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29.12.10

educadores

11:00

«Vendo Settembrini aproximar-se, Naphta continuou:
-(...)
Quando, na nossa função de educadores, suscitamos a dúvida, uma dúvida mais profunda do que jamais sonhou a vossa modesta civilização, sabemos perfeitamente o que fazemos. Só do cepticismo extremo, do caos moral, nasce o absoluto, o terror sagrado de que carece o nosso tempo. Digo-lhe isso para justificar-me e para seu governo, o resto decidir-se-á depois. Receberá notícias minhas.»


Thomas Mann, A Montanha Mágica


22.1.10

página 613

15:36

Vendo Settembrini aproximar-se, Naphta continuou:
-(...)
Quando, na nossa função de educadores, suscitamos a dúvida, uma dúvida mais profunda do que jamais sonhou a vossa modesta civilização, sabemos perfeitamente o que fazemos. Só do cepticismo extremo, do caos moral, nasce o absoluto, o terror sagrado de que carece o nosso tempo. Digo-lhe isso para justificar-me e para seu governo, o resto decidir-se-á depois. Receberá notícias minhas.


Thomas Mann, A Montanha Mágica


20.1.10

página 514

19:30

– Bem, um jogo da natureza! – disse Hans Castorp. – Mas não é apenas isso, não é apenas uma ilusão. Porque desde que esses homens são actores, devem ter talento, e o talento é superior à estupidez e à inteligência, constitui, ele mesmo, um valor vital. Também Mynheer Peeperkorn tem talento, por mais que o senhor proteste e, graças ao seu talento, mete-nos a todos num chinelo. Coloque o Sr. Naphta num canto da sala e deixe-o fazer uma conferência do mais alto interesse sobre Gregório Magno e a Cidade de Deus. No outro canto, encontra-se Peeperkorn com sua boca estranha, erguendo as rugas da testa e que diz apenas: “Absolutamente! Permita-me... Basta!” O senhor vai ver que as pessoas se reunirão em torno de Peeperkorn, todas, sem excepção, e que Naphta ficará sozinho com a sua inteligência e a sua Cidade de Deus, ainda que se exprima com tanta clareza que nos penetre até a medula.


Thomas Mann, A Montanha Mágica


19.1.10

página 476 (*)

17:33

É, portanto, à imagem destes sonhos alienados que a narração pode proceder com o tempo; é à sua semelhança que ela pode tratá-lo. Mas se ela o pode então “tratar”, é óbvio que o tempo, como elemento da narração, também se pode converter em seu objecto. E se soa exagerado afirmar que se pode “narrar o tempo”, não parecerá, contudo, uma perfeita loucura, como se nos afigurava de início, querer narrar acerca do tempo, de modo que o epíteto de “romance do tempo” se pode revestir de um duplo sentido, singular e mágico. Na realidade, levantámos a questão acerca da narração do tempo com o único propósito de confessar que era isso precisamente que tínhamos em mente com a história que aqui apresentamos (…) Este é um aspecto que faz parte do (…) romance [de Hans Castorp], que é um romance sobre o tempo, independentemente do ponto que vista que adoptemos.

Thomas Mann, A Montanha Mágica

(*) As citações que anteriormente fizemos desta obra, bem como as demais que se seguirão, são retiradas da tradução feita para a edição do Círculo de Leitores, Lisboa, 1981 (tradução brasileira de Herbert Caro, revista para português de Portugal por Maria Manuela Couto e Maria Helena Morbey). Essa edição, esgotada há muito tempo, tem agora uma sucessora, na D. Quixote, 2009, com tradução directamente do alemão a cargo de Gilda Lopes Encarnação. A presente citação é retirada desta tradução mais recente, aparecendo nas páginas 612-613; o texto correspondente na outra edição aparece à página 476.

13.1.10

página 397

18:45

O doente é justamente um doente, com a natureza particular e o modo de sentir modificado que a doença acarreta. Esta prepara a sua vítima com o fim de adaptá-la a si própria. Há diminuições de sensibilidade, desfalecimentos, narcoses providenciais, toda a espécie de subterfúgios e expedientes morais e espirituais, fenômenos que o homem são, na sua ingenuidade, se esquece de ter em conta. (…)
Que se lembrassem das doenças mentais, das alucinações, por exemplo. Se um dos seus interlocutores – o engenheiro ou o Sr. Wehsal – descobrisse nessa noite, à hora do crepúsculo, num canto do quarto, o seu falecido pai, que o olhasse e lhe dirigisse a palavra, seria isso, para a pessoa em apreço, uma experiência muitíssimo emocionante e perturbadora, que a faria duvidar dos seus sentidos e da sua razão e a induziria a sair imediatamente do quarto e a consultar um psiquiatra. Não era verdade? Mas o engraçado consistia precisamente no facto de essas coisas não poderem acontecer a nenhum deles, porque tinham o espírito são. Se, porventura, lhes ocorressem, já não estariam sãos, mas doentes, e não reagiriam como um homem sadio, quer dizer, espantando-se e fugindo, mas aceitariam o fenómeno como se ele fosse perfeitamente normal, entabulando uma conversa com o espectro, como os alucinados costumavam fazer. E acreditar que a alucinação constituía para estes um motivo de espanto saudável era justamente o erro de imaginação que cometiam aqueles que não estavam doentes.


Thomas Mann, A Montanha Mágica


11.1.10

página 396

14:40

E antes que Settembrini pudesse chamá-lo à ordem, Naphta começou a falar de piedosos excessos de caridade que a Idade Média conhecera, de casos assombrosos de fanatismo e fervor nos cuidados prestados aos doentes: as filhas de reis haviam beijado as chagas malcheirosas dos leprosos, expondo-se voluntariamente ao contágio da lepra e chamando rosas às úlceras assim contraídas; haviam bebido a água na qual acabavam de banhar-se enfermos purulentos e declarado que nada no mundo lhes sabia melhor.
Settembrini fez menção de ter vontade de vomitar. (...) E a todos aqueles horrores opôs a higiene, a reforma social e os grandes feitos da ciência médica.
Mas essas coisas honrosas e burguesas, replicou Naphta, teriam sido de pouca utilidade para os séculos a que acabava de referir-se; teriam servido de bem pouco, tanto aos doentes e miseráveis como aos saudáveis e felizes que se tivessem mostrado caridosos menos por piedade que pela salvação da alma. Porque uma reforma social coroada de êxito teria privado os afortunados do meio mais importante de que dispunham para justificar-se, e os outros, do seu estado sagrado. A manutenção constante da pobreza e da enfermidade realizara-se, portanto, no interesse de ambos os partidos e esse conceito continuaria sustentável enquanto fosse possível defender o ponto de vista puramente religioso.

Thomas Mann, A Montanha Mágica

8.1.10

página 395

12:31


Mas o que os mundos de Naphta e de Joachim tinham em comum, sobretudo, era o seu sentimento em relação ao sangue derramado e o axioma de que não se devia impedir a mão de derramá-lo; nisso, sobretudo, concordavam estritamente, como mundos, como ordens e como estados e a um amigo da paz parecia notável o que Naphta contava dos monges-guerreiros da Idade Média, que, ascetas até ao esgotamento e, no entanto, ávidos de conquistas espirituais, não haviam poupado sangue no seu esforço de estabelecer a Cidade de Deus e o reino do sobrenatural; falava dos belicosos templários que julgavam mais meritório morrer na luta contra os infiéis do que morrer na cama e para os quais matar ou ser morto por amor a Jesus não era crime, mas a glória suprema. Ainda bem que Settembrini não estava presente quando Naphta expôs essas ideias!

Thomas Mann, A Montanha Mágica

7.1.10

página 256

09:00

«Hans Castorp foi ver o defunto. Fê-lo por antipatizar com o sistema estabelecido, que consistia em ocultar tais acontecimentos, porque desprezava o desejo egoísta de ignorar, não ver e não ouvir essas coisas e desejava contrariá-lo activamente. À mesa fizera uma tentativa no sentido de mencionar o óbito, mas houvera em face do assunto uma repulsa tão unânime e tão obstinada que Hans Castorp sentira vergonha e indignação. A srª Stohr mostrara-se até agressiva. Que ideia era essa de falar daquelas coisas? – perguntara. Que espécie de educação recebera ele? O regulamento da casa protegia cuidadosamente os hóspedes contra o contacto com tais histórias e agora vinha um novato e metia-se a falar disso em voz alta, justamente na hora do assado e ainda em presença do Dr. Blumenkohl, que, de um dia para o outro, podia ter a mesma sorte (isto acrescentado em voz baixa). Se isso se repetisse, queixar-se-ia.»

Thomas Mann, A Montanha Mágica

30.12.09

página 204

18:19

«Uma outra vez, durante o jantar, os raios de um esplêndido pôr-de-Sol caem sobre a mesa dos “russos distintos”. Haviam corrido as cortinas das portas da varanda e das janelas, mas sobrou algures uma fresta, através da qual um clarão vermelho, frio, mas deslumbrante, abre caminho e fere justamente a cabeça da srª Chauchat, de maneira que, na conversa com o compatriota de peito sumido, à sua direita, ela tem de resguardar os olhos com a mão. É um incómodo, mas pouco grave; ninguém se preocupa, a própria interessada nem sequer parece reparar na pequena contrariedade. Mas Hans Castorp descobre-a através de toda a sala. Observa-a durante alguns instantes. Examina a situação, acompanha o caminho do raio e fixa o ponto de onde incide. É da janela ogival, lá atrás, à direita, no canto entre uma das portas da varanda e a mesa dos “russos ordinários”, muito distante do lugar da Mme. Chauchat e quase tão afastado do de Hans Castorp. Toma uma decisão. Sem proferir qualquer palavra, levanta-se, com o guardanapo na mão, passa, diagonalmente, por entre as mesas, atravessa a sala, une cuidadosamente as cortinas cremes, certifica-se, com um olhar por cima do ombro, de que o clarão do poente já não pode entrar e de que Mme. Chauchat está livre, e, esforçando-se por parecer indiferente, volta à sua mesa. Um jovem atencioso que faz o necessário, já que mais ninguém se lembra de fazê-lo. Muito poucos notaram a sua intervenção; mas a srª Chauchat sentiu-se imediatamente aliviada e virou-se; conservou essa posição até que Hans Castorp alcançasse o seu lugar e, de novo sentando-se, olhasse para ela; depois do que lhe agradeceu, com um sorriso cheio de uma amigável surpresa, isto é, avançando um pouco a cabeça, sem propriamente a inclinar. Ele retribuiu com uma ligeira mesura. O seu coração quedou-se imóvel, parecendo ter cessado de pulsar. Somente mais tarde, quando tudo terminara, se pôs a martelar, e só então Hans Castorp percebeu que Joachim tinha os olhos discretamente cravados no prato, ao mesmo tempo que observou que a srª. Stohr dava uma cotovelada ao Dr. Blumenkohl e que o seu risinho afogado procurava olhares cúmplices em toda parte...
Relatamos factos quotidianos, mas o quotidiano torna-se estranho quando se desenvolve em terreno estranho.»

Thomas Mann, A Montanha Mágica

29.12.09

página 181

14:21

«E a gravidade do caso de Hans Castorp, o seu grau de enfermidade, mal lhe davam o direito de exigir uma atenção especial. A Srª. Stohr, por exemplo, por mais estúpida e inculta que fosse, estava indubitavelmente muito mais enferma do que ele, sem falar do Dr. Blumenkohl. Seria faltar a todo senso de hierarquia e de distância não observar, no caso de Hans Castorp, uma reserva modesta, tendo-se ainda em conta que tal mentalidade estava de acordo com os usos da casa. Os levemente doentes não contavam, como Hans Castorp deduzia de muitas conversas que ouvira. Falava-se deles com desdém, segundo a escala de valores ali usada; eram olhados de revés, não só por parte dos doentes graves, mas também por aqueles que eram igualmente “leves”. Agindo assim, esses menosprezavam-se na verdade a si próprios, mas ao mesmo tempo salvaguardavam a sua dignidade, por se submeterem à referida escala de valores. Era humano. “Ora este sujeito!”, pareciam dizer uns aos outros. “No fundo, não sofre de nada. Mal tem o direito de estar aqui. Nem sequer tem cavernas...” Tal era o espírito que reinava no sanatório; era aristocrático à sua maneira e Hans Castorp inclinava-se diante dele, por um inato respeito à lei e à ordem, fosse qual fosse a sua natureza.»

Thomas Mann, A Montanha Mágica

27.12.09

verdade

23:03

«Verdade é que parecia um pouco estranho a Hans Castorp assistir, assim subitamente, a uma prelecção sobre o amor, já que nunca tinha ouvido conferências senão acerca de assuntos como o mecanismo de transmissão a bordo dos navios.»

Thomas Mann, A Montanha Mágica