30.3.10

Inês de Medeiros e o (que) calado Gama (a honra das pessoas)

22:55

Ler Sofia, Populismo regimental, no Defender o Quadrado.

E ler Inês, hoje no Público, respondendo à calúnia:


Por que é que eu me meto nestas coisas? Pela razão simples de estar certo de que os que caluniam gratuitamente os políticos sérios são os coveiros das instituições democráticas. (Eu escrevi "gratuitamente" referindo-me à falta de razões para o efeito.)

a mente o mundo (ler um pouco de Andy Clark)

17:42
Que coisa é essa da "mente" (ou mesmo o "espírito", como alguns preferem dizer)?

Andy Clark é um filósofo que há muitos anos vem explorando uma nova visão da mente, segundo a qual estamos errados em considerar que a mente está fechada dentro do nosso corpo (ou dentro da cabeça, no cérebro). É que, acha ele, considerar que a pele e o crânio sejam fronteiras particularmente decisivas para delimitar onde está e onde não está a mente - não é muito proveitoso. O que Clark propõe é uma visão diferente da relação entre a mente e o mundo, com a ideia de que a mente, numa certa (cada vez maior) medida, está no mundo. Complicado? É uma ideia em que vale a pena pensar. Considere o leitor, por exemplo, a relação entre o seu telemóvel ou o seu computador e os seus processos de pensamento: como é que tudo isso se conjuga?
Por razões de trabalho, tive de pegar agora no último Andy Clark, Supersizing the Mind - Embodiment, Action, and Cognitive Extension (2008). Deixo o princípio da introdução, que espero seja estimulante para alguns continuarem a pensar sobre estas coisas.

Consider this famous exchange between the Nobel Prize–winning physicist Richard Feynman and the historian Charles Weiner. Weiner, encountering with a historian’s glee a batch of Feynman’s original notes and sketches, remarked that the materials represented “a record of [Feynman’s] day-to-day work.” But instead of simply acknowledging this historic value, Feynman reacted with unexpected sharpness:
“I actually did the work on the paper,” he said.
“Well,” Weiner said, “the work was done in your head, but the record of it is still here.”
“No, it’s not a record, not really. It’s working. You have to work on paper and this is the paper. Okay?”
Feynman’s suggestion is, at the very least, that the loop into the external medium was integral to his intellectual activity (the “working”) itself. But I would like to go further and suggest that Feynman was actually thinking on the paper. The loop through pen and paper is part of the physical machinery responsible for the shape of the flow of thoughts and ideas that we take, nonetheless, to be distinctively those of Richard Feynman. It reliably and robustly provides a functionality which, were it provided by goings-on in the head alone, we would have no hesitation in designating as part of the cognitive circuitry.

Boas leituras.

Monet y La Abstracción

15:32
Exposição, no Museu Thyssen-Bornemisza e na Fundación Caja Madrid, até 30 de Maio próximo futuro.
A ideia: como é que o impressionismo de Monet foi redescoberto e reinventado pela abstracção.
O que espanta a um leigo: como é que uma pintura que pretende deixar os sentidos abertos, e a serem os autores da recepção da obra, pode vir a assemelhar-se a uma pintura assente numa operação de generalização que tem de depender tanto do trabalho do intelecto?

Claude Monet, Charing Cross Bridge, 1989



Claude Monet, Charing Cross Bridge, 1901


 Claude Monet, Nenúfares, 1920-1926


 Claude Monet, Le Pont Japonais, 1918-1924


Gerhard Richter, Lake, 1997



Zou Wou-Ki, A la Gloire de l'Image 5, 1976


 Zou Wou-Ki, 8 janvier 2001


Willem de Kooning, Untitled II, 1979

Conto Contigo


Não, não é este "Conto Contigo", ao jeito de America Needs You!, que venho aqui trazer. É para sugerir uma espreitadela a um blogue. Precisamente, o Conto Contigo. Dizem eles que o espaço serve "para divulgar e comentar os contos de um conjunto de escritores que se submetem a esse exercício de escrita temática". Só agora soube da história, incidentalmente, e a participação de um amigo de velha data incita-me à divulgação.
Faço-o publicando um dos textos mais recentes, da autoria do António Souto, intitulado Vergonha(s).

Arrasto ainda na memória aquela tirada que tantas vezes me arremessavam sem mais nem porquê, era eu miúdo de escola ou pouco mais. Bastava que me negasse (enfim, que me desculpasse) a cumprir um ou outro mandado com o sábio argumento de que tinha “vergonha” – como ter de ir a casa da Tia Rita, da Tia Saudade ou do Ti Domingos levar um recado, ou então ir à loja do Salgado ou do Salvador ou do Fernando Simões ou da Irene Mona comprar um punhado de qualquer coisa –, e zás, lá tinha que ouvir um «Vergonha é roubar!».

É claro que deveria haver outras más acções igualmente vergonhosas para além de subtrair bens alheios, mas esta era sem dúvida uma das mais sérias lá por casa, sobretudo para a boa formação de uma criança como eu, que, na altura, não pensava noutras mais ousadas, como agora conheço e são, afinal, muito comuns em gente adulta.

Também aprendi desde cedo que “Quem tem vergonha, passa fome” – variante de outros ditos que nos dias de hoje são apanágio de alguns autarcas mais temerários –, e que por isso era preciso por vezes passar a perna aos outros colegas-putos da escola e da vizinhança, que a esperteza era o escape para quem aspirava igualmente abrir bem e cedo os olhinhos, como os coelhos.

Porém, quando se abria demasiado pronto a pestana, o responso era logo “Quem não tem vergonha todo o mundo é seu”. E isto dava para os dois lados, ora como elogio, ora como reprimenda, que uma coisa era arriscar, outra ultrapassar os limites do recomendável.

O que eu então não suspeitava, catraio ainda, é que a flexão em número, para além da quantidade, podia alterar em muito a qualidade, e para melhor. De vergonha para vergonhas era um salto gigantesco, um salto de nos fazer corar. Esta foi, reconheço, uma das muitas bondades que a escola me facultou, a de desocultar os mistérios da gramática. E a de ler, sem vergonha, coisas muito bonitas, de vergonhas modeladas.

Foi o caso de Camões, de Os Lusíadas, de um Canto quase todo espraiado por idílicos campos com assediantes vergonhas à solta, ou o caso de Pêro Vaz de Caminha, da sua Carta do Achamento da Terra de Vera Cruz, de certas decorosas passagens. Desta última jóia, repescamos estas:
“Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.”


“Também andavam, entre eles, quatro ou cinco mulheres moças, nuas como eles, que não pareciam mal. Entre elas andava uma com uma coxa, do joelho até ao quadril, e a nádega, toda tinta daquela tintura preta; e o resto, tudo ela sua própria cor. Outra trazia ambos os joelhos, com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas, que nisso não havia vergonha alguma.”


“Entre todos estes que hoje vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa e a quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho a redor de si. Porém, ao assentar, não fazia grande memória de o estender bem, para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha.”

E se suspeitas houvesse nestas cândidas leituras, um carnaval bastaria, destes que nos chegam de terras do “achamento”, para nos convencer das generosas vergonhas que por ali abundam, em bundas e peitorais atributos, e que, de tão apetecíveis, não há vergonha que nos valha. Vergonha, mesmo, é não vê-las!

António Souto, Vergonha(s), no Conto Contigo

igreja, pedofilia, pensar seriamente

01:19


Não sou católico (já fui), nem crente (já fui), não sou ateu (sou agnóstico, coisas que quer os fanáticos crentes quer os fanáticos ateus abominam), tenho sobre o fenómeno religioso uma posição ditada pela minha recusa da engenharia social, acho ridículas as lutas "científicas" contra ou a favor da religião, procuro pensar cada caso como um caso sem generalizações abusivas. Aflijo-me, por isso tudo, com o que se está a passar em torno da pedofilia na Igreja Católica. Há os que acham que a pedofilia é quase uma fatalidade sacerdotal por causa do celibato; há os que pretendem que a Igreja não tem nada a ver com isto, porque desviantes há em todo o lado e isso não depende da instituição (no que são mais papistas do que o Papa, o qual reconheceu, por exemplo no caso da Irlanda, que isso não é bem assim). Há os que pararam no tempo dos privilégios da Igreja e pensam que resolvem o problema pretendendo que tudo isto não passa de uma campanha; há os que aproveitam para uma espécie de cruzadas ao revés, como se a Igreja Católica fosse o símbolo de todo o mal.
No meio de tudo isto, acho que vale a pena ler (só agora o apanhei na edição em linha do Público) o artigo do António Marujo, pessoa que, além de ser de boa terra, é muito bem informada sobre questões de religião e de Igreja, o que ajuda a escrever sem papas na língua e com bom senso. A maior crise da Igreja Católica dos últimos 100 anos, por António Marujo.


(O livro "Como se Faz um Santo", é da autoria do Cardeal José Saraiva Martins, na altura Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Ele discorre sobre o tema da santidade no vídeo abaixo.)

29.3.10

estas duas notícias estarão relacionadas?

para que não digam que só dou notícias de Madrid

17:36

Recebido em tempo:

“ Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” (Luís de Camões)

... a convite do Centro de Língua Portuguesa do Instituto Camões, o Projecto Almagreira irá abrir a edição deste ano do British Forum for Ethnomusicology, em Oxford, no dia 8 de Abril. Este concerto coincide com uma fase de reorientação musical, em obediência até ao famoso poema de Camões musicado por José Mário Branco. Assim, na tentativa de dar seguimento a novas ideias musicais, o habitual trio passará a contar com a presença do contrabaixista Afonso Castanheira, e o próprio nome do projecto será alterado, passando a chamar-se Folha. Venho por esta forma convidá-lo/a para o nosso concerto de “re-estreia” a realizar no antigo cinema Nimas (Lisboa) no dia 1 de Abril, pelas 21h30 onde se mostrará ao público este “novo” grupo e a respectiva música, a apresentar dias depois na cidade inglesa de Oxford.
Estou, por este meio, a re-endereçar publicamente o convite.

as minhas noites são mais luminosas do que os vossos dias


Ou será "iluminadas"?







Nocturnos de Madrid, estudos (by Porfírio Silva)

conservadorismo para totós


Texas apaga Thomas Jefferson do currículo.
Acrescenta o Público:
«Os novos critérios para o ensino introduzem lições obrigatórias dedicadas aos sistemas teológicos de Calvino e S. Tomás de Aquino, às teorias económicas "alternativas" e à importância de figuras e instituições do movimento conservador do país, como Phyllis Schlafly (que se opunha à igualdade de direitos entre homens e mulheres), a Minoria Moral, a Heritage Foundation, o "Contrato com a América" ou a National Riffle Association (NRA).
As lições sobre Thomas Jefferson, uma das figuras de proa da história da América, autor da Declaração de Independência e terceiro Presidente dos Estados Unidos, não resistiram ao ímpeto dos educadores conservadores do Texas e foram retiradas do currículo. As ideias revolucionárias de Jefferson, que é referido nos manuais como um dos modelos de pensamento do Movimento Iluminista, não agradam aos membros do Conselho de Educação, que se opõem à separação entre o Estado e a Igreja, como defendido por aquele "pai fundador".»

Há conservadores tão estúpidos como certos revolucionários. E vice-versa. Malta que acha que as sociedades são maquinetas a que se pode fazer "off" (ou "delete") à vontade do freguês.

(via Shyz Nogud)

ideias / lisboa / arquitectar

a cigarra e a formiga

11:14


Ângela e os gregos.
(Clicar amplia. Cartoon de Marc S.)

filhote de robot ou filhote de engenheiros?

10:56

A Pública, revista dominical do Público, publicou ontem um trabalho sobre um dos projectos do Instituto de Sistemas e Robótica (pólo do Instituto Superior Técnico), casa onde tenho a honra de ser acolhido de momento. Sugerimos a leitura desse trabalho: Chico, o robô.


O coordenador do laboratório onde corre este trabalho deu uma conferência, no Ciclo "Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais" (de que tinho sido organizador) que foi aqui apresentada anteriormente e que pode ser vista aqui.



O filhote-robot

O “filhote-robot” é um projecto internacional (iniciado em 2004 e agora em fase de conclusão) que construiu uma série de robots designados como iCub. (Para uma apresentação inicial, Sandini et al., 2004.) Trata-se de um robot humanóide representando as características físicas e cognitivas de uma criança humana de três anos e meio, capaz de gatinhar e de manipular objectos – e de, assim, aprender pela interacção com humanos. O seu “corpo”, com um elevado número de graus de liberdade (53), nove dos quais nas mãos com três dedos independentes e outros dois para estabilidade e suporte, seis dos quais nas pernas que deverão permitir locomoção bípede; as câmaras digitais para a visão, os microfones e outros sensores; no futuro uma pele artificial; e um poder computacional fornecido por máquinas exteriores ligadas por cabos – estão já a permitir experiências de interacção com humanos dirigidas para perceber melhor como é que as capacidades sensório-motoras e cognitivas de um espécime jovem resultam dessa interacção com outros membros de uma espécie natural. É claro que o iCub não é um robot que possa já ter uma interacção natural com humanos, no ambiente dos próprios humanos, estando confinado a laboratórios e ao contacto com experimentadores. Contudo, é um avanço prometedor na experimentação de uma ideia estimulante: grande parte das aquisições pós-natais dos indivíduos de determinadas espécies é devida à interacção apropriada com outros indivíduos em estádios mais avançados de desenvolvimento.



Mais informação no sítio do projecto. As fotos deste apontamento são todas provenientes daí.




Aproveito, entretanto, para deixar aqui umas reflexões sobre a linha de Nova Robótica em que vemos este trabalho integrar-se.

Desenvolvimento para Robots

A maior parte dos sistemas da Nova Robótica trata com, digamos assim, robots que já “nascem adultos”. Todo o complexo de processos que, nas espécies que se reproduzem sexualmente, levam da célula única resultante da fecundação ao indivíduo adulto completamente formado, é ignorado. Essa falta de atenção ao desenvolvimento (pré-natal ou pós-natal) é o espaço que pretende ser ocupado pela Robótica do Desenvolvimento (RD), ou Robótica Epigenética, como resposta ao diagnóstico de que esse pode ser um entrave crucial às ambições das Ciências do Artificial. Como escrevem (Lungarella et al. 2003:179): “A mera observação de que quase todos os sistemas biológicos – em diferentes medidas – passam por processos de amadurecimento e desenvolvimento, comporta a convincente mensagem de que o desenvolvimento é a principal razão pela qual a adaptabilidade e a flexibilidade dos sistemas compostos orgânicos transcende a dos sistemas artificiais”.
A RD não constitui ainda um campo de investigação bem delimitado e permanece muito heterogéneo. Autores diferentes concentram-se em momentos e aspectos diferentes da interacção entre organismos e ambiente no desenvolvimento de um organismo. Por exemplo, na esteira de (Teuscher et al., 2003) vem uma preferência por abordagens centradas na concorrência de três processos (filogenia, ontogenia, epigenia) que, em escalas temporais diferentes, conformam os organismos adultos de uma dada espécie. Já (Zlatev e Balkenius 2004) induzem uma abordagem mais interessada pelos aspectos psicológicos do desenvolvimento pós-natal. De qualquer modo, a RD difere de outras visões das Ciências do Artificial em aspectos essenciais, dos quais passamos a destacar alguns que consideramos mais significativos.

Primeiro, a RD sublinha sem concessões o papel do corpo na cognição: seja qual for a base inata, os mecanismos cognitivos virão a ser o resultado dos processos de interacção entre um corpo com certas características sensório-motoras e um mundo em movimento em que esse corpo tem de se desembaraçar.

Segundo, o desenvolvimento é um processo incremental, em que o que é possível num estádio depende do que se adquiriu em estádios anteriores – mas, igualmente, um processo não linear, com instabilidades, regressões, mudanças de ritmo, ritmos desencontrados em dimensões diferentes.

Terceiro, o desenvolvimento cognitivo é condicionado, mas também apoiado, por constrangimentos do corpo: as limitações sensoriais, se limitam as capacidades cognitivas, também protegem o seu carácter incremental (por exemplo, as limitações visuais do recém-nascido permitem que só tenha que lidar com um fluxo restrito de dados visuais, de acordo com o desenvolvimento incipiente do sistema neuronal).

Quarto, o desenvolvimento não depende de um controlador central que organize todo o processo, sendo em muitos aspectos mais um conjunto de processos de auto-organização, ligados a diferentes aspectos da interacção com o ambiente. O que é interessante é que processos centralizados, favorecidos por certas correntes mais clássicas das Ciências do Artificial, provavelmente seriam incapazes de lidar com os mesmos problemas. Atente-se, por exemplo, no que significa o “mero” controlo da estrutura constituída pelo esqueleto e pelos músculos. Mesmo que cada um dos cerca de 600 músculos do corpo humano só tivesse duas posições (contraído ou relaxado), isso faria com que o número de possíveis configurações do sistema (2600) fosse superior ao número de átomos no universo conhecido. Esse tipo de complexidade dos organismos vivos sugere que o projecto explícito de criaturas artificiais com sistemas de controlo centralizados pode ser impraticável.

Quinto, o desenvolvimento (pós-natal) depende essencialmente de processos sociais, já que ele acontece graças a um número massivo de interacções continuadas com outros indivíduos, principalmente da mesma espécie, adultos ou em estádios ulteriores de desenvolvimento, que proporcionam naturalmente (na maior parte dos casos sem um treino específico) os desafios adequados ao carácter incremental do processo. Por essa via, provavelmente impossível de formalizar de maneira a poder ser automatizada, a espécie acolhe os seus espécimes – de forma social (apesar de a dimensão social ter demorado tanto a começar a ser sequer pensada pelas Ciências do Artificial).

Fico com alguma esperança de que sigam as ligações e descubram, a partir daqui, um pouco do que se faz em Nova Robótica por esse mundo fora - ficando, de passagem, mais despertos para o facto de em Portugal haver quem esteja na linha da frente da investigação mundial nestas matérias.

------------------

REFERÊNCIAS

(Lungarella et al. 2003) Lungarella, M.; Metta, G.; Pfeifer, R.; Sandini, G. 2003. Developmental robotics: a survey. Connection Science, 15(4), 151-190

(Sandini et al., 2004) Sandini, G.; Metta, G.; Vernon, D. 2004. RobotCub: An Open Framework for Research in Embodied Cognition. In: Proceedings of Humanoids 2004 (IEEE-RAS/RSJ International Conference on Humanoid Robots). Los Angeles, Novembro de 2004

(Teuscher et al., 2003) Teuscher, C.; Mange, D.; Stauffer, A.; Tempesti, G. 2003. Bio-inspired computing tissues: towards machines that evolve, grow, and learn. BioSystems, 68 (2-3), 235-244

(Zlatev e Balkenius 2004) Zlatev, J.; Balkenius, C. 2004. Why ‘Epigenetic Robotics’?. In: Balkenius, C.; Zlatev, J.; Kozima, H.; Dautenhahn, K.; Breazeal, C. (eds.). Proceedings of the First International Workshop on Epigenetic Robotics: Modeling Cognitive Development in Robotic Systems. Lund, Lund University Cognitive Studies

----
Pedimos desculpa aos leitores, mas só umas horas depois de publicado este texto nos apercebemos de que tinha "fugido" uma formatação de texto que transformava uma potência noutro número que não correspondia ao que se estava a tentar dizer. É quando falamos nos músculos do corpo humano. Lá fica o pessoal a pensar que os filósofos só dizem disparates quando se põem a falar de números...

chocante



Papa diz que não se intimida com os "murmúrios da opinião dominante". Segundo o Público «O Papa Bento XVI declarou hoje, nas cerimónias do Domingo de Ramos, na Praça de São Pedro, que a sua fé lhe dará a coragem para não se intimidar pelas críticas que lhe estão a ser feitas a propósito dos abusos sexuais cometidos por padres».
Mas o problema são as críticas ou são os factos? Meter a sua fé ao barulho parece-me desajustado. Explique-se, homem, e deixe-se de conversa da treta, que não somos meninos de coro (e se fossemos parece que tínhamos de reforçar as protecções).

28.3.10

Música Sacra Popular de Las Américas


Um belo fim de tarde, outra vez a aproveitar as comemorações da Semana Santa em Madrid: um concerto, na Paróquia de Santa Cruz, ali ao cimo da Calle de Atocha, pelo agrupamento Cámara Sacra: Música Sacra Popular de Las Américas. Destaco, pela sua beleza, a Misa Cubana de Rodrigo Prats; e a Misa Criolla de Ariel Ramírez. A formação é dirigida pelo cubano Flores Chaviano, que também é compositor e guitarrista - e que entretanto está radicado em Espanha.
Eu não sou crente e não vivo estes concertos como celebração da Paixão de Cristo, como é o caso com outros. Mas encaro o fenómeno religioso como um fenómeno cultural. (Bom, há mais nesta carta, mas não é conversa para agora.) E, claro, tenho imenso apreço pelo papel que a Igreja em certos países desempenhou e desempenha, como espaço onde se abrigam os que lutam pela liberdade. Além de, evidentemente, toda a boa música com a inspiração das Américas (toda a música onde entra de alguma forma um sopro negro) ser de uma frescura, de uma leveza inspirada, que muito aprecio. Como tive de ouvir o concerto em pé (apesar de mesmo ao lado dos músicos e cantores), até tive vontade de dançar e tudo. E, como sabeis, para certas culturas isso não representa nenhuma falta de respeito pela "casa de Deus".

Deixo aqui uma espreitadela ao "Gloria" da Misa Criolla, do argentino Ariel Ramírez (falecido muito recentemente, a 10 de Fevereiro passado), interpretadas por outra formação que não aquela que hoje ouvi.


La Douleur, de Duras

17:49

La Douleur, sobre textos de Marguerite Duras, encenado por Patrice Chéreau em colaboração com o coreógrafo Thierry Thieû Niang, com Dominique Blanc a dar voz e olhos e corpo e movimento e lágrimas e desespero e esperança e outra vez desespero e a calma às vezes e outras vezes a desistência e sempre a dor sempre a dor - a dar tudo isso a Duras pela via do texto dela. Teatro, no quadro da Semana da Francofonia 2010, em Madrid. Uma importação da produção para o Théâtre des Amandiers, de Nanterre, em 2008. No Teatro de La Abadia.
O tema da espera. Neste caso, uma mulher que espera. A circunstância concreta aqui é a guerra, o campo de concentração de onde a mulher espera que o marido regresse. Como se pode regressar de um campo de concentração, um "daqueles" campos de concentração. Mas há tantas outras esperas inúteis. Inúteis? Quão útil pode ser a inutilidade? Neste mundo onde se descarta facilmente, tudo é inútil. E tudo se julga por uma função de utilidade esperada. Utilitarismos de todos os feitios. Nem que seja para combater esse mundo, há inutilidades que valem a pena. Se as fizermos valer a pena.
A espera aqui é concreta: é Duras que espera pelo marido, naquele tempo em que a maioria estava contente pela recente libertação de Paris, alguns já tinham recebido de braços abertos os seus sobreviventes, alguns já sabiam que os seus tinham morrido nos campos - e outros estavam na incerteza. Como Duras. E é a história dessa espera, e de como foi possível afinal salvar Robert Antelme do campo e da burocracia da guerra e da paz que por pouco não o deixavam lá morrer. E como foi receber o marido em estado vegetal e tornar a fazê-lo homem. Num mundo que, em tais circunstâncias, fica ao mesmo tempo tão pequeno e tão fundo. Tão pequeno por serem tão poucas e tão perto as coisas que interessam. Tão fundo por estarmos tão próximos do nada e da possibilidade de tudo voltar a ser possível. A dor. A realidade concreta da dor. Ali em cima de um palco, quase sem adereços, onde só está uma mulher só, essa Dominique Blanc que se entrega toda a encher o palco de gente pela sua voz e o seu gesto, fazendo-nos ver e sentir tanto movimento, tanto sentimento, uma intelectual a pensar de forma monstruosamente poderosa no meio da dor.
O encenador disse: "Duras não nos poupa detalhes, Blanc não nos poupa matizes." E cada variação da alma da personagem assim exposta é um corte na nossa pele. E na nossa alma. (Já me esquecia: isso não existe.)


La Douleur [présentation]