17/02/10

é definitivo: proibido ser socialista

José Tavares, 1976, Arquivo Diário de Lisboa (daqui)

O Correio da Manhã publica hoje uma matéria apresentada assim: «Polémica. Governo montou rede de apoio na internet. Campanha com meios públicos.» A acusação básica é que o blogue SIMplex, criado para apoiar o PS nas últimas eleições legislativas, “foi alimentado com meios públicos usados a partir do Governo”, com “conteúdos fornecidos por um conjunto de assessores”, que “usaram o seu tempo, pago pelo erário público, meios informáticos e informação privilegiada para produzir propaganda” .
Vamos por partes.


Gente paga pelo erário público? Os membros do governo são pagos pelo erário público. Os deputados também. Os presidentes de câmara e os vereadores também. O mesmo para deputados europeus. E respectivos assessores. Quando o PM anda em campanha eleitoral, está a ser pago pelos dinheiros públicos. Quando chegar a vez de o PR fazer o mesmo, será do mesmo modo. Ou com deputados em exercício em campanha de recandidatura. O país paga a infra-estrutura da democracia, é assim em todo o lado onde há democracia, só não compreende isso quem preferia que o Estado fosse gerido por quem pudesse pagar do seu próprio bolso para exercer cargos políticos. Os assessores trabalham: o seu trabalho é político, a sua assessoria é política: quando o seu “político” titular vai à vida, eles vão à vida também. Só os salazarentos de serviço é que ainda exploram a repulsa anti-democrática pela política. Eu, que não sou assessor de ninguém, recebo uma bolsa: sou pago pelo erário público! Devo renunciar a escrever sobre política em blogues? E posso escrever sobre cinema e teatro, ou nem isso? Ou só posso publicar à noite, depois do horário de trabalho? Mas eu não tenho horário de trabalho! Terei de pedir autorização para escrever – ou até mesmo para pensar – em assuntos que não sejam “de serviço”? Estes tipos ultrapassam até a análise de Marx: quem me paga não compra só a minha força de trabalho, compra todo o meu tempo, não me deixando sequer margem para a reprodução do suporte orgânico da dita força de trabalho.

“Propaganda”, dizem eles. Essa só pode vir na linha da campanha da “verdade” do PSD de Pacheco Pereira nas últimas eleições. O PS, e o governo apoiado pelo PS, não deviam ter direito a apresentar as suas informações, nem os seus argumentos, nem a defender-se dos ataques múltiplos – porque isso é propaganda. Aquilo a que o CM chama “propaganda” é o exercício do debate democrático, tão-só. O que lhes dói é que tenha havido gente capaz de desmontar as mentiras sistemáticas avançadas por sectores para quem a derrota dos socialistas valia tudo. E mais: alguns blogues dizem verdades que jornais como o CM escondem, obliteram, ignoram. É isso que lhes custa?

Foram usados “meios informáticos do governo” para divulgar informação? Isso quer dizer o quê? Que os textos foram escritos num processador de texto chamado Word que estava no computador de trabalho do assessor X ou Y? Que as mensagens de correio electrónico foram enviadas do servidor de correio electrónico habitualmente usado por essas pessoas? E daí? As páginas do CM que estou a analisar chegaram-me, a meu pedido, digitalizadas. Crime: não comprei o jornal, alguém o digitalizou para mim. O monitor onde vi essas páginas é de um computador que não me pertence: crime? Em rigor, podia estar a trabalhar em “Robótica Institucionalista” em lugar de estar a escrever este texto: crime? Sequer criticável? Uma falha ética? Haja pachorra. Esta gente vive na idade da pedra, literalmente: parecem ser do tempo em que, se eu escrevesse na lousa do outro, só podia estar a usurpar o que não era meu.

Enfim, também sublinham que há blogueiros que escrevem sob pseudónimo. E daí? Há muitos outros blogues onde, por variadas razões, não é fácil saber quem são os seus autores. Isso é proibido? É criticável, porquê? Será só coscuvilhice doentia? Ou querem poder perseguir mais facilmente quem apoie o governo?

A única acusação séria que é feita é a de que o SIMplex teria usado “informação privilegiada”. Eu, que nem sou jurista, acho que isso quer dizer que foi usada informação que, devendo ser reservada por motivos legais a certas pessoas, foi disponibilizada a pessoas que não deviam ter acesso a ela. Essa acusação tem, pois, um contorno legal. Devia, então, ser circunstanciada: esperávamos exemplos de “informação privilegiada” abusada pelo SIMplex. Esses exemplos não são dados. Nada me faz crer que existam, mas aguardo.

Há, em destaques nas páginas desta novela, algumas pérolas exemplificativas da mente distorcida dos seus autores. Parece que no blogue Simplex se escreveu sobre coisas como o Magalhães e o TGV, óbvios temas de campanha eleitoral num blogue de campanha eleitoral. O CM acha que isso é notícia. Parece que no blogue Simplex se atacava a campanha de Ferreira Leite. O CM acha que isso é notícia. O blogue SIMplex defendia coisas que Ferreira leite atacava. E o CM acha que isso é notícia. Depois da campanha, foram criados outros blogues favoráveis ao governo. E o CM dá isso como notícia.

Acho que há aqui um outro problema: alguns jornais, habituados a determinar criteriosamente certo tipo de informações e análises que de modo algum deixam vir à luz do dia, mesmo conhecendo as matérias, ficam aborrecidos por haver hoje em dia blogues que são veículo alternativo a essa censura, encapotada ou nem tanto. Blogues que publicam, que argumentam, que opinam, que informam. Enquanto alguns jornais deitam poeira para os olhos. Ao CM e a outros jornais que temam a concorrência dos blogues, há que dizer: habituem-se.

Mas, no fundo, talvez haja outro problema aqui também: o CM diz que o material lhe foi mostrado por um dos membros do SIMplex. Quem será? Talvez algum candidato a notável que pensava que realmente nos iam pagar por escrevermos para o SIMplex, tendo ficado zangado quando os cheques nunca chegaram. Quem diz os cheques diz uma colunazinha num jornal de Lisboa ou qualquer outra tribuna onde mostrar a sua notável inteligência… Enfim, um tipo de fonte com que o CM deve saber lidar… Sempre houve gente a pretender ser sabedora de como lidar com as mudanças de ciclo político na perspectiva da gestão da carreira. Sempre houve “jornalistas” sabedores de como comer parolos ao pequeno-almoço. Com muito molho, claro.

(Declaração de interesses: eu fui, com muito prazer e honra, um dos autores do SIMplex.)

Ler ainda:
Escândalo: o governo faz política, por Pedro Adão e Silva, no Léxico Familiar
A Central, por Eduardo Pitta, no Da Literatura
A ética do bufo, por Rogério da Costa Pereira, no Jugular
Do 37º e 38º, por André Couto, no Delito de Opinião 
Chamar os bois pelos nomes, por Tomás Vasques, no hoje há conquilhas, amanhã não sabemos
Os ratos, por Tiago Barbosa Ribeiro, no Metapolítica
Dos métodos totalitários de propaganda, por Sofia Loureiro dos Santos, no Defender o Quadrado
De Salazar à república dos juízes procuradores, por Miguel Abrantes, no Câmara Corporativa
A espuma dos dias, por Vasco M. Barreto, no Aparelho de Estado
Da ética, por Luís Novaes Tito, no A barbearia do senhor Luís 
Da ética republicana ou qualquer outra, por Francisco Clamote, no Terra dos Espantos

e ainda
O país onde vivemos, por José Reis Santos, no Blogue de Esquerda


12 comentários:

Anónimo disse...

Excelente, Porfírio. Como elemento do Simplex, estou revoltada e enojada.

Irene Pimentel disse...

Excelente post, Porfírio. Como elemento do simplex, estou enojada.

António P. disse...

Bom dia Porfírio,
De vómito estas "investigações" jornalísticas.
Onde vamos parar ?
Há que responder como o fez.
Um abraço

Porfirio Silva disse...

António, a exploração da ignorância toma formas cada vez mais perigosas.

CLeone disse...

Muito bem, este post e links + comentários a outros são memso o que se rpecisa em Outuro...
Só falta (aqui e noutras reacções) uma reflexão sobre o modelo de colaboração política criado em blogs como SIMplex e reproduzido sem sucesso na Regra do Jogo: parece haver uma grande dose de imaturidade; a «bloga» implica mais atenção com quem nos envolvemos (e não conheço o Carlos Santos fora dos blogs, nada tem de pessoal). Fica a sugestão para outro post, aqui ou não. ;)

Joaquim Amado Lopes disse...

Não li a reportagem do CM e acho um desperdício de papel alguns jornais apresentarem com honras de primeira página factos que são públicos há meses e a que não deram a devida importância quando podia fazer alguma diferença.

Porfírio Silva,
O seu post podia ter sido reduzido a uma frase: "Os assessores do Governo PS são contratados para fazerem trabalho político partidário."

Bastaria isso para confirmar que, para alguns, o dinheiro do Estado é mesmo do PS.

Irene Pimentel,
Se eu tivesse colaborado com o Simplex, também (ainda) estaria enojado.

Porfirio Silva disse...

Joaquim Amado Lopes,
Não era preciso vir aqui destilar o seu ódio para sabermos que anda por aí muita gente que detesta a democracia. A democracia com partidos, a única que conheço. A democracia com política, a única que conheço.
Até posso dialogar com quem critique severamente esta política e estes partidos. Também eu critico. Mas não tolero os criptofascistas que se fazem de democratas para minar a democracia. Repito: que só existe com partidos e com política.
Como diz o Joaquim, nem leu o CM. É de estirpe: o seu ódio está lá, já nem precisa de ser alimentado.
Desejo-lhe que seja feliz, por uma única razão: quando for feliz deixará de ter tanto ódio.

Joaquim Amado Lopes disse...

Porfírio,
Que o Simplex era "alimentado" e mantido também por assessores do Governo já se sabia há muito tempo. Foi denunciado em vários blogues e até nas caixas de comentários do Simplex durante a campanha. É por isso que não preciso de ler a "notícia de última hora" do CM.
Não falamos de assessores do Governo que, particularmente, também colaboravam com o Simplex e outros blogues mas sim de gente cujo trabalho era precisamente participar em blogues a fazer campanha partidária. Essa "confusão" entre recursos do Estado e trabalho partidário foi descrita na perfeição por Elisa Ferreira.

Não tenho nada contra a democracia (ao contrário de algumas das suas companhias). Quero que todos tenham a sua palavra a dizer nas escolhas do país e sobre os assuntos do país porque é a única forma de garantir que também eu a posso ter. E não tenho nada contra a democracia com partidos, quanto mais não seja porque milito num.

Mas tenho tudo contra detentores de cargos públicos que contratam para seus assessores centenas de amigos que pouco mais fazem do que trabalho partidário. Assessores esses pagos pelo erário público em valores que (quase?) nenhum conseguiria ganhar no mercado de trabalho sem "ajudas" dos "camaradas".
Isso não tem nada a ver democracia, apenas com o uso indevido de meios do Estado, o que (só por acaso) até é crime. Pelo menos é o que o Miguel Abrantes (um dos?) escreveu no Simplex sobre um caso que não é sequer minimamente comparável. Foi qualquer coisa do género "crime de peculato de uso".

E nem vou qualificar os termos que usa na sua resposta ("destilar o seu ódio", "detesta a democracia", "criptofascistas") e as considerações pessoais que faz sobre uma pessoa que não conhece. Simplesmente porque são inqualificáveis. Como o Porfírio.

Porfirio Silva disse...

Joaquim, ainda acrescento mais: o que escreve acima é uma colecção de mentiras - no melhor dos casos; algumas das pérolas são mesmo delírio. Só me resta uma dúvida: vossa mercê não sabe que está fora da realidade, ou, pelo contrário, sabe mesmo e está a aldrabar de propósito?
Ah, uma coisa: não uso falinhas mansas com quem vem com ofensas. Você é dos tais que dá pontapés e espera festinhas, mas não se preocupe que não me amedronto. E mais: reitero as minhas palavras em comentários anteriores: destilar ódio e criptofascismo, por exemplo. Aconselho, a propósito, umas leituras sobre a ascensão do nazismo na Alemanha, por exemplo. Para ver, se por acaso ainda não sabe, como "as coisas" são cozinhadas.

Joaquim Amado Lopes disse...

O "crime de peculato de uso" deve ser uma das minhas "mentiras". Pois.

O Porfírio demonstrou no post e nas respostas ser um adepto entusiasta do verdadeiro estilo "socretino": "Se não estão connosco, insulto para cima. Se descerem ao nosso nível, ganhamos argumentos contra eles. Para não descerem ao nosso nível têm que se ir embora e nós ganhamos por desistência do adversário."

Não admira que tenha participado no Simplex e esteja tão disponível para defender o "grande líder".
O que acaba por ser cómico: um defensor de José Sócrates a comparar os outros a nazis.
ROTFLOL

Fique bem na companhia dos "seus".

jose reyes disse...

O Joaquim Armado em Lopes, o rei do aborto, também anda por aqui a destilar o ódio dos rancorosos? Lembro-me de me divertir com esta figurinha patética nos newsgroups, nomeadamente no pt.soc.politica, há anos!

Então, Joaquim, vejo que os anos passam por ti e tu não mudas, não cresces, não aprendes... Já conseguiste terminar algum curso? Já conseguiste encontrar as armas de destruição maciça nas barbas do Saddam? Já conseguiste encontrar uma mulher que te ature?

Não? Pois... Eu acho que sei os porquês dos teus rancores.

Porfirio Silva disse...

O Joaquim Amado Lopes agora fala em crime. Se a conversa é essa, dirija-se à Judite (à PJ, quero eu dizer) e apresente queixa. Neste país qualquer pedinte acha que sabe tudo e mais alguma coisa sobre direito: os crimes imensos dos outros. Em geral, é só tontice. Abençoada com um pouco de presunção.