13/03/11

É precisa uma pedrada no charco


A crise do país é profunda. Financeira, económica, política, social, cultural.

Há uma crise financeira, porque não produzimos à medida do que gastamos. Bem sei que há hoje muita gente a passar mal, mas há anos que vejo a quantidade de roupas, brinquedos, electrónica de entretenimento, acessórios de embelezamento, et cetera, em aquisição glutona por quem não tem sequer dinheiro para comer bem ou educar-se e educar os seus filhos. E que se endivida para comprar porcarias ou para pagar bens e serviços que, sendo valiosos em si mesmos, não devem tomar o lugar das primeiras necessidades. Por trás dessa crise financeira há, em parte, uma crise económica, até certo ponto devida ao domínio do financeiro sobre o económico, mas também devida a agentes económicos irresponsáveis do ponto de vista social: todos achamos que a culpa é do outro. Entre os “empresários”, ainda dominam largamente os “patrões”, que se estão nas tintas para o interesse do país, para os direitos e a qualidade de vida dos trabalhadores que lhes dão a vida a ganhar. Ao nível do país, a qualificação média dos empregadores continua a ser inferior à qualificação média dos empregados, mas isso está legitimado por um discurso social que valoriza mais comprar uma playstation do que concluir uma formação profissional e académica sólida. Entre os assalariados, é grande a massa dos que pensam que aquilo que a empresa lhes deve pagar não tem nada a ver com aquilo que eles produzem. A vozearia dos que pedem subsídios ou isenções para qualquer empresa, sem demonstração de que essa empresa é económica e socialmente responsável, junta-se amiúde à vozearia dos que clamam por intensa fiscalização a quaisquer dez euros que o Estado dê a uma família carenciada.

Há uma crise política, porque vivemos num permanente jogo de sombras. Uma certa esquerda, que sempre foi anti-europeia, tem agora imensas ideias acerca de como a Europa nos deve ajudar. Uma certa direita clama contra a austeridade, ao mesmo tempo que vai lançando quase-programas de governo que implicam mais austeridade e mais salve-se quem puder e mais cada um por si. Há umas vozes que, clamando contra os mercados sem especificar como nos podemos livrar deles, vendem a ilusão de que podemos simplesmente deixar de pagar as nossas dívidas - faltando-lhes, contudo, a coragem para explicar como viveríamos só com o que produzimos actualmente (deveriam dizer que, só com o dinheiro que é nosso, teríamos de voltar para o campo e produzir a nossa própria alimentação).

Há uma crise social, porque o “passa culpas” é generalizado. Só um exemplo: quantas famílias vêem os seus filhos abandonar precocemente a escola, ou arrastar percursos escolares de insucesso arrasador, e acusam o resto do mundo pelo facto, não se questionando um segundo acerca do que deveriam fazer melhor para desenhar as coisas de outro modo? A sociedade da desresponsabilização – alimentada pelo apontar do dedo “aos políticos” como os primeiros ou únicos culpados – é uma sociedade infantilizada, por isso incapaz de tomar em mãos o seu próprio caminho. É uma sociedade que espera um pai, um messias… ou um ditador. Uma sociedade doente, portanto. Há uma crise social, porque a sociedade está mobilizada para criticar, mas não para resolver. Há centenas de milhares que saem à rua (com toda a legitimidade) para criticar a avassaladora precariedade que inunda a sociedade portuguesa, precariedade que é um verdadeiro atentado à liberdade e dignidade individual, mas a maioria dos manifestantes acham que o governo é o principal, único, grande responsável por isso. Não lhe passa pela cabeça que deveriam exigir às associações patronais e aos sindicatos que se deixem de rodriguinhos e concluam verdadeiros acordos sociais para organizar o mercado de trabalho de outra maneira, com mais produtividade e mais segurança, com mais justiça e melhores resultados económicos. Uma “geração” que não percebe que isso passa por uma luta social mais micro, e menos contra os alvos políticos fáceis e mediáticos, não é uma geração rasca nem à rasca: é uma “geração” atomizada, onde a solidariedade e o combate deixaram de ser concretos e se ficam pela vozearia e pela rua (sem que, de algum modo, eu lhes queira negar o direito à rua). Os sindicatos e o patronato funcionam como uma espécie de partidos políticos disfarçados, que falam do que lhes não cabe na mesma linguagem dos políticos, e as gerações aflitas nem se apercebem de que isso lhes retira o verdadeiro plano da luta social e económica que deveria valer a pena. A luta social, transformada numa luta a favor ou contra o governo, convém às oposições incapazes de falar verdade, mas manieta a própria luta social, retirando-lhe horizontes e possibilidades.

Há uma crise cultural, porque se tornaram hegemónicos os discursos simplistas, os discursos que separam os diagnósticos das propostas alternativas. A união das forças políticas e mediáticas faz-se em torno do “isto está péssimo” – e esse é o discurso que ganha festivais da canção tal como ganha um coro de oposições no parlamento, tal como ganha as conversas de café ou os bitaites de intelectuais encartados. Que, depois, essa união seja impossível de traduzir em programas, em caminhos, em alternativas, parece não afligir ninguém. Quando esse deveria ser o ponto central da aflição: o não estar a emergir uma via de saída alternativa, mas apenas discursos com pressupostos contraditórios, incapazes de produzir outra governação, é o abrigo da demagogia irresponsável. Essa não é já uma questão política. Em política desenham-se caminhos diferentes e os cidadãos escolhem que caminho seguir. Estamos a um nível mais profundo de degradação: a ética do debate apodreceu. O assumir da responsabilidade pelas próprias propostas, o colocar no espaço público os dados da discussão para ela poder acontecer – são factores prévios ao próprio exercício político, que estão ausentes.

Face a isto, é preciso um sobressalto. O governo está a tentar a porta estreita: obter dos parceiros europeus a possibilidade de uma ajuda que nos retire das mãos do homem do fraque (ou do dono do “prego”) e nos dê algum tempo. As receitas da Grécia e da Irlanda não estão a resolver problema nenhum, pelo que a esperança de Passos Coelho (que venha uma intervenção externa para o PSD poder governar com o programa do FMI) é fútil. Sócrates, que continua com a atitude do combatente – fazer tudo o que pode para contrariar a maré – tem de saber que, do ponto de vista estrutural, nada pode estar substancialmente melhor nos próximos dez anos. E, certamente, o PS não pode aspirar a ficar no governo até “isto mudar”: o PS já está no governo há tempo demais, se contarmos desde 1995 e descontarmos a dinastia Barroso-Santana. E, em boa verdade, o governo do PS está a ser manietado pela direita europeia, dominante nos governos da UE, na Comissão Europeia, no BCE e sei lá onde mais - direita europeia essa que está a impor as suas políticas de destruição do Estado Social aos países aflitos em troca de uma eventual possível futura ajuda.

Está, pois, na hora, de obrigar cada um a assumir as suas responsabilidades. Não vale a pena conversar com o PSD, porque o PSD não existe. Existe Passos Coelho, que quer qualquer coisa que evite a descida de Rui Rio à capital, e cujo principal exercício político é disfarçar. Disfarçar as políticas que quer tentar, resumidas no “salve-se quem puder”. Existe Rui Rio e os que querem um PSD “credível” para tomar conta da intendência, mas que ainda não acabaram de ultimar o plano de assalto ao palácio de inverno. E existe o chefe da oposição, que reside oficialmente em Belém.

Assim sendo, Sócrates, como PM e SG do PS, deve ir a Belém e dizer a Cavaco Silva: “o senhor Presidente acha que os portugueses não podem fazer mais sacrifícios; os seus aliados nas instituições europeias passam os dias a exigir-me que peça mais sacrifícios aos portugueses; os seus aliados nos partidos portugueses concordam consigo que isto vai lá sem mais sacrifícios – e eu não estou a ver como; o senhor Presidente teve a sua manifestação da maioria silenciosa, que ajudou a convocar no seu discurso de tomada de posse, na sua habitual abrangência política alimentada pela crítica sem alternativa, porque a alternativa é onde a porca torce o rabo; portanto, senhor Presidente, eu vou-me embora, o PS vai para a oposição, que já se esforçou o suficiente, e o senhor Presidente assuma as consequências do seu activismo e arranje uma solução”.

É preciso saber sair a tempo. Sócrates não quer deixar a sua obra por mãos alheias, compreendo – mas o julgamento de Sócrates não terá lugar agora, mas daqui a dez anos, quando as estatísticas mostrarem o que mudou radicalmente por consequência da sua governação. E o grande sobressalto de que o país precisa é ser confrontado com as responsabilidades próprias dos cobardes que falam para não serem entendidos. O chefe de orquestra, que está em Belém, que trate do concerto. Única objecção razoável: o país não suporta uma crise política. A minha resposta: crise ou mudança, como lhe queiram chamar, terá sempre de acontecer antes de o país voltar a entrar nos eixos; assim sendo, que não tarde. O país precisa de uma pedrada no charco do faz de conta. Sócrates pode ser o autor de mais esse serviço ao país, habituado como está a fazer os lances decisivos.

20 comentários:

Miguel Gomes Coelho (T.Mike) disse...

Meu amigo,
que "grande" texto.
A isto não se chama pôr o dedo na ferida;chama-se por os cinco desdos da mão.
A única possível diferença é o "timing" do "já" porque considero que o dia da próxima reunião da UE (25) é crucial para o país, muito embora julgue que o PM vai a essa reunião já enfraqueciso no seu poder decisório perante os parceiros europeus.
Quanto ao resto, e serenamente, creio que tem razão, e que não existe outro caminho.
Um abraço.

Francisco Clamote disse...

Completamente de acordo. É chegada a altura de confrontar todos os políticos e o cidadão comum com as suas próprias resppnsabilidades. A começar pelo chefe da "música". Sempre quero ver como é que Cavaco se sai da embrulhada!

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Excelente post, Porfírio.

António P. disse...

Gostei, Porfírio.
O guião que propõe que Sócrates leve a Cavaco é uma possibilidade.
Seja esta ou outra Sócrates e o P.S. t~em que encontrar uma saída política para a situação.
mas não me parece que seja antes do Congresso...se calhar será tarde, digo eu.
Um abraço

Porfirio Silva disse...

António,
Há várias questões de afinação do calendário. A do congresso do PS não me parece que seja de contar: JS ainda é SG do PS, não deve adiar o país por causa do congresso. Já a questão do próximo Conselho Europeu, como mencionou o Miguel Coelho antes, deve ser acautelada. Mas é preciso agir rápido.

Eduardo Pitta disse...

Um belo texto, Porfírio!
Só o li agora por estar ocupado com o mesmo tipo de "intendência" que ontem me impediu de ir ao Pavilhão do Conhecimento.
Também acho que deve ser já. Apenas discordo na forma. Do meu ponto de vista, o PM não deve dar cavaco ao PR, tratando do que houver a tratar no Parlamento. Quando tiver de voltar a Bruxelas, dia 25, ou vai com novo fôlego (duvido) ou em gestão.
Um abraço

Porfirio Silva disse...

Eduardo,
Sim, eu percebi bem onde estava a divergência "processual" entre o seu texto e o meu. Discordo de si, nesse ponto, já que no Parlamento as comadres fazem-se de zangadas para se esconderem umas nas vestes de outras. Só se chega uma ala à frente de cada vez, para que não se reúnam os votos necessários ao derrube do governo. Eles trabalham mesmo para o charco, ou para o pântano, se preferir. Ora, um líder só fala com outro líder. O "chefe do governo" dever ir a Belém falar com o chefe da oposição. Cavaco é um chefe da oposição muito rasca, mas é o que há. Não se pode pedir a Sócrates que resolva também esse problema...

Luis Novaes Tito disse...

Caro Porfírio
Tirando a parte de que deve ser o Governo a tomar a iniciativa de se demitir (ou em versão Eduardo Pitta, de apresentar uma moção de confiança na AR) revejo-me totalmente no teu texto e só não o assinaria devido a divergência sobre a iniciativa da demissão.
Cavaco tem de ser obrigado a fazer o mesmo que fez Eanes. Demitir o Governo para fazer eleger o seu Partido. Prevejo que não terá coragem para o fazer agora, porque o seu Partido ainda não existe. Se a questão fosse só luta política o PS deveria fazer o que dizes mas, goste-se ou não de Sócrates, seja-se ou não um crítico activo das políticas de desbaratamento que pela sua mão e principalmente pela mão de uns tais a que ele deu cobertura (o Vital Moreira chamava-lhes “roubalheira”), estamos em momento de emergência nacional e seria traição à Pátria deixar de lutar.
Se Cavaco entende que é na rua que se faz a democracia, ele que demita o poder democrático e assuma a responsabilidade do seu acto. Se Coelho julga que consegue fazer melhor que Sócrates, que avance. Se os defensores da “democracia apartidária” já têm um líder para governar e um staff para os representar na AR que façam o favor de dar o passo em frente e de mostrar a cara.
Abraço

Porfirio Silva disse...

Luís,
No essencial, a tua objecção é a que considero relevante, como escrevo no fim: o país.
É verdade que para Portugal seria preferível evitar agora uma crise política, mas isso não está na mão do governo. Já estamos em crise política: o PR é um conspirador cobarde, a oposição de direita faz de conta tendo em vista apenas o seu interesse partidário, a oposição de esquerda faz de conta que podemos viver isolados do mundo.
A questão, portanto, não é como evitar uma crise política má para o país. A questão é como sair da crise política em que já estamos.
A seu tempo critiquei a opção por um governo minoritário, critiquei Sócrates por ter tratado com ligeireza a formação do governo sem apoio suficiente no parlamento.
Isso deu nisto: estamos em crise política. O ponto agora é sair dela. Depressa - depois de a UE nos ter dado o que só dá por causa da política que Sócrates prometeu, e que toda a gente (oposições de direita e de esquerda) acham que é pura maldade de Sócrates.

Abraço.

MFerrer disse...

Completamente de acordo, e já o venho dizendo há meses, desta e por outras palavras.
Sócrates, que foi impedido de fazer as reformas que eram inadiáveis, e justas, e nacionalistas, e socialmente correctas deve sim!, ir a Belém e bater com a porta!
o Povo português se quiser continuar a viver na utopia e no sebastianismo que se aguente à bronca!
Mas, como diz o Eduardo, também pode passar pela AR e dizer-lhes de facto o que pensa deles e dos interesses que defendem.
Se é que aquilo são interesses ...

Planetas - Bruno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro U. Lima disse...

Enorme texto, Porfírio. Deitaste cá para fora tudo o que me vai na cabeça mas que não seria capaz de escrever tão bem. Obrigado.

Anónimo disse...

É aborrecido fazer de voz discordante mas enfim, manda a seriedade intelectual que o diga: palhaçada. Um texto enorme para procurar que o PS fuja à responsabilidade do que armou. Não foram os demais partidos que (directamente) fizeram explodir a dívida pública, a dívida externa, o défice orçamental e o défice externo. Foi o (ou os) governos encabeçados pelo proto-engenheiro. Sinceramente, esperar que a história o glorifique é não ter o noção de quão perniciosas foram diversas governativas socialistas. E criticar a oposição por não apoiar o PEC IV é esperar que se aplauda o mais bárbaro dos crimes sociais: o ataque aos pensionistas. É ilegítimo e absurdo. Um país em que se assalta o bolso de quem trabalhou a vida toda e há quem chama a isso "entrar pela porta estreita"....
Eu espero de facto que Sócrates se demita. Mas porque falhou. Rotunda e redondamente. E na sua falta de vergonha se atira agora ao bolso dos que faltavam: e que curiosamente não fazem manifestações.
Haja paciência!

Porfirio Silva disse...

Olhe, Anónimo, apelar à "seriedade intelectual" para insultar ("palhaçada") - exige ter um "intelecto" muito mesquinho. Acabou-se-me a paciência para a pesporrência dos anónimos, pelo que lhe digo apenas isto: o governo de Sócrates foi o responsável pelo défice mais baixo em Portugal desde o 25 de Abril. Não se lembra disso, pois não? Depois veio a crise internacional - mas disso a sua "seriedade intelectual" não sabe nada. O Anónimo é mais um dos "intelectuais" que acham que isto é uma crise portuguesa - mas só "contaram pra vocês", né?!
Quando vier o PSD e fizer as "reformas" que eles têm na ideia, o Anónimo vai ver o belo caminho que leva a sua reforma.

Anónimo disse...

Caríssimo, se lhe acabou a paciência pode censurar. O discurso da crise da "dívida soberana" que afecta "toda a Europa" é factualmente falso: leia a imprensa financeira e veja que (por esta ordem) a Grécia, a Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e Bélgica (a periferira do Euro) tem spreads apreciáveis face às taxas de juros das OTs germânicas. Se ler na secção de derivados de crédito vê que são os países com maior risco de incumprimento. MAS, caro Porfírio, a Finlândia faz parte do Euro. A Alemanha idem. A Holanda idem. A França idem. Veja que o risco da Finlândia é estimado em 2% e o nosso em 35% (risco de falência). Toda a Europa? A França tem cerca de 7%. Diz-me a tabuada que isto é um quinto de 35%. E a França tem um Estado maior que o nosso (em termos relativos mesmo!!). Só que é um Estado com contas mais acertadas.
Estes países não sofreram a crise internacional? Mais até que nós. O PIB decresceu mais na Alemanha que em Portugal em 2009. Mas recuperou mais depressa. Porque não houve despesismo fútil, e a estrutura produtiva é claramente mais evoluida: as exportações são de máquinas e equipamentos, com menor incidência de trabalho e por isso o desemprego é menor: a quebra das exportações, por onde entrou a crise na Alemanha gerou uma queda maior do PIB mas como a Indústria é tecnologicamente mais evoluída, o emprego está nos serviços, e por isso, o desemprego não disparou!
Portugal tem a consequência da tentativa de um plano anti-crise despesista mal feito. Não teve uma crise bancária (o BPN e o BPP são casos de cadeia não de contágio). Não teve bolhas imobiliárias. Teve um governo que desbaratou dinheiro e agora quer ir buscá-lo ao bolso dos reformados. Isso é de manual: vai-se buscar a quem não está organizado em sindicatos e a quem protesta menos. É mais assustador voltar a ter os funcionários públicos na rua com cortes A SÉRIO de salários. Que se justificavam porque temos a quarta maior média salarial da OCDE no sector público.
Ah, e não sou reformado. Prefiro que cortem o meu salário ao de um reformado. O Porfírio não?

Porfirio Silva disse...

Anónimo das 21:05,
Estou um bocado farto de anónimos, pelo que vou arranjar maneira de não ter de lhe chamar anónimo. Vou chamar-lhe, digamos, Luís. Para darmos a isto um tom mais realista vou até atribuir-lhe uns quase-apelidos. Seja, para o caso, Luís S.P.
Então...

Caro Luís S.P.,

Não apreciou que lhe lembrasse que este "Sócrates gastador" foi o responsável pelo défice mais baixo em Portugal desde o 25 de Abril. Coisa pouca, que não lhe merece reflexão, claro.
Também não lhe merecem reflexão os estudos (académicos, de professores em universidades estrangeiras reputadas) que mostram que os governos da direita por cá foram sempre mais despesistas do que os governos do PS. É a vantagem de vir cá "como anónimo", assim não tem de assumir nada, é só dizer mal.
Os outros países, claro, estão numa situação maravilhosa, só Portugal é que está mal. Se o Luís, em vez de ser um anónimo-anónimo, fosse, por exemplo, um funcionário europeu bem informado, saberia que, aqui há uns poucos anos, quando a Alemanha e a França estavam a pisar o risco no valor do défice, impediram as instituições europeias de as colocar em quarentena, porque isso não convinha à sua grandeza de França e Alemanha. Agora, especialmente a Alemanha, que cresce principalmente à custa dos seus parceiros europeus, sacrifica os outros e a eurozona à necessidade da chancelerina ganhar eleições, apesar de altos responsáveis políticos alemães já terem reconhecido que devem a saúde económica ao "ambiente acolhedor" da zona euro.
O Luís, claro, acha que os outros países estão com uma saúde excelente e nós é que somos uns tolos. O crescimento de 1,4% em 2010 pareceu-lhe mal, foi? O Luís acredita na justeza dos mercados como Bento XVI acredita na Virgem Maria. Porque será que, apesar dos juros e dos spreads, quando Portugal tenta comprar a sua própria dívida soberana, ninguém quer vender? Se estivessem com medo de que Portugal não pagasse, quereriam vender - mas não querem, porque de facto estão a esticar a corda dos juros para ganharem mais dinheiro, não porque a situação de Portugal o justifique. Mas, claro, o Luís, enquanto anónimo-anónimo, acha que os mercados têm o direito de especular o que bem entenderem, já que isso até faz jeito a alguma oposição interna. E a uma boa parte do pessoal que deu o nome para a candidatura de Cavaco Silva, claro (mesmo aqueles que, pelas funções que ocupam, se deviam abster dessa exibição).
Mas enfim, nada disto lhe interessa.

Pronto, Luís, volte lá à sua condição de anónimo. (Já agora, não sei se preferia Luís com acento ou Luis sem acento, mas para o caso... sempre é melhor que "anónimo", acho eu.)

E pronto, vamos lá então aos comentários que sejam sobre o post acima...

Anónimo disse...

Meucaro Porfírio,

Seja Luís, se prefere. O défice mais baixo, o do "está para nascer um PM que faça melhor que eu no défice", foi curiosamente de 2.6%. Isto é, o que o Porfírio demonstra é precisamente:
a) a irracionalidadade da proposta política de portugal reduir a dívida. Porque em 36 anos, houve sempre défice. E o mais baixo foi 2,6% do PIB. Quando procurar outro país na Europa que nunca tenha tido capacidade de gerar um superávite, eu recomendo uma lupa ou um microscópio electrónico. O efeito será o mesmo.
b) a impossibilidade do actual modelo estatizante da economia (em que o PSD partilha as culpas com o PS, o CDS, a malta do PREC e em alguma medida até com o Salazarismo: porque o condicionamento industrial nunca fomentou uma sociedade livre do Estado). Demonstra isto porque se o mais baixo foi 2.6%, o modelo está factualmente viciado. Nunca gerará excedentes. Logo, nunca poderá reduzir a dívida.
E aqui ao seu post. Qual a culpa do PS? Meu caro, desde logo os balúrdios gastos na subsidiação das renováveis para as tornar artificialmente competitivas. O "Portugal tecnológico" da Fundação de Comunicações Móveis. Mas, sobretudo, o laxismo com que se diz que se quer evitar a ajuda externa quando se luta como o PM por uma flexibilização do fundo europeu, que na prática permite pedir emprestado para...comprar dívida. Repare na racionalidade da coisa: endivida-se para pagar a dívida! A isto se chama um esquema de Ponzi. E por isto foi o Maddoff e antes dele a Dona Branca para a cadeia!
Luís S.P.
P.S. Já agora, o embevecimento pela universidade externa deve-se a um único estudo do Ricardo Reis. Que por acaso concluiu o óbvio: Cavaco criou o monstro! Mas eu alguma vez defendi o homem?? Mais, ele é conhecido precisamente por criar monstros. Até conseguiu descobrir a "boa moeda" em Sócrates. Que Santana fosse patacos eu percebo. Mas Sócrates está ao nível das moedas não cotadas por não terem procura. Teremos, ao que dizem, eleições em breve para o demonstrar!
Ah, e se Cavaco criou o Monstro, convenhamos que a nacionalização do BPN o engordou bem. Mesmo que a Europa ceguinha aceite a manobra de transferir buracos para 2008.

Porfirio Silva disse...

Luís,
Só duas pequenas coisas para vermos bem onde se coloca o seu mundo.
* "a irracionalidadade da proposta política de portugal reduzir a dívida". A sempiterna mania de fazer de conta que o que se passa no mundo é uma tara portuguesa. Não sei se esquece que os défices foram uma prática muito bem espalhada pelo mundo, ou se esquece que a "receita portuguesa" para o combater é partilhada em termos gerais por muitos outros países. Mas, entretanto, o Luis já deixou para trás a acusação de que Sócrates era o grande despesista. Vai andando e vai mudando de música. Não me parece sério que assim proceda.

* "a impossibilidade do actual modelo estatizante da economia": acho uma certa piada que venha, primeiro, queixar-se de que se corta nisto e naquilo às pessoas e depois venha com esse "antiestatismo". Nesse caso, não se queixe do "governo": diga às pessoas para só aceitarem trabalhar longo do "estatal", que prescindam de prestações sociais, da saúde pública e tudo o mais, que se desenrasquem sozinhas - e, em consequência, o Luis deixe de fazer esse discurso duplo. Se quer viver no sonho de que alguma economia se tornou grande sem "estado", pela magia do mercado, é lá consigo: mas depois não venha, de forma perfeitamente incoerente, queixar-se de que "o governo" corta nisto e corta naquilo. A litania do custo das renováveis é bom exemplo dessa retórica "liberal" que faz de conta que o mundo pula e avança com acção espontânea dos mercados.
Para se deixar dessas ingenuidades, e ao mesmo tempo entreter-se um pouco com a aprendizagem da história que escapa aos dogmatismos liberalóides, aconselho-o a ver o filme Tucker: The Man and His Dream, do Coppola.

(Olhe, e este balcão de atendimento vai fechar, já que o caro Luis acha que a minha vida é tratar deste cliente. Seria simpático da sua parte não abusar do atendimento: apesar do meu esforço para continuar a conversa, a sua insistência em falar de tudo e mais alguma coisa parece-me, desculpe que lhe diga, pouco elegante para com o editor deste blogue. A menos que queira vencer-me pelo cansaço - para depois dizer que foi censura, se calhar...)

Anónimo disse...

Conheço o filme do Coppola. Como percebo que o cite. Apenas sobraria, mas não vale a pena responder, que os mercados de facto funcionam muito melhor que o Estado. Porque qualquer modelo de intervenção do Estado uma racionalidade privada na resposta. E seja qual for a racionalidade que assume erra (está estudado): precisamente porque o agregado é imprevisível. Por isso ao tentar melhorar algo face ao espontâneo social o Estado só o pode piorar porque antecipa uma resposta que com probabilidade nula acerta. Deixem a sociedade entregue a si mesma.
Defender as reformas dos, desculpe o pleonasmo, reformados, é perfeitamente liberal. Porque eles descontaram PARA A SUA REFORMA. Esse dinheiro é deles. Por isso a única solução é de facto a Segurança Social Privada. E digo-lhe mais: a educação e a saúde também. No pressuposto de o Estado cortar o equivalente na carga tributária. O que era cortar e devolver a quem o ganhou, uma brutalidade dos seus rendimentos.
Vê como era simples? Ser liberal e coerente é fácil. Defender igualdade e liberdade e fraternidade é que se torna difícil.
Luís

Porfirio Silva disse...

Luís,
Estava a pensar não continuar esta conversa, porque na realidade é aborrecida a sua insistência em querer amarrar o editor do blogue a uma "privada" consigo, mas diz coisas tão "no ar" que acho que lhe devo responder, para lhe dar motivo para pensar melhor no que diz (aproveite que as "falas" ficam escritas para rever a sequência).
Veja esta sua afirmação: «os mercados de facto funcionam muito melhor que o Estado. Porque qualquer modelo de intervenção do Estado uma racionalidade privada na resposta. E seja qual for a racionalidade que assume erra (está estudado)»
Embora dito de forma um bocado trapalhona, acho que quer dizer o seguinte: não há racionalidade "global", sobre a totalidade do mundo económico, que consiga prever e planear tudo; sem essa visão global, a acção do Estado é necessariamente ineficiente; logo, deixem-se os privados agir cada um por si. Claro, esse argumento é conhecido, pelo menos desde Hayek.
O erro está em pressupor uma de duas coisas.
Ou pressupõe que a resposta "espontânea" dos privados acaba por ser boa - o que, está demonstrado, NÃO é verdade. Está demonstrado por estudos (a "ordem espontânea", como hipótese geral, é falsa) e pela realidade: por exemplo, os segmentos dos mercados financeiros que causaram esta bagunça toda foram os segmentos mais desregulados.
Ou pressupõe que não é possível que as pessoas organizadas não conseguem coordenar-se para evitar certos cenários e potenciar outros. Também não é verdade: está demonstrado que as comunidades se podem organizar para orientar o seu futuro no sentido do bem comum. Para usar as suas palavras, também está estudado. Qual o grande obstáculo a uma maior adopção desses mecanismos: a cegueira, de que o Luis é aqui representante, que coloca as coisas nessa alternativa redutora: Estado (centralizador) ou cada um por si. Para ultrapassar essa sua forma simplista (e demasiado ideológica) de colocar as coisas, aconselho a ler alguns livrinhos da Elinor Ostrom, prémio Nobel da Economia em 2009.

A outra sua ideia peregrina é a de que as reformas são dinheiro sacado pelo Estado e que seria melhor o Estado devolver. Se quer ser honesto nesse raciocínio, terá de fazer as comparações com a sociedade do todos contra todos do Hobbes. A pura selva. Caso contrário, está sempre a querer "devoluções aos privados" em coisas pontuais, mas sempre a querer que fiquem algumas coisas. E aí começam as contas mais complicadas acerca do que fica e do que não fica. O que determina a escolha? Os interesses, os diferentes interesses. É por isso que as coisas nunca são tão simples - e o grande problema da suas argumentação é o simplismo. Parece, aliás, ideologia a mais para quem quer pensar.

Aliás, o seu simplismo nota-se pela forma como passa "como cão por vinha vindimada" (não é para ser ofensivo, é para usar a expressão popular) pelas questões que lhe coloco e não tem forma de encaixar. Passa pelo filme do Coppola como se não fosse nada: o problema é que ele é um caso muito demonstrativo de que as suas (e de outros) teorias acerca da bondade do "mercado livre" - são balelas. Isso, balelas. O Luis desvia-se sempre das questões que lhe coloco e vai avançando de pedra em pedra para novas questões. Mas, para fazer desta caixa de comentários um confessionário privado, já chega.
Boa saúde.