5.3.10

fact free politics

11:20


Segundo uma sondagem, a maioria dos portugueses pensa que Sócrates mentiu no Parlamento sobre o negócio da TVI.

É mesmo para isso que servem as campanhas de calúnias, feitas por ser sabido que os factos interessam pouco desde que a intoxicação funcione.

Os cientistas ingénuos (isto é, positivistas) pensam que a ciência é feita apenas de factos, sem teorias (ou melhor, que as teorias são apenas sistematizações de factos). Os políticos corruptos (não por dinheiro, corruptos por desvirtuarem a sua função) laboram na base de que não é preciso que haja factos, basta que se consiga impor uma certa teoria.

Estamos nisto.

Miao Xiaochun, Microcosmo


Actualmente na exposição Beijing Time / La hora de China, pela Casa Asia, no Matadero de Madrid


Beijing Time



Por variadas razões, temos dado uma ou outra vez atenção a artistas chineses de uma nova vaga que foi parida pelo novo modo de capitalismo autoritário que por aquelas bandas se impõe agora. Isso aconteceu, designadamente,aqui, aqui, e aqui, anteriormente neste blogue.
Estando agora em Madrid uma interessante exposição sobre esta movimentação artística, que tivemos oportunidade de visitar, daremos aqui, a espaços, nos próximos dias, algumas olhadelas à coisa.
 

ganhar dinheiro à conta da "asfixia democrática"


A intoxicação da opinião pública com a colaboração, acordada ou a dormir, dos órgãos de comunicação social, serve frequentemente interesses muito específicos em certos negócios. Exemplo: quando o Comendador Berardo andava a tentar colocar a sua colecção de arte a recato, com os menores custos e nas melhores condições possíveis, entrou em negociações com o Estado. E entrou de braço dado com um poderoso aliado: a comunicação social, meio onde pululam os amantes da arte. Desse modo exerceu-se uma pressão complementar sobre a parte que tinha a seu cargo defender o interesse público (o Estado) com a ameaça de uma enorme escandaleira política se a colecção não ficasse em Portugal. Claro que eu concordo que era desejável que a colecção ficasse em Portugal, como ficou. Só que, colocando toda a responsabilidade por esse eventual desfecho nos ombros do Estado, favoreceu-se a parte privada, que assim foi capaz de subir a parada para condições que talvez o futuro venha a demonstrar que não são as melhores para o património público. Todos aqueles que foram parte nesse alvoroço acabaram por prejudicar o bem da comunidade e favorecer os interesses de um determinado empresário.
De uma forma ou de outra, pretensas motivações políticas podem, afinal, ter motivações económicas e grandes "tiradas democráticas" podem representar apenas jogadas empresariais para obter ilegitimamente negócios em condições que o mercado não ditaria. Será de excluir que a actual agitação em torno de negócios com empresas de comunicação, debaixo do papão da ameaça à liberdade de imprensa, não passe de uma manobra empresarial para afastar concorrentes e limpar o terreno?
É uma pergunta que se deixa.
É fazer as contas. E a seu tempo chamar os bois pelos nomes.

TPC: Ler Balsemão tem razões que a razão desconhece.

4.3.10

nem tudo o que luz é oiro

Manuela Moura Guedes no papel de defensora da liberdade de imprensa.

(Foto de Chema Madoz.)

discordar é possível...

para quando o blogue «i» passar a tv

13:57

pensar / com notas

09:17

Encontrado num objecto difícil de entender, ao qual volto sempre para me deixar atrapalhar pela simplicidade. Por não haver nenhuma simplicidade que não o seja tão-somente em aparência.
muita terra é o objecto



uma citação que tem mesmo de ser feita


Escreve Miguel Silva:
«Tanto no caso do Metro como no do i, temos artigos com direito a manchete na capa do jornal, o que implica o compromisso de muito mais do que o autor da peça. Uma capa não se define à revelia dos editores e do director da publicação. Num e noutro caso, foi toda uma equipa que contribuiu de forma activa e consciente para um resultado que serve apenas o propósito de desinformação que tem vindo a instalar-se na comunicação social. A ética e o profissionalismo das redacções estão na sarjeta.»
Texto integral no Bios Politikos.


3.3.10

madrid, por um tempo


Não, não é o exílio. Não têm força para isso uns poucos tolos que vêm insultar-me à caixa de comentários, desconhecedores de que dá tanto trabalho apagar como publicar "comentários" soezes. É trabalho, mas (por quê o mas) é bom, já que gosto desta cidade. E qualquer dia vou começar a contar o que faço nos tempos livres (já que o resto interessa a poucos).



Geni e o Zepelim



Em mudança de uma capital para outra, por um período curto mas suficientemente longo para me baralhar a logística e o acesso à rede, vejo, mal começo a recuperar o contacto, que o país vai cada vez melhor. Em clima, claro. Vamos apenas a algo que pertence à categoria das coisas banais, aquelas que realmente mudam o mundo.

Depois de o Correio da Manhã ter dado os seus quinze minutos de glória a um bufo, daqueles que bufam muito sobre nada (por nada haver, mas isso ser difícil de entender para quem tem fome de um pedestal da altura de um tijolo burro); depois de o Público pré-pós-JMF (por haver sempre quem se disponha a dar o corpo pelo morto, para o morto poder ainda mexer) ter copiado a receita – compreendemos que tinha passado a ser coisa aceitável em Portugal que se entrasse no convívio de pessoas decentes para lhes roubar a correspondência por atacado e depois vender tudo na feira da ladra. Havendo quem comprasse. Nos intervalos, o ladrão, que aproveitara para sacar os números de telefone de alguns dos incautos, assedia como entretenimento de fim-de-semana os que tinham tido o azar ou a imprudência de cair em tal companhia. Tudo coisas que não é necessário ser doutorado, nem economista, nem professor da universidade católica do porto, para saber que são pulhices que se dispensam entre pessoas de bem. Mas está demonstrado que as pessoas decentes, que se movem pelo bem comum e não à gosma de uma colunazita em qualquer pasquim da capital, são o grupo mais vulnerável a gusanos (pela simples razão de os gusanos, aplicando técnicas apropriadas às matérias em decomposição, apanharem de tal jeito desprevenidas as pessoas de bem).


O essencial da coisa está em esta bufaria ser sobre nada. Não foi denunciado nada ilegal, nem imoral, nem sequer criticável. O essencial está em que a bufaria se apresenta como sendo, ela mesma, a moralidade – enquanto condenáveis seriam os cidadãos que se dedicam a essa actividade estranha da participação política desinteressada. O crime parece ser que essa gente “apoia o governo”, o PS, talvez até o Sócrates, enfim, tudo o que representa todo o mal. Já houve regimes totalitários que começaram assim: antes de fazer passar um grupo à clandestinidade, no sentido legal do termo, marca-se esse grupo como “indesejável”, como o tipo de pessoa que não se deve visitar, nem à mesa do café quanto mais em casa.

Depois do pessoal do carvão, os que fazem o trabalho sujo de roubar a correspondência sem qualquer justificação com o interesse público, entram em campo os “intelectuais”. Os tipos que fazem as teorias: o papel que embrulha as poias para que os carregadores possam pegar no embrulho e levá-lo a outros destinos. Foi assim que entrou em campo José Pacheco Pereira, designadamente dando à estampa no Público um artigo intitulado “Um estranho Verão entre eleições”, onde acusava o SIMplex, um blogue de campanha que apoiou o PS nas últimas eleições legislativas (às claras, sem subterfúgio em qualquer pseudo-programa de televisão ao estilo “conversa em família” pós-marxista-leninista), de ter servido de suporte ao fluxo de informação do governo, sendo preparado por “assessores” e utilizando bases de dados da Rede Informática do Governo. Vários ex-co-autores do SIMples, amigos, companheiros e camaradas (desculpem os que não reúnem as três condições simultaneamente, podem supor a disjuntiva como conectiva) dessa bela aventura cívica já disseram, em outras páginas do mesmo jornal, muito do que havia a dizer sobre isso, nomeadamente: Eduardo Pitta, Sofia Loureiro dos Santos, Bruno Reis e Irene Pimentel e (acrescento) Ana Vidigal.

O polvo, entretanto, não ficou por aqui. Como está na moda, em certos círculos, empurrar para a clandestinidade qualquer suspeito de simpatia com um grupelho minoritário que, como é sabido, foi escorraçado da vida política portuguesa pelo povo soberano nas últimas eleições legislativas, “alguém” tinha de continuar a perseguição. O jornal i, talvez arrependido de se ter atrasado a dar vazão à correspondência roubada acima mencionada, decide dar uma lição a mais um radical livre. Denuncia, serviço público eminente, mais um extremista, provavelmente terrorista, talvez bombista suicida, mais um tipo que apoiou o PS nas últimas legislativas (ainda por cima, crime dos crimes, parece que apoiou o PS mas sem se coibir de criticar o PS, ou dirigentes da administração que parece que deviam ser pró-PS ou coisa assim). E encontrou a seguinte forma original de proceder à limpeza: “denuncia” o autor anónimo do blogue O Jumento, uma entidade que também participou no SIMplex e, por isso, evidentemente a precisar de ser calada. Razão avançada para essa invasão da privacidade? Interesse público envolvido? Não, nada. Apenas isto, explicadinho bem claro: um monte de tolices.

Uma “obra” da autoria de uma pessoa que parece ter os títulos legais para se dizer jornalista. E também, não por carteira profissional, mas por provas dadas na vida real, um humorista com muita lata. E, já agora, uma pessoa de bom argumento.

E estamos nisto. Parece coisa pouca. Mas não se iludam. O poder corrompe, mas não é só o poder de Estado que corrompe. O “quarto poder” pelos vistos também corrompe. Corrompe pelo menos aqueles que vendem a alma que não têm para lá deixarem a pegada. E a falta de poder, com a correspondente sede, também corrompe. Corrompe ao ponto da indignidade que grassa.

Muito mais haveria a dizer e a conversa já vai longa. Por hoje deixo aqui apenas uma dedicatória a um doutor por extenso, que corre desenfreadamente de uma área política para outra, que muda de opinião económica com mais frequência do que eu durmo uma sesta, que entra e sai de blogues mais depressa que o TGV, que apaga blogues colectivos como se fosse o dono da blogosfera nacional, que escreve posts que depois apaga e diz que foi por engano para dizer o que disse e dizer que não disse embora tenha dito porque para alguma coisa lá está a cache do Google, que espiolha as pessoas de bem com que consegue chegar à fala e se zanga por pedir que lhe arranjem uma colunazinha e não lhe arranjarem e depois muda de amigos porque nem todos os amigos têm colunas à mão de escrever, que tem um botão on/off no seu próprio blogue pessoal e que dá ao botão (escondendo e restaurando o blogue) cada vez que pensa que pode ter de pagar uma indemnização por mais uma f**** da p***** que lá escreveu, e que é tão untuoso que consegue arranjar quem veja justificações para esse comportamento. A esse senhor, dedico, para reflexão, a canção de Chico Buarque de Hollanda, pertencente à Ópera do Malandro, intitulada “Geni e o Zepelim”. Era bom que pensasse no significado dessa canção, senhor doutor. Sem ofensa para a Geni, claro está.