31.12.09

a riqueza humana do Natal

13:18


Não sou realmente muito de espírito natalício e abomino em particular a industrialização das prendas a esmo. Vejo, contudo, que presentear é uma forma de reconhecer. "Estás aí, olá." Isso pode ser tão prazenteiro para quem dá como para quem recebe. Assimetricamente, não presentear não é, necessariamente, uma forma de não reconhecer. Em geral, há muitas pessoas que reconheço como parceiros de aventura e que não presenteio. Isso depende de inúmeros formalismos e informalismos, de convenções e de hábitos. Sem rugas por esse lado. Claro, pode sempre fazer-se com que não presentear seja uma forma de não reconhecer. Por exemplo, usando o presentear como forma de distinguir: "Isto é para ti. Para ti (outro), bom dia e cara alegre e passa adiante." Não sabiam que são também estas inúmeras possibilidades que fazem a riqueza humana do Natal?!


sem comentários



Ontem ao fim da tarde, numa das lojas FNAC desta cidade de Lisboa, um empregado do sector da livraria perorava com entusiasmo fatigante junto de um casal de clientes em frente da estante da filosofia, tentando vender o suposto alto coturno intelectual de certa figura, dizendo: "Se o Agostinho da Silva fosse vivo seria o Medina Carreira da filosofia".
Fugi dali apressadamente, hesitando entre gargalhar audivelmente ou chorar em silêncio. É que entendo dever guardar-se um certo respeito pelos mortos, quanto mais não seja por eles provavelmente não terem como se defender.


30.12.09

a vida vencerá. pois, pois



Léon Ferrari, Ciertamente la vida vencerá, da série L'Osservatore Romano, 2 de Abril de 2001
(colagem de papel impresso sobre papel impresso)
[Fotografado no Museo e Centro de Arte Rainha Sofia, Madrid, Dezembro de 2009]

página 204

18:19

«Uma outra vez, durante o jantar, os raios de um esplêndido pôr-de-Sol caem sobre a mesa dos “russos distintos”. Haviam corrido as cortinas das portas da varanda e das janelas, mas sobrou algures uma fresta, através da qual um clarão vermelho, frio, mas deslumbrante, abre caminho e fere justamente a cabeça da srª Chauchat, de maneira que, na conversa com o compatriota de peito sumido, à sua direita, ela tem de resguardar os olhos com a mão. É um incómodo, mas pouco grave; ninguém se preocupa, a própria interessada nem sequer parece reparar na pequena contrariedade. Mas Hans Castorp descobre-a através de toda a sala. Observa-a durante alguns instantes. Examina a situação, acompanha o caminho do raio e fixa o ponto de onde incide. É da janela ogival, lá atrás, à direita, no canto entre uma das portas da varanda e a mesa dos “russos ordinários”, muito distante do lugar da Mme. Chauchat e quase tão afastado do de Hans Castorp. Toma uma decisão. Sem proferir qualquer palavra, levanta-se, com o guardanapo na mão, passa, diagonalmente, por entre as mesas, atravessa a sala, une cuidadosamente as cortinas cremes, certifica-se, com um olhar por cima do ombro, de que o clarão do poente já não pode entrar e de que Mme. Chauchat está livre, e, esforçando-se por parecer indiferente, volta à sua mesa. Um jovem atencioso que faz o necessário, já que mais ninguém se lembra de fazê-lo. Muito poucos notaram a sua intervenção; mas a srª Chauchat sentiu-se imediatamente aliviada e virou-se; conservou essa posição até que Hans Castorp alcançasse o seu lugar e, de novo sentando-se, olhasse para ela; depois do que lhe agradeceu, com um sorriso cheio de uma amigável surpresa, isto é, avançando um pouco a cabeça, sem propriamente a inclinar. Ele retribuiu com uma ligeira mesura. O seu coração quedou-se imóvel, parecendo ter cessado de pulsar. Somente mais tarde, quando tudo terminara, se pôs a martelar, e só então Hans Castorp percebeu que Joachim tinha os olhos discretamente cravados no prato, ao mesmo tempo que observou que a srª. Stohr dava uma cotovelada ao Dr. Blumenkohl e que o seu risinho afogado procurava olhares cúmplices em toda parte...
Relatamos factos quotidianos, mas o quotidiano torna-se estranho quando se desenvolve em terreno estranho.»

Thomas Mann, A Montanha Mágica

29.12.09

how wings are attached to the backs of angels






página 181

14:21

«E a gravidade do caso de Hans Castorp, o seu grau de enfermidade, mal lhe davam o direito de exigir uma atenção especial. A Srª. Stohr, por exemplo, por mais estúpida e inculta que fosse, estava indubitavelmente muito mais enferma do que ele, sem falar do Dr. Blumenkohl. Seria faltar a todo senso de hierarquia e de distância não observar, no caso de Hans Castorp, uma reserva modesta, tendo-se ainda em conta que tal mentalidade estava de acordo com os usos da casa. Os levemente doentes não contavam, como Hans Castorp deduzia de muitas conversas que ouvira. Falava-se deles com desdém, segundo a escala de valores ali usada; eram olhados de revés, não só por parte dos doentes graves, mas também por aqueles que eram igualmente “leves”. Agindo assim, esses menosprezavam-se na verdade a si próprios, mas ao mesmo tempo salvaguardavam a sua dignidade, por se submeterem à referida escala de valores. Era humano. “Ora este sujeito!”, pareciam dizer uns aos outros. “No fundo, não sofre de nada. Mal tem o direito de estar aqui. Nem sequer tem cavernas...” Tal era o espírito que reinava no sanatório; era aristocrático à sua maneira e Hans Castorp inclinava-se diante dele, por um inato respeito à lei e à ordem, fosse qual fosse a sua natureza.»

Thomas Mann, A Montanha Mágica

pintores das pinturas dos outros

13:03

O que pinta quem pinta pela pintura do outro?


O homem que queria levar a sua versão de Filipe IV como caçador do Museu do Prado, por não se contentar com o facto de só Diego Velázquez ter tido (1633) direito a tentar o seu retrato. (Foto de Porfírio Silva, Dezembro de 2009)

a quadratura do universo




Edgardo Antonio Vigo, La cuadratura del universo, 1990 (impressão sobre papel)


28.12.09

coisas que devem ser lidas



Castro Caldas no Ladrões de Bicicletas:
Há uma espécie de “liberalismo”, ensinado sobretudo nos cursos de Economia, que é ofensivo para o liberalismo. Há quem pense, por exemplo, que um contrato aceite por ambas as partes é necessariamente um contrato legítimo e que isso é uma ideia muito liberal.
Comecemos por um caso extremo: como sabemos existe um mercado de orgãos humanos; muitas vezes estes orgãos são vendidos por pessoas em estado de necessidade; estes contratos são ilegítimos (e proibidos pela lei).
Passemos a um caso menos extremo: o contrato de trabalho obriga-me...

Continuar a ler: O liberalismo precisa de se defender do “liberalismo”.

uma decisão à altura de Cavaco

18:46

Cavaco promulgou diploma do Parlamento que adia entrada em vigor do Código Contributivo.

Decisão de Cavaco adia combate à fraude. PS: Presidente da República "caucionou" objectivos da oposição.


O PR é livre de manifestar, por actos próprios da sua função, por que linhas se cose. Acaba de o mostrar mais uma vez, abençoando a coligação negativa contra o governo pelo qual, supostamente, é constitucionalmente co-responsável. Mas, como não podia deixar de ser para honrar o estilo de Cavaco Silva, fá-lo com grande hipocrisia política. E mesmo cobardia. Justificar a promulgação com a afirmação de que o governo sempre pode retomar a iniciativa é chover no molhado. («A promulgação do presente diploma não impede o Governo de relançar, logo que considere oportuno, a discussão em torno do Código dos Regimes Contributivos do Sistema Previdencial de Segurança Social, introduzindo os aperfeiçoamentos que considere adequados e abrindo um espaço de discussão aprofundada com os parceiros sociais e com os partidos políticos representados na Assembleia da República»). Claro que nada impede o governo de tentar outra vez. Mas a vida não anda com o mero tentar sempre outra vez. Se o PR queria um governo que assumisse funções só para desfazer o que se fez na legislatura anterior, deveria ter assumido a responsabilidade desse programa e devia ter procurado outra solução governativa. Mas Cavaco não era homem para assumir à luz do dia essa agenda.
Muito menos é grande método para avançar o método dos ziguezagues - quando o tempo perdido é precisamente obra de quem dá conselhos para recuperar o atraso. («Na nota justificativa referente à promulgação do diploma do Parlamento que adia a entrada em vigor do Código Contributivo, o Presidente da República defendeu que esta decisão continua a permitir ao Governo introduzir "aperfeiçoamentos" e medidas de compensação financeira em sede de Orçamento.»)
Cavaco elevou à altura da suprema magistratura da nação o mais puro exercício da hipocrisia política e da cobardia. Sempre valia mais assumir a sua agenda de primeiro desestabilizador, mas para isso teria de mudar de natureza. Certamente, este teatro continuará até se apresentar às próximas presidenciais como "presidente de todos os portugueses". Só se for por achar que "os outros" já não merecem ser portugueses...

27.12.09

verdade

23:03

«Verdade é que parecia um pouco estranho a Hans Castorp assistir, assim subitamente, a uma prelecção sobre o amor, já que nunca tinha ouvido conferências senão acerca de assuntos como o mecanismo de transmissão a bordo dos navios.»

Thomas Mann, A Montanha Mágica