescenta o comunicado, “a cenógrafa criou uma atmosfera de clausura na evocação do poder régio, sobrepondo as ameias de um castelo ao recorte de uma coroa real e trabalhando a geometria no desenho de vários adereços de cena”. Mas o júri também salienta que “esse rigor formal” coexiste com “elementos inesperados de parodização”, enunciando ao mesmo tempo “o brilho e os riscos do exercício do poder”.»

Concordo plenamente. Quando aqui dei conta da forma como vi o Hamlet encenado por por Cintra, escrevi:

«Como não sou crítico, embora goste de teatro e goste de escrever sobre o trabalho da Cornucópia, há muitos aspectos de cada espectáculo que não costumo comentar, como o trabalho dos actores ou o cenário. Mais uma vez desta vez, não vou dizer nada do atrevimento tão falado de escolher um actor de 22 anos para fazer a personagem Hamlet, em vez de um consagrado (com um resultado que me agradou francamente). Mas, uma vez sem exemplo, vou falar do cenário.

A Cristina Reis costuma encontrar fantásticas atmosferas poéticas para os espectáculos da sua companhia, com uma sensibilidade que ultrapassa a minha compreensão e só se entende por ela ser tão da casa que todos os seres inanimados que lá dormem lhe pagam tributo com a cumplicidade que só os objectos na sua quietude sabem como se faz. Senti, desta vez, que o cenário fez mais, foi mais activo; criou, não apenas uma paisagem e um solo onde pousassem as acções e se escorassem as intenções das personagens, mas, muito mais do que isso, uma máquina do mundo que labutou, secreta mas intensamente, para mover a verdade ali em causa e fazer acontecer. É um castelo, ou mais precisamente um esquema de um castelo, sem mudanças de cenário em quatro horas de acontecimentos, mas um castelo tão complexo como o mundo: com vários níveis, interior e exterior, salas e salões e janelas e escadas e passadiços e pátio e cemitério e longe e perto, com vários modos de acesso e circulação capazes de criar movimentos e formas de estar diferentes no que estaticamente podia ser igual, recriando numa casca de noz uma série rica de diferenciações espaciais e significativas essenciais a Elsinore. O castelo do mundo, da luta pessoal pela descoberta do próprio caminho, da luta contra os outros ou com os outros, está aqui todo dado naquela caravela voadora que é o cenário da Cristina Reis, que, se nos costuma dar poesia material, desta vez nos deu filosofia prática. Creio, aliás, que a diferença de intensidade que senti entre a primeira e a segunda partes do espectáculo (e senti-o das duas vezes que o vi) se deve à exploração mais intensa que a segunda parte faz das possibilidades dinâmicas do castelo.»


Só para dizer que a Cristina Reis merece tudo e mais.

14.11.15

Hamlet, Cintra


(Fotografia de Rui Carlos Mateus)




O mundo é estranho. Estava zangado comigo por ainda não ter conseguido escrever sobre o Hamlet que, trazido de Shakespeare para português pela vida poética de Sophia, Luis Miguel Cintra encenou na e para a Cornucópia. Começou, ainda em Julho, no Festival de Almada, e eu não consegui ver. Estreou no Teatro do Bairro Alto, e consegui ver. Regressou a Almada, e voltei. (Há muito que tive de reconhecer que perco muito do que Cintra quer dizer se não vir os seus espectáculos mais de uma vez.) Entretanto, chegara o anúncio de que Cintra termina a sua (noção desconfortável para o próprio) “carreira de actor” com esta peça e, portanto, sobe amanhã ao palco pela última vez. E eu ainda não encontrara tempo para alinhar as ideias que trazia na cabeça sobre este senhor Hamlet. Inesperadamente, os atentados terroristas de ontem, 13 de Novembro, em Paris, provocaram a anulação da conferência política do PSOE, em Madrid, que decorria hoje, Sábado, tornando inútil a minha deslocação e abrindo uma clareira de horas bastantes para escrever estas parcas reflexões que ora partilho quase só por uma homenagem pessoal ao Luis Miguel, e às nossas diferenças.

Como não sou crítico, embora goste de teatro e goste de escrever sobre o trabalho da Cornucópia, há muitos aspectos de cada espectáculo que não costumo comentar, como o trabalho dos actores ou o cenário. Mais uma vez desta vez, não vou dizer nada do atrevimento tão falado de escolher um actor de 22 anos para fazer a personagem Hamlet, em vez de um consagrado (com um resultado que me agradou francamente). Mas, uma vez sem exemplo, vou falar do cenário.

A Cristina Reis costuma encontrar fantásticas atmosferas poéticas para os espectáculos da sua companhia, com uma sensibilidade que ultrapassa a minha compreensão e só se entende por ela ser tão da casa que todos os seres inanimados que lá dormem lhe pagam tributo com a cumplicidade que só os objectos na sua quietude sabem como se faz. Senti, desta vez, que o cenário fez mais, foi mais activo; criou, não apenas uma paisagem e um solo onde pousassem as acções e se escorassem as intenções das personagens, mas, muito mais do que isso, uma máquina do mundo que labutou, secreta mas intensamente, para mover a verdade ali em causa e fazer acontecer. É um castelo, ou mais precisamente um esquema de um castelo, sem mudanças de cenário em quatro horas de acontecimentos, mas um castelo tão complexo como o mundo: com vários níveis, interior e exterior, salas e salões e janelas e escadas e passadiços e pátio e cemitério e longe e perto, com vários modos de acesso e circulação capazes de criar movimentos e formas de estar diferentes no que estaticamente podia ser igual, recriando numa casca de noz uma série rica de diferenciações espaciais e significativas essenciais a Elsinore. O castelo do mundo, da luta pessoal pela descoberta do próprio caminho, da luta contra os outros ou com os outros, está aqui todo dado naquela caravela voadora que é o cenário da Cristina Reis, que, se nos costuma dar poesia material, desta vez nos deu filosofia prática. Creio, aliás, que a diferença de intensidade que senti entre a primeira e a segunda partes do espectáculo (e senti-o das duas vezes que o vi) se deve à exploração mais intensa que a segunda parte faz das possibilidades dinâmicas do castelo.

No seu habitual texto “Este Espectáculo”, Cintra, indo pela tese de ser o Tempo o protagonista de Hamlet, repete que o Tempo e a Morte são o mesmo tema. Insistindo sempre que não percebe nada da filosofia, Cintra volta a ser aqui muito heideggeriano, pensando o “ser do homem” como “ser para a morte” num plano de sentido essencial. Contudo, e porque Cintra não é de todo um pensador individualista (coisa que, a meu ver, Heidegger foi), relevo a sua aproximação entre o tema da morte e o tema da efemeridade da vida. Ora, se a aproximação ao tema do tempo pelo lado da morte nos pode encerrar no indivíduo (o indivíduo que morre), já a aproximação pelo lado do efémero deixa espaço, em meu entender, à entrada em jogo dos outros: morrendo eu ou não, o que persiste para além do efémero é o que fica nos outros, o que lancei à terra dos outros e aí germinou. E, para mim, faz sentido pensar que Cintra, que tanto batalha contra uma civilização do efémero, prefira trabalhar no Tempo por esse lado, precisamente a frente de batalha em que podemos vencer a Morte, vencendo o efémero para lá da morte.

(Aparte. Aliás, não há só esse escoar do tempo absoluto a que tanto nos prendemos. O grande e heterodoxo evolucionista Stephen Jay Gould escreveu, num dos ensaios inseridos em O Polegar do Panda, que não devíamos ser tão fascinados pelo tempo astronómico, absoluto, newtoniano, que numa concepção do mundo racional e objectiva nos parece o único válido, mas não é: devíamos dar mais atenção ao tempo biológico. Que é um tempo interno, orgânico, ligado ao ritmo do corpo. Assim, por exemplo, todos os mamíferos duram aproximadamente a mesma quantidade de tempo biológico, quer dizer, tendem a respirar cerca de 200 milhões de vezes e os seus corações a bater cerca de 800 milhões de vezes numa vida individual. Umas espécies vivem mais do que outras? Sim; os animais mais pequenos vivem mais depressa, os animais mais corpulentos mais devagar; a taxa metabólica, o “fogo da vida”, diminui relativamente com o aumento do tamanho: “Os pequenos musaranhos movem-se freneticamente, comendo durante quase toda a sua vida de vigília para manterem o fogo metabólico à taxa máxima de todos os mamíferos; as baleias azuis deslizam majestosamente, com os batimentos cardíacos mais lentos de todas as criaturas activas de sangue quente.” Em tempo astronómico, os mais rápidos vivem menos tempo, os mais pesados mais tempo: mas, “visto de dentro”, o que corre mais apenas está pressionado pela sua pequenez.)

Ora, o efémero, mais do que a morte, interessa tudo ao tema maldito de Cintra, a política. Tema, porque Cintra sente uma responsabilidade política, pelo menos a responsabilidade de detestar e combater uma certa política, sob o nome, por exemplo, de “política do possível”, que normaliza os espectáculos de teatro a formatos contabilizáveis para efeitos de dinheiros. Tema maldito, porque para Cintra toda a política está manchada pelo poder – e poder é poder de oprimir. Escuso de repetir (já falámos disso neste espaço) que discordo fortemente de Cintra nesse ponto, mas isso não importa agora nada. O que importa é que, repito, há uma questão da política em Cintra, questão que volta neste Hamlet.

Gonçalo Frota, num texto publicado no Público a 17 de Setembro p.p., regista Cintra a dizer que o contacto de Hamlet com a morte o “liberta da possibilidade de ser rei, adquirindo uma lucidez completamente diferente”. Pois que o poder é prisão, é embotamento dos sentidos e da razão, para os outros e para o próprio. Eunice Tudela de Azevedo, naquela das críticas a este espectáculo que mais me aproveitou entre a estreia e a repetição em Almada, evoca a leitura freudiana do texto e exemplifica com dois momentos. Primeiro, a tentativa de Hamlet para subjugar sexualmente a própria mãe (depois da cena da trupe de comediantes). Segundo, mais um substrato permanente do que um momento, a relação de homo-erotismo latente entre Hamlet e Horácio. Ora, em comentário a esse texto, Cintra lança uma outra luz sobre o sentido dessa relação: Horácio, em ser “um Homem que não quer conhecer poder”, é um contrário de Hamlet. Mais decisivo ainda: esse é o contrário “que sempre dialoga com o pensamento de Hamlet”. Uma e outra vez, aqui outra vez, Cintra percorre o mundo à procura de algo, de quem, que seja capaz de desconstruir o poder, as relações de poder, a vontade de poder.

Os espectáculos com dramaturgia de Cintra são sempre homenagens laboriosas à palavra, à linguagem, ao Verbo que fez e faz o mundo e trabalha todos os sentidos que podem na vida ser dados ou tirados. Estas quatro horas são, ainda e outra vez, um sopro de palavra na vida do pensamento. Um quase integral de uma obra maior da história do teatro, um clássico naquele sentido de continuar a interrogar-nos de modo tão actual passados tantos séculos. E isso tem uma razão, que se dá em palavras do próprio Luis Miguel. Numas palestras que proferiu no âmbito do Festival de Almada, trazidas neste 2015 para livro (Cinco Conversas em Almada), Luis Miguel Cintra diz “Os actores devem ter como principal objectivo tornarem-se pessoas interessantes”. E explica: o que o espectador vê da plateia não é a personagem: é o actor, mascarado, a fazer ora isto ora aquilo, de peça para peça. O que o espectador vê é essa pessoa que é actor; se essa pessoa for banal, só pode aborrecer olhar para ela; se essa pessoa for interessante, é mais provável que seja prazeroso olhar para ela e ver o que faz. Por isso é que o actor deve trabalhar para ser uma pessoa interessante.

E assim se explica o grande actor que Luis Miguel Cintra é.



9.11.15

MEMÓRIAS. BERLIM, 1989, UM DIA COMO ESTE, UM MURO COMO QUALQUER OUTRO.

10:00



Na noite de 9 de Novembro há 26 anos, o governo da então chamada República Democrática Alemã anuncia de forma desastrada (por não corresponder exactamente ao que queriam fazer, que era uma liberalização cautelosa das saídas para o estrangeiro), anuncia, dizíamos, que os cidadãos desse país poderiam atravessar as respectivas fronteiras (de dentro para fora...) livremente. Em consequência, logo nessa noite, cerca de vinte mil alemães de leste atravessaram o posto fronteiriço de Berlim Leste para Berlim Oeste. No dia 11, as máquinas começaram a abrir mais passagens através do muro da vergonha, já que os postos normais não davam vazão à enchente dos que queriam experimentar o sabor dessa nova liberdade. Logo foram anunciadas conversações para a abertura da simbólica Porta de Brandemburgo, que só viria a tornar-se uma ampla passagem entre dois mundos em Dezembro desse ano. No fim de semana seguinte à abertura, cerca de dois milhões de alemães orientais visitaram Berlim Ocidental.
Tive a sorte de estar nessa Berlim esfuziante por esses dias. Tinha ido à conferência "Security in Europe: Challenges of the 1990's", organizada pelo Politischer Club Berlin e pela Amerika Haus Berlin,  que decorreu entre 15 e 17 desse mês, tendo ficado mais uns dois ou três dias. A conferência acabou na tarde de sexta-feira (17) e, desde aí até ao regresso no domingo, deambulei como uma esponja pela cidade que era nessa altura o centro do mundo. Havia, além do povo que estava a fazer a sua história, uma multidão de jornalistas por todo o lado, especialmente postados em frente à Porta de Brandemburgo, por haver então a expectativa de esse local histórico ser aberto imediatamente.
Descobri há algum tempo duas folhinhas que escrevi na altura, "do lado de lá", no meio da agitação. Estão a ficar roídas pelo tempo. Antes que desapareçam, transcrevo-as para este arquivo-pessoal-público.

Folha 1. "Aqui é a Marx-Engels Platz, em Berlim Leste. Hoje são 17 de Novembro de 1989. O Muro já tem aberturas mas ainda falta muita coisa. Aqui está a ocorrer uma manifestação (ou concentração) de estudantes (pelo menos parecem, pela sua juventude, apesar de também haver gente mais velha). Vim para aqui directamente da estação de metropolitano, onde comprei o meu visto e troquei os obrigatórios 25 DM por 25 marcos da DDR. Do lado de lá vale, não 1 para 1, mas 1 para 10 ou ainda mais. Há o pequeno pormenor de que tenho a máquina fotográfica da Guida ao ombro, mas não consigo tirar nenhuma fotografia. Até o azar pode ser histórico... Outro pormenor é que está um frio danado, que entra por todo o lado apesar de estar com dois pares de meias calçados, camisa, camisola de gola alta, casaco de inverno e gabardina. São aqui 15.50H."
Folha 2. "No mapa, tenho aqui uma indicação sobre a Igreja de S. Nicolau, no centro histórico de Berlim. Fui para entrar, vi que se pagavam entradas e que havia um museu. Como não estou com grande tempo para museus, fui perguntar se também se pagava para ver a igreja. Resposta: «Isto não é uma igreja. Isto é um museu.» Entendi: estamos, realmente, no Leste. São 16H 13M."

Memórias das minhas ingenuidades, pois. Como se vê, ainda havia muita coisa por mudar. Eu não falava uma palavrinha de alemão, mas recolhi um comunicado da SPARTAKIST - Herausgegeben von der Trotzkistischen Liga Deutschlands, com o título "Für eine leninistisch-trotzkistische Arbeitpartei!". E em baixo de página: "Für den Kommunismus von Lenin, Luxemburg und Liebknecht!". Ainda tenho uns jornais, uns autocolantes, uns "alfinetes de peito", desses dias. E, claro, umas pedrinhas pequeninas que eu próprio rapei do muro, à unha, enquanto outros já andavam em cima dele com picaretas.

O mundo, realmente, mudou muito. Nem tudo correu bem, como se sabe. Só que ninguém, sabendo do que fala, pode desprezar o valor da liberdade - haja o que houver, com todos os defeitos que as democracias possam ter. Isso sentiu-se naqueles dias (e ainda se sente) em Berlim. Claro, ainda há quem, por cegueira ideológica, ache que tudo não passou de uma operação das forças reaccionárias conspirando por todo o mundo. Por hoje, a esses nada a dizer.

(republicação)

(Como pode ser verificado, há vários anos que publico sempre este apontamento neste dia. Faço-o, este ano, mais uma vez. Para que saibam que o meu amor à liberdade é permanente e não padece de circunstancialismos. Nem contradiz o meu forte e determinado empenho no acordo das esquerdas que está a ser concretizado nestas horas: foi já hoje, de madrugada, que a Comissão Política do PS aprovou a rejeição do programa do governo da direita e o acordo à esquerda para suportar um governo de iniciativa do PS. Votação: Sim: 69; Não: 5, Abstenções: 0.)



18.10.15

ainda bem que não fui à Cornucópia este sábado.


(foto de Luís Santos)

Ontem, sábado, foi a última representação da actual série de espectáculos em que a companhia Teatro da Cornucópia apresentava na sua casa, o Teatro do Bairro Alto, o Hamlet de Shakespeare, encenado por Cintra, usando a tradução de Sophia. Havia a habitual conversa com o público e eu queria ir, mas não foi possível. Estava triste por não ter podido ir. Afinal, ainda bem que não fui.

Leio na imprensa que, nessa ocasião, Luís Miguel Cintra anunciou a despedida dos palcos no palco da sua vida: a Cornucópia.

Ainda bem que não fui, porque não sei bem como teria recebido o choque. Perder um mundo é, sempre, um grande choque. Limito-me, tentando não ser lamechas, a assinalar que Cintra nos deu muito a todos. E a mim me deu uma das experiências mais sublimes que tive em toda a minha vida.

Para não desgastar demasiado as palavras, deixo apenas um poema que lhe dediquei em 2014.



«o mundo é um brinquedo sem dono»



(para o Luis Miguel Cintra, com Lorca ao fundo)


não é o dono, Federico, que complica:
que as cheias devastem as habitações
enquanto corpos secos povoam as terras,
que os animais do campo escrevam os contos edificantes
esquecidos pelos bichos das repúblicas,
que deve isso ao dono ou à sua ausência?
quem viu, Federico, que a ferida estava no brinquedo,
no próprio brincar sem folguedo, foi o Luis Miguel,
com peças várias da tua herança,
esquecendo por momentos a teologia do dono,
arriscando mesmo um certo panteísmo
para mostrar a diversidade dos jeitos,
a pluralidade dos modos em que somos
brinquedos quebrados, sim,
mas tão-somente das mãos e juízos uns dos outros.

é terrível a vida simples:
o mundo é um brinquedo sem o conforto do dono,
mas contigo nós atravessámos a cidade como navios do deserto
transportando a água que calou por momentos os calvários dentro de nós.



(9 de Março de 2014, dia das últimas representações de “Ilusão”, no Teatro da Cornucópia.)


***

Mais sobre o projecto: http://maquinaespeculativa.blogspot.pt/2014/02/uma-ilusao-na-cornucopia.html.
Mais sobre o espectáculo: http://maquinaespeculativa.blogspot.pt/2014/02/ilusao-na-cornucopia-varios-lorcas-um.html)





20.5.15

A ideia é apenas uma ideia (na Cornucópia isto nunca é bem assim, mas).



(Foto de Ricardo Rodrigues)

O espectáculo!
Um maestro frustrado com o seu coro abre o espectáculo, seguindo-se cenas que variam desde reflexões sobre temas como a inspiração, o sonho, o sentimento, o medo, passando por diferentes comentários (simpáticos, desagradáveis e sarcásticos) a uma rapariga que se vê ao espelho; fala-se ainda de uma mulher antiga que “se espreguiça quando cumprimenta o mundo”, joga-se com o relógio que “não nos deixa em paz”, e ainda vemos um mesmo horóscopo aplicado em três versões completamente diferentes. Sobra ainda tempo para se falar de poesia, de épocas de escassez, e para juntamente com o público, se cantar uma métrica aparentemente impossível. Discussões conjugais, críticas a vizinhos, memórias de “outros tempos” e até um concurso televisivo cabem também nestes quadros que de uma forma ora séria ora divertida, tocam em questões marcantes da sociedade actual (o individualismo, a solidão, o desamor).

E como se desenvolveu a ideia?
A peça baseia-se em quadros criados a partir de textos produzidos em sessões de escrita criativa e que formam um todo contínuo, apesar de não se contar uma história nem tão pouco se obedecer a uma estrutura convencional.

E isto vem de onde?
Na sequência do projecto ILUSÃO que integrava 59 actores não profissionais, formou-se espontaneamente um pequeno grupo de teatro, OS ILUSIONISTAS, cujo projecto queremos apresentar na sala do Teatro da Cornucópia, ao longo de uma semana, incluindo uma sessão de conversa com os espectadores com a participação, além dos membros do grupo, de Luis Miguel Cintra e Cristina Reis, no sentido de analisar o trabalho apresentado.
Esta peça deste grupo é uma criação colectiva, tem encenação de Lina Paula Pinto e sonoplastia de Gustavo Almeida. Os autores são Elvira Silva, Isabel Coruche, Jorge Pires Silva, Lina Paula, Manuela Martins, Paulo Almeida e Vitória Pato.

Como faço para ir?
É ir ao Teatro do Bairro Alto (casa do Teatro da Cornucópia) entre 21 e 24 de Maio. Quinta a Sábado às 21:30h. Domingo às 16:00h.

Entrada: 5 euros.

A seguir à sessão de Domingo, conversa com os actores, a que se juntam Luis Miguel Cintra e Cristina Reis.






15.5.15

José Freitas Ferraz sobre "Caderno de Tóquio".




“Caderno de Tóquio” livro recém-publicado de Porfírio Silva.

UMA SUGESTÃO DE JOSÉ FREITAS FERRAZ*

1. Tirando partido de uma estadia em Tóquio por motivos académicos, Porfírio Silva foi abordando ao sabor dos dias num diário irregular, tanto questões banais do quotidiano, como elementos chave da cultura do país, evitando – como o próprio nos diz – dar “uma imagem adocicada” do Japão vulgarmente transmitida pelos turistas que “tendem a olhar apenas para as coisas grandes” sem ver também “o outro lado (as pregas no tecido da vida em comum)”.


Observador atento, escreve sobre o que lhe desperta atenção, tentando racionalizar as suas vivências, arredando ideias feitas e dando-nos uma panorâmica sóbria e acutilante do Japão que pôde testemunhar.

Assim, de Maio ao final de Setembro de 2013, numa espécie de diário irregular, as experiências do dia a dia são o pretexto para nos falar e explicar temas tão diversos como os teatros No, e Kyogen, a complexidade das marionetas Bunraku, os arranjos florais Ikebani, a manga , o desenvolvimento paralelo dos cultos budista e xintoísta, focando igualmente o motivo da sua estadia no Japão, isto é, a dimensão filosófica do desenvolvimento da robótica, através do relato de conversas com os expoentes dessa ciência no país.


2. Sempre com a preocupação de colocar os seus encontros e observações num contexto mais lato e pedagógico, foca igualmente as diferenças que qualquer estrangeiro nota nos primeiros dias duma estadia no Japão: a cortesia, a subtileza e o civismo. Tudo decorre da secular interiorização de que ninguém é mais importante do que o grupo e de que qualquer erro praticado se repercutirá manchando negativamente o núcleo familiar mais próximo. Talvez por isso, o Japão continua a ser dos países com mais baixas taxas de criminalidade, onde é comum não se fechar a porta de casa à chave, sendo normal as mulheres deixarem a carteira com dinheiro e documentos para marcar o lugar num espaço público, enquanto fazem outra coisa; ou, ainda, como foi amplamente divulgado, onde a população entregou em poucos meses à polícia o equivalente a 48 milhões de USD em dinheiro vivo encontrados nos escombros das casas destruídas pelo sismo e maremoto de Março de 2011.

Tal como é referido ao longo do livro, a cortesia é uma constante nos relacionamentos pessoais no Japão e esta característica, decorre de apenas 17% do território – sete vezes maior que Portugal – ser habitável, o que levou os indivíduos, ao longo dos séculos, a depender totalmente do grupo a que pertenciam, não havendo grandes probabilidades de sobrevivência fora da comunidade. Acresce que o isolamento do arquipélago reforçou essas características. Por isso mesmo, desde crianças os japoneses são ensinados a funcionar em comunidade, assimilando o conceito de que ninguém é mais importante do que o grupo (“prego cuja cabeça sobressai leva uma martelada”, como sabiamente refere um popular ditado local).

3. As grandes rupturas no desenvolvimento do Japão, tiveram lugar por influência estrangeira: a primeira com a chegada dos portugueses em 1543 que daria lugar a quase um século de transferências tecnológicas, incluindo as armas de fogo – que permitiriam a unificação do país – mas igualmente a medicina ocidental, a cirurgia, novas técnicas de pintura e as mais modernas técnicas de navegação.

Como reação ao sucesso do proselitismo cristão fomentado pelos missionários portugueses, em 1635 o shogun Tokugawa faz aprovar um Édito proibindo os contactos com o exterior. Essa quarentena só terminaria mais de 200 anos depois quando a frota do Comodoro Perry impõe, em 1863, a abertura do país ao comércio internacional.

De forma indireta, a civilização e a cultura chinesa influenciaram o desenvolvimento do Japão durante mais de um milénio, dando lugar a uma cultura própria. Com a abertura forçada do país ao mundo na segunda metade do século XIX, os japoneses apostaram, em plena revolução Meiji, que a única solução para evitar tornarem-se numa colónia do Ocidente era o desenvolvimento económico rápido, de par com a industrialização. Escassos 25 anos após a chegada de Perry, o Japão já dispunha de uma marinha de guerra com capacidade para influenciar os desenvolvimentos na região; 8 anos depois derrotavam as forças imperiais russas numa série de batalhas em 1904-1905, isto é, em apenas três décadas, o Japão tinha passado do feudalismo a uma sociedade industrial moderna, desenvolvendo as indústrias pesadas e tirando partido da capacidade inata de trabalhar em grupo.

A “revolução Meiji”, marcou a ocidentalização rápida do Japão conceptualmente definida por um artigo célebre de um dos seus teóricos, sob o sugestivo título “deixando a Ásia” , que o pós-guerra e a ocupação americana não deixaram de reforçar.

4. Ao longo do presente texto, o autor refere diversas vezes a presença da modernidade de par com a tradição: o centenário templo ao lado do arranha-céus, mulheres de quimono no bulício das grandes cidades, a grande afluência de público aos teatros Noh, o culto dos antepassados nas ultramodernas metrópoles japonesas: um país onde a simbiose entre o passado e o presente se impõe aos olhos do viajante.

Este livro baseia-se num olhar atento e contextualizado que não pretende ditar chaves de leitura, constituindo antes uma abordagem de diversos temas analisados em diferentes perspectivas, ao longo da encontros ocasionais proporcionados por uma estadia de quase seis meses no Japão.

O equilíbrio entre acontecimentos banais caldeados por explicações eruditas tornam esta obra num testemunho relevante para entender o Japão contemporâneo: lê-se de uma assentada e com gosto, abrindo novas pistas para quem nunca visitou, ou conhece apenas superficialmente o Japão.

Neste contexto, convém não esquecer o interesse, curiosidade – quase ternura – que os japoneses têm por Portugal, sabendo todos o papel que tivemos para a modernização do país nos séculos XVI e XVII e que o crescente interesse pela Europa manifestado nos últimos anos só veio avolumar.



*Embaixador


(Daqui)


7.5.15

Caderno de Tóquio.




Apresento-vos o meu novo livro, já nas livrarias.

A apresentação formal acontece na próxima terça-feira, 12 de Maio, pelas 18h30m, na Galeria Fernando Pessoa do Centro Nacional de Cultura (Largo do Picadeiro, 10, 1º, ao lado do restaurante Café No Chiado, Lisboa). Teremos o prazer de ouvir, na ocasião, o Embaixador Freitas Ferraz (anterior embaixador de Portugal no Japão) e o Dr. Guilherme d'Oliveira Martins (presidente do CNC).

Estão todos convidados.

***

Um filósofo viajante, à procura da cultura milenar e dos modernos robôs do Japão; cinco meses como investigador na Universidade de Tóquio, com incursões noutras universidades japonesas e muitas visitas fora da Academia; cerca de 100 apontamentos escritos ao correr dos dias e das experiências, para espelharem a verdade de um quotidiano diferente; mais de 200 fotografias originais do autor.
Os templos, a cerimónia do chá, os arranjos florais, as diferentes formas de teatro, as ilhas encantadas, os castelos, a manga, os cultos budista e xintoísta, um casal de imperadores adorados como deuses, aspetos da política nipónica, as relações entre homens e mulheres, a cortesia japonesa, a comida, o alojamento tradicional, as tempestades, as sombras que a cultura oficial procura evitar, a escola, a família, a paisagem, robôs com forma humana, cientistas visionários… e muitas outras coisas que escapam ao turista.
Deste livro diz o seu prefaciador, o Embaixador José de Freitas Ferraz: “Com leveza, mas também detalhe e erudição, a presente obra insere-se na linha dos escassos autores portugueses que tentaram explicar o longínquo Japão, num caminho iniciado por Luís Fróis, João Rodrigues e Luís de Almeida ainda nos séculos XVI e XVII, e retomado por Wenceslau de Moraes no início do século passado; prosseguido depois por João Abranches Pinto e António Martins Janeira.”

(anúncio no portal do Centro Nacional de Cultura)

(crítica de Carla Ribeiro no blogue As Leituras do Corvo)

(o livro no sítio da editora)

28.4.15

Gipsofila.




Ontem fui ao Indie Lisboa ver o mais recente filme da realizadora Margarida Leitão​. Devo dizer que gostei muito, mas, como não sou exactamente de puras efusões admirativas, prefiro fazer uma pergunta.

O filme é do mundo de duas mulheres, avó e neta, sendo neta a Margarida e sendo avó no filme a real avó da Margarida.

A minha pergunta é para a Margarida e é a seguinte: como se deu a realizadora Margarida Leitão com a "actriz" Margarida Leitão?

Esta pergunta nasce directamente daquela cena em que a neta experimenta ao espelho o vestido emprestado pela avó, ocasião em que essa mulher olha longamente para a câmara como se (e aqui sou eu a imaginar) como se estivesse com vontade de dirigir-se à máquina e desligá-la. Como se a participante Margarida neta tivesse tido a vontade súbita de desligar o olhar da realizadora Margarida que-não-deixa-de-ser-neta mas que, mesmo assim, se intromete na intimidade daquelas duas mulheres que vêm de antes do filme e ficarão depois do filme.

A pergunta surgiu-me aí: como se deu a realizadora Margarida Leitão com a "actriz" (participante) Margarida Leitão, embora ambas sejam netas daquela avó?

18.4.15

na próxima segunda-feira, dia 20 de Abril, ao meio dia.




Tive conhecimento de uma mensagem/iniciativa, que passo a divulgar.

***

Caros colegas,

Como já deve ser do vosso conhecimento o Professor José Mariano Gago faleceu ontem, dia 17 de Abril.

O Professor Mariano Gago impulsionou e marcou profundamente a ciência em Portugal nas últimas décadas, contribuindo decisivamente enquanto presidente da FCT e Ministro da Ciência para o desenvolvimento do sistema cientifico nacional em muitas das suas vertentes.

Alguns de nós não gostaríamos de deixar de assinalar a sua passagem e o seu contributo para a ciência portuguesa. A título de reconhecimento público da comunidade científica nacional pela contribuição do Professor Mariano Gago, propomos que na próxima segunda-feira, dia 20 de Abril, ao meio dia (12h), os centros de investigação e faculdades parem as suas atividades normais durante 5 minutos, e que os colegas se concentrem em frente das portas principais das respectivas instituições.

Agradecia que divulgassem esta iniciativa.

Abraços

António Jacinto (CEDOC)
Arlindo Oliveira (IST)
Alexandre Quintanilha (IBMC/I3S)
Carmo Fonseca (IMM)
Catarina Resende de Oliveira (CNC)
Claudio Sunkel (IBMC/I3S)
Fatima Carneiro (IPATIMUP/I3S)
Isabel Ribeiro (IST)
João Bettencourt Relvas (IBMC/I3S)
Joao Pedro Conde (IST)
João Sanches (IST)
José Manuel Mendonça (INESC)
José Santos Vitor (IST)
Leonor David (IPATIMUP/I3S)
Lopes da Silva (ISR/IST)
Manuel Heitor (IST)
Manuel Sobrinho Simões (IPATIMUP/I3S)
Maria de Sousa (IBMC/I3S)
Maria Mota (IMM)
Mario Barbosa (INEB/I3S)
Pedro Lima (IST)
Raquel Seruca (IPATIMUP/I3S)
Sampaio Cabral (IST)
Teresa Paiva (CENC)

25.3.15

A máquina da morte (e Herberto Helder).



O Deep Blue não ganhou ao Kasparov. A morte não ganhou ao Herberto Helder. Muito depois da morte morrer ainda escutaremos Herberto Helder.
Kasparov sentiu o sabor da derrota sentado em frente a um computador programado para resolver problemas na linguagem do xadrez. A derrota era uma saliva na sua própria boca. Só isso (e não é pouco). Se algum humano não tivesse dado um nome àquele computador e àquele programa, Deep Blue, Deep Blue II mais precisamente, o campeão não esfregaria os olhos de espanto e incompreensão perante o seu fracasso. Porque nenhum humano entra em vitórias ou derrotas sem palavras que se pendurem nas suas horas. Porque nenhum humano é sem palavras, sejam ditas ou esperem caladas.
Vieram dizer-me que Herberto Helder não compareceu ao seu próprio enterramento, tendo enviado as cinzas por mão própria de pessoa amiga. Herberto Helder não perdeu a mão de conhecer a intimidade da máquina do mundo. Nem mesmo quando o programa cego da morte descobriu uma entrada. Por ser certo que só morre de espectáculo quem tenha de espectáculo vivido. E não há, para isso, palavras que de Herberto Helder possam ser ditas.


19.3.15

Guerra diz Alegre.


Ontem, no Coliseu de Lisboa, concerto "Não TAP os olhos" contra a privatização da TAP. E aí aconteceu: Maria do Céu Guerra disse "Trova do Vento que Passa", de Manuel Alegre.
(A imagem que consegui captar é má, mas são grandes as palavras.)



25.1.15

os ensaios abertos do Teatro da Cornucópia.



O Teatro da Cornucópia vai apresentar, a partir de 12 de Fevereiro, o seu novo espectáculo "Lisboa Famosa (Portuguesa e Milagrosa)", a partir de uma mistura de cenas de diferentes Autos quinhentistas e seiscentistas (de Gil Vicente, Anónimos, Baltesar Dias, Afonso Álvares, etc.). Aí se fala da vida social da cidade de Lisboa (ou de muitas cidades, a propósito de Lisboa), passando por motivos como os Santos populares e milagres de Santo António, fado, sardinha assada, porto de mar, com gente de todo o mundo, mas também terra dos corvos de São Vicente, dos terremotos, da fome e da mentira e corrupção.

O Teatro da Cornucópia tem vindo a alimentar, com carinho e inteligência, uma relação com o público que, por fugir à lógica comercial, se torna genuína e maravilhosamente subversiva. Um novo passo nessa relação são os "ensaios abertos". Hoje foi o primeiro. Fomos lá e estamos aqui a dar conta.

Recebendo as pessoas que quiseram ir assistir ao ensaio de hoje, Luis Miguel Cintra explicou que não querem ter a mera relação comercial com os espectadores. Querem cumplicidade. Que maravilhoso conceito, este de cumplicidade! Maravilhosa cumplicidade, por quê? Porque, creio eu, "cumplicidade" começa por ter um tom negativo, como se fosse relação de criminoso com criminoso, conspirando para o mal, numa certa escuridão, fazendo planos para prejudicar alguém. Mas a compreensão profunda entre humanos transforma essa noção numa outra cumplicidade: uma cumplicidade à luz do dia, uma cumplicidade sem planos, sem estratégias, sem truques. Uma cumplicidade sem um objectivo, apenas uma atitude: disponibilidade, confiança, querer que o outro possa falar e crescer no meio de toda a fauna e toda a flora do mundo. A cumplicidade dos amantes distribuída por tanta outra gente. Luis Miguel Cintra não fez estes rodriguinhos, não quero estar aqui a dar-lhe essa responsabilidade, mas fez-me pensar assim quando disse que queria a cumplicidade entre pessoas na vida e que também queria cumplicidade entre público e companhia de teatro.

E disse mais: este espectáculo é mesmo sobre a cumplicidade. Os Autos quinhentistas e seiscentistas que dão a carne para este espectáculo eram praticados em círculos fechados, na corte, em casas de nobres, em igrejas, círculos restritos onde havia mais contacto e mais interacção entre quem representava e quem circunstanciava. Até por, muitas vezes, não serem peças completas, fechadas, e terem uma estrutura que facilitava essa ligação (como se dá quando se canta). E este espectáculo quer soprar na fogueira dessa cumplicidade recriando esse ambiente. Pelo que pude ver neste ensaio aberto, acho que consegue.

Cintra explicou o significado dos ensaios abertos. O público vê o espectáculo a construir-se, a entrar nos actores. Vendo os ensaios, o público pode sentir as palavras a encorpar, a fazerem corpo com o corpo dos actores. A ideia é que a Cornucópia faça ensaios abertos em quatro momentos diferentes da construção de um espectáculo: (1) o primeiro contacto com o texto, quando se está à mesa a ler os textos; (2) quando se sai da mesa e se começa a passar para a implicação do corpo nas palavras, quando os actores, para usar a expressão de Cintra, comaçam a dizer o texto como se fossem palavras inventadas por eles próprios; (3) quando o jogo já está estabelecido, esboçado, mas não funciona ainda inteiramente, quando ainda se experimenta, corrige, repensa, quando ainda nem toda a gente sabe inteiramente o seu papel, se engana ou esquece, ou ainda anda com os papéis na mão; (4) quando se está próximo do ensaio geral, com todos os elementos a funcionar, incluindo as roupas como finalmente completam o boneco das personagens.

O ensaio aberto de hoje correspondeu à terceira fase das quatro enunciadas acima. O próximo ensaio aberto de "Lisboa Famosa (Portuguesa e Milagrosa)" será no dia 7 de Fevereiro, correspondendo à quarta fase. Para assistir não é preciso jogar no euromilhões: basta telefonar para lá e marcar um lugar. Vale a pena, pelo menos para quem gosta de perceber melhor como funciona o teatro por dentro. Para mim, depois da experiência da Ilusão, é sempre uma emoção voltar àquela casa. (Mas uma emoção não desprovida de razão.) Aprende-se ali tanto de tanta coisa... Voltar a ver Cintra a desdobrar a dramaturgia ali à nossa frente... é uma delícia para todas as partes da pessoa que somos.

O teatro que se faz na Cornucópia é, sempre, para quem queira pensar e não, simplesmente, entreter-se. Mas, por vezes, nota-se nas encenações de Cintra o desejo de atingir um dos cúmulos da arte, que é juntar a máxima metafísica na máxima leveza aparente. Desta vez, dizem eles sobre este espectáculo que aí vem: "Espectáculo leve, brincado, uma brincadeira ligeira que pode ser uma óptima introdução ao português antigo e à primeira fase do teatro português."

Faz-me lembrar aquela frase: "o mundo é um brinquedo sem dono". E a metafísica regressa a galope.

Não se distraiam dos ensaios abertos da Cornucópia.