20.11.10

Paz sim, claro


(Fotos de Porfírio Silva.)

Saí de um almoço com um membro de uma delegação a essas variadas cimeiras internacionais deste fim de semana em Lisboa directamente para a rua onde se aproximava a manifestação "Paz Sim, NATO não".


Como estas manifestações pacifistas não se fazem sem exércitos, havia um mar de bandeiras do PCP.


O BE levou um batalhão pequeno mas unido, compacto e com uma fanfarra animada.



O tom deste pacifismo é muito antigo: as armas más são as da NATO. Nenhuma surpresa por esse lado.


Já me surpreendeu um bocadinho a completa amálgama do discurso contra a NATO, contra o governo, contra Sócrates, pela greve geral. Até parece ter havido quem tenha trocado os dizeres, trazendo desta vez as pinturas que eram para ter saído à rua daqui a mais uns dias - sem qualquer menção à paz.


A "proclamação", proposta às massas por Maria do Céu Guerra (um nome engraçado para uma manif tão pacifista), oficializava essa amálgama de pacifismo com oposição e greve geral (que foi mencionada como coisa exclusivamente da CGTP, apesar de ser sabido que a UGT também entra). A proclamação foi "aprovada" por aclamação, um método conhecido.


O aparato policial, pontualmente exuberante, não mexeu uma palha.


A cidade parecia despedir-se do fim de semana maluco sem sinal de aborrecimento.


Mas, afinal, a manif oficial tinha acabado demasiado cedo e havia uma malta que tinha um bocado livre e queria continuar na rua (manifestação não autorizada, que começou nos Restauradores).


Obviamente, estas coisas causam embaraços aos cidadãos. A parte baixa da Calçada da Glória estava controlada por uma força policial, que deixava passar para a praça, mas não deixava sair da praça. Um homem queixava-se ao polícia que entrava às seis da tarde na sex shop ali mesmo e não podia chegar atrasado. Acabou por conseguir passar, já que os manifestantes se deslocavam no sentido do rio e a força policial acompanhava.

Os manifestantes estavam com muita energia, pulavam muito, gritavam palavras de ordem bastante primárias, usavam truques de bairro (do tipo "quem não pula é fascista"), mas no tocante a violência não dariam nem para organizar uma claque de futebol da terceira divisão distrital. Os polícias concentravam-se em proteger as montras, para que os turistas pudessem continuar a bebericar chá no Nicola.

Os manifestantes, que não chegaram para desmentir que as cimeiras de Lisboa foram uma excepção à violência habitual, foram até ao Terreiro do Paço pela Rua Augusta e voltaram, em parte pelas laterais, dando momentaneamente a ideia de que alguém queria fintar a polícia.


Sem consequências.


A vida continua. O mundo não ficou mais pacífico por causa desta movimentação. Mas, com sorte, as cimeiras deste fim de semana em Lisboa terão efeitos positivos em alguns dos desarranjos que se têm mostrado difíceis de gerir pela comunidade internacional.

NATO anuncia acordo histórico com a Rússia
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NATO e Afeganistão assinam parceria de longo prazo.

uma iluminação divina


Papa Bento XVI admite uso do preservativo para travar a sida.
Continua o Público: «Pela primeira vez na história um Papa admitiu a utilização do preservativo “para reduzir “em certos casos” os riscos de contaminação” do vírus da sida, segundo um livro de entrevistas que será lançado na terça-feira. O Papa Bento XVI mantém que não considera o preservativo “uma solução verdadeira e moral”, mas admite a sua utilização em casos concretos: “Num ou noutro caso, embora seja utilizado para diminuir o risco de contágio, o preservativo pode ser um primeiro passo na direcção de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana.”»

Os tempos estão difíceis para todos. E há, portanto, que desencantar trabalho. Até os teólogos precisam. Aquela coisa de o preservativo poder ser utilizado "num ou noutro caso" abre um imenso filão de interpretações possíveis. Alimentando, pois, a procura de teólogos para essa safra.

(Agora a sério. Já era tempo de a Igreja Católica tratar estes assuntos de vida ou morte com um mínimo de lucidez. Já estamos fartos de fundamentalismos e de radicalismos iluminados, que tendem a fazer vencimento nas cúpulas destes aparelhos complexos, com insuportável insensibilidade à vida concretas das pessoas.)

(Grafito em Madrid, fotografado por Porfírio Silva.)

Fim de Citação, na Cornucópia

12:48

Luís Miguel Cintra é, a meu ver, um excelente encenador e um grande actor de teatro. Como encenador, a dificuldade dos seus trabalhos é o resultado de mostrar sempre o aspecto mais metafísico, o plano mais abstracto, a dor mais profunda de qualquer texto. E nunca tenta tornar a vida mais doce ao espectador, honra lhe seja feita. Como actor, consegue convencer-nos de que está a fingir a dor que deveras sente.
Agora está na Cornucópia, onde no sentimos em sua casa, com um novo espectáculo: "Fim de Citação". Este espectáculo nasce de um imprevisto, de um buraco no mundo aberto por uma co-produção que não pôde realizar-se. E, como ele diz e bem, um imprevisto pode ser uma oportunidade. Neste caso, não acho que se tenha dado esse caso feliz.
Cintra diz que está na hora de se aventurar no caminho de ser ele próprio autor. Com esta série de recortes de espectáculos anteriores - e, talvez também, de espectáculos possíveis - não me parece que se tenha aproximado sequer de nos mostrar que pode ser um autor mais ou menos tão bom como é a encenar e a representar. Se é para ser autor assim, mais vale estar quieto. Em primeiro lugar, não gosto de teatro sobre o teatro - mesmo quando sai da pena de grandes autores. Gosto do teatro que fala do que está cá fora, nunca gostei suficientemente de uma peça sobre o que se passa dentro das casas de teatro. Em segundo lugar, esta peça tem um toque autobiográfico - e nela Cintra trata-se mal, demasiado mal. É preciso ter coragem para apontar o seu dedo às suas próprias fraquezas, mas dispenso o exercício. Aprecio a ausência de auto-comiseração, mas dispenso que Cintra faça espectáculos de humildade pessoal.
Não deixarei de insistir em ir à Cornucópia, espectáculo atrás de espectáculo, até ao fim dos dias. Mas ontem não gostei. Se bem que compreenda que uma companhia precisa de continuar a funcionar. É a vida.


cidadania, dizem os senhores magistrados

12:15

Quando haja uma noção de serviço ao interesse comum, e compreendendo-se que não existam no mundo dos humanos milagres, precisam-se mecanismos que promovam a maior adesão aos melhores padrões do tal serviço.
A diferenciação pelo mérito é um desses mecanismos. Os melhores são recompensados na justa proporção, os que se acomodam já retiram por suas próprias mãos (pelo descanso da acomodação) a recompensa que não esperaram que lhes fosse reconhecida como merecida. Os sistemas de avaliação com reflexos na carreira constituem um tipo de mecanismo pensado para essa diferenciação pelo mérito. Há, contudo, formas várias de torpedear tal mecanismo. Uma forma de boicote consiste em tornar a avaliação inoperante: por exemplo, dando a todos, ou quase, a nota máxima, consegue-se que a avaliação não sirva para nada, excepto calar os distraídos que querem mesmo ser distraídos.
O uso destas formas de aldrabrar os mecanismos de preservação do interesse comum, interesse comum que assim se vê preterido pela pura e simples defesa dos interesses privados dos agentes, tem de ser seriamente encarado como um ataque à comunidade. Ataque à comunidade por um grupo específico se comportar de molde a defraudar todos os outros, destruindo um mecanismos de monitorização essencial à confiança mútua e necessário para precaver e combater os comportamentos oportunistas.
Uma das formas de evitar esta falsificação consiste em criar quotas para os classificados como "melhores dos melhores". Se nem todos podem ser generais, introduz-se um princípio de comparação que estimula a verdade do mecanismo. Já quando foi a estória da avaliação docente essa questão se colocou.
A história repete-se. Mostrando como só é ingénuo quem quer. E como alguns, além de não serem ingénuos, sabem bem aproveitar-se das fraquezas do sistema. Tudo isto a propósito da seguinte notícia do Expresso de hoje: o número de procuradores do Ministério Público com a nota máxima duplicou nos últimos cinco anos; mais de 80% têm entre Muito Bom e Bom com distinção; trata-se apenas, parece, de uma astúcia para arredondar a carreira.


Entretanto (ah, isto está tudo ligado, uma visão mesmo a calhar para partidários das teorias da conspiração), o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público vem dizer-nos que a adesão à greve geral, "mais do que um direito, é um dever de cidadania de que nenhum português poderá demitir-se". Tenho a declarar, a benefício dos tais magistrados, ou do respectivo sindicato, que não recebo lições de cidadania desse formato nem com esse autor. E acho que é escandaloso que um sindicato de magistrados me queira convencer de que a greve se tornou um dever para um cidadão. Só se for na república dos magistrados, ora essa!


19.11.10

Obama foi a Belém lavar o carro


E eu a pensar que era uma visita de Estado.


a fama de Rangel já chegou a Washington

o que podem as rotundas interessar a um filósofo?

(Foto de Mary F. Calvert, para o The New York Times)

Uma rotunda pode ser um objecto muito interessante para pensar. Espantados? Ora ouçam.

Uma rotunda, como a rotunda do Marquês em Lisboa, serve para criar uma certa ordem na circulação automóvel. Parece um objecto simples e parece tolo querer reflectir sobre rotundas. Só que, por vezes, as aparências iludem. Afinal, como funciona uma rotunda?
Em primeiro lugar, a rotunda fornece um constrangimento material: não se pode simplesmente ir em frente, para prosseguir em segurança é preciso contornar. Em muitas rotundas, as suas próprias características físicas impedem que se continue simplesmente em frente. Desde logo, isto quer dizer que há um "detalhe" do mundo físico que foi manipulado para modificar o comportamento humano. Aquele "objecto" é mais um "dispositivo", algo que serve uma finalidade, que foi feito e colocado em determinada posição com um propósito específico.
Em segundo lugar, que a rotunda funcione como se espera requer que os utilizadores reconheçam uma certa norma. No caso de Portugal, a norma manda que se contorne a rotunda pela direita. No caso de outros países, que se contorne pela esquerda. A rotunda só funciona devidamente porque a generalidade dos seus utilizadores conhecem essa norma (convenção: tanto faz circular pela direita como pela esquerda, desde que todos façam do mesmo modo) e respeitam-na. Mesmo assim, é possível que, em circunstâncias especiais, reconhecíveis apesar de dificilmente antecipáveis, se possa fugir a essa regra: um carro da polícia ou uma ambulância, em caso de perturbação muito grave, poderão circular na rotunda em sentido inverso. Isto quer dizer que a rotunda, como dispositivo, integra um aspecto "mental", uma norma, que não está talhada em nenhum aspecto material do mundo, existindo no ordenamento institucional: faz parte do código da estrada, que é uma lei, garantida por mecanismos institucionais mais gerais que estão articulados com muitos outros aspectos institucionais (outras leis, polícias, tribunais, penalizações possíveis, etc.).
A rotunda exemplifica, deste modo, uma característica talvez específica das sociedades humanas: estarem organizadas com o apoio de "artefactos de coordenação" em que "aspectos materiais" e "aspectos mentais" do ambiente são articulados de forma específica para se obter um certo tipo de ordem.

Se soubermos superar a generalizada falta de interesse pela profundidade dos detalhes, se formos capazes de interrogar o que parece evidente ou imediato, perceberemos que o "exemplo da rotunda" só é simples devido à nossa habituação. Não há presidente de câmara que se preze, por esse Portugal fora, que não tenha semeado rotundas como cogumelos, é certo. Só que... Vejam esta notícia: o pessoal da "outra banda do rio" está a descobrir as rotundas - e está um bocado às aranhas com elas, como se lê no The New York Times:
Traffic is going in circles. Armed with mounting data showing that roundabouts are safer, cheaper to maintain and friendlier to the environment, transportation experts around the country are persuading communities to replace traditional intersections with them. There’s just one problem: Americans don’t know how to navigate them. “There’s a lot of what I call irrational opposition,” said Eugene R. Russell Sr., a civil engineering professor at Kansas State University and chairman of a national task force on roundabouts, sounding mildly exasperated in a telephone interview. “People don’t understand. They just don’t understand roundabouts.”
O jornal lembra mesmo que o cinema já brincou com esta incapacidade para conduzir em rotundas, com potenciais efeitos trágico-cómicos (cena de European Vacation).

Afinal, uma rotunda pode dar que pensar...

(Obrigado, Matthijs, por me teres sinalizado a notícia.)

hoje é dia de transa atlântica

as benevolentes

09:52

Há assuntos que são tão escabrosos que me fazem fugir de escrever sobre eles. Às vezes pela necessidade de não dar ainda mais eco, por pequeno que seja (como pequeno é o eco deste blogue), às pulhices que campeiam no espaço público. Estão nessa categoria os episódios concretos da mentalidade de esbirro em acção. Algo que o Diário de Notícias fez recentemente, uma vez mais graças à degradação da "justiça", é o espécime perfeito desses fenómenos. Convicto de que qualquer pessoa bem formada perceberia a baixeza do acto, e convicto ainda de que não valeria a pena falar para quem ainda não tivesse consciência do seu significado, deixei passar.
Corto esse silêncio para pedir que seja lido o texto de Fernanda Câncio, Jornalismo totalitário, pela razão simples, completamente subjectiva, de que ele acrescentou algo à minha reflexão pessoal. Quando a jornalista escreve «A risota de Ana Gomes é o retrato da bonomia com que a generalidade das pessoas assiste à edificação de um totalitarismo que as devia aterrar», lembra que o vírus da indecência, a fraqueza moral de pactuar com o inaceitável, nem que seja com um encolher de ombros, é um perigo que corremos todos. Vem um momento de distracção e já está: fomos enrolados na armadilha moral de piscar o olho ao carrasco.
Falamos aqui do pecado da benevolência.
Um pecado moderno como há poucos. Um pecado que poderia afinal dar sentido útil ao dito "o inferno são os outros".

18.11.10

"O que se vai discutir é do âmbito do conceito democrático"


Sem medo, é como o Luís Novaes Tito coloca os pontos nos iiiii, quanto à cimeira da NATO, lá na sua barbearia.

mãos sujas


Milhares de documentos confirmam apoio dos EUA ao golpe de Pinochet.
E também se conhece o apoio da Baronesa Thatcher ao ditador, depois de ser muito público e sabido o torcionário que tinha sido.
Só para exemplificar.

Mesmo assim andam por aí muitos "comentadores" que fingem acreditar que só em nome da esquerda se cometeram crimes. E que falam do "ocidente" e da "direita" como depositários de uma pureza em que só acreditam os tontos-por-quererem-ser-tontos.

o governo de António Guterres deve ter sido abaixo de cão

a teoria pragmática da observação


SILVA, Porfírio, "A teoria pragmática da observação", in Kairos, 1 (Outubro 2010), pp. 75-92
Este texto apresenta e discute a teoria pragmática da observação, um dos elementos da contribuição de Paul Feyerabend para a “nova filosofia da ciência”, que, nas décadas centrais do século XX, procurou renovar a filosofia da ciência a partir de uma maior atenção aos aspectos históricos do empreendimento científico. A teoria pragmática da observação é enquadrada no movimento teórico de problematização do estatuto da observação como fundamento das teorias científicas, movimento que constitui uma reacção às tendências fundacionalistas no seio do empirismo. A proposta de Feyerabend é exposta, tendo em vista a conveniência de sublinhar algumas das suas consequências menos intuitivas, para cujo efeito se propõe uma experiência de pensamento. A teoria exposta é depois analisada, quer à luz de algumas das críticas que ao tempo despertou, quer à luz de uma sua possível reconsideração.

Em linha, aqui.

post com bola vermelha (é um aviso)


De acordo com Eduardo Pitta, o que se segue é um excerto de um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, sobre o uso da expressão "vá para o caralho" numa conversa entre um cabo da GNR e um seu superior hierárquico:
«[...] A utilização da expressão não é ofensiva, mas sim um modo de verbalizar estados de alma [...] pois tal resulta da experiência comum, que caralho é palavra usada por alguns (muitos) para expressar, definir, explicar ou enfatizar toda uma gama de sentimentos humanos e diversos estados de ânimo. Por exemplo pró caralho é usado para representar algo excessivo. Seja grande ou pequeno de mais. Serve para referenciar realidades numéricas indefinidas: chove pra caralho..., o Cristiano Ronaldo joga pra caralho... [...] não há nada a que não se possa juntar um caralho, funcionando este como verdadeira muleta oratória.»
Aqui se explicam as circunstâncias. Atenuantes?

a investigação forense continua pelas ruas da amargura


400 anos depois, a morte de Tycho Brahe ainda é um caso em aberto.
Continua o Público: «Há várias teses sobre a morte de um grande nome da astronomia do século XVI. Envenenou-se acidentalmente. Foi envenenado por outro astrónomo que lhe queria roubar as observações de uma vida. Ou envenenado a mando do rei dinamarquês, devido a um caso amoroso. A sepultura de Tycho Brahe foi aberta - procuram-se respostas.»

ai a paz

11:00
Há muitos, muitos anos mesmo, travei com o agora "Ladrão de Bicicletas" José Castro Caldas, no defunto Diário de Lisboa, um sustentado debate sobre desarmamento. Naquele tempo, páginas inteiras de jornal a discutir os SS-20 e os Pershing 2, artigo para cá, artigo para lá. Ele a defender um pacifismo que, dizíamos nós, era ao gosto da URSS (não gostavam dos Pershing 2 mas toleravam os SS-20), eu a defender um quase-pacifismo que muitos socialistas e sociais-democratas defendiam por essa Europa fora, tentando não distinguir entre armas boas e armas más, tentando não cair na ideia simplista de que desarmar é necessariamente bom para a paz em qualquer caso. Lembro-me de Piteira Santos, então ainda vivo e director do Diário de Lisboa, me ter manifestado o seu apreço pela nossa discussão, uma discussão claramente à esquerda dos dois lados, e ao mesmo tempo uma discussão frontal e séria.

Hoje vejo, com algum desencanto, que o meu querido amigo José Castro Caldas, por quem tenho um apreço que vai muito além do debate político, voltou aos velhos tempos de algum primarismo quanto às questões da paz. Quando escreve «Desculpem a perguntinha, mas porque é que não vão reunir para uma ilha, ou mesmo num porta-aviões?» - não sei se é para ter graça. Mas mesmo que seja: associada ao cartaz de propaganda de uma manifestação contra a cimeira da NATO em Portugal, parece-me apenas uma coisa. Ou melhor, duas. Retórica da guerra fria sem qualquer reciclagem. (Uma das coisas más da guerra fria era a retórica dos falsos pacifistas. E, sim, nem todos os "conselhos para a paz" são o que parecem.) E um certo provincianismo. (Nunca cheguei a achar piada às pichagens "Carter, go home", não é agora que acho graça a essa conversa de que seremos conspurcados por termos entre nós os líderes de uma organização internacional que, se cometeu pecados no passado, eles não foram certamente maiores do que os do grande urso.)

Nota de rodapé: a expressão "falsos pacifistas" não é, em geral, para acusar ninguém da intenção de nos enganar; é para apontar com o dedo uma posição política que, a nosso ver, não contribui nada para a paz neste mundo real em que vivemos.

16.11.10

Uma investigação sobre a alma


Por que é que conseguem brincar com o vosso cão mas não lhe conseguem contar uma história?

Patrícia Gouveia lançou hoje o livro Artes e Jogos Digitais. Tendo já dado uma vista de olhos por algumas coisas que ela escreveu, conhecendo o seu blogue (mouseland), tendo-a entrevistado aqui para esta casa (jogos de realidade alternativa), tinha elevadas expectativas para o livro. O que a Autora disse na apresentação, mais o que disse na mesma ocasião Henrique Garcia Pereira (Professor Catedrático no Técnico e outras coisas mais), agravaram o meu estado de curiosidade e interesse.
O livro anda pelos jogos digitais. Pronto, pode parecer coisa simples. Sim, há a arte que não é digital. Há as comparações com o cinema. Há a história do meio que é mensagem, a lembrar McLuhan. Há o natural e o artificial e meterem-se os pés pelas mãos, mais o real e o virtual cujas fronteiras estão mais complicadas de policiar do que a fronteira terrestre entre o Afeganistão e o Paquistão. Tudo isso, pensado num horizonte filosófico, mas com os pés bem assentes na terra das práticas tecnológicas, já seria prato e sobremesa para uma bela refeição: e a Patrícia a dizer que se eu jogo jogos de computador nunca jogo o mesmo jogo quando vou outra vez ao jogo, isto é a pensadora a actualizar as palavras do Heráclito que tinha um problema com os rios, de tal modo que nunca se banhava no mesmo. Tudo isto já seria grande promessa. Há que ler, ainda não li.
Mas vou ler à espera de ter aqui uma investigação sobre a alma. Sim. É que se houve quem procurasse a alma no corpo, quem procurasse a alma no cérebro; se ainda há quem procure a mente com bisturi, ou alegue que não há mente por ela não se encontrar com o bisturi – quando a Patrícia Gouveia fala na simulação lúdica e na arte da jogabilidade como “narração sensorial” – alto lá, que há umas campainhas que começam a tocar por todo o lado no campo de minas dos meus interesses. Interesse pelo corpo sentido que sente, pelo corpo no mundo a fazer mundo, a ser mundo com a carne. Sentir, pois, primordial. Sim, é por aí que anda a alma, mesmo que ela não exista: nesse mundo por onde nos espalhamos por todos os meios.
Aquela pergunta lá em cima, que mete cão e narrativa, é uma maneira engenhosa de a Autora dizer que resume o primeiro capítulo. Ou que lança as questões que o primeiro capítulo abre. Pode começar por esse enigma e depois… continuar, claro. Vamos a isso.
A sério: livro para pensar. E apontado ao coração deste tempo que nos muda.

Luís Ana Amado Gomes

ao pelourinho


O Público noticia que o país está de fronteiras fechadas desde a meia-noite. Isto, no título. Depois, logo abaixo, diz que as fronteiras foram repostas. Na realidade, como previsto para circunstâncias em que a segurança deve ser reforçada, foram repostos os controlos nas fronteiras. Situação muito longe das "fronteiras fechadas", com cheiro a grande crise e/ou grande ameaça. Enfim, subtilezas que nada interessam aos espíritos finos do jornalismo de referência.



a Europa a duodécimos

11:06

Às primeiras horas da madrugada de hoje falhou, por desacordo entre o Parlamento Europeu e o Conselho, o processo de conciliação para aprovar o orçamento comunitário para o próximo ano. Agora, a Comissão Europeia vai ter de apresentar nova proposta. A "repetição" do processo pode durar vários meses; até lá a UE viverá em regime de duodécimos. Um assunto a seguir: a polémica não era tanto sobre os montantes, mas sobre quem manda no dinheiro dos contribuintes. O Parlamento quer ter uma voz na política orçamental, os Estados (pelo menos alguns) acham que são eles que mandam no dinheiro que os Estados entregam à União. Lá, como cá, a crise não pára a política.

15.11.10

entrada de emergência

(Foto de Porfírio Silva)

soberania

22:27

A "crise", esse animal complicado, vem lembrar de novo a vexata quaestio da soberania que a pertença à Europa nos rouba ou não. A esquerda da esquerda, em particular, vê confirmadas da forma mais brutal as suas sempiternas acusações relativas à perda de soberania. Claro que não vale a pena tentar explicar que partilha de soberania é isso mesmo, que sozinhos no nosso canto apenas teríamos a deliciosa liberdade de fazer à vontade o que fosse irrelevante para o mundo, e para nós mesmos, numa espécie de ilha-apesar-da-continuidade-das-terras. Que sozinhos teríamos menos margem de manobra do que pertencendo ao clube.
Agora, há um ponto de substância em que o cepticismo acerca da Europa dessa esquerda da esquerda obteve nesta crise confirmação empírica: a solidariedade europeia, apesar de ser um pressuposto quase-constitucional de todo o edifício, na forma do princípio da prevalência do interesse comum, foi rasgado de forma mais brutal e mais descarada do que é costume. Os amigos alemães e franceses de Passos Coelho e Paulo Portas, a partir dos seus respectivos governos, assumiram à luz do dia o terrorismo de Estado contra o dito "interesse comum". De forma descarada, com um desplante inusitado. O que, obviamente, abre uma nova questão política para a esquerda europeísta. Uma questão para depois da crise. Se ainda valer a pena, depois, claro.

eu ia escrever uma graçola


Mas é melhor não.


encontrar caminhos na relva por pisar

12:00

Miguel Vale de Almeida, com o post Transição permanente, no jugular, com uma reflexão que ajuda a perceber por que é que a vida em sociedades políticas sofisticadas não é facilmente redutível à guerra de trincheiras. Um texto longo, mas que vale a pena.
Deixamos um excerto.
Um exemplo actual. Tanto o PS como o BE propõem, para a próxima revisão constitucional, a eliminação de “raça” como uma das categorias segundo as quais ninguém pode ser privilegiado ou discriminado (artº 13º), e a sua substituição por “etnia”. A decisão radica no mal-estar sentido com a expressão em virtude da influência das ciências sociais que decretaram o carácter não científico da categoria. Não existem raças, em suma - elas foram criadas como categorias de exclusão e hierarquia. No entanto, uma outra afirmação das ciências sociais foi totalmente esquecida: a de que, no quotidiano, no senso comum, nas relações sociais e interpessoais, a categoria é operativa, é uma das usadas pelas pessoas para identificarem e se auto-identificarem – e portanto para percepcionarem as raízes das suas situações de exclusão. É por isso que muitos de nós nas ciências sociais grafamos raça entre aspas – para dizer que não é conceito cientificamente válido, mas é categoria efectivamente utilizada em muitos contextos sociais, vivida, para o bem e para o mal, pelas pessoas. A sua eliminação não constituirá uma forçada eliminação da legitimidade de alguém se queixar de ter sido discriminado em função da “raça”? Para mais, “etnia” não recobre o sentido de senso comum de “raça”. Um negro português não pertence a nenhuma “etnia” que não a genericamente designada como portuguesa, e a sua discriminação será muito provavelmente em função de aspectos do seu fenótipo. Só será discriminado etnicamente aquele negro que o seja em virtude de ser Balanta ou Wollof ou Quimbundo, algo muito improvável de acontecer em Portugal.
E, sobre este ponto em particular, relembramos um testemunho nosso: Política, Ciência, Linguagem (e Memórias).

14.11.10