13.7.07

Declaração sobre os independentes

17:11
Não quero deixar para depois dos resultados eleitorais em Lisboa, para não ser lido a essa luz. Deixo hoje aqui esta “declaração sobre os independentes”.

(1) Sou a favor da participação nas instituições políticas de cidadãos não inscritos em partidos políticos, nos termos gerais em que ela é possível actualmente. Isso inclui, para certos órgãos, listas independentes ou participação de independentes em listas partidárias.

(2) Sou contra o abuso das faculdades concedidas aos independentes por parte de militantes partidários descontentes com a patente que conseguem alcançar num dado momento (“como não me deixam ser o primeiro, demito-me e amanhã serei independente”), sempre facilitadas por uma comunicação social ávida de dizer mal da “classe política” (para quem os políticos de partido são maus e os que deixaram um partido, ou que de preferência tenham até deixado dois partidos, são bons – ou até nem são políticos).

(3) Entendo que as faculdades cívicas abertas ao concurso dos independentes nos actuais moldes deveriam ser sujeitas a um “período de nojo”: só se deveria poder ser “candidato independente” passado um ano sobre a desvinculação de um partido ou sobre o término de uma colaboração institucional formal com um partido (por exemplo, após o exercício de um mandato em representação de um partido).

Julgo que isso ajudaria a destrinçar os oportunistas (os que mudam de demónios para anjos da noite para o dia) dos que realmente querem continuar a servir a comunidade noutro estatuto, afastando as conversões de última hora, os arrependimentos milagrosos e as visões celestiais dos que, num estalar de dedos, nascem de novo sem mácula – para a gloriosa carreira de independente.

(A imagem é de De Chirico, Nostalgia do Infinito, 1913)

BD, outra vez


A partir do romance de Jean Vautran, o desenho ao mesmo tempo enxuto e barroco de Tardi, Jacques Tardi. (Como pode isso ser, ao mesmo tempo enxuto e barroco? Barroco no rendilhado de todos os pormenores, até das letras dos "balões"; enxuto no a preto e branco, bem como nas emoções que transmite.) Sobre a Comuna de Paris. Coisas velhas. Ou talvez nem tanto. Ficam as capas dos quatro volumes originais (em francês, pois).






12.7.07

Hipocrisia, a dos hipócritas e a dos que por ela se babam


O jornal Público de hoje escreve: "As declarações de Cavaco Silva ontem no Alentejo demonstram que o Presidente da República não tem sido insensível ao clamor de cidadãos e instituições perante os sinais de asfixia das liberdades. Essa atitude é positiva e útil, pois o Presidente da República não pode deixar de transformar em actos a sua preocupação com a qualidade da democracia portuguesa."

Pergunto, primeiro: não é este Cavaco Silva o mesmo que, enquanto primeiro-ministro há uns anos atrás, inaugurou a prática generalizada e sistemática de varrer das chefias da administração pública tudo o que não tivesse o adequado cheiro a laranja?

Pergunto, segundo: se pudessemos comparar a lista dos colaboradores que o jornal Público tinha há um ano atrás e a lista dos colaboradores desse jornal hoje, e se pudessemos concluir que, na "renovação", certas opiniões tinham sido preferidas sistematicamente enquanto outras opiniões tinham sido sistematicamente preteridas - também poderíamos falar de asfixia da liberdade?

O caminho curto e o caminho longo (ou "a ciência talvez não seja o que parece à primeira vista")


Richard Feynman (Prémio Nobel da Física) escreveu um dia:


«Para aqueles que insistem em que a única coisa importante é a concordância da teoria com a experiência, gostaria de imaginar uma discussão entre um astrónomo maia e um seu discípulo. Os Maias eram capazes de calcular com grande precisão as efemérides, por exemplo, os eclipses, a posição da Lua no céu, a posição de Vénus, etc. Faziam tudo com o auxílio da aritmética. Contavam um dado número, subtraíam outros números, etc. Não discutiam o que era a Lua, não questionavam o que se passava. Só calculavam a ocorrência de um eclipse ou da fase de lua cheia, etc. Suponhamos que um jovem ia ao astrónomo e lhe dizia: "Tenho uma ideia. Talvez esses objectos andem à roda, talvez existam lá em cima bolas feitas de algo semelhante a pedra e possamos calcular os respectivos movimentos de um modo completamente diferente do da previsão simples do seu aparecimento no céu." "Sim", diz o astrónomo, "e com que precisão consegue prever os eclipses?". Resposta do jovem: "Ainda não desenvolvi a coisa a esse ponto." Então replica o astrónomo: "Bem, consigo calcular eclipses com muito maior exactidão do que o seu modelo, pelo que a sua ideia não é muito relevante. O esquema matemático é certamente melhor." Quando alguém nos surge com uma ideia e diz "suponhamos que o mundo é desta maneira", existe uma tendência muito grande para lhe respondermos: "Qual é a resposta para este e para aquele problema?". Ele diz: "Ainda não desenvolvi a coisa a esse ponto." E os outros:"Pois bem, nós obtemos respostas muito precisas." O problema consiste, portanto, em saber se devemos preocupar-nos ou não com filosofias por detrás das ideias.»


in FEYNMAN, R., The Caracter of Physical Law, 1967 (tradução portuguesa de Carlos Fiolhais, O que é uma lei física?, Lisboa, Gradiva, 1989, pp.217-218)


11.7.07

Sete contra Tebas

De Ésquilo. Na Culturgest. Ontem. Um espectáculo de Diogo Dória. O coro, as mulheres, representando o medo que lança o glorioso rei e o guerreiro no confronto fatal. Acontece.

Flexigurança, again

19:48
António Chora, coordenador da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa, escreveu um texto no blogue Arrastão, intitulado "Querem mesmo aprender com a Autoeuropa?". O texto de A.C. é muito interessante – e muito importante por dar a ver alguns aspectos essenciais da questão. Sublinhamos alguns.

(1) As empresas têm de pôr qualquer coisa “do seu bolso” na balança dos pesos e contrapesos que estimulam e compensam o empenho dos trabalhadores. Não podem ficar no “todos fazem assim, nós também”. No texto de A.C., isso traduz-se, por exemplo, nos 22 dias “não trabalháveis” que a empresa “oferece” por ano aos trabalhadores. É uma “benesse” extra, mas que está pensada para ser uma almofada a que a empresa pode recorrer se o trabalho apertar: esses 22 dias podem ser de trabalho se isso for necessário e eles são distribuíveis por mais do que um ano (há um crédito actual transferível para o ano seguinte). Quer dizer: se a flexibilidade for pensada para responder a necessidades de produção, é natural que as empresas pensem em investir (mesmo financeiramente) nesses mecanismos.

(2) A flexibilidade não tem de ser “facilidade para despedir”. No texto de A.C. isso é claro: um dos pilares do acordo foi, precisamente, a garantia de um período plurianual durante o qual não haveria despedimentos. A flexibilidade deve ser, precisamente, um caminho para preservar e aumentar o emprego. Mais: a flexibilidade tem de contrariar as tendências para a precarização. O trabalho precário desqualifica as pessoas (as pessoas não podem investir em tornar-se mais produtivas) e desqualifica as empresas (adia permanentemente a qualificação dos seus recursos e está sempre a começar de novo, o que é típico da incapacidade de avançar).

(3) Estas dinâmicas de verdadeiro diálogo pressupõem “trocas”: eu dou e também recebo. Por exemplo: a Autoeuropa deu prémios aos trabalhadores (aqui parece que os trabalhadores ganharam); o custo do trabalho extraordinário ao sábado baixou de 200% para 100% (aqui parece que os trabalhadores perderam). As “trocas”, se tiverem um sentido económico, são interessantes para ambas as partes, porque a prosperidade de uma empresa que respeita o trabalho é também do interesse dos trabalhadores.

(4) É preciso pensar no futuro, não apenas no imediato: a aposta massiva em formação profissional de qualidade é que permitiu, no caso vertente, continuar a conquistar encomendas. O texto não diz, mas os períodos de formação já foram utilizados para absorver períodos mortos na produção.

(5) Os acordos mutuamente vantajosos têm de basear-se na racionalidade das opções: o que se faz tem de ter uma justificação, nunca resultar dos “caprichos do patrão”. A arbitrariedade tem de ser banida das relações entre pessoas: e as relações laborais são relações entre pessoas, não são relações entre peças de uma máquina. E isso faz-se pelo diálogo e pela negociação colectiva permanente e informada. Como bem sublinha A.C., na Autoeuropa há um diálogo permanente, reuniões semanais entre os representantes dos trabalhadores e a administração, onde esta presta adequadas informações fidedignas sobre a situação e o que está em causa. Não há aí a (in)cultura do segredo e da tentativa de desinformar os trabalhadores.

(6) Nada do que aconteceu na Autoeuropa resultou de qualquer obrigação legal. Resultou de parceiros responsáveis, com interesses diferentes, que souberam perceber o essencial e remar para o mesmo lado. Que é o que interessa na generalidade dos casos a todas as partes. E isso foi possível por os trabalhadores estarem organizados, serem capazes de tomar decisões e respeitá-las. E isso foi possível por a administração, “ensinada” por um modelo mais democrático de relações laborais, ser capaz de verdadeira negociação leal. É preciso dar mais força à representação do trabalho - e dar-lhe mais responsabilidade.

Agora, há um ponto em que discordamos de A.C. – quando parece que ele entende que nada disto que se passa na Autoeuropa é flexigurança. Pois nós achamos que ISTO É FLEXIGURANÇA. O que não é flexigurança é a arbitrariedade pretendida pelos maus empresários. Não façam aos maus empresários o favor de lhes dar de barato o que eles querem: o que eles querem é que as pessoas pensem que flexigurança é liberdade para despedir. Pode, a alguns, dar jeito, em termos político-partidários, confundir flexigurança com liberalização dos despedimentos, com mais arbitrariedade patronal. Mas, por uma vez, não ponham a política partidária (o interesse de criticar o governo) à frente de tudo. Seria preferível, a bem dos trabalhadores, explicar que os empresários é que estão a compreender mal o que quer dizer flexigurança. E que a flexigurança implica mais segurança – a par com mais flexibilidade. Como na Autoeuropa. Onde os trabalhadores jogaram o papel que a maior parte do movimento sindical demonstra ser incapaz de generalizar – quando, precisamente aqui, poderia estar “ao ataque” em vez de estar sempre “à defesa”.

10.7.07

"Sorte"

("Sorte". Foto de Porfírio Silva.)

A ditadura da economia, again

14:05

Aqui há tempos escrevemos aqui uma pequena série de notas sob o título "A ditadura da economia" (parte 1, parte 2, parte 3). A tese geral era "há mais vida além da economia", tese de que alguns não gostaram. Hoje ofereço aqui três sugestões para seguirem diferentes caminhos que essa questão pode tomar.


(1) MORE SEX IS SAFER SEX. The Unconventional Wisdom of Economics é o título de mais um livro de Steven E. Landsburg, publicado em Abril passado na Free Press. Faz parte daquela corrente (de que Freakonomics é um dos exemplos mais conhecidos) que procura explicar tudo na sociedade em termos económicos. Pode ler-se em linha o primeiro capítulo, que dá o nome ao livro. A tese aí é mais ou menos assim: o HIV poderia disseminar-se mais lentamente se as pessoas relativamente castas aumentassem um pouco o número dos seus parceiros sexuais. O argumento é basicamente este: se os mais castos se envolvessem um pouco mais no "comércio", o conjunto dos sexualmente activos seria um pouco mais seguro. Este é um exemplo daqueles raciocínios tentados pelo "tudo se explica (e se pode gerir) em termos de economia", a que se pode acrescentar "e esqueçam a moral e coisas que tais".


(2) No The New York Times do passado domingo (8 de Julho de 2007), David Leonhardt faz uma recensão da mencionada obra, enquadrando-a no "movimento imperialista da profissão de economista". Intitula-se Possible Side Effects e pode ler-se em linha.


(3) O filme TUCKER, The Man and his Dream, de Francis Ford Coppola, 1988, conta a história verdadeira de Preston Tucker, um americano que acreditava na livre iniciativa e que tentou colocar no mercado um automóvel inovador logo a seguir à Segunda Guerra Mundial. E o filme também conta como uma aliança entre os grandes fabricantes de automóveis e certos departamentos governamentais conseguiu impedir Tucker de colocar o seu automóvel maravilha à venda. Para aqueles que pensam que o mercado nasceu livre e se mantém naturalmente livre, para aqueles que gostam de ser distraídos de todo o envolvimento institucional que é necessário ao funcionamento do mercado, vale a pena ver este filme. Há um sítio dedicado a esta história: The Tucker Automobile Club of America.


Boas leituras e visionamentos.

9.7.07

Arqueologia do Corpo

O blogue que já antes aqui chamámos "blogue filosófico", Arqueologia do Corpo, respondeu (já há uns dias) ao desafio das 5 Leituras. A sua fatia de biblioteca de cabeceira está aqui neste post. Como sempre, revelamo-nos um pouco quando confessamos leituras. Neste caso, acabamos até por ter a ocasião de compreender algo do percurso filosófico que sustenta Arqueologia do Corpo. A obra de Pierre Clastres aí referida, "A Sociedade contra o Estado", relembra-me um passo da minha própria formação como cidadão - coisa que me soube bem.

Ciência ao Natural

O blogue Ciência ao Natural, que se dedica a "Reflexões sobre História Natural", da autoria de Luis Azevedo Rodrigues, respondeu ao meu convite/desafio para nos confessar leituras (desafio que me chegou pelo Absorto). Está aqui neste post intitulado Livros que ando a ler. Fico agradecido quando outros "bloguistas" aceitam desviar-se um pouco do seu caminho previsto para atender a uma sugestão minha, ainda por cima quando isso lhes "sai do pêlo" em termos do pouco tempo disponível. E o Ciência ao Natural continua a "corrente", com novos convites. Continua, por esta via, uma certa diversificação das leituras.

Estados Gerais


Estava eu a dar a minha ronda pelos blogues que visito quando, dirigindo-me ao Estados Gerais, um blogue de que já aqui falei anteriormente, deparo com uma "janela a esvoaçar". Que é isto? Qual não é a minha surpresa quando verifico que a janela esvoaçante diz "Blog em destaque Máquina Especulativa". Que boa surpresa! Obrigado, meu caro José Alberto Mostardinha!

Controlo Mental


Vamos dizer as coisas desta forma simples: para fazermos a nossa vida normal, com a capacidade de nos movermos das inúmeras maneiras que são necessárias aos mais pequenos gestos do nosso mais banal quotidiano, precisamos de que o cérebro e os nossos órgãos motores estejam devidamente conectados. É que o cérebro "comanda" os músculos que fazem mover as diferentes partes do nosso corpos. A espinal medula liga o cérebro à rede de nervos que, por sua vez ligados aos músculos por todo o corpo, fazem mover os membros. Na imagem seguinte temos uma representação geral das ligações do sistema nervoso central aos músculos.





(imagem de Gerard J. Tortora, Principles of Human Anatomy (oitava edição), 1999, John Willy & Sons Inc., New York, online no Journal of Young Investigators )




Ora, certas lesões afectam essas ligações, provocando várias formas de paralisia (incapacidade de controlar - de "mandar mexer" - certas partes do corpo). A imagem seguinte mostra como pode variar a extensão dessa paralisia (até à mais generalizada, quando se diz que a pessoa está tetraplégica).








Até há algum tempo a estratégia padrão para tentar recuperar destas situações consistia em procurar reconstruir as ligações, reconstruir as fibras nervosas afectadas que tinham "cortado a ligação" entre diferentes partes do sistema. Como é sabido, isso não é possível em muitos casos.


Mas há alguns anos que vem sendo desenvolvida outra abordagem. Em linhas gerais essa abordagem consiste no seguinte: tentar ligar directamente os centros cerebrais responsáveis pelo controlo do movimento a algum dispositivo que implemente a acção motora, sem passar pelas ligações normais do sistema nervoso. Isto é: como a paralisia resulta de uma interrupção das ligações entre o "comando" e os "executores" do movimento, tenta-se ligar directamente o "comando" (zonas do cérebro que dirigem o movimento) a algum órgão (artificial) que execute o movimento desejado.


Esses estudos de "controlo mental" começaram por ser feitos em animais não humanos, nomeadamente roedores e macacos. No seu aspecto geral, tal como tem vindo a ser investigada, a ideia é muito simples: quando "pensamos" em fazer qualquer movimento com a mão (por exemplo), esse "pensar" consiste em (ou está associado" a) uma certa actividade do cérebro, em certas zonas específicas do cérebro; essa actividade normalmente comanda certas partes do corpo, sendo que esses comandos são sinais enviados através do sistema nervoso; se se conseguir captar esses sinais de comando e endereçá-los a um dispositivo artificial, o pensamento pode comandar directamente um mecanismo exterior ao corpo.


Bom, o cérebro não comanda esses mecanismos artificiais directamente, "sem fios": há um "interface cérebro-computador", o qual capta sinais de actividade cerebral na superfície da cabeça (para isso implantam-se eléctrodos como se se estivesse a fazer um exame conhecido como Electro-Encefalograma) e esses sinais são captados por um computador que os endereça à acção pretendida. Numa experiência com macacos, por exemplo, um macaco olha para o monitor de um computador e, ao "pensar" em fazer certa coisa com os objectos que vê no monitor, alcança mesmo o resultado em que está a pensar. Vejamos um pouco mais em pormenor.


Numa fase inicial, o macaco olha para dois objectos no monitor e pode fazer duas coisas com eles: aproximá-los ou afastá-los, aumentar ou diminuir o tamanho de cada um. Isso é feito actuando sobre um "joystick", movendo-o de um lado para outro ou apertando-o com mais ou menos força. Nesta fase, o macaco usa a "ligação normal": são as suas mãos que executam o que o cérebro pensa, e é o que as suas mãos fazem que produz um resultado mecânico. Depois desta fase de treino, o controlo do que se passa no monitor passa para o interface cérebro-computador: a actividade de uma pequena região da rede neuronal do macaco é captada, enviada para o computador, interpretada pelos modelos da actividade normal do cérebro do mesmo indivíduo, sendo depois enviados (pelo computador) comandos para o que se passa no monitor. O macaco, mesmo nesta fase, começa por continuar a usar o "joystick", mas abandona-o quando percebe que produz os mesmos resultados apenas com o pensamento.





(imagens de Carmena et al., "Learning to Control a Brain-Machine Interface for Reaching and Grasping by Primates", in PLoS Biology, 1(2), (2003), pp. 1-16)




Ora, esta forma de "controlo mental" das competências motoras tem outras aplicações interessantes, agora com humanos.


Seja o caso de um tetraplégico (quase totalmente paralisado, cf. figura mais atrás) que pretenda deslocar-se com uma certa autonomia em cadeira de rodas. Isso é possível: há cadeiras de rodas controladas com o queixo ou soprando num tubinho. Mas isso é difícil e cansativo e, portanto, de uso limitado. Começou a desenvolver-se uma alternativa baseada em "controlo mental": um "barrete de eléctrodos" a envolver o crânio capta os sinais eléctricos típicos de certas actividades cerebrais (os sinais que se captam nos electro-encefalogramas); a pessoa pensa em dar certos comandos à cadeira de rodas (avança, vira para a esquerda); essa actividade cerebral é captada pelo "barrete de eléctrodos" e interpretada por um computador; daí resulta a transmissão dos comandos apropriados para o motor da cadeira de rodas. Já há algum anos que, no esforço para implementar este processo, se tinha conseguido que uma pessoa desse certas instruções (avança, vira à esquerda, vira à direita) a um robot com rodas, apenas por "controlo mental". (Mais sobre isto na NewScientist.)


Mais recentemente conseguiu-se que uma pessoa paralisada, que normalmente se desloca em cadeira de rodas, interaja com um ambiente virtual.








O indivíduo é colocado numa sala de ambiente virtual, com o cenário projectado em frente, no chão e nas paredes. O objectivo é que ela comande a cadeira de rodas de forma a ir avançando e parando ao pé de "pessoas virtuais" para as cumprimentar. O controlo da cadeira é feita por "controlo mental", como descrito anteriormente. Assim, embora em ambiente virtual, a pessoa tem a sensação de se deslocar no mundo apenas devido à "força dos seus pensamentos". Nada disto está ainda em condições de generalizar ao dia a dia, mas é, sem dúvida, um exemplo maravilhoso de como as "ciências do artificial" (computadores, programas, ambientes virtuais, …) podem ser interessantes para os humanos tão naturais. (Mais sobre isto na NewScientist. A imagem acima é do mesmo sítio.) O vídeo abaixo ilustra esta experiência.