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16.11.13

ménage à trois.



Era um curioso par de senhoras.

Uma, que em certo sentido era a linha da frente desse pequeno conjunto, era super controlada. Podia perfeitamente esconder o que lhe ia na alma retirando-o da sua expressão na face, podia perfeitamente sorrir quando queria chorar, podia perfeitamente chorar quando queria sorrir, podia perfeitamente mostrar desinteresse quando estava interessada, podia perfeitamente mostrar desinteresse quando estava distraída, e o desinteresse e a distracção são coisas diferentes, podia perfeitamente mostrar simpatia quando apenas sentia pena, e a simpatia e a pena são coisas diferentes, podia portanto mostrar deliberadamente uma aparência não coincidente com o seu real estado de espírito. Essa senhora era a linha da frente, a vanguarda, desse pequeno conjunto de duas senhoras.

A fraqueza da camuflagem desse pequeno grupo de duas senhoras era a outra senhora. Era a senhora que constituía a retaguarda. Na melhor das hipóteses, o grosso da coluna, por assim dizer. Essa segunda senhora era mesmo a senhora segunda: nunca por ela mesma tinha interesse e, portanto, nunca por ela mesma não mostrava o seu interesse. Nem tão-pouco desinteresse. Nunca por ela mesma sentia hostilidade face aos outros, e portanto também não mostrava hostilidade. Nem sentia inveja e portanto não mostrava inveja. Nem sentia desejo e portanto não mostrava desejo. Por ela mesma nada mostrava e camuflava perfeitamente, porque não tinha nada para camuflar, porque nada sentia por si mesma, para si mesma, em relação aos outros. Ou, ao menos, tinha aprendido a esquecer esses desvarios.

Mas quando este pequeno conjunto de duas senhoras, constituído por uma vanguarda e por uma retaguarda (ou por uma vanguarda e o grosso da coluna, e em todos os casos é sempre o grosso que suporta o mundo) – dizíamos, quando este conjunto de duas senhoras era exposto ao sexo oposto, esta dupla perfeita funcionava maravilhosamente mal. Porque a senhora de vanguarda não mostrava nada do que não queria mostrar e mostrava só aquilo que queria que se visse, mas a senhora de retaguarda era um espelho, um espelho límpido, não da sua própria alma, que não tinha, mas da alma da sua vanguarda. Como ela sabia o que a sua vanguarda, a outra senhora, queria, saber que lhe advinha do constante convívio amigável, ela reagia, de forma completamente despudorada, isto é, sem qualquer protecção, sem qualquer disfarce, sem qualquer filtro, ela reagia de acordo com o que sabia serem os interesses profundos da sua vanguarda, da outra senhora. Se a outra senhora estava perante um homem que ela queria hostilizar, essa senhora da vanguarda podia não o hostilizar, mas a outra senhora, a senhora segunda, hostilizava mesmo sem querer, porque expressava com todo o seu ser tudo aquilo que ia na alma que ela conhecia, a alma da senhora primeira, a única que verdadeiramente dispunha de uma alma. Se a senhora primeira estava perdidamente apaixonada pelo homem que tinha em frente, mas queria, por subtileza, por táctica, por estratégia, por decoro, por educação, por pudor, queria evitar mostrar a sua louca paixão por aquele homem que tinham em frente, a senhora segunda, completamente consciente da louca paixão, mas paixão com pudor, da primeira senhora, a segunda senhora mostrava-a à transparência. Não mostrava a sua própria alma, mostrava a alma da senhora primeira. A senhora segunda não mostrava a alma da segunda senhora. A senhora segunda mostrava a alma que tinha, a alma da primeira senhora, completamente reflectida nas suas águas. Se o homem pelo qual a primeira senhora se sentia ora apaixonada aparecia e as olhava, a segunda senhora não sentia nada por esse olhar, mas mostrava em toda a largueza da sua face, em toda a liberdade da sua boca, na evidência dos seus gestos corporais, o que sabia estar na alma da senhora primeira. Essa paixão. Nesse sentido, neste pequeno conjunto de senhoras, de suas senhoras, uma vanguarda e uma retaguarda, uma estava permanentemente traída, a primeira, enquanto outra estava permanentemente traidora, a segunda. Porque a primeira senhora escondia tudo, maravilhosamente, isto é, com uma eficácia admirável, e só deixava transparecer aquilo que queria que entrasse na sua verdade oficial, e normalmente queria que a verdade oficial estivesse para a verdade como a razão de Estado está para a razão. Mas a segunda senhora, que não aspirava nem deixava de aspirar a transmitir de seu o que quer que fosse, por si própria não encontrando dentro nada de assinalável, ignorando com valentia o problema do reflexo facial do mundo interno de dramas íntimos que não reconhecia, espelhava inteiramente o interior da outra senhora na sua própria face.

E perante este cenário, sendo eu o terceiro nesta relação desigual, sendo eu o homem à conversa com aquele conjunto de duas senhoras, eu falava com a senhora da vanguarda com os olhos postos na cara da senhora da retaguarda, guiando os meus passos exploratórios, os meus avanços e recuos, dispondo as minhas interpretações e recolhendo as minhas pistas, não pela cara, pela fala ou pela disposição corporal da senhora que me interessava compreender, mas pela cara, face e disposição corporal da acompanhante. Porque a acompanhante me mostrava, em toda a magnífica transparência da sua candura, se as minhas recentíssimas falas à primeira senhora eram do seu agrado ou não eram. E isso eu via-o na cara da segunda senhora. Se uma frase minha tivesse tocado a carne da primeira senhora, que era a senhora que eu queria tocar, eu podia avaliar o alcance desse toque ou o seu fracasso, não na cara da carne tocada, mas na cara da carne intocada. Involuntariamente assustando o carácter incerto da primeira senhora, obtinha uma retracção no corpo da segunda senhora, e pura impassibilidade em toda a região da primeira senhora. Obtinha medo na intocada, e intocabilidade na assustada, numa perfeita correspondência entre uma alma e um corpo, embora de dois seres diferentes.

(Os nomes das personagens são fictícios.)



9.11.13

Laura, um retrato.



Senhora Directora, o táxi já chegou. Desço já. Não desceu. Entrou em espera. Já estava desligado o computador, arrumada a carteira, ajeitado o cabelo ruivo selvagem sofisticado a dizer bem com os olhos verdes e a dar luz aos seios pequenos bem colocados numa figura alta e rendilhada como um monumento manuelino. Há minutos que, apesar da azáfama no gabinete, estava pronta para descer, mas não desceu. Entrara na fase um daquele ritual de espera que chegava sempre com dia marcado. A longa espera pelo fim de uma batalha. Senhora Directora, o táxi diz que se vai embora. Oh, homem, os táxis não falam; diga ao taxista que pago a espera. Estou a descer. Desceu. Os dois andares pelas escadas, apesar do elevador. Apesar do ligeiro descaimento do ombro esquerdo e, por ele, de todo o corpo, que lhe ficou, estrutural, da lesão na perna. A vontade de Laura manda mais do que a perna e a lesão juntas. Avançando bem direita, uma linha da terra ao céu, e não o contrário, mostra a vontade e esconde o descaimento do ombro. Até amanhã, Senhor João. Até amanhã, Senhora Directora.
Boa tarde, o senhor desculpe a demora. A espera paga-se, minha senhora. E já é boa noite. Seja. É para Santa Catarina, se faz favor. Sim, senhora. Olha pela janela e vê o cenário. Tanto trabalho aqui. E a Joana à espera. Que maçada: parece que vir a minha casa é passar férias e eu que nem férias tenho. Pronto, senhor, cinco euros a mais pela espera. Disse cinco mas deu dez. Com propósito. Obrigado, senhora, e boa noite. Boa noite.
Olá Joana, minha querida, está tão bonita, mas que é isso, está cheia de pêlo no casaco. Trouxe a Olívia, foi a Olívia. A Olívia? A gata? A Joana trouxe a gata? Atira a pasta para o sofá. Quer dizer: por cima do sofá, quase atingindo a Olívia. A Olívia, a Olívia, não lhe faças mal. Foi sem querer, querida. Eu ia lá fazer mal à Olívia, querida. Pois, pois, pois. Estava já tão cedo a começar a batalha. Vamos fazer o jantar, querida. É num já que se atira à tarefa, ninguém pode saber que Laura teve uma lesão na perna, Laura a super mulher já está a abrir o frigorífico, uma embalagem metalizada com abertura fácil, três embalagens plastificadas encetadas, dois boiões, tudo em cima da bancada, Laura abre as embalagens, as mãos fazem todos os gestos à velocidade e com a precisão de uma linha de montagem, como se Laura fosse uma máquina de preparar pratos rápidos, tempera rigorosamente o conteúdo das embalagens com o conteúdo dos boiões e com mais uma boa meia dúzia de pós e pequenos grãos que estão ali dispostos e que fazem a bancada de cozinha parecer um toucador requintado de uma dama complexa. Que ela é. Requintada e complexa. Tudo para o micro-ondas, uma mulher com sete mãos e olhos que chegam para tudo, sete minutos isto, três minutos aquilo, a setecentos e oitenta isto, a quatrocentos e cinquenta aquilo, está pronto, querida, vamos para a mesa, a Deolinda deixou a mesa preparada, vamos comer, temos fome as duas, não temos, querida. Tenho, sim. Não comemos bife com batatas fritas, pois não. Não, querida, aqui não se comem essas coisas. Comemos terrine de figos com chèvre fresco e chèvre meio curado, amaciado com iogurte natural, e depois comemos lentilhas com ovas de salmão e azeite de trufas. Mas eu não sei gostar de nada disso. Mas aprende, querida. É isso mesmo, aprende. É como dizem os franceses “je ne sais pas aimer ça”, “eu não sei gostar disso” quer dizer “eu não sou capaz de gostar disso”, quem não sabe não pode, quem sabe pode, e eu quero que a querida possa, por isso a querida tem de saber, a querida tem de aprender. Coma para aprender a gostar. Se o seu pai não lhe mostra o mundo, alguém tem de lho mostrar, não é querida.
Pronto, critiquei o pai e tive o prémio: não disse palavra o resto do jantar, e eu a perguntar-lhe pela escola, e pela amiga Maria, e pela Rosa, e pelo ballet, e que obrigação tenho eu de aturar esta miúda, e contra todos os meus princípios a perguntar-lhe pelos namoradinhos, e eu a ir buscar o melhor bolo de chocolate do mundo em fatia grande, e ela nada, tinha desligado, e eu a ligar a televisão connosco ainda à mesa, coisa que eu detesto e ela adora, e ela não cedeu, ela não cederia de maneira nenhuma, e estava decidido: eu tinha perdido mais uma batalha, tinha-lhe criticado o pai e ela castigava-me como sempre fazia não falando mais o resto do dia ou da noite. Não valia a pena. Desisti, pedi-lhe que se deitasse e fui lá dar-lhe um beijo de boas noites. Ela retribuiu, sempre em silêncio, com uns olhos zangados, que não tristes. Tem agora oito anos e desde os quatro que faz isto. Se fosse assim fácil calar toda a gente…
Vodka negra o resto da noite, isto é, até à uma, espalhada no chão da sala a mexer apenas as convoluções cerebrais, a ouvir a quinta sinfonia de Mahler interpretada pelo Uri Caine, uma magnífica gravação, moderadamente surrealista, que ouviu três ou quatro vezes, até desistir de permanecer acordada, de pensar na Joana e no pai dela. O que vale a espera quando não se está à espera de nada. Dormiu mal, dentro da cama mas fora de si, e acordou às oito horas do dia seguinte, quinta-feira, dia de reunião da administração do banco com todos os directores, usualmente às oito e trinta da manhã, acordou às oito da manhã com a Deolinda a chamar: Senhora Doutora, a menina vai sair, está lá em baixo o pai para a levar à escola, ela quer despedir-se. Anda cá, minha querida. Estou atrasada. Também eu, querida, tanto. Adeus, mãe, até para o ano. Esta espera acabou por ora.