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12.6.26

Porfírio Silva sugere nova revisão da Declaração de Princípios do PS




Ontem, a propósito da apresentação na Feira do Livro de Lisboa da obra, de minha autoria, História das Declarações de Princípios do Partido Socialista, a Agência LUSA divulgou uma notícia que me apraz registar neste espaço.

***

11/06/2026 21:39
 (LUSA)

Porfírio Silva sugere nova revisão da Declaração de Princípios do PS

Lisboa, 11 jun 2026 (Lusa) – O deputado socialista Porfírio Silva defendeu hoje que, mais de 20 anos da última revisão da Declaração de Princípios do PS, está na hora de revisitar o texto, considerando que é preciso “vencer a tentação centralista”.
O livro de Porfírio Silva intitulado “História das Declarações de Princípios do Partido Socialista” foi hoje apresentado na Feira do Livro, em Lisboa, uma sessão na qual interveio Alexandra Leitão, atual vereadora do PS em Lisboa e ex-líder parlamentar do PS e antiga ministra, e que teve na plateia o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro.
“Não me compete fazer o desenho do futuro, mas acho que hoje, passados estes anos todos, a última Declaração de Princípios, já passaram tantas guerras, já passaram tantas tecnologias novas, já passaram tantas experiências políticas novas depois de 2002, se calhar está na hora de nós pensarmos como é que podemos dar a volta ao texto”, defendeu o autor e deputado do PS.
De acordo com Porfírio Silva, todas as revisões que foram feitas ao longo dos anos nunca foram “para trair o texto anterior”, mas sim para fazer uma atualização e ser possível apanhar “aquilo que, entretanto, tinha acontecido melhor”, para se continuar a “trabalhar melhor em resposta às pessoas”.
“Nós temos que tentar também, os socialistas democráticos, derrotar a tentação centralista”, defendeu.
“E desenvolver novas abordagens às nossas ideias, às nossas práticas políticas, às nossas propostas, que deem resposta à pulsão de iniciativa, à pulsão de nós também podemos organizar-nos, de também podemos fazer coisas na nossa base territorial, que não têm necessariamente de ser iguais em todo o país, não têm de ser uniformizadas e não têm de ser centralizadas”, enfatizou.
Na perspetiva do autor, “a ideia da liberdade” e da “democracia como um conjunto de instituições que protegem todos” volta agora a estar em causa, sobretudo por “causa da ameaça da extrema-direita, que quer acabar com isso tudo”.
“Quando um líder político diz: ‘se eu for governo ou se eu for presidente, não sei quem vai para a cadeia’, isso significa que tem uma noção completamente desfasada da democracia acerca do que é que são as liberdades”, criticou, numa referência ao Chega, mas sem nomear o partido de André Ventura.
Para Porfírio Silva há uma outra ameaça, “sob a capa do neoliberalismo, que é um individualismo radical”.
“Que acha que cada um faz aquilo que quer, não é preciso regras, o que é preciso é que cada um tenha caminho para triunfar, e isso significa que quem nasceu com mais oportunidades pode singrar, quem nasceu com menos oportunidades tem que se sujeitar e ficar pobre o resto da vida ou ficar servo o resto da vida”, condenou.
A última revisão da Declaração de Princípios do PS foi feita em 2002, então sob a liderança do partido de Eduardo Ferro Rodrigues.
 
JF // CC
Lusa/fim


(Até agora, só vi esta notícia publicada aqui: Porfírio Silva sugere nova revisão da Declaração de Princípios do PS )

Porfírio Silva, 12 de junho de 2026
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20.4.26

Os princípios dos socialistas e os desafios de hoje




No dia do 53º aniversário da fundação do Partido Socialistas, 19 de abril de 2026, a Concelhia de Aveiro do PS, e a sua Presidente, Paula Urbano Antunes, promoveram uma sessão comemorativa, incluindo na ocasião uma apresentação do livro, de minha autoria, História das Declarações de Princípios do Partido Socialista. A apresentação da obra ficou a cargo de Filipe Neto Brandão, deputado do PS eleito pelo círculo de Aveiro, que se desempenhou da tarefa com a competência (e o bom humor) a que nos habituou. Tive a oportunidade, na ocasião, de dirigir algumas reflexões aos camaradas e outras pessoas presentes. O texto de base do que então disse é o que aqui se deixa, para registo e partilha.
 

Creio que esta História das Declarações de Princípios do Partido Socialista mostra que o nosso partido, ao longo da sua história, se manteve sempre fiel a um núcleo central de compromissos fundamentais, relacionados com a república democrática e com a procura de justiça social.
E, simultaneamente, creio que mostra também que fomos tentando adaptar as nossas modalidades de ação, e as nossas propostas, às mudanças do mundo — embora possamos discordar, ou duvidar, de que todas essas adaptações tenham sido avisadas.
O desafio, hoje, volta a ser o mesmo: fazermos valer os nossos princípios num mundo que mudou muito e que volta a exigir o melhor do nosso pensamento, o melhor da nossa ação, o melhor da nossa coragem para travarmos os inimigos da liberdade e da democracia.

A extrema-direita populista anda à solta, mas nós devíamos ter pensado nisso antes, quando deixámos avançar a disseminação de atitudes que, silenciosamente, favorecem a recepção de temas populistas. 
Por exemplo, a lengalenga populista que alimenta a polarização e o confronto assenta muito bem numa cultura que desvaloriza o compromisso, que desvaloriza a concertação. Quando as convergências e os compromissos entre diferentes forças políticas são vistos como sinais de fraqueza e de abdicação, abrimos caminho aos que vivem da rutura e do extremar de qualquer diferença.

A extrema-direita populista anda à solta e ameaça, mas nós devíamos ter pensado nisso antes, quando reduzimos a base institucional da democracia, ao concentrar o poder no topo da pirâmide: quando as assembleias representativas é que deviam eleger e controlar os respetivos executivos, acabam por ser os executivos a controlar as assembleias que os deviam controlar  - por exemplo, são os governos que mandam nos seus grupos parlamentares, ao contrário do que supunha a lógica democrática – e, aliás, acaba por ser o “grande líder” e o petit comité a mandar em quase tudo – e, com o tempo, tende a acostumar os demais a não fazerem ondas. E, desse modo, tornamo-nos menos capazes de entender e de responder aos perigos que nos rodeiam. 

É preciso dizer, e praticar, que a política é uma coisa demasiado séria para ser deixada ao que chamamos “os políticos” (no sentido de “os políticos profissionais”).
É preciso que os profissionais mandem menos na decisão política – tem de haver deputados e autarcas e outros que se dedicam a tempo inteiro durante algum tempo a essas funções, mas devem ser servidores do conjunto dos não profissionais da política.
Lembram-se, alguns, que a seguir ao 25 de Abril assistimos, em alguns sectores, àquelas assembleias ditas democráticas onde certas minorias faziam render a discussão até a maioria dos presentes se cansarem e irem embora, deixando essas minorias, então, ganhar as votações.
A democracia representativa, hoje, às vezes parece esse esquema em larga escala, ao nível nacional: parece que só ficam os que não têm mais nada para fazer.
Precisamos de mais cidadãos comuns na política, a decidir coletivamente e a sentirem que estão a decidir – para serem menos presas do discurso demagógico da extrema-direita.

Mas temos também a sereia liberal a rondar – e essa está a atrair muita juventude.
Quanto ao fascínio pelo liberalismo (ou, mais exatamente, pelo neoliberalismo, porque liberais políticos os socialistas também são), às vezes tentamos a escapatória de culpar os jovens, dizer que são “individualistas”, “egoístas”, que foram capturados pelas falácias da meritocracia. Mas não devemos ser tão simplistas. 
Pensem nisto: o nosso socialismo de hoje é mais estatista, mais centralista, menos diversificado do que já foi.
O PS, como podem avaliar pelo livro de história dos seus princípios declarados, já teve correntes mais libertárias, mais autogestionárias, mais cooperativistas e associativistas, mais trabalhistas do que temos hoje. É verdade que tivemos de lutar contra a destruição do Estado social, porque a nossa direita é maioritariamente muito primitiva e está sempre a ameaçar o Estado Social. Mas nós devíamos ser capazes de contrariar essa tendência destrutiva da direita e, além disso, fugirmos do binómio simplista “ou é Estado ou é privado”.
Vejam o exemplo da habitação. Como foi possível, nos anos mais recentes, não termos dado às cooperativas de habitação o relevantíssimo papel que elas já tiveram, no passado no nosso país, em construir casas para tanta gente e em condições mais favoráveis do que por outras vias? 
A esquerda democrática sempre teve, historicamente, ligações às ideias de autogoverno, de descentralização, de autonomia local, de cooperação, de mutualismo, de federação – e nós acabamos, hoje, não só no nosso partido, mas na maior parte dos partidos congéneres, por abandonar tudo isso e tornar-nos mais estatistas.
Dou um exemplo, talvez para vos chocar: porque é que a escola pública, para ser pública, tem de ser do Estado? Porque é que a escola pública não há de integrar escolas cooperativas, escolas emergentes da comunidade local, servindo toda a gente, mas organizadas segundo um princípio associativo?
Porque é que, por exemplo, não pode haver escolas que, sendo públicas, são geridas de acordo com movimentos pedagógicos inovadores, como há algumas privadas nessa base que são bem-sucedidas?
No plano do funcionamento, porque é que as escolas públicas têm de ter menos autonomia pedagógica e de organização do que as escolas privadas?

Se nós queremos convencer a juventude de que não somos tão rígidos como eles pensam — coisa que os afasta de nós – temos de ser mais ousados a admitir que a coisa pública não tem de ser coisa estatal, pode ser gerida de forma social, associada – aquilo a que em certas correntes da tradição socialista se chamava “autogoverno”.
Para combater o fascínio liberal sobre grupos sociais dinâmicos temos de aceitar que é possível prosseguir o bem comum fora da forma estatal – e desenvolver propostas políticas nessa linha. 
Há algo que nos afasta simultaneamente da extrema-direita populista e dos liberais economicistas radicais: é que nós sabemos que a agenda por uma vida melhor não é apenas uma agenda económica, é também uma agenda da luta política pela liberdade. Uma agenda de luta pelos direitos humanos. Uma agenda de luta pelas instituições da democracia. É que para nós não faz sentido que possamos ser servos e acharmos que nessa condição se vive melhor.

E, na prática, não há liberdade só para mim. A minha liberdade só existe e só subsiste ancorada na liberdade dos outros – e reciprocamente. Não há liberdade egoísta, não há liberdade individualista – e, por isso, nós, socialistas, precisamos de continuar a pensar a liberdade de forma diferente dos liberais economicistas. Porque a liberdade pela qual nós lutamos é a liberdade concreta. 

Há muito tempo que, no PS, nos curámos do socialismo autoritário. Mas ainda temos de nos curar do socialismo estatista e centralista.

Para nós, as instituições são centrais na nossa ideia de regime democrático: não somos anarquistas, somos das instituições. Mas não devemos ter medo do socialismo libertário como corretivo, que nos poderia ajudar a enfrentar o desafio neoliberal, embora tenhamos de encontrar soluções alternativas aos utopismos que não contam com a complexidade globalizada das sociedades do nosso tempo. A cura para os excessos liberais não será o estatismo dogmático; será, antes, a pulsão libertária e a pulsão do autogoverno no seio do socialismo mais tradicional.

O mundo está difícil para a esquerda, é verdade. Mas temos de ser capazes de olhar para a história e tentar evitar os erros já conhecidos – vamos tentar cometer erros novos em vez de voltar a repetir os mesmos…
No século XX, designadamente na Alemanha, o fascismo avançou por cima dos ódios entre comunistas e social-democratas. 
Depois disso, também na Europa, os comunistas, onde tomaram o poder, enviaram os socialistas para a oposição, quando não para a cadeia – os socialistas e outras oposições de esquerda.
Em Portugal, foi preciso explicar aos comunistas, nas ruas e nos votos, que para nós não há socialismo sem democracia. Mas também não deixámos que a direita ilegalizasse o PCP, porque não se limpa um erro com outro erro.
E hoje, numa política tão fragmentada, com a esquerda também tão fragmentada, devemos interrogar-nos: seremos nós, sozinhos, o futuro da esquerda democrática?
Ou precisamos de juntar forças para defender o essencial? E juntar forças, com quem?

Insisto sempre, como sempre insistiu Mário Soares, que somos um partido de esquerda. E isso dá-nos certas responsabilidades. Mesmo quando sabemos que a direita democrática é igualmente necessária a uma democracia funcional, não podemos desistir de pensar no futuro da esquerda.

O PCP, podendo ter razões em certas áreas das suas propostas, recusa-se a fazer uma reflexão aberta sobre o que foi o comunismo real – ou, como se dizia então, o “socialismo real”. No passado, expulsou ou destratou quem queria abrir e democratizar o partido – e isso não ajuda nada a confiarmos na sua adesão a princípios de democraticidade que são, para nós, essenciais.
Mas ser comunista não tinha de ser esta incapacidade para criticar a Rússia de Putin pela invasão da Ucrânia. Ser comunista não tinha de passar por fazer de conta que desconhecem o Gulag soviético. 
Houve comunistas que resistiram a tudo isso: 
Imre Nagy foi o comunista que liderou a Revolução Húngara de 1956 contra o governo apoiado pelos soviéticos, foi derrubado pelos soviéticos e depois condenado à morte e executado. 
Alexander Dubček foi líder do Partido Comunista da Checoslováquia e conduziu a Primavera de Praga, em 1968, que tentou humanizar o comunismo e introduzir liberdade e iniciativa no sistema. Foi esmagado pelos tanques soviéticos, mas sobreviveu com uma profissão humilde e veio a ser presidente do parlamento depois da Revolução de Veludo.
Por cá, o nosso PCP sempre apoiou os soviéticos contra as revoluções que queriam democratizar o comunismo. Mas não tinha de ser assim. Seria importante que fossem capazes de fazer uma leitura crítica do seu património.

Caso diferente é o BE. Cristalizou numa retórica muitas vezes inconsequente, numa prática que frequentemente não cuida da qualidade das propostas apresentadas, é muitas vezes primariamente anti-PS (o que ajudou muito a desmoronar a Esquerda Plural, ou Geringonça), mas – e vou chocar-vos com esta afirmação – nas suas propostas políticas não é, na maior parte dos casos, essencialmente diferente de muitos partidos da social-democracia mundial. O PSF (Partido Socialista Francês) é, em muitas coisas, mais radical do que o nosso portuguesíssimo BE…

E o Livre? É um partido que aborrece muito alguns camaradas nossos, até por parecer demasiado um partido de um homem só, que por vezes mistura uma certa ingenuidade com alguma arrogância intelectual – mas alguma coisa nos permite fundadamente negar ao Livre o estatuto de partido da esquerda democrática? Ainda por cima o único, além do PS, que é europeísta...

Quando a esquerda está em clara desvantagem, e vai demorar a sair dessa desvantagem no plano da hegemonia cultural, nós não podemos dar-nos ao luxo da sobranceria e da autossuficiência.

O PS soube fazer as boas misturas no passado: UEDS, ASDI, Lopes Cardoso, Sousa Franco, dois Secretários-Gerais que vieram do MES e um deles chegou a Presidente da República – para citar apenas alguns exemplos notáveis da capacidade agregadora do PS, que foi fazendo o partido amplo e plural que somos hoje. E para sermos agregadores temos de abandonar o pecado do sectarismo. (Sem esquecer que abandonar o pecado do sectarismo é também um caminho necessário na nossa vida interna.)
Também podem ler no livro como fizemos isso em outros momentos da vida do PS, até para sairmos de situações de grande dificuldade. Lembro, apenas, a Convenção da Esquerda Democrática, em 1986.

Para salvar a democracia do assalto dos extremistas precisamos de democracia deliberativa. Não apenas mais participação; também mais deliberação. À democracia não basta o voto, não basta a força, mesmo que seja a força de ter mais votos.
A democracia tem de ser um espaço de dar razões, de escuta das razões de uns e de outros, um espaço de argumentação racional, onde não podemos ser atropelados pelo mero turbilhão das paixões e pelo peso de quem manda mais num dado momento.
Precisamos disso para resistir à gritaria da extrema-direita.

Para termos democracia deliberativa precisamos que os cidadãos aprendam a deliberar. Como podemos ter cidadãos responsáveis se não deixamos, por exemplo, os jovens estudantes serem participantes ativos na gestão escolar? Queremos que estudem Educação para a Cidadania, mas limitamos o seu exercício de cidadania na vida concreta da escola.

A política real joga-se na vida das pessoas, não se resolve em debates de filosofia política. Mas as ideias contam. Nem os materialistas mais empedernidos negarão que as ideias contam – mesmo que digam que as ideias apenas refletem a infraestrutura material. As ideias contam se nos puserem em interação com os outros, se nos puserem a fazer coisas que nos movam no mundo.

Creio que este livro mostra um pouco do processo que o PS foi seguindo para apurar a nossa maneira de transformar ideias em ação.
Temos de voltar a olhar a sério para o mundo.
Temos de voltar a olhar para as nossas ideias sobre o que queremos para o mundo.
Temos, creio eu, de voltar a olhar para a nossa Declaração de Princípios.

Porfírio Silva, Aveiro, Sede do PS, 19 de Abril de 2026
 

(Este texto foi, depois, publicado como artigo de opinião no Ação Socialista, edição de 22-04-2026, o qual pode ser acedido aqui: Os Princípios dos Socialistas e os Desafios de Hoje )

Porfírio Silva, 20 de Abril de 2026
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29.12.25

História das Declarações de Princípios do Partido Socialista



No passado dia 17 de dezembro (de 2025), na sede nacional do Partido Socialista (Largo do Rato), teve lugar a apresentação em Lisboa do meu livro História das Declarações de Princípios do Partido Socialista.

Um dos apresentadores nessa sessão foi Eduardo Ferro Rodrigues, o Secretário-Geral do PS que tomou a iniciativa da actualização da Declaração de Princípios em 2002. O texto resultante dessa actualização é o que está ainda hoje em vigor.

Na sua intervenção, Ferro Rodrigues explicou as razões para a sua tese de que é preciso voltar a actualizar a Declaração de Princípios.

Ferro Rodrigues foi líder do PS num momento muito difícil do partido, exerceu o lugar com grande dignidade (apesar do contexto adverso, esteve quase a derrotar Durão Barroso) e tem, desde então, mantido uma intervenção cívica de elevado nível, pautada por uma coragem moral a toda a prova - que merece o nosso aplauso e gratidão. É alvo frequente da caravana de aldrabões, mas isso só demonstra a valia do seu contributo para a vida pública e a sua verticalidade.

Já tive oportunidade de divulgar a sua intervenção nessa ocasião, quer no Facebook, quer no Youtube (pode ser vista clicando aqui).

Divulgo hoje a intervenção de José Pedro Castanheira, jornalista de renome que, além disso, tem sido um grande constructor de conhecimento comum sobre as últimas décadas de Portugal, quer sobre a fase de construção da democracia, quer sobre o tempo da ditadura e da resistência. É, entre muitas obras de relevo, autor de uma monumental biografia de Jorge Sampaio, cobrindo com grande rigor toda a vida pública do antigo Secretário-Geral do PS e Presidente da República.


Acredito que a visualização desta intervenção de José Pedro Castanheira seja uma boa preparação para a leitura integral da obra, que inclui documentos que, hoje, são de difícil acesso. Boa escuta e boa leitura!


Porfírio Silva, 29 de Dezembro de 2025
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15.12.24

A JS no início dos anos 1980, um testemunho

20:55




Por ocasião do XXIV Congresso Nacional da Juventude Socialista, o Jovem Socialista, pela mão do seu Diretor Diogo Vintém, fez publicar um número especial dedicado a esse momento de passagem de testemunho na organização, como é sempre um Congresso onde muda a liderança (saiu, agora, da função de secretário-geral, o Miguel Costa Matos). Para além dos textos "obrigatórios" num número dessa natureza, este número do Jovem Socialista inclui dois textos sobre a história da JS. São dois textos de propostas e de candidatos, a seu tempo, derrotados em congressos da organização. Um desses textos é da minha responsabilidade e reproduzo-o aqui, para registo. No final, darei a ligação para poderem ler na íntegra este número do órgão central da JS.


***

Aproveito o texto que me pediu o diretor do Jovem Socialista, camarada Diogo Vintém, por ocasião do XXIV Congresso Nacional da JS, o primeiro congresso em muitos anos que ultrapassa aquilo que considero a insuficiência democrática da candidatura única sistemática, para um exercício de estímulo a mais informação e mais reflexão sobre a história da JS. A história da JS é uma história política, não é uma mera cronologia de líderes, e não deve ser caricaturada. Deve, pelo contrário, saradas as feridas dos confrontos passados, ser assumida, debatida e pensada como parte do processo de crescimento do coletivo, grande, livre e plural, que é este partido a que pertencemos. Então…


O momento em que assumi maiores responsabilidades no debate político na JS foi o V Congresso Nacional, em fevereiro de 1984. Fui candidato à liderança, com uma moção intitulada “Com as nossas mãos o futuro, com os militantes a esperança”. Os autores do livro “Juventude Socialista: 30 anos de estórias de Portugal e do Mundo” (2004), escrevem que ocorreu aí a primeira rutura com a continuidade diretiva da JS desde a sua fundação, saindo derrota a lista alinhada com a anterior direção, liderada por Porfírio Silva. Vale a pena contar aqui um pouco do contexto desse Congresso, que são os começos dos já longínquos anos 1980.


O IV Congresso (1981) elegera como secretária-coordenadora a primeira mulher a liderar, em Portugal, uma organização político-partidária com autonomia: Margarida Marques. Ainda não tinham passado 7 anos sobre o 25 de Abril e os socialistas estavam na oposição ao governo da primeira AD. A crise interna do PS, por ocasião da reeleição de Eanes para a Presidência, estava a causar muitas feridas.


Foi durante esse mandato que entrei para o Secretariado Nacional. Pela primeira vez, 5 membros desse órgão eram obrigatoriamente camaradas residentes fora de Lisboa, os 5 Secretários Nacionais de Coordenação Regional, cobrindo todo o território. (Eu entrei para o SN com a coordenação de Aveiro, Coimbra e Viseu). Sistematizou-se, ainda, a prática das reuniões do SN com as Federações.


Foram anos de atividade política intensa, da qual podemos destacar alguns aspetos, em vários planos. A JS elaborou, em colaboração com camaradas do Partido, um projeto de lei de Bases do Sistema Nacional de Educação (antes de qualquer outra iniciativa para aprovar essa lei). Apresentou no parlamento dois projetos-lei para legalização das associações de estudantes (um sobre ensino secundário, outro sobre ensino superior) e um projeto-lei sobre o estatuto dos objetores de consciência ao serviço militar (em tempos de serviço militar obrigatório, a objeção de consciência estava na Constituição, mas não na lei).


Reformulou-se o apoio à participação de socialistas nas associações de estudantes, tendo passado de 5 para 40 as associações do secundário onde estávamos presentes. No superior, as vitórias mais importantes foram na Associação Académica de Coimbra, em Direito (Lisboa) e na Universidade dos Açores.


Tema candente na altura, a JS entrou na luta contra o nuclear (campanhas “Não a Sayago” e “Armamento Nuclear Não, Obrigado”). Em outubro de 1983, a JS realizou uma grande Conferência sobre a Paz e o Desarmamento, com participação de várias organizações socialistas estrangeiras e muitos oradores nacionais de referência, marcando a posição da esquerda democrática, que, querendo travar a corrida aos armamentos, seguia a análise de François Mitterrand, numa Europa ainda dividida pelo Muro de Berlim: vemos que os mísseis estão a Leste e que os pacifistas estão a Oeste. Fui um dos principais responsáveis pela conceção e realização desta conferência, que tinha como objetivo político contrariar a tentativa dos comunistas para instrumentalizar a luta pela paz.


De destacar, do trabalho feito neste período, a criação do Conselho Nacional de Juventude. Por iniciativa da Juventude Socialista, em maio de 1982, sentaram-se à mesa e chegaram a acordo para criar o CNJ, subscrevendo as suas Bases Gerais, 20 organizações de juventude, as mais representativas no espectro partidário e fora dele. Fui um dos subscritores desse documento. Ficou de fora a JSD, que só aderiu mais tarde. É um sinal (triste) das tentativas de reescrever a história que, posteriormente, alguns tenham feito tudo para apagar da história os iniciadores do CNJ, alimentando a ficção de que começou apenas no momento da sua escritura formal de constituição.


Entretanto, a conflitualidade interna, quer no PS quer na JS, era muito elevada neste período. No PS, o IV Congresso (maio de 1981) registara a divisão interna mais virulenta de toda a nossa história. O V Congresso (do PS) baixara um pouco a tensão, mas, principalmente, à custa de uma situação política completamente diferente: o PS estava de novo no governo, formalmente aliado ao PSD. Nas eleições legislativas, a minoria partidária tinha quase completamente desaparecido das listas de candidatos a deputados e do grupo parlamentar. Muitos dirigentes da JS eram (ou eram considerados) próximos da minoria partidária. No governo do Bloco Central, o Ministro da Educação era do PSD – e, vistas as suas políticas, passado algum tempo a JS pediu a sua demissão. (O PSD fazia oposição todos os dias ao governo PS-PSD, mas não era esse o caso do PS…). No cruzamento de todas estas questões, uma parte do aparelho do PS considera que a JS era “oposição” e que era preciso encontrar uma direção mais “tranquila” para os jovens. A minoria da JS aproveitou esse balanço (e o apoio no terreno de muitos funcionários do partido, que foram incentivados a apoiar uma das candidaturas). Com a revolução e o 25 de Abril a deixar de ser tema dominante na vida dos jovens, avançava a passos largos o processo designado como “despolitização” e a direção da JS (e eu próprio, como candidato) era tido como “demasiado ideológico” para os tempos.


Havia, de facto, na altura, clivagens dentro da JS acerca do entendimento que devia ser dado à autonomia da organização e à especificidade da nossa missão junto da juventude portuguesa. Dou um exemplo que está muito vivo na minha memória. Quando o Secretário-Geral do PS entrou no pavilhão onde se realizava o V Congresso, em Tróia – Mário Soares era, nessa altura, Primeiro-Ministro do governo PS-PSD – eu levantei o congresso com uma palavra de ordem que visava a demissão do ministro da educação, do PSD (creio que seria “Seabra para a rua”), na sequência do pedido de demissão que já tínhamos feito publicamente. O meu camarada José Apolinário, o candidato que saiu vencedor desse congresso, alinhou na onda e juntou-se ao pavilhão, que já estava em uníssono a seguir aquela reivindicação. Mas, depois de ganhar o congresso, esqueceu isso e explicava-nos que o partido não gostaria dessa reivindicação… Hoje, quando alguns se queixam de que a JS não faz “o seu trabalho” junto da juventude, lá fora das nossas portas, vale a pena refletir sobre se, realmente, é mais importante que a JS seja a voz do PS junto da juventude ou que a JS seja a voz da juventude junto do PS…


Retrospetivamente, há quem, mais jovem ou menos jovem, tenha alguma dificuldade em entender o que era Portugal no princípio da década de 80 do século passado. Li, há algum tempo, numa das publicações da JS sobre os 50 anos da organização (dirigida pelo camarada Diogo Vintém, diretor do Jovem Socialista), que alguém teria escrito: “1984 marcou a necessária rutura com um passado necessariamente romântico. Em Congresso Nacional, a JS altera a sua linha política, agora coerente com as posições económico-sociais que o PS vinha defendendo. Do socialismo autogestionário à defesa de uma economia de mercado regulada pelo papel do Estado foi o passo de gigante que a Juventude Socialista deu nos duros anos 80”. É difícil imaginar um retrato mais distorcido do que se passava na JS (e no PS) (e no país) naqueles anos. Passado pouco tempo, o PS registaria o pior resultado eleitoral legislativo da sua história e 10 anos de Cavaco Silva estavam prestes a começar. A esquerda estava em dificuldade – e os socialistas, a principal força da esquerda, também. O tempo da despolitização jogava, principalmente, contra a esquerda moderada. E, mais do que tudo, entre a juventude. Pensar nisso seria pensar nas condições de ação política naquele tempo. Isso seria mais útil, para os tempos de hoje, do que qualquer tipo de mistificação (as mistificações são sempre favorecidas pela falta de conhecimento histórico: onde é que alguém pode ver, nas moções apresentadas ao congresso de 1984, o tal socialismo autogestionário?!)


Uma das tarefas mais continuadas que me ocuparam durante o tempo em que fui dirigente nacional da JS a nível executivo, além de ter sido responsável pela Formação, foi a publicação do Jovem Socialista. Exerci essa responsabilidade como chefe de redação, porque a Comissão Nacional sofreu durante largos meses de falta de quórum (provocado, como parte da querela interna), impossibilitando a eleição do diretor. Assim, assumindo a secretária-coordenadora o papel de diretora-interina, foi como chefe de redação que fiz publicar 11 números do órgão central da organização, entre novembro de 1982 e janeiro de 1984. Desses, os 9 números regulares saíram em formato de revista e os 2 últimos (o nº 76, com os materiais do V Congresso; o nº 77, com uma retrospetiva do Jovem do IV ao V Congresso) saíram em formato de jornal. Fazendo um pouco de arqueologia, deixo-vos uma lista exemplificativa dos textos publicados no Jovem Socialista entre o IV e o V congressos da JS. Vejam (e depois da lista faço ao leitor uma pergunta simples):


The Clash, o rock contra o racismo, Não ao armamento nuclear, Os jovens, o 25 de Abril e a Música, Masculino/Feminino: factos e imagens, Campismo é cultura, Movimento de escritores novos, Camões e a sua obra, Defender o meio ambiente, Estatuto do Objetor de Consciência, Dossier Turismo Juvenil, Natal: um produto para consumo? Os mistérios de Milton Nascimento, Discocrítica, Planeamento familiar, Entrevista com Mário Soares,  Os Jovens e o serviço militar, Bob Marley ao Jovem Socialista, Entrevista com Filipovic, Nuclear: dizemos por que não, JS recebe resistentes salvadorenhos, O jovem consumidor e o desporto escolar, Objeção de Consciência, Vida Sexual da Juventude (inquérito e entrevista com Maria Belo), JS em Beirute, durante a invasão israelita, Entrevista com Rosa Mota, Desporto associativo em Aveiro, Campanha para as autarquias: entrevista com Eduardo Pereira, Entrevista com um objetor da consciência francês,  O negócio das armas, RTP, para quê?, Entrevista com Soares Louro sobre Comunicação Social, Comer, perigo de morte?, Reportagem: «Eu abortei!», Perspetivas do movimento ecológico internacional, Os comunistas e o nuclear, A revolução na Nicarágua, Livros proibidos no regime fascista, The Wall (Pink Floyd), O movimento dos Cineclubes,  Lançamento do Prémio Literário Jovem Socialista, Estudantes Socialistas em Encontro Nacional, Cultura em debate (depoimentos de António Reis, Margarida Projecto, Fátima Murta e Fernando Alçada), Entrevista com dois artesãos de Idanha-a-Nova, Sobre a Lei da Defesa Nacional, Defesa do Consumidor, Defesa do Património Natural e Cultural, A civilização do «Macho», A Imprensa de juventude no estrangeiro, Plano de Emprego de Jovens, O Ambiente na Constituição, O Rock dos nossos tempos, Banda Desenhada, Edição Especial: Política de Juventude da JS, Movimento Ecológico Internacional, Desarmamento nuclear, Repúblicas coimbrãs, Dia do Estudante; entrevista com Jorge Sampaio, dirigente associativo em 1962, O que é a regionalização, A loucura militar, Serviço cívico: inquérito de rua, Mapa por um mundo solidário, Entrevista com Aquino de Bragança, intelectual moçambicano, Relatividade estrita: apontamento científico, Beatle John, Que fomento desportivo em tempo de crise,  Poesia britânica, Grande inquérito «E agora, socialistas?»,  O erotismo de andar de bicicleta, Marx, quem és tu?, Objeção de consciência no Parlamento Europeu,  Fala-nos um palestino, Entrevista com Soeiro Pereira Gomes, As dimensões do Universo, Humor e política, História do Xadrez, Declaração sobre a Paz, Os homens ou as armas?, Entrevista com Manuel Alegre (sobre o seu livro “Babilónia”), O roteiro dos ecologistas, Alimentação em férias, Pratique desporto, A mulher em Os Lusíadas, A arte das aranhas, Mulher... em chinês, Número especial sobre desarmamento, Entrevista com dirigente da JS espanhola, Oposição filipina ao Jovem Socialista, A Juventude Socialista e o Governo: inquérito de rua, A educação sexual, Reivindicações estudantis, Existirão outros sistemas solares?, Cuidado com o Pato Donald, Como vamos de música.


Lendo esta lista de assuntos tratados no Jovem Socialista, no início dos anos 1980 (tinha, na altura, uma tiragem de 5000 exemplares e era distribuído gratuitamente por todas as estruturas, uma das poucas despesas que o Partido não nos regateava), parece-vos que denota uma organização paleolítica?


(O número do Jovem Socialista onde este texto foi editado pode ser lido na íntegra ou descarregado aqui: Jovem Socialista nº 537, dezembro 2024)



Porfírio Silva, 15 de Dezembro de 2024)
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