12.11.10

o abc do amor


Ana Gomes pede remodelação governamental.
Parece que Vital Moreira também já pediu o mesmo.

Sou, por princípio (não é "em princípio", para depois derrogar; é "por uma questão de princípio")... dizia eu, Sou, por princípio, favorável a que os militantes dos partidos possam dizer, e digam, o que lhes parece conveniente para o país, seja isso coincidente ou não com a "linha geral" do respectivo partido. Acho que se trata de uma condição de salubridade da democracia.
Quanto ao tópico em causa, constituição do governo, até acho que esta "selecção Sócrates" tem vários "jogadores" mais fraquinhos do que os "titulares", os que jogaram na primeira parte, dando a ideia de que entraram em campo algumas reservas simplesmente por ter havido pernas e braços partidos no meio tempo inicial. E as reservas, em alguns casos, parece não terem tido tempo de proceder aos respectivos aquecimentos.
Posto isto, acho de eficácia duvidosa, e de interesse questionável, apelar a uma remodelação governamental. É uma espécie de voto piedoso que não ajuda nada. Algum PM fará uma remodelação se isso der o aspecto de uma cedência às vozes? Terão os proponentes dados para saber se há as disponibilidades desejáveis para entrar no barco a meio do vomitório provocado pela tempestade? Estarão certos de que é deste ou daquele ministro a verdadeira responsabilidade por não se terem tomado certas medidas em tiro mais certeiro a tempo e horas? Perguntas que me parecem pertinentes - a menos que se esteja apenas a pedir sangue para entreter as massas. Mas não o creio.
Ao fim e ao cabo, como ilustra bem, a meu ver, o excerto do filme "ABC do amor", de Woody Allen, que a seguir se deixa - há uma grande diferença entre estar no "acto" do lado de "fora" ou "residir lá onde se mexem os cordelinhos". São visões completamente diferentes da "função", essa é que é essa.


Everything You Always Wanted to Know About Sex But Were Afraid to Ask
(O ABC do Amor), Woody Allen, 1972.


percebe-se que Passos Coelho hesite


Economia portuguesa bem melhor que Grécia e Espanha. Exportações garantem manutenção da retoma no 3º trimestre
. Prossegue o Público: «A economia portuguesa manteve, no terceiro trimestre deste ano, a tendência de retoma, assegurando um crescimento de 0,4 por cento face ao trimestre anterior. De acordo com os dados hoje publicados pelo Instituto Nacional de Estatística, a variação em cadeia do PIB passou de 0,2 por cento no segundo trimestre para 0,4 por cento no terceiro. Em termos homólogos, a variação foi de 1,5 por cento. (...) Portugal consegue, neste período, registar um crescimento em cadeia idêntico à média europeia.»

Não, isto não é deitar foguetes. Mas notícias como estas explicam algumas das hesitações de Passos Coelho. O homem, dotado de um patriotismo que não me atrevo a discutir, tem pesadelos só de ouvir falar em "retoma". Tem suores frios só de considerar a possibilidade de Sócrates ressuscitar, graças a um comportamento da economia onde sobrelevem os resultados das boas apostas sobre os efeitos recessivos da política ao estilo Merkel-Barroso.

artes para a poesia


Lançamento de mais um livro de Sofia ("defender o quadrado"), apresentado por Ricardo Leite Pinto. Na ocasião, guitarra de Manuel d'Oliveira e leitura de poemas por Maria Celeste Pereira.




doenças nada infantis


O ódio é uma doença grave. Destrói o sistema nervoso dos seus veículos individuais, destrói a comunidade se se espalhar muito. Há quem ache que é preferível esconder os focos dessa doença. Pensa-se evitar desse modo a contaminação. Especialmente quando o ódio é político. Acho, pelo contrário, que devemos mostrar o ódio em exposição. Para que se veja o que ele é. Por isso peço a vossa atenção para este exemplo, mais um de uma fonte muito produtiva, de ódio sem pingo de argumento, de ódio em estado quimicamente puro. Para quem não saiba: o fautor neste caso é um membro da elite científica, um Doutor; e, além disso, um artista (um bom fotógrafo). Para que não pensem que o ódio que conta é o ódio dos famélicos. Não. O ódio vale por si. É uma partícula fundamental.

o fenómeno de Alenquer não é uma greve de zelo


Bo Bartlett, House of Cards, 2004

Podemos aproveitar um dos detalhes do "fenómeno de Alenquer" para uma breve reflexão sobre a acção humana. Um dos pontos bicudos do caso consistiria em ser ou não ser correcto interpretar aquele comportamento do meritíssimo como greve de zelo. Ora aí está o nosso tema.

Chama-se "greve de zelo" a uma prática de contestação laboral usada em certa altura em alguns países. Coisas de uma luta de classes sofisticada, em que não se encontram (as classes) a meio da noite para traulitarem mutuamente nas respectivas cabeças - antes procuram maior subtileza, pela qual conseguem, mais do que amassar a classe antagonista, encher-lhe o peito de espanto e a cabeça de dificuldades de compreensão. Numa greve de zelo, os grevistas não se recusam a trabalhar: limitam-se a aplicar de forma estrita todas as regras formalizadas (escritas nos regulamentos) que enquadram a sua actividade. O resultado de uma greve de zelo não é que as coisas funcionam melhor, como qualquer racionalista da acção haveria de esperar. Esses pensam que nas regras miúdas e precisas é que está o segredo do bom funcionamento da máquina do mundo. Pelo contrário, o verdadeiro resultado de obedecer total e exclusivamente a todas as regras escritas e bem assentes é... a inoperância!
É que, no domínio exclusivo das regras formais e bem firmadas, faltam aquelas práticas que, fugindo à letra dos regulamentos, fazem funcionar as coisas. Por exemplo, quando um funcionário subalterno toma uma iniciativa sem autorização superior, porque “sabe” que ela seria dada se o chefe estivesse presente, apesar de, em rigor, arriscar uma sanção por avançar sem uma assinatura no papel apropriado. A assinatura virá. E normalmente vem. Mas emperra tudo se eu insistir que espero pelo chefe. E isto multiplicado a cada momento dos dias longos e complicados de qualquer organização humana sofisticada, por muito burocrática que seja.
Há quem confie que a acção dos humanos segue as regras escritas que aparecem nos manuais de procedimentos (relativos, por exemplo, à reparação de máquinas ou à autorização de pagamentos dentro de uma organização). Esses racionalistas da acção, tão ingénuos por demasiados admiradores da razão, nunca compreenderão o segredo de uma greve de zelo. Não estranha: muitos políticos também não percebem. E, não percebendo, descuidam "ninharias" e "perdas de tempo" que consistem em envolver, mobilizar e interagir com os agentes.
Agora, há uma ressalva a fazer. Não pode haver greve de zelo sem, antes, haver, propriamente, zelo. Contas de outro rosário.

11.11.10

hoje é dia de São Martinho: comam pedras e bebam água (ou "porreiro, pá! - uma gaita")

celibato para os/as juízes, já


Já sabíamos que o presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses entende as medidas de austeridade que afectam os juízes como sendo uma espécie de "toma lá que já almoçaste" com que o governo se vinga por haver juízes que incomodaram os "boys do PS". Infelizmente para o brilho das nossas ciências sociais, o homem esqueceu-se de apresentar a explicação das restantes medidas de austeridade. Mesmo parcial no seu objecto de explicação, a teoria desperta a inventiva da corporação, como se constata pelo que segue.
Talvez depois de muito reflectir no sentido profundo daquela teoria do presidente da associação sindical, o Juiz Presidente do Tribunal de Alenquer, provavelmente uma das vítimas da estratégia persecutória do governo, e provavelmente também um elemento das classes mais desfavorecidas no nosso país, decidiu dar o corpo às balas e fazer pela vida. Mais especificamente, decidiu diminuir o seu horário de trabalho extraordinário em duas horas por dia. Não em 2011, quando entram em vigor as tais medidas, mas desde já. (É de bater as palmas ao espírito de iniciativa do meritíssimo, cônscio de que "quem sabe faz a hora, não espera acontecer"). E foi anunciando essa medida em despachos exarados nos processos tocados por sua mão diligente.
Embora vagamente, o meritíssimo explica que a medida vem motivada pela necessidade de se mexer para poder cumprir os compromissos financeiros assumidos pelo seu agregado familiar. Não se percebe muito bem como, na medida em que o estatuto dos magistrados judiciais, e a própria Constituição da República Portuguesa, impõem exclusividade aos juízes, impedindo-os de exercer qualquer outra actividade remunerada. Só se, como alvitra o Pedro, o Juiz Presidente vai aproveitar para fazer uns biscates por fora na economia paralela.
Se pensam que se trata de mais um ataque desencabrestado do Correio da Manhã aos pobres dos juízes, notem que o sítio da respectiva associação sindical acolhe a notícia, aparentemente sem tugir nem mugir.
Estes inconvenientes poderiam ser contornados se se alterasse ligeiramente, mas de forma concomitante, o estatuto de duas classes profissionais: os padres católicos deixariam de estar obrigados ao celibato (coisa conveniente, dado que parece que há poucos para a procura); os juízes passariam a estar obrigados ao celibato. Com duas vantagens: passaria a haver menos (parece que a razão juízes/população aponta que esse seria o caminho certo); deixariam de ter de se expor a vergonhas públicas para remediar financeiramente a família. Uma solução 2 em 1.
Espero alvíssaras.


dizem que morreu o Senhor do Adeus


Devem só querer dizer que ele não tem aparecido no Saldanha a dizer adeus.

Ou talvez queiram mesmo dizer que ele não voltará ao Saldanha a dizer adeus.

Ele dizia que ficava triste quando havia pessoas que costumavam passar e deixavam de passar. Talvez ele tenha deixado de passar no Saldanha mas passe por outro lado qualquer. Onde esteja outra gente.


meninas más

09:48

Não é preciso dizer mais nada, ela fala por si. O que há é ir ler o que ela diz.



(Agradeço a sugestão à f.)

10.11.10

análise de uma notícia do Público sobre o descontentamento estudantil no Baixo Alentejo


Beja. Manifestação com cinco estudantes escoltada por dez polícias.
«Lentamente e com passo miudinho cinco estudantes do ensino secundário de Beja caminharam, nesta quarta-feira, ao longo da principal avenida da cidade, segurando uma faixa amarela com três palavras de ordem escritas a negro: “Não aos exames – ao regime de faltas – estudantes estão na rua”.»

Esta notícia representa a mais alta capitação registada nos últimos 700 anos em toda a Europa no que toca à razão "palavras da notícia" por "manifestantes na rua".

evidências indesmentíveis de que há democracia em Cuba

17:44

A propósito da convocação do VI Congresso do Partido Comunista de Cuba, Rafael Fortes exulta no 5 dias com tamanha prova de democraticidade: «Quando na Europa se tomam medidas anti-crise na cupula [sic] dos directórios dos partidos do Poder afastadas da população, é bom ver que ainda há estas supostas “ditaduras” que querem envolver o Povo na discussão dos problemas e na resolução dos mesmos.» Cuba, a democrática, em contraste com esses malandros na Europa a tomar decisões às escondidas da população. Perdão, "população", não; Povo!
Bem, para não levar a conversa muito longe, que estes peixes não ligam a sermões de santos antónios, fiquemo-nos apenas por lembrar que este VI Congresso acontecerá treze (13, sim, 13) anos depois do V Congresso. Mesmo em relação aos democratíssimos calendários cubanos, um atraso de oito anos.

Em todo o caso, seria estultícia duvidar da evidência de democracia em Cuba. Tal como duvidar da evidência de que Há petróleo no Beato.


(Agradeço o link ao maradona, já que os meus fracos hábitos de leitura não me teriam feito saber desta magnífica notícia.)

the markets want money for cocaine and prostitutes ponto final


«The markets want money for cocaine and prostitutes. I am deadly serious.» The Conscience of a Liberal abriga (e endossa) a explicação.

na luz me escondo



(Madrid, La Caixa, março de 2007. Foto de Porfírio Silva.)

Dardos

O Eduardo Pitta, que edita com um rigor invejável (e às vezes temível) o Da Literatura, sentou-me a uma mesa de notáveis da blogosfera. Sinto-me como naquelas situações em que chegamos a um colóquio, olhamos para a mesa de oradores, conhecemos e admiramos toda a gente. Quase toda a gente: há, lá no meio, um tipo da marca "quem é aquele?", ponto que só esclarecemos com ajuda de vários circunstantes. Estou, desta vez, nessa posição do tipo da marca esquisita. O que, sendo o Eduardo Pitta quem é, me honra indissimulavelmente.
Dada a pequena história da coisa, não continuo a cadeia. Única maneira de me poupar ao embaraço de continuar a ordenar minimamente a lista das minhas preferências, ainda por cima quando nem sou grande devorador de blogues e, por causa tal, não estou em dia quanto à prática efectiva das virtudes excelentes que jazem no mais íntimo de cada um de nós. Desculpa esfarrapada? Talvez não exactamente.

Última hora. Luís, desculpa fazer isto assim como acrescento, mas começo a ter vergonha de fazer postas para noticiar dardos que me contemplam. É que A Barbearia do Senhor Luís também me atingiu, embora neste caso ao abrigo de uma cautela perfeitamente filosófica (não, "filosófica" não é insulto): Nada mais injusto do que um ranking. É bem verdade. Peço desculpa a ambos por os "amalgamar" na mesma tirada.

manual de manobra política


À atenção de todos os candidatos, candidatos a candidatos, proto-candidatos - especialmente aos apressados.

A Ressurreição e o discurso de Odorico Paraguaçu, em "O Bem Amado" (1979):


Agradecemos propostas de redistribuição dos papéis por actores nacionais.

(Com agradecimentos ao Ascenso Simões, pelo achado.)

9.11.10

filosofia barata


Na segunda-feira fui almoçar com outro sportinguista a um restaurante onde os empregados são quase todos benfiquistas e onde costumamos implicar amigavelmente uns com os outros a propósito dos resultados do futebol. Mais a propósito dos desaires do que dos sucessos, não só por serem mais raros os sucessos, mas também porque achamos sempre mais picante chafurdar nas derrotas do que analisar as vitórias. Disse ao meu colega: não vale a penas picá-los, já que não tardará muito a nossa vez. Eu até estava só a pensar no próximo encontro entre leões coxos e dragões flamejantes. Mas a minha prudência ligeiramente hipócrita revelou-se de utilidade bem mais imediata, como o último jogo da jornada passada deu a entender. A filosofia da prudência pode ser barata, assim gasta em futebol e almoços - mas que às vezes é conveniente, lá isso é.
Estás a ouvir, Pedro?

quando o ódio é vesgo | voltando a Baltasar Garzón


Os ódios de estimação de Carlos M. Fernandes obedecem à lei físico-química da resistência a qualquer tipo de luz que os possa questionar. Agora volta ao alvo Baltasar Garzón, a quem acusa de incoerência (etiqueta "double standards"). Qual é a forma do ataque, desta vez? CMF, no Insurgente cita Garzón a justificar a não abertura de uma investigação a crimes republicanos, nos quais estaria envolvido Santiago Carrillo, ex-líder do comunismo espanhol. E cita Garzón a dizer que os preceitos legais não permitem iniciar essa investigação. A acusação é: Garzón acha que pode perseguir os crimes do franquismo, mas que não pode perseguir os crimes dos republicanos.
CMF está, objectivamente, a mentir - por omissão de informação relevante, a qual, a ser prestada ao leitor, evidenciaria a falta de base do seu escrito. Vejamos. A citação de Garzón é de 1998. Nessa data, era comum a leitura jurídica de que a perseguição de crimes cometidos por ocasião da guerra civil era impossível à luz das leis vigentes no país vizinho. A tipificação clara dos crimes de “lesa humanidad”, com as consequências relativas à não prescrição desses crimes, e ao facto de leis nacionais "mais permissivas" não poderem entravar a perseguição desses crimes, só entra no Código Penal espanhol em 2004, fruto de uma Lei Orgânica aprovada em 2003. Não foi Garzón que mudou, foi a lei. Garzón actuou quando a lei lho permitiu, não o podia ter feito antes. Garzón não investigou os crimes da república em 1998? Em 1998 Garzón também não investigou os crimes do franquismo. Só o fez quando a mudança da lei lhe pareceu aconselhar a mudança de procedimento. A caixa de comentários acerca do post de CMF mostra que nada disto interessa a CMF: só lhe interessa dar vazão aos seus ódios previsíveis.
CMF tem insistido, por diversas vezes, em meter os crimes do franquismo no mesmo saco dos crimes da república espanhola. Crimes são crimes, sem dúvida. Não vou aqui voltar, sequer, à questão da extensão, do carácter sistemático, e do apelo público e repetido ao assassinato dos adversários, que claramente foi diferente num e noutro lado daquele conflito. Mas, ainda assim, queria lembrar um ponto. Muitas das novas normas relativas à perseguição de crimes contra a humanidade têm como objectivo dar uma oportunidade à justiça, para casos em que manifestamente essa oportunidade foi negada, por exemplo graças ao facto de o poder político ter sido parcial contra as vítimas. No caso de Espanha, manifestamente, o franquismo negou essa oportunidade às suas vítimas. A ter havido crimes dos republicanos de que tenham sido vítimas outros espanhóis – coisa que não me cabe aqui negar -, o regime franquista de certeza que não protegeu os republicanos de serem levados à justiça. A situação não é, portanto, comparável. Já para não falar no problema da tipificação: precisamente, que crimes cabem na qualificação de "crimes contra a humanidade" e devem, por isso, ser tratados de acordo com regras específicas, tal como as relativas à não prescrição.
Mas, claro, nada disto pode interessar a CMF. Noto que comecei por expor esta questão a CMF, em comentário ao seu post, a ver se ele tinha algum dado que não fosse do meu conhecimento. Ou se ele, perante o "buraco" do seu ponto, reconsiderasse a acusação. Mas não, nada disto lhe interessa. O ódio é, as mais das vezes, vesgo. Este caso junta mais uma confirmação particular a essa constatação geral. Neste caso, sem espanto.

descalça vai para a fonte

11:17

ADSE passa a ser um sistema voluntário e vai limitar número de actos médicos. Prossegue o Público: «A partir de Janeiro do próximo ano, o sistema de saúde dos funcionários públicos deixará de ser obrigatório e passará a ser voluntário. Significa isto que os actuais funcionários públicos que beneficiam da ADSE (Direcção-Geral de Protecção Social dos Funcionários e Agentes do Estado) podem "a todo o tempo" deixar o sistema e que os novos funcionários já não serão obrigados a inscrever-se.»

Falta ver os pormenores. De qualquer modo, à primeira vista, este é o tipo de truque habitualmente usado para degradar a oferta pública em qualquer sector. O truque é simples, embora escondido pela astúcia do tempo: deixa-se que saia quem queira sair; saem os que têm posses para procurar melhor - e para pagar melhor; ficam os que pagam menos; quando o sistema, ao fim de alguns anos, só servir os que pagam menos, degrada-se: quer por falta de meios, quer por os que ficaram já não têm força reivindicativa suficiente para lutar pela qualidade do serviço; finalmente, pode-se encerrar a oferta pública correspondente. Frequentemente, era o que se queria desde o início.
Pode até defender-se que a ADSE deveria ser integrada num regime geral e desaparecer como regime separado. Essa é outra questão. Entretanto, pelo que consigo perceber com os dados que tenho de momento, esta operação é um truque similar ao que a direita política tem defendido para "limpar" outros ramos do "Estado social" português.
Não sou beneficiário da ADSE, pelo que não estou a defender "a minha dama". Estou apenas negativamente surpreendido com o método. Irritam-me os métodos assentes na astúcia do tempo: explorar a fraca capacidade que as pessoas têm de prever as consequências futuras, e colectivas, dos seus actos presentes e individuais.

8.11.10

[agora estou na beira do penhasco e não vou voar]

23:19

8

agora estou na beira do penhasco e não vou voar
como o sublime bicho estratosférico brilhante
de plumas esmeraldas tentativos braços
apenas eu baço de nenhuma asa debruçado
sobre o vidro de água e em baixo
os corredores, dispostos à partida
em músculos compactos, e deles o mais jovem (vestido

de improváveis azagaias) exclama: é esta
a fonte do trovão!, e aponta
um buraco azul mudo nas paredes da pedra. por fora
de mim regresso ao som silencioso da cidade
onde todos os rostos são o papel com linhas de inventário
e as patas dos homens pousam na larga secretária
e ficam, em relevo, caminhando no sangue. e eu queria
para ti, uma cidade sem mistério,

o gelo transparente onde mergulha a imagem
dos corredores, lançados no velocíssimo sossego sem repouso
das palavras trocadas, das bocas e dos braços misturados
pela luz, que é uma areia movediça,
este saber de nós sem ócio e sem negócio, iguais
às portas do trovão, onde o mais sábio
se lança nu compacto deus do fogo e ri




António Franco Alexandre

Dardos


Há já uns tempos que estas coisas dos "prémios a blogues" andavam calmas. Pelo menos no que toca aos que se chegam para o meu lado. Agora, o "Prémio Dardos" anda por aí a atravessar continentes. Já aqui fiz referência a uma honrosa nomeação que coube a esta casa - e fiz o gosto ao dedo com mais uma mão cheia de nomeações a outros e outras que também editam. Nessa maré escolhi espaços mais afastados das guerras da polis (no sentido estrito), com um aparecer mais estético. Regresso para registar duas outras nomeações.

A Sofia Loureiro dos Santos, no Defender o Quadrado.

O Tiago Tibúrcio, n'A Forma Justa.

Agradeço a ambos. A qualidade do que fazem, lá nos seus espaços, é o que dá valor a esta nomeação.

Gabor Szabo, Jazz Raga, Walking On Nails

13:43


dinero por soberania


"Dinero por soberania", artigo de Juan Ignacio Crespo, no El País de ontem. Recortes:
«Y en esto los bancos centrales de Europa y EE UU han hecho una vez más su aparición en escena tomando medidas bien diferentes: la Reserva Federal (Fed) aprobando un programa de compra de deuda pública por valor de 600.000 millones de dólares y el BCE presionando para retirar los apoyos extraordinarios de liquidez que había venido proporcionando a los bancos de la eurozona.»

«Y eso explica, también, la agresividad de las preguntas en rueda de prensa al Presidente del Banco Central Europeo (BCE), Jean-Claude Trichet, además de la presión que sufre desde diversas instancias para que se incorpore a la guerra de guerrillas de las divisas (no hay que olvidar que la apreciación del euro equivale a una subida de los tipos de interés) o para que ayude a la cohesión de la zona euro comprando más deuda pública de los países que la tienen a tipos más altos, ayudándoles así a estabilizarse y a salir de la recesión.»

«Y es que lo que ahora parece un duelo entre el BCE y la Fed es solo una escaramuza que distrae de la trama principal: la pelea que se libra en la Unión Europea sobre el sempiterno quid pro-quo entre dinero y soberanía.»
Na íntegra, aqui.

arte e política

10:22

Às vezes tenho medo de coisas que sei que são possíveis - e que, além de possíveis, estão aí ao virar da esquina, debaixo do manto diáfano das palavras mansas dos dias correntes, prontas a fazerem-nos habitantes do inferno se a circunstância se apresentar. Uma dessas coisas é o uso de um único olho para ver planos diferentes da realidade. Exemplo: querer julgar um artista pelas suas ideias políticas. Ou vice-versa, se quiserem. Saramago foi um caso: (pre)conceitos acerca do seu percurso político interpuseram-se demasiadas vezes na apreciação da sua obra literária. Umas vezes para a apreciar, outras vezes para a depreciar. Como, neste caso, estou no grupo dos que têm opiniões muito diferentes acerca dos dois planos do mesmo homem, aflijo-me com essa redução, com esse rebater de todas as faces do cubo num único plano.
Um outro caso recente que ocasionou tal tipo de operação de rebatimento é o da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Mario Vargas Llosa. Já de si não é linear a apreciação da intervenção política de Llosa, que vive num mundo diferente do de certos europeus que o julgam como se ele votasse na freguesia da Lapa em Lisboa, quando a sua América tem sido muito mais complexa do que isso. Mas insuportável foi ver a pressa de certa esquerda a condenar o seu pensamento, que, concorde-se ou não, é afinal o pensamento de alguém que preza a liberdade e tem procurado defendê-la, mesmo que as suas opções nem sempre tenham recoberto as nossas sobre os mesmos assuntos.
Em geral, esta pressa em confundir arte e política é um dos tais fenómenos que me metem medo - por nesse fenómeno se esconder o germe do que seria o totalitarismo se as circunstâncias se dessem. Quando vejo essa confusão começo a ver, nas caras de comentadores que vão por esse caminho, a facies dos polícias de fardas castanhas ou negras que a história conhece em muitas formas. E tremo.

Tudo isto me foi relembrado pelo texto Um ataque injusto e gratuito, n'A Terceira Noite, de Rui Bebiano.

7.11.10

profecias

invernos

19:58

Ana Maria, O inverno do chá (actualmente em exposição na São Mamede, em Lisboa)



sólido é o fumo

14:47



a cruzada contra o erro


Ainda a ler o Público:
«Na sexta-feira, Passos Coelho defendeu que "não se pode permitir" que os responsáveis pelos maus resultados "andem sempre de espinha direita, como se não fosse nada com eles". E afirmou ainda: "Quem impõe tantos sacrifícios às pessoas e não cumpre merece ou não merece ser responsabilizado civil e criminalmente pelos seus actos?"»
«Para Jorge Miranda, "só os haveria" [espaço para procedimento criminal e civil contra governantes] "se houvesse casos de corrupção comprovados". E o constitucionalista da Faculdade de Direito - que é um dos pais do sistema político português, não só porque foi um dos deputados à Assembleia Constituinte responsáveis pela redacção da Constituição, como, antes disso, integrou a equipa de juristas que fez a lei eleitoral - sustenta que "a responsabilidade de um governo é política e não tem sentido que não o seja".»

Para seguir a "lógica" de Passos Coelho, Passos Coelho deveria ser responsabilizado criminalmente por ter tido uma oportunidade de afirmar o PSD como alternativa imediata de governo e, em vez disso, se ter empenhado pessoalmente em se descredibilizar a si próprio e à sua alternativa. É que matar uma alternativa de governo, coisa de que qualquer regime democrático necessita como pão para a boca, é um verdadeiro crime contra a democracia.
A lógica de Passos Coelho é a lógica do far west: é sempre útil poder passar ao grau superior de violência. Por enquanto, verbal. Chegará o dia em que proclamará "as armas que falem"?