11.12.09

a continuação por outros meios

14:39
Vamos supor que as palavras dos líderes da católica apostólica romana igreja, a começar pelo bispo de Roma, são ouvidas pelos que se consideram parte dessa igreja, ou seus seguidores. Vamos supor que isso implica que essas palavras influenciam o comportamento desses seguidores. Vamos supor que, por isso (por causa da orientação oficial da romana instituição), há um número significativo de pessoas que abominam o uso de preservativo e que um subconjunto dessas passa por situações em que, não usando preservativo, contraem doenças que de outro modo podiam ser evitadas. Não estou a dar nada disto por certo, estou apenas a conjecturar um nexo entre o facto de certas pessoas darem voz a certas posições e o facto de esses ouvintes atentos e conformes adoptarem certos comportamentos com certas consequências. Seria razoável determinar um grau de responsabilidade pela contracção de tais doenças, responsabilidade associada à expressão de ideias que influenciam o comportamento dos outros. No caso concreto, muitos fazem essa acusação aos hierarcas da católica igreja. Uma forma simples, mas correcta, de dizer isto é: certas ideias matam.
O meu ponto aqui é a extensão desse fenómeno: que a expressão de certas ideias seja responsável por certos comportamentos em sociedade e pelos custos que eles acarretam para essa mesma sociedade, tanto os custos inscritos nas contas dos autores como os inscritos nas contas dos que indirectamente pagam as favas.
O nosso país continua a pagar as favas da indigência que uma densa cortina de expressão e ampliação de opiniões lança sobre o país, sem que seja possível criar a consciência de como essas opiniões matam. O país tem reais problemas: pessoas e organizações pouco qualificadas, desigualdades injustificadas por não corresponderem ao diferencial de contributo que cada um dá à comunidade, um Estado que continua a não constituir um garante de aspectos essenciais do “bem comum” básico que não podem depender do sucesso económico das pessoas ou do interesse mercantil das actividades. Continuamos a ser pobres, como país. Mas as ideias que ocupam o “espaço público” são completamente orientadas para evitar que se façam os verdadeiros debates – e são usadas para “fazer política por outros meios”. Já não é a guerra que é a continuação da política por outros meios, nem a política a continuação da guerra por outros meios. A dissolução do debate político – como devemos viver juntos – pelos inspectores de costumes, que roubam à justiça o apuramento da “verdade” e se mascaram de moralizadores a quem cabe acender as fogueiras e escolher as vítimas, isso é que é mesmo a continuação da política e da guerra por outros meios. Só que os meios são o vale tudo. E o preço é a incapacidade para que a comunidade política – o conjunto dos cidadãos, com as instituições de que se dotaram – pense a sua situação e decida o seu futuro. O objectivo é claro: criar uma situação em que os portugueses tenham tanta capacidade para decidir como teriam se estivessem a afundar-se no mar profundo ou a arder num labirinto em chamas.
Já faltou mais.
Entretanto, vamos discutindo coisas interessantes. Como saber se é Soares ou Alegre que tem, ou teve, mais o pé dentro ou fora do PS. Outros, mais ladinos, tratam da mercearia.

10 livros que não mudaram a minha vida (sabe-se lá por quê)

12:58


O Natal, e a sua indústria das prendas, tem o condão de me irritar. Ainda por cima, sendo coisa a  que (quase) não se consegue fugir sem dar inúmeras explicações. Apetecia-me ter uma veia surrealista para fintar a correria. Mas isso não tem quem quer.
Como modesta alternativa, vamos propor um exercício de deambulação pelo labirinto. O que propomos a dez outras casas da blogosfera é que indiquem publicamente "10 livros que não mudaram a minha vida (sabe-se lá por quê)" e desafiem outros blogues (dez outros? não necessariamente) a fazer o mesmo.
Deixo, seguidamente, a minha lista de "10 livros que não mudaram a minha vida (sabe-se lá por quê)", que, em si mesma, é o mote para o que está em causa neste desafio - sem o mesmo chegar bem a ser explicado. Listo, depois, os dez desafiados para nos contarem das suas leituras enviesadas.

1 – René Descartes, O erro de Damásio, Haia, Editora do Museu

2 – Ivan Denisovitch, Um dia na vida Alexander Soljenitsin, Varsóvia, Editora Reverso

3 – Karl Marx, Pour Althusser, Carnaxide, Edições Novo Progresso

4 – Foucault, O pêndulo de Eco, Torino, Editora Técnica

5 – Sigmund Freud, La mégalomanie de Israel Rosenfield, Paris, La librairie do XXème siècle

6 – Sísifo, O mito de Camus, Argel, Editora Existência

7 – Símon Bolívar, Garcia Marquez en su laberinto, Caracas, Editora Mondadori

8 – Fausto, Goethe, Bona, Editora do Ministério da Ciência

9 – Ulisses, James Joyce, Tróia, Editora Exílio Obscuro

10 – Brodie, El informe de Borges, Buenos Aires, Editora MC


Esta mensagem vai para:











atenção aos barcos que volteiam


Como escreve o Eduardo Pitta:

No âmbito do Caso CTT, o Ministério Público acusou 16 pessoas de gestão danosa, branqueamento, participação económica em negócio e outros crimes. Em português: acusou-os de corrupção. Em causa, a venda de dois edifícios, um em Lisboa, outro em Coimbra. Prejuízo: 13,5 milhões de euros.

Um desses 16 arguidos chama-se Carlos Horta e Costa. Foi secretário-geral do PSD durante a presidência de Marcelo Rebelo de Sousa. Foi nomeado presidente dos CTT em 2002, por decisão de Durão Barroso. Mas como, ao contrário de Armando Vara, Carlos Horta e Costa não nasceu em Vilar de Ossos, nem foi caixa de banco, nem almoça (I Presume!) com sucateiros, os media tratam-no como deviam tratar toda a gente: com respeito. Nada contra.

Ler, na íntegra, Gente fina é outra coisa.

manifesto anti-cuspo


O Rui Herbon dá-nos a ler:

parar um pouco para lerem um aviso de Virgílio Ferreira (Escrever, página 215), que aqui com gosto e a custo zero lhes ofereço: «Não digas. Não digas mal do país, ou seja, de ti. Terás talvez a ideia de que o dizeres mal te separa do resto e te alça a ti a uma posição altaneira. Não penses. Fazes parte daquilo em que cospes, és pertença dessa sujidade. A grandeza de uma ofensa tem que ver com ela própria. A grandeza do cuspo é o escarrador que és tu. Aprende o orgulho de ti na grandeza ou na miséria. E se queres condenar a miséria que também é tua, fala um pouco grosso que não te fica mal. Podes talvez lamentar mas não escarnecer. Se cospes tornas visível o cuspo naquilo em que cuspiste. Como queres que os outros te respeitem se tu mesmo não o fizeres? Para o lixo há recipientes apropriados em que esse lixo não se vê. Não cuspas mais no país para que os outros não se enojem do cuspo em que revelas a terra que é tua e que, portanto, és tu».

E a que vem tudo isto? Tudo explicadinho no A escada de Penrose.

corrupção (e sucedâneos)



Nem tudo o que parece é. A demagogia é o que parece. Venha de onde vier. Táctica política é táctica política, é uma coisa que se pode discutir e os políticos têm de fazer isso. Mas tudo o que sirva para misturar água benta e cantares celestiais com um problema em que o que deve interessar são os resultados - é pura aldrabice. Ou pior.

N' A Forma Justa vale a pena ler Um comentário (mais um) sobre corrupção.

(É por estas e por outras que estou como o Fernando Pessoa, que o livrinho distribuído hoje com o i me lembra: Prefiro rosas, meu amor, à Pátria / E antes magnólias amo / Que a glória e a virtude.)

Man Controls Robotic Hand with Mind

10:13





10.12.09

«Os Lusíadas», versão 2.0



Jogo contra a Pobreza de Zidane e Ronaldo vai ser na Luz.


Ainda pensei que o título devesse ser, no mínimo, e para usar apenas as mesmas palavras, qualquer coisa como "Jogo de Zidane e Ronaldo contra a pobreza vai ser na Luz". Mas não, Zidane e Ronaldo, uns perdulários, esturraram a massa toda e agora vêem-se nestes apuros.
O Público, mesmo depois da saída do sr. Fernandes, continua a praticar a língua portuguesa nos limites da culinária.

normalidade absoluta

mais esquerdistas

14:36

o medo que eu tenho destes radicais



O Rui Herbon, no seu A escada de Penrose, fala do caminho que o Brasil tem feito nos últimos anos. Titula O país da alegria. E destaca o papel de Lula. Só falta acrescentar uma coisa: quando Lula se candidatou a Presidente, a vozearia dos que alertavam contra os perigos de tal radical - era grande. Como é sempre grande o ruído dos meios quando se aproxima alguém que possa mudar o ram-ram. É bom lembrar.


ninguém vive uma vida por outrém

14:20



Sam Jinks, Still Life, Pietá, 2007
(na Arte Lisboa 2009, foto de Porfírio Silva)


9.12.09

o que é português é mau?


Num texto sobre os erros de arbitragem do passado jogo entre Vitória de Setúbal e Sporting, encontrado no jornal i, escreve-se:

O problema é que no futebol português a lógica é diferente.

Claro, o problema é sempre português. Qualquer problema detectado ao cimo da Terra, qualquer erro, é sempre uma marca portuguesa indesmentível. Claro, esta é a terra mãe do disparate. Aliás, a ida da França ao Mundial da África do Sul, e a exclusão da Irlanda, nas condições que sabemos, foi uma aplicação do penso português fora de fronteiras. Ou não terá sido?

Quando é que jornais que queriam ser sérios se abstêm de escrever estas tolices? Será pedir demais?

antes era o tiro no pé...


... que era considerado um mau gesto. Agora o que desaconselham é o beijo no pé.





Josefa de Óbidos, O Menino Jesus Salvador do Mundo, 1673



Padre Feytor Pinto desaconselha beijo no pé do Menino Jesus.

«De facto [acrescenta o padre], todas as pessoas a beijarem o mesmo pé do Menino em termos de saúde é errado e é daí que é um conselho que damos.» Pois, é capaz de ter razão. Já quando acrescenta que «Fazer uma festa é a alternativa», é capaz de não ter tanta razão. Porque as mãos também são campo de transmissão. O melhor era mesmo deixar o Papa falar sobre o assunto, desde que no uso da faculdade da respectiva infalibilidade.
Agora a sério: é bom que os responsáveis das igrejas se preocupem com as consequências sanitárias das práticas religiosas, embora seja muita pena que nem todos - e nem sempre, e nem para todos os casos - façam isso.

8.12.09

bloco central, bloco total


Jimmie Durham (da série The Dangers of Petrification)


«Administração Pública: depois de um início "a matar", a mobilidade perdeu ritmo», titula o Público.

Entre nós, muitos bramam contra o "bloco central". Só que o "bloco central" vai do CDS ao PCP, passando pelo BE, pelo PSD... e às vezes pelo PS. É o "bloco total": ninguém arrisca outra equação de equilíbrios, com apostas mais qualificadas e mais exigentes para o futuro. E, se alguém arrisca, todos se plantam no meio da estrada para barrar o avanço. O verdadeiro bloco central é uma pedra no caminho. E uma pedra no sapato


(produto A Regra do Jogo)