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12.5.10

desonestidade intelectual

10:11

Um tal Carlos Santos escreve no corta-fitas um texto com vários tiques de desonestidade intelectual. (Se é o mesmo Carlos Santos cujos métodos eu vi a funcionar "na minha própria casa", não espanta.)

Desde logo, cita-me em violentação do contexto. Eu escrevi, a propósito de um post da Palmira Silva a convidar ao preenchimento de um formulário para formalizar a apostasia: "confesso que já não há pachorra para esta fixação". O senhor Santos cita-me, enviesadamente, para atacar outro texto de outra pessoa. Espero que as suas citações académicas não sejam tão rigorosas como esta.

Depois, o senhor Santos mente descaradamente: afirma que eu sou um ateu convicto, quando eu não posso ser um ateu convicto: não sou ateu, nunca fui, ponto final. Sou agnóstico, como já expliquei repetidas vezes (p.ex. aqui no blogue). Isso não interessa a ninguém, como é óbvio. Salvo querendo fazer uma afirmação sobre as minhas crenças: nesse caso convém não falar de cor. Neste caso, o falar "descuidado" do senhor Santos convinha-lhe para dar mais molho ao seu "argumento".

Fui, até, militante católico durante muito tempo. Mas nem preciso disso para ver que o texto de Carlos Santos é, não apenas nas minúcias acima, mas no seu ponto essencial, uma obra de arte de desonestidade intelectual. A (talvez) possível distinção conceptual entre a Igreja de Cristo e a Igreja dos homens, sendo isso mesmo: uma distinção de noções, não justifica, muito menos implica, uma distinção substancial. Aquilo que o Papa disse não é para ser sujeito à exegese matreira de tipos que são mais papistas que o Papa. Ou que, eventualmente, fazem "religião" como fazem "política": com os mesmos truques. Isso, aliás, explica este empenho do inefável senhor Santos.

5.1.10

constitucionalistas de emergência

10:31

Segundo Rui Crull Tabosa, no Corta-Fitas, «o referendo não é apenas um instrumento de democracia directa, mas sim a mais nobre e autêntica manifestação da soberania popular no processo de formação da vontade política nacional a respeito de um determinado assunto concreto».
Pelos vistos, a democracia representativa deve ser para "assuntos não-concretos". Assuntos abstractos, provavelmente. O resto devia ser por referendo.
A conversa ali é sobre casamentos gay. Mas não está, para mim, em causa a diversidade de opiniões acerca dessa matéria concreta. O que me interessa aqui é a capacidade para torcer toda a argumentação, qualquer argumentação, em nome de qualquer interesse de momento. Falar do referendo como resposta universal aos problemas da formação de decisões colectivas numa democracia representativa, deixando de fora apenas os "assuntos abstractos", seria facilmente entendido como uma piada de café, nunca como uma proposta reflectida - não fora o espírito do "vale tudo, incluindo arrancar olhos, para defender o nosso ponto de vista". Espírito que, infelizmente, se tornou muito popular. Ou popularucho?