5.1.10

constitucionalistas de emergência


Segundo Rui Crull Tabosa, no Corta-Fitas, «o referendo não é apenas um instrumento de democracia directa, mas sim a mais nobre e autêntica manifestação da soberania popular no processo de formação da vontade política nacional a respeito de um determinado assunto concreto».
Pelos vistos, a democracia representativa deve ser para "assuntos não-concretos". Assuntos abstractos, provavelmente. O resto devia ser por referendo.
A conversa ali é sobre casamentos gay. Mas não está, para mim, em causa a diversidade de opiniões acerca dessa matéria concreta. O que me interessa aqui é a capacidade para torcer toda a argumentação, qualquer argumentação, em nome de qualquer interesse de momento. Falar do referendo como resposta universal aos problemas da formação de decisões colectivas numa democracia representativa, deixando de fora apenas os "assuntos abstractos", seria facilmente entendido como uma piada de café, nunca como uma proposta reflectida - não fora o espírito do "vale tudo, incluindo arrancar olhos, para defender o nosso ponto de vista". Espírito que, infelizmente, se tornou muito popular. Ou popularucho?