23.12.09

a blogosfera é um lugar estranho


Vítor dos Reis, Acaso I: Três Visões da Constelação de Ruisdael, 2002


Posso afirmá-lo. Fiz uma experiência com as minhas intuições. Passo a relatar.
Há na blogosfera uma coisa a que chamam “correntes”, por parecer aquela outra coisa feita de variantes do “se não enviares esta mensagem a dez pessoas, vais partir a unha do indicador direito”. Na blogosfera, como não podia deixar de ser, a coisa é mais subtil: “indica as dez pinturas que mais te fazem doer a cabeça e passa este desafio a dez outros blogues” – sendo que a penalização implícita para o incumprimento varia entre o “nunca mais linko o teu blogue” e o “se calhar nem conheces dez blogues a quem passar o desafio” .
Uma dessas correntes pede que se indiquem “10 livros que não mudaram a minha vida”. Livros que, embora lidos, não deixaram mancha nenhuma na alma, nem em qualquer outra parte do corpo. (Ai! a alma não faz parte do corpo?! Pronto, desculpem.) Ora, eu decidi fazer uma experiência com a natureza da blogosfera, ampliando um incidente que já tinha algum tempo. Desafiado para aquela corrente, já há uns dois anos, respondi com uma lista de livros imaginários, mas concebidos segundo um certo programa. Não houve nenhuma reacção a essa minha resposta, o que confirmou a minha convicção de que essas correntes servem, na maior parte dos casos, apenas para aquecer a rede. Mas admiti que fosse uma interpretação abusiva da minha parte : a minha resposta “torta” não tinha sido “denunciada” por “respeito” ao que podia ser considerado um desvio da corrente.
Recentemente decidi testar a hipótese de que, realmente, as pessoas não lêem grande parte daquilo que fazem de conta ler na blogosfera. Isso, aliás, ajudaria a explicar como há pessoas que, tendo empregos e trabalhos que todos conhecem, passam por ler regularmente dezenas de blogues. A explicação seria essa: não lêem, passam os olhos. E adiante.
Para testar a hipótese coloquei em andamento uma versão daquela corrente, desta vez chamada “10 livros que não mudaram a minha vida (sabe-se lá por quê)”, arranquei o exercício com a minha lista programática de livros imaginários, e acrescentei que essa lista era “em si mesma”, “o mote para o que está em causa neste desafio”, acrescentando que, sem essa lista de partida, o desafio não chegava “bem a ser explicado”. Ainda me referia à coisa como um pedido de “leituras enviesadas” a dez blogues.
Resultado da experiência. Quase ninguém respondeu, mas isso é normal: a maior parte das vezes convido blogues que não dão cavaco a estas coisas, tal como quando escolho blogues minoritários para a minha “reserva pessoal” eles acabam rapidamente por passar dias ou semanas sem escrever uma linha. Mas isso vem dos meus gostos, não me penaliza. Tirando isso, houve quem (dando ou não uma lista de resposta) desse sinal de ter compreendido a coisa, quanto mais não fosse com um “smile” de cumplicidade para “as referências”. Outros, simpaticamente, responderam como se esta fosse mais uma versão da velha corrente: dizendo-o explicitamente ou mostrando-o por “actos e omissões”. Outros até comentaram no género "essa é velha".
Conclusão: não pensem que na blogosfera se lê aquilo para que se olha. A blogosfera é, nessa medida, um espelho do país. Mas isso não me surpreende. Tudo ao cimo da Terra é espelho de tudo ao cimo da Terra. Para não o ser, é preciso fazer um esforço. Mas isso está fora de moda. E talvez até fora de quadra.

um poema do poeta valter hugo mãe


O Herberto Helder tem duas

pernas e dois braços, dois olhos,

tem nariz e boca e come, vive

numa casa, espreita pelas janelas,

por vezes sai à rua, sozinho ou

acompanhado, a falar, apanha

chuva, liga a televisão, sabe onde

fica a França, lembra-se quando

era pequenino, inclusive

teve mãe e pai. É

impressionante o quanto um poeta

se pode assemelhar

às pessoas! A última vez que

falei com ele mandou-me um abraço.





valter hugo mãe



22.12.09

para gente que gosta de gatos

eu quero dar-vos uma prenda de natal

20:21

mau tempo

09:25

Cavaco. Urgência máxima para as leis do PS que a oposição chumbou.


«A suspensão do Código Contributivo e do Regime de Pagamento Especial por Conta (PEC), aprovados nas últimas semanas pela oposição, entrou ontem em Belém com um pedido de urgência e já estão sob a análise da Presidência, sabe o i. As duas reformas estavam em vigor desde a maioria absoluta do PS mas foram chumbadas, já depois das eleições, pela oposição - que exigiu a suspensão imediata das medidas. Agora a rapidez exigida tem um motivo: o Código Contributivo entraria em vigor a 1 de Janeiro de 2010 e até a sua suspensão ser aprovada por Belém impera a actual lei - o que seria uma situação juridicamente complicada de resolver. Esta suspensão tem ainda um impacto financeiro: os dois diplomas - e a redução do pagamento por conta às empresas - retiram ao Estado cerca de 720 milhões em receitas, um número a que a Presidência poderá ser sensível no actual quadro das finanças públicas.»

Tal como aqui escrevemos a 11 de Novembro passado, «Cavaco Silva, um PR que no que vai de mandato não se tem coibido de vetar diplomas do Parlamento, tomará que atitude quando lhe chegarem às mãos os resultados deste governo de soviete? Se o Presidente se tornar cúmplice desta forma de "governo da Assembleia", isso não será por força do destino. Será por opção política. Cá estaremos para avaliar essas opções.»

Cá estamos, pois. Ou terá Sua Excelência outras coisas a prender a sua atenção?

21.12.09

natal / cientistas / imagens




Não sei se conseguem ler a legenda do cartão de Boas Festas, mas é assim: «Imagem: Embrião de galinha de 1 dia com células fluorescentes marcadas com proteína fluorescente verde (GFP».

mono, estéreo, poli

10:12

João Soares culpa Cavaco por “crispação disparatada” entre Belém e São Bento.

Quando, da área do PS, só se ouve a "voz oficial bem comportada" da direcção, da linha absolutamente diplomática e cordata haja o que houver, dizem que o PS é monolítico. Provavelmente, nessas fases, com razão. É, então, de saudar que o PS mostre toda a sua diversidade, incluindo pela voz dos que nunca hesitaram em dizer o que toda a gente pensa sem ter coragem para o assumir. João Soares é um dos que, de há uns anos a esta parte, se desempenha desse aspecto da "alma" do PS. E tanto que o PS precisa de gente que não fale apenas pela alma do governo! (Sem descurar a responsabilidade de ser governo, claro.)

propaganda

20.12.09

Hanna e Martin, no Teatro Aberto



Ontem fomos ao Teatro Aberto à estreia de Hannah e Martin, de Kate Fodor. O Hanna é de Hanna Arendt, o Martin é de Martin Heidegger.
Para alguns, Heidegger foi um grande filósofo, para outros um palavroso enfatuado. Em qualquer uma dessas categorias, foi um dos grandes do século XX. Enquanto Heidegger pactuou com o nazismo, sendo um admirador de Hitler, e agiu, enquanto reitor da Universidade de Freiburg, como um agente do regime, qualquer que fosse o grau de convicção com que agiu, Arendt, também ela uma pensadora destacada do mesmo século, era judia, assumiu (e sofreu) essa condição e reflectiu (nomeadamente) sobre o que aconteceu aos judeus por causa da Alemanha. E por causa de homens como Heidegger. A forma como Arendt compreendeu "a banalidade do mal", o facto de que não é preciso fazer grandes planos de maldade para fazer muito mal aos outros, bastando deixar-se andar e "fazer o seu trabalhinho sem importância", deveria tornar-lhe mais difícil aceitar as explicações de Heidegger. E por que haveria isso de ser importante?
É que Arendt foi discípula do professor Heidegger, a quem admirava e por quem tinha sido formada como pensadora. Arendt admirava a profundidade da filosofia heideggeriana. E Hanna e Martin foram amantes durante um tempo. E isso complicava ainda mais a possibilidade de encontrarem uma resposta deles para um magno problema teórico e humano: a filosofia de Heidegger tinha alguma coisa essencial a ver com o nazismo de Heidegger? Que o grande pensamento está sempre possivelmente à beira do abismo, já sabemos. Mas, naquele caso, que importância teve o abismo na própria formação do pensamento?
Não é fácil colocar estas questões em teatro. Kate Fodor não esteve mal nessa tarefa, se queria uma peça que pudesse ser vista por mais do que iniciados ao pensamento de Heidegger e de Arendt. O texto escolhe as figuras dramáticas essenciais para a colocação do problema: Martin Heidegger, a sua mulher (nazi dedicada ao partido e à carreira do marido), Hanna Arendt, o filósofo Karl Jaspers (que era amigo e admirador de Heidegger mas não lhe perdoou o nazismo). O essencial do teatro de ideias estás nestas personagens.
O actor Rui Mendes faz Martin, Ana Padrão faz Hanna. Rui Mendes está desigual nas duas partes do espectáculo. Na segunda parte, depois da guerra, tratado como nazi, Heidegger está a fazer as contas com o mundo do erro da sua participação política, a tentar mostrar que acreditou na pureza inicial do nazismo e de Hitler mas foi usado (e abusado) pelo andamento dos acontecimentos e que a sua "solução" não era a "solução final". Aí, Rui Mendes consegue mostrar um homem envelhecido, acossado, mas a dar luta, a resistir violentamente ao julgamento do seu nazismo, a mostrar que a sua culpa não é a do cúmplice. Já na primeira parte, onde a violência que era preciso fazer passar era outra, era a violência do pensamento de Heidegger, a atracção fatal de uma filosofia radical por ir à raiz, o apelo de um pensar que colocou a inteligente Arendt na dependência do professor - a essa violência do pensamento Rui Mendes não foi capaz de dar expressão. Faltaram-lhe olhos para isso. Não se via nos olhos do actor o fogo da personagem, apesar de essa culpa ser partilhada com o texto, que tão pouco é capaz de agarrar esse Heidegger.

Já Ana Padrão, como Hanna Arendt, está muito bem quase todo o tempo (apesar dos vários deslizes graves desta estreia), conseguindo representar bem a dupla face da sua personagem: a atracção da mulher inteligente, a inteligência da mulher atraente. Hanna perde a inocência com Martin, provavelmente em mais do que um sentido, e faz disso a força da sua personagem, na qual há um constante deslocar de carga entre bombordo e estibordo, balançada pelo movimento do barco no meio da tempestade. Mas o que guia sempre essa mulher é a força do seu pensamento, mesmo quando hesita, mesmo quando acusa Heidegger, mesmo quando o defende. E Ana Padrão permite-nos ver isso e tem, por isso, uma grande interpretação. O único erro da interpretação de Ana é que Hanna nunca envelhece naqueles anos todos, o que certamente teria tido a sua importância, até na relação com Heidegger: a rapariga fascinada tinha cedido o lugar à pensadora afiada - e isso haveria de ter consequências, para a relação entre ambos e para a independência de espírito com que Hanna fez coisas que sabia muitos não lhe perdoariam (como defender que o ex-nazi Heidegger deveria poder voltar a ensinar na Alemanha depois da guerra).
Irene Cruz, como mulher de Martin, e Luís Alberto, como Karl Jaspers, têm papéis menos pesados, mas muito importantes para este teatro de ideias com pessoas dentro - e desempenham-nos muito bem.
Uma noite bem passada, um espectáculo que valeu a pena. E que recomendamos. Para quem não esteja minimamente familiarizado com o tema, convém ir um bocadinho mais cedo e ler o programa, com materiais muito úteis.