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4.2.10

procuro a minha vida passada

16:41


«É óbvio que não deveria constituir uma surpresa por aí além descobrir que a história da nossa vida incluía um acontecimento, algo de importante, que desconhecemos por completo – que a história da nossa vida é em si mesma, e por si mesma, algo a respeito do qual sabemos muito pouco.»

Philip Roth, Casei com um comunista, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999, pp. 26-27


23.12.09

a blogosfera é um lugar estranho


Vítor dos Reis, Acaso I: Três Visões da Constelação de Ruisdael, 2002


Posso afirmá-lo. Fiz uma experiência com as minhas intuições. Passo a relatar.
Há na blogosfera uma coisa a que chamam “correntes”, por parecer aquela outra coisa feita de variantes do “se não enviares esta mensagem a dez pessoas, vais partir a unha do indicador direito”. Na blogosfera, como não podia deixar de ser, a coisa é mais subtil: “indica as dez pinturas que mais te fazem doer a cabeça e passa este desafio a dez outros blogues” – sendo que a penalização implícita para o incumprimento varia entre o “nunca mais linko o teu blogue” e o “se calhar nem conheces dez blogues a quem passar o desafio” .
Uma dessas correntes pede que se indiquem “10 livros que não mudaram a minha vida”. Livros que, embora lidos, não deixaram mancha nenhuma na alma, nem em qualquer outra parte do corpo. (Ai! a alma não faz parte do corpo?! Pronto, desculpem.) Ora, eu decidi fazer uma experiência com a natureza da blogosfera, ampliando um incidente que já tinha algum tempo. Desafiado para aquela corrente, já há uns dois anos, respondi com uma lista de livros imaginários, mas concebidos segundo um certo programa. Não houve nenhuma reacção a essa minha resposta, o que confirmou a minha convicção de que essas correntes servem, na maior parte dos casos, apenas para aquecer a rede. Mas admiti que fosse uma interpretação abusiva da minha parte : a minha resposta “torta” não tinha sido “denunciada” por “respeito” ao que podia ser considerado um desvio da corrente.
Recentemente decidi testar a hipótese de que, realmente, as pessoas não lêem grande parte daquilo que fazem de conta ler na blogosfera. Isso, aliás, ajudaria a explicar como há pessoas que, tendo empregos e trabalhos que todos conhecem, passam por ler regularmente dezenas de blogues. A explicação seria essa: não lêem, passam os olhos. E adiante.
Para testar a hipótese coloquei em andamento uma versão daquela corrente, desta vez chamada “10 livros que não mudaram a minha vida (sabe-se lá por quê)”, arranquei o exercício com a minha lista programática de livros imaginários, e acrescentei que essa lista era “em si mesma”, “o mote para o que está em causa neste desafio”, acrescentando que, sem essa lista de partida, o desafio não chegava “bem a ser explicado”. Ainda me referia à coisa como um pedido de “leituras enviesadas” a dez blogues.
Resultado da experiência. Quase ninguém respondeu, mas isso é normal: a maior parte das vezes convido blogues que não dão cavaco a estas coisas, tal como quando escolho blogues minoritários para a minha “reserva pessoal” eles acabam rapidamente por passar dias ou semanas sem escrever uma linha. Mas isso vem dos meus gostos, não me penaliza. Tirando isso, houve quem (dando ou não uma lista de resposta) desse sinal de ter compreendido a coisa, quanto mais não fosse com um “smile” de cumplicidade para “as referências”. Outros, simpaticamente, responderam como se esta fosse mais uma versão da velha corrente: dizendo-o explicitamente ou mostrando-o por “actos e omissões”. Outros até comentaram no género "essa é velha".
Conclusão: não pensem que na blogosfera se lê aquilo para que se olha. A blogosfera é, nessa medida, um espelho do país. Mas isso não me surpreende. Tudo ao cimo da Terra é espelho de tudo ao cimo da Terra. Para não o ser, é preciso fazer um esforço. Mas isso está fora de moda. E talvez até fora de quadra.

25.11.09

estas coisas são mais simples do que parecem




Tem toda a razão o Eduardo Pitta, do Da Literatura.
Estas coisas são mais simples do que parecem.
Tão simples como isto: os apoiantes - sejam fervorosos apoiantes, simpatizantes moderados, companheiros de estrada, militantes do mal menor, ou qualquer outro grau na escala - dizia eu: os apoiantes deste governo deviam ser proibidos de expressar opiniões em público. Passados à clandestinidade, não, já que convém que continuem a mourejar e estejam bem à vista para melhor identificação e controlo. Mas deviam ser silenciados. Aquilo que é permitido, e aplaudido, e premiado, em qualquer escriba que jure por alma de sua mãe que Sócrates é um filho de p***, é, pelo contrário, um crime de lesa-pátria se ocorrer na pena de qualquer desgraçado que não cumpra o ritual diário de cuspir em cima da "mãozinha". Esta é a cultura que muitos andam por aí a plantar, por variadas vias: desde conversas em família para intelectuais comprometidos em televisões simpáticas, até militantes do insulto soez em caixas de comentários.
À sombra dessa "cultura" medra uma nova classe de pidezinhos de meia tigela: aqueles tipos que googlam o teu nome e depois, pensando que te toparam, à falta de compreensão do que lêem implicam com coisas que não perceberiam nem que comessem enciclopédias ao pequeno almoço. São como aqueles pides que deixavam passar textos retintamente oposicionistas por nem lhes passar pela cabeça o que aquilo queria dizer. E, em geral, fazem isso a coberto de identidades manhosas, nem isso os inibindo de atacar com pedras e ferros os que escrevem sob pseudónimo. Mas, do fundo da sua caverna escura, mostram ter resolvido, afinal com facilidade, o problema da avaliação de desempenho de todas as classes profissionais: qualquer tolo que tenha um ódio cego a Sócrates, ao PS ou a este governo é, apenas por isso, o mais competente avaliador universal de qualquer distraído que ainda não se tenha convertido à mesma religião.

Ah, já me esquecia: isto tem tudo a ver com a minha política de aprovação de comentários aos meus posts. É só para que não venha ninguém ao engano.