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5.2.12

poesia e ciência (4).



Galileu, a sua torre e outras rotações




andamento 1


Olhando agora a mesma torre
onde há trezentos e tal anos ele subiu,
estaria um pouco mais na vertical,
e o sonho em fio
de prumo –

O que dele disseram
foi o ter contemplado
estrelas e mais estrelas,
incomodando togas não de lume,
mas de uma
obliterada fé em fumo

Os séculos haviam de contar
da celeste estrutura,
mais azul que os vestidos
da Virgem em menina,
haviam de mostrar
como esta outra estrutura
cede a outros olhares:

os do flash rompendo movimentos,
tentando aprisionar – um
sentimento? o registo de um dia
ou de uma hora?

O que dele contaram
perdeu-se pelo brilho das estrelas,
e assim o resguardaram
em poemas, museus, guias turísticos,
nomes de ruas e de hotéis sem nome,
o seu nome rodando
quase a repetição

Sobre mortos vagamos,
como a Terra, numa veste diferente
e ainda igual,
e nela nos movemos, como ela,
como ele e outras alturas

Custa mais que um salário
em terras que são quase ao pé de nós,
divididas por súbita península
e um mar tão morno,
custa mais que um salário
subir a esta torre onde ele foi
e se perdeu de amores
por inércias e corpos

Nessas terras tão próximas –
remotas –
ela, contudo, move-se:
tão bela, a sua translação
em torno de uma
estrela

tão bela e mais cruel
que aqui –



andamento 2


Mas como nós:
tão comoventemente
relativa e frágil,
imersa em hélio e os outros gases
que lhe deram vida:

jovem mulher de um século passado,
educada, composta, semiobediente:
ebulição e magmas
nas paisagens de dentro
e um leve traço de vermelho
aceso
a espreitar-lhe entre rendas

Alguns milénios antes,
poucos para as estrelas que ele viu,
a dissonância
ao lado da caverna
em protecção e espanto

E muito antes
dessa lenta fusão de gases densos,
nem rotação de luz –
o que seria dela:
inenarrável ponto de interrogação

Tão frágil como nós,
moveu-se, assim,
num momento qualquer desconhecido,
vazio de tempo,
até que a meio dos tempos,
após inumerável paciência:
fissura humana:

os olhos levantados,
e em vez do chão:
o mar e o horizonte,
e mais no alto:
a branca companheira
das noites e dos medos

Ou quando nela
se fez em vez do toque: um som,
e em vez do som, mil sons,
a garganta a servir tempos de música
e não gritos de alarme

Moveu-se, então,
e frágil, relativa,
as procissões de reis, as multidões de gentes,
monumentos à glória
e ao desejo
a demorarem séculos

– um piscar de olhos
para estrela
nova



andamento 3


O muro cor de fogo
ao lado desta torre:
carregado com átomos de mortos,
o pó de outras
estrelas

Onde o lugar
para falar da súbita península
onde se nasce junto a paredes meias
com a morte?

Inútil tudo?
O flash, o sentimento,
manchas solares?
Um argumento nómada
será?

Ali, junto
da terra, o terramoto,
eppur si muove
este, o meu tempo,
em súbito vagar



andamento 4


Calcula-se que dentro de
cinco biliões de anos,
murchará: como maçã
num sótão às escuras,
a luz rompendo pelas vigas largas:
um brilho muito fresco

Quantos vitrais soprados pelo tempo,
sagrados pelas chuvas
para agarrar o tempo?
Quantos vitrais
hão de faltar ainda?

Há quase quatro séculos
ele subiu aqui

À janela do tempo,
as civilizações brotam e morrem,
desabam devagar,
e outras vertigens
hão de romper ainda,
expandidas em luz

O que sobrar de nós:
só pó de estrelas

Num acaso feliz:
talvez grão de poeira desta torre,
talvez um átomo
da sua gola branca (a do retrato),
a simular curva sinusoidal,
o seu olhar
girando em torno
de um planeta novo

Bordado a fio de estrelas,
desabará o som
em outras rotações

Então, talvez o jovem átomo
a testar o tempo
seja também semi-obediente,
moldura em gás e luz
do andamento próximo:
o quinto
movimento –


Ana Luísa Amaral, in Vozes, 2011

4.2.12

poesia e ciência (3).



O olho algébrico

Trazia nas mãos uma pequena bola que atirava ao ar ou fazia saltar no chão, ou percutir contra as paredes, um zero que, associado a qualquer outro objecto, fosse este um móvel, um tapete ou um adereço, o convertia a ele também num algarismo, um elemento com o qual compunha então um número num plano cada vez mais vasto onde assim tudo acabava por poder perspectivar-se em termos aritméticos. Os mais heterogéneos objectos combinavam-se entre si em melindrosas adições, ávidas multiplicações que tudo pareciam arrastar e consumir, operações que pela forma como o próprio ar nelas entrava nos levavam a pensar que respirassem e onde fatalmente o zero era a entidade soberana - um olho a humanizar o raciocínio, um olho a que a abstracção ia buscar urna expressão quase animal, entranhas que em nenhum outro lugar o pensamento encontraria. A pulsação algébrica do espaço aproximava-o do tempo, o zero ia e vinha e nesse movimento era visível o vazio que ele também significava, a conversão dos dados dos sentidos em conceitos dum rigor gémeo do vidro, e entre eles eram tão estreitas as passagens que quase podíamos tocar no destino com as mãos, as quais contra o que quer que assim tocassem eram então findas como as trevas.

Luís Miguel Nava, Poesia completa, 2002

2.2.12

poesia e ciência (2).



Subsídios para uma Poética da Ciência



I.

Dirás que à morte
apenas o nada sucede,
o não-ser, o vazio.
Que somos acaso entre acasos
e que o melhor é não pensar,
porque pensar faz doer a cabeça
e é coisa de quem está doente dos olhos.

Mas obrigo-me a pensar
à força de tanto olhar
(em páginas de revistas
e programas que não passam
em canais generalistas),
enxames de galáxias,
redondos planetas,
remotos quasares,
negros buracos comedores de luz,
peregrinos cometas,
nebulosas e pulsares,
estrelas de neutrões coalescentes,
nuvens de gás interestelar,
luas cravejadas de crateras,
sobras da cintura de Kuiper,
astros exilados da nuvem de Oort,
nebulosas reflectoras de luz
- e nebulosas negras, suas irmãs, tão frias
quanto da claridade inimigas -
raios gama, matéria sombra,
vento solar.

Obrigo-me a pensar
e nada me resta senão amar
o nada que o teu nome diz.

II.

Dirás que são também fruto do acaso
os astros?
Que um colectivo de deuses
os instalou acima de nossas cabeças
(e onde nossos olhos não pudessem chegar
sem a assistência dos sonhos)
achando que ficavam bem no céu?
Mas que deuses antes de havermos nós
para os inventarmos à nossa semelhança
(pois sem modelo, que semelhança)?

Quem antes de nós para ver as estrelas,
ter a certeza e baptizar o real?
Alguma coisa havia, decerto,
antes de nós sermos nós,
alguma coisa que não pura teoria,
sob a forma de sonho ou visão
em nossas cabeças invadidas
por dúplices consciências
colectoras de fósseis,
pesquisadoras de rochas,
e inventoras do tempo
com que medir-nos a condição de gente presente
que fabrica o passado
e pressente o futuro.

Para quem o espectáculo do mundo
e do firmamento,
o gigantismo dos primeiros insectos
cuja descendência vive agora
entre páginas de livros,
ou em sótãos pouco frequentados,
quando não passava, o Homem,
de mero projecto embargado
num roedor em busca de abrigo,
decerto já congeminando
engenhoso plano de conquista
enquanto evitava não ser pisado,
ou em tal plano gorado
pelas súbitas navalhas da boca
de um réptil esfomeado?
Para quem o fogo-de-artifício dos vulcões,
a lava, os piroclastos, as nuvens ardentes,
o rasto fulgurante do asteróide
caído algures em desgraça
no Golfo do México?

Para os grandes sáurios terminarem o reinado
num grandioso, wagneriano cenário?
Mas quem, faltando nós, poderia ver,
e dar um sentido a tanta morte?

Para quê tanto trabalho?
Para quê tanto esforço?
Para quê tanto espaço

(se não é para nos perdermos
e depois nos encontrarmos)?

Rui Lage, in Revólver, 2006

29.1.12

poesia e ciência (1).


A insustentável leveza de quê?



Ao Gonçalo

“O poema não é mais verdadeiro nem mais
consciente do que uma teoria científica
(provavelmente, é-o menos) o poema não contém
atrito por definir o mundo ou desvendar a
metafísica. O atrito do poema tem a ver com o
corpo, a distância e a lentidão.”
Pedro Eiras – A Lenta Volúpia de Cair


Deixar cair uma maçã com toda a força;
Não estamos aqui pela gravidade, mas porque
Amamos o chão – a terra – se possível, metemo-la
toda na boca, perdi um bloco de notas que me
compraste no museu do Galileu, nele tinha notas sobre a
aflição e o atrito – a ligação entre poesia e ciência, a Vontade
de estar dentro de Ti. A maçã contínua cai – sem que
Newton ou um poeta suicida – Esqueci-me do número do
andar – tenham ainda o sabor da razão na boca, azedo e
verde, sem ter asas, nem querer voar:
A insustentável leveza de quê? O atrito do
ar enquanto desces e perdes toda a poesia e a
inocência, a vontade de cair naquilo que nunca será
ciência – falo da razão – 
está nos teus olhos, dentes e boca.

Nuno Brito, Créme de la Creme, Porto, Planeta Vivo, 2011