19.6.09

ainda a Autoeuropa

14:30

António Chora, coordenador da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa, que não parece que seja tido por homem próximo do capital, nem sequer dos reformistas e amarelos do PS, terá declarado que, na recusa do pré-acordo, os trabalhadores confundiram as propostas de maior flexibilidade laboral com a perda de direitos adquiridos.
Se fosse eu a dizer isso haveria trovoadas e bengaladas na caixa de comentários deste blogue. Mas não fui eu que disse. Foi Chora.
Infelizmente, neste caso não será de espantar que se verifique que "quem chora por último chora pior".

a saudação fascista da ministra de Berlusconi





Corre pela net um vídeo da ministra italiana do turismo supostamente a fazer a saudação fascista. Mas é tudo má língua! A senhora apenas está a tentar, nesta nova fase da sua carreira, passar a ser conhecida pelos seus longos braços. Para ultrapassar uma fase em que era apenas conhecida pelas suas longas pernas...




na catedral de Milão...


... perdemo-nos em tantos detalhes, em tantas referências às maravilhas do universo e dos deuses da cidade, em tamanhas glórias dos que sabem e podem construir, em tão ilustres pintores de almas e escultores de memórias, que perdemos de vista o próprio deus que supostamente era o destinatário da obra.
Nada a dizer. É sempre assim na obra humana. Alguém paga a factura simbólica. Outro alguém lambe os beiços e as iguarias.



(Novembro de 2008. Foto da casa.)

18.6.09

circula no Twitter...


... um aviso oportuno: não esquecer esta notícia:
«Manuela Ferreira Leite assegurou que os eurodeputados eleitos pelo partido vão cumprir o mandato, dizendo que isso apenas não acontecerá "se alguém adoecer ou acontecer alguma coisa"». (Na TSF, a 22 de Abril de 2009, relatado aqui)

eu já perdi a pachorra para os delírios do sr. Fernandes...

virgens ofendidas


Deputados da oposição chocados com declarações de Sócrates a propósito da comissão de inquérito ao BPN.


Está na moda, em certos sectores políticos, substituir os argumentos substantivos - foi feito isto e aquilo e isso é criticável ou louvável - por argumentos de virgens ofendidas: «ai, estas coisas não se dizem». O objectivo é tentar calar, amordaçar, certos agentes políticos. Uma das formas dessa tentativa de lei da rolha é a pretensão, aflorada por alguns, de transformar os membros do governo em eunucos políticos: podem levar porrada à vontade, mas não se podem defender por isso ser política partidária.
Agora querem também calar o PM: ele não pode dizer aquilo que todos viram, que foi na Comissão Parlamentar alguns tratarem os suspeitos de crimes no caso BPN como se fossem um qualquer cândido à la Voltaire, e tratarem o polícia (o governador do Banco de Portugal) como se o criminoso fosse ele. E também todos viram (se quiseram) como alguns deputados usaram de forma excessiva a comissão de inquérito para fins imediatos de campanha eleitoral (Nuno Melo, no dia das eleições: "amanhã lá estarei à espera de Vitor Constâncio" - aliás, o mesmo deputado que mostrou nem sempre saber bem do que falava quando usava certos conceitos). E alguns acham que o PM não pode opinar sobre isso, como se lhe tivessem cortado o órgão... da fala.
Devem ser os mesmos que acham que a "nova humildade" de Sócrates significaria que ele... ouvia e calava, como cordeirinho murcho. Não acham que assim seria fácil demais?

que mil flores floresçam

ex-citações


«E ninguém se tem lembrado de acusar o PS de não cumprir o seu programa eleitoral. Afinal, será que cumpre até demais?» Escreveu Bruno Cardoso, in O Amigo do Povo.

sabemos tão pouco...


O sítio de Mir Hussein Moussavi, o candidato presidencial que alimenta a esperança no Irão, está aqui. Basta olhar para compreender que sabemos tão pouco.

os trabalhadores não são anjos (aliás, não há anjos)


Funcionários recusaram acordo entre a Comissão de Trabalhadores e a administração: Futuro da Auroeuropa volta a estar em risco .


Trabalhadores da Autoeuropa devem preparar-se para decisões da administração.

Alguma esquerda tem medo de dizer certas coisas. Tem, por exemplo, medo de dizer que certas "defesas dos direitos [adquiridos, por exemplo]" são formas mal disfarçadas de egoísmo, egoísmo individual ou egoísmo de grupo. Tentar matar um acordo com a administração, à procura de melhores condições imediatas, sabendo que isso pode mandar umas dezenas ou centenas de contratados para o desemprego, não será uma forma de egoísmo de grupo contra grupo? Egoísmo de alguns trabalhadores a prejuízo de outros trabalhadores? E, ainda por cima, incorrendo no risco da "bomba atómica", de tudo acabar mal para todos?
“Tentámos construir um chapéu-de-chuva que nos protegesse da tempestade e esse chapéu foi deitado fora”, disse António Chora, coordenador da Comissão de Trabalhadores (CT) da Autoeuropa, em reacção. Ele tem toda a razão - e tem toda a autoridade para o dizer, dirigente de trabalhadores, de esquerda, que tem pensado como podem as coisas ser no concreto, em vez de se limitar a repetir frases feitas. Mas a esquerda da esquerda tem pouco disto, tem poucos Antónios-Choras. E a esquerda da esquerda, com a sua retórica herdeira das acusações de amarelismo aos que querem negociar, ajuda os que matam os acordos necessários e desajuda os que vêem a realidade de mais perto. Nisso (também) a nossa esquerda da esquerda é ainda muito do tempo do "socialismo real". O que, a ver os desafios do presente, parece surreal.

17.6.09

esta é realmente uma má notícia


Trabalhadores da Autoeuropa chumbam proposta de acordo com a administração.


Não que não seja normal os trabalhadores rejeitarem este ou aquele acordo determinado. É normal. Mas seria mais normal se fosse o caso de haver muitas empresas capazes de negociar verdadeiramente com os seus trabalhadores. E de haver mais estruturas representativas dos trabalhadores capazes de verdadeiras negociações com as empresas. Nesse caso seria um fracasso entre muitos sucessos, coisas que fazem parte da dinâmica. Mas como tudo isso que devia ser comum é tão raro entre nós, por ser inexistente ou de faz de conta as mais das vezes, custa verificar um fracasso negocial, mesmo que temporário, num dos melhores exemplos dessa prática de conversar a sério. Ainda por cima quando isso pode ter consequências sociais e económicas pesadas para tantos.

machines have less problems

governabilidade

12:03

Jorge Bateira, no excelente Ladrões de Bicicletas, escreveu ontem Sobre a governabilidade do país. À falta de tempo para mais, e apenas para honrar a questão e os interlocutores que vejo naquele blogue, reproduzo o mero comentário que lá deixei.

O post coloca questões interessantes como ponto de partida para uma discussão. Mas tem, a meu ver, dois problemas.

Primeiro, quanto à questão da governabilidade, passa em branco o facto de alguns partidos de esquerda (ou talvez mesmo todos) conviverem mal com o facto de uma solução de convergência ter de passar pela capacidade de alinhar um programa que não seja "branco do mais puro branco", mas uma mistura de várias formas de ver os problemas. Dessa pretensão de exclusivismo têm sofrido o PS, o PCP e o BE. E, desse modo, nada feito quanto a uma qualquer governabilidade à esquerda. E não me dou sequer ao trabalho de pensar na objecção dos que se julgam apoderados do critério "o que é ser de esquerda" e julgam ser assim legítimos juízes dos demais.

Segundo, não estou certo que todos os partidos de esquerda tenham tirado as devidas lições de experiências passadas. Por exemplo, a posição anti-europeísta do PCP, de que o BE se separa alguns dias por semana, mostra um obstáculo à governabilidade de um estado-membro da UE que resulta de uma incapacidade de compreender a história. E o slogan recente do BE sobre a energia (GALP e EDP: 1500 milhões de lucros: A todos o que é de todos. A energia deve ser pública) mostra que, mesmo sem "socialismo real", as visões simplistas encorpadas em silogismos esquemáticos continuam a moldar certas propostas políticas. O que obviamente é um obstáculo à governabilidade.

O debate que certos partidos da esquerda à esquerda da social-democracia tiveram de travar em outros países acerca de vantagem/necessidade de assumirem o governo junto com os socialistas/socialdemocratas, é um debate necessário. Mas que está emperrado em Portugal pelo expediente demasiado fácil de diabolizar o PS para não ter de pensar no assunto.

16.6.09

Estocolmo quase no solstício de Verão

Estocolmo, nesta altura do ano, é uma promessa de luminosidade. Estamos quase no solstício de Verão e, mais do que o pôr do Sol ser um pouco antes das onze da noite e o nascer ser por volta das três e meia da manhã, é marcante o facto de uma réstia de luz nunca desaparecer do céu. Não foi muita a nossa pontaria desta vez, nesse aspecto, porque o tempo quase permanente de chuva não deixou apreciar devidamente o fenómeno.

Interiores, visitas de interior, são sempre uma escapatória ao mau tempo. O Museu Nacional, que tem uma notável colecção de design nórdico, não é excepcional em outros domínios. Mas estava com uma interessante exploração das questões de exposição de escultura.

O Museu de Arte Moderna, esse, é muito bom. E vale sempre a pena voltar, devido à rotação do material exposto. A promessa anuncia-se logo no exterior.


Estocolmo é mar. E barcos. E cais com vida própria. E, assim sendo, com caixas postais a condizer.


A vantagem de um barco-farol é ser móvel, ao contrário dos usuais. E por isso um barco-farol vai indicar o caminho para onde for preciso. Ao contrário de outros confortos que nem sempre estão no lugar certo à hora certa.


A arte pública é muito presente na cidade. Vemos aqui a escultura Parabola, de Ulrik Samuelsson, colocada em 2002. É um celeiro de batatas colocado na zona das novas tecnologias no centro da cidade, para lembrar as nossas raízes.


A Suécia indica o caminho em muitas coisas. Também na estupidez da violência contra as figuras públicas. Alguns já não se lembram do assassinato do primeiro-ministro, em 1986, quando Olof Palme simplesmente saía do cinema com a mulher sem qualquer segurança e foi abatido na rua. No local onde agora singelamente pisamos esta placa que lembra o facto.

A cidade tem muitas vistas. Uma é do edifício da municipalidade, símbolo da cidade, onde também cabem cerimónias do prémio Nobel.

S. Jorge e o dragão, na catedral ao lado do palácio real - não sei se é mais para nos lembrar o santo ou mais para nos lembrar o dragão.

E a verdadeira Estocolmo só se compreende como ponto focal de um arquipélago com milhares de ilhas. Demo-nos tempo apenas para uma breve visita a Waxholm, a certa de uma hora de barco do centro. Onde ainda há uma zona de velhas casas de madeira para uma habitação tradicional.

E depois há tudo o resto. Que não se conta assim de uma penada.



PERSEPOLIS, a história continua




Primeiro começou por ser uma grande Banda Desenhada e depois foi um filme de animação. (que recebeu o Prémio do Júri no Festival de Cannes). PERSEPOLIS é a história de uma rapariguinha iraniana que vive a queda do Xá e o início da República Islâmica no Irão - e que vive tudo isso nas contradições de todos os que tiveram esperança em coisas nas quais é perigoso ter esperança. A rapariguinha vem depois para o Ocidente, para ser poupada às eventualidades do poder religioso - e aí encontra outros motivos de perplexidade.

Vale a pena reler/rever Persepolis, agora que no Irão a história começou a mover-se outra vez. (Talvez. Oxalá.)

Algumas páginas podem ler-se abaixo (clicar para aumentar).