11.10.08

os ricos que paguem a crise


"Porque é que devemos pagar pela crise deles?" lê-se nos cartazes amarelos. A dúvida pode atravessar a Europa e os Estados Unidos, mas em Londres os estudantes estão à espera de uma resposta. Primeiro à frente do banco de Londres, depois pelas ruas do bairro financeiro. As perdas nos mercados mundiais aumentam o sentimento de insegurança, já começaram as manifestações. Fotografia: Luke MacGregor/Reuters
[O Público]

10.10.08

The Trap: What Happened to Our Dream of Freedom, Episódio 3

14:30


The Trap: What Happened to Our Dream of Freedom é um documentário de Adam Curtis que passou pela primeira vez na BBC em Março de 2007. O documentário faz uma viagem por algumas ideias "bizarras" (embora muito "científicas") que estão presentes em ferramentas muito aceites como úteis para pensar a sociedade dos humanos. Trata-se, por exemplo, de reflectir sobre a "teoria dos jogos" como modelo da natureza humana em sociedade.
O documentário passou em três sessões de cerca de 60 minutos cada. Estamos aqui a divulgar, um de cada vez, esses três episódios (cada um dividido em 6 peças de cerca de 10 minutos cada). A publicação de cada episódio incluirá uma "introdução" ao mesmo, editada a partir daqui.

Estamos a fazer isto espaçadamente, porque sabemos que os nossos leitores têm mais que fazer do que passar horas frente a este blogue.
Divulgámos aqui o primeiro episódio. E aqui o segundo.
Hoje é a vez do terceiro e último episódio. Fica para o fim de semana, certo?



Terceiro episódio: "We Will Force You To Be Free" (25 de Março 2007)


O programa final centra-se nos conceitos de liberdade positiva e de liberdade negativa introduzidos na década de 1950 por Isaiah Berlin. Curtis explica como a liberdade negativa poderia ser definida como “estar livre de coacção” e a liberdade positiva ser definida como “a possibilidade de prosseguir um potencial”.

O programa gira à volta deste tema, revisitando a opinião de Berlin segundo a qual a liberdade negativa era a mais segura das duas e mostrando como muitos grupos políticos recorreram à violência em nome da conquista da liberdade.

Por exemplo, a Revolução Francesa levou ao Terror, tal como a revolução bolchevique na Rússia acabou num regime totalitário.

Passa-se depois ao revolucionário africano Frantz Fanon, que elaborou a tese do existencialista Jean-Paul Sartre segundo a qual o terrorismo era uma arma terrível, mas a única à disposição dos pobres.

Também é analisado o uso dado ao conceito de liberdade económica na Rússia pós-soviética e os problemas decorrentes. Um conjunto de políticas conhecidas como " terapia de choque " destruíram os mecanismos de segurança social que existia e produziram um "genocídio económico", assim chamado devido ao grande número de pessoas sem recursos sequer para comer. Ieltsin reagiu a este tipo de críticas tornando-se cada vez mais autocrático e, ao mesmo tempo, vendendo propriedade estatal a empresas privadas por uma fracção do seu valor real.

Curtis também analisa a agenda neo-conservadora da década de 1980, que fez com que, em nome da liberdade, os neo-conservadores tenham, por exemplo, apoiado fervorosamente o regime policial de Augusto Pinochet no Chile, que utilizava a máxima a violência para esmagar adversários virtuais.

O programa analisa ainda a acção americana contra o governo Sandinista da Nicarágua, o apoio americano ao Xá do Irão e o apoio de certa esquerda à revolução xiita de Khomeini.
Afinal, este programa questiona a razoabilidade da preferência pela concepção negativa da liberdade – sugerindo a necessidade de dar mais atenção à concepção positiva da liberdade.



The Trap #3 - We Will Force You To Be Free (1 de 6)




The Trap #3 - We Will Force You To Be Free (2 de 6)




The Trap #3 - We Will Force You To Be Free (3 de 6)




The Trap #3 - We Will Force You To Be Free (4 de 6)




The Trap #3 - We Will Force You To Be Free (5 de 6)




The Trap #3 - We Will Force You To Be Free (6 de 6)





descontrair por um momento






Mler Ife Dada - "Zuvi Zeva Novi"

ilusão de óptica



O Mundo da Verdade diz que isto é publicidade a um motel brasileiro. Se calhar até é...
(Clicar na imagem para verificar a fruta.)

sabedoria do mercado



Estava-se no outono e, os índios de uma reserva americana perguntaram ao novo chefe se o inverno iria ser muito rigoroso ou se, pelo contrário, poderia ser mais suave. Tratando-se de um chefe índio mas da era moderna, ele não conseguia interpretar os sinais que lhe permitissem prever o tempo, no entanto, para não correr muitos riscos, foi dizendo que sim senhor, deveriam estar preparados e cortar a lenha suficiente para aguentar um inverno frio.

Mas como também era um líder prático e preocupado, alguns dias depois teve uma ideia. Dirigiu-se à cabine telefónica pública, ligou para o Serviço Meteorológico Nacional e perguntou: "O próximo inverno vai ser frio?" -"Parece que na realidade este inverno vai ser mesmo frio" respondeu o meteorologista de serviço.

O chefe voltou para o seu povo e mandou que cortassem mais lenha. Uma semana mais tarde, voltou a falar para o Serviço Meteorológico: "Vai ser um inverno muito frio?" "Sim," responderam novamente do outro lado, "O inverno vai ser mesmo muito frio".

Mais uma vez o chefe voltou para o seu povo e mandou que apanhassem toda a lenha que pudessem sem desperdiçar sequer as pequenas cavacas. Duas semanas mais tarde voltou a falar para o Serviço Meteorológico Nacional: "Vocês têm a certeza que este inverno vai ser mesmo muito frio?" "Absolutamente" respondeu o homem "Vai ser um dos invernos mais frios de sempre."

"Como podem ter tanto a certeza?" perguntou o Chefe. O meteorologista respondeu "Os índios estão a aprovisionar lenha que parecem uns doidos."

(Recebido por e-mail.)

Bolsas europeias em queda

Bolsa de Lisboa afunda mais de sete por cento

9.10.08

e se fossem dar a volta ao mundo?


PSD acusa Ministério da Educação de intimar autarquias a pagarem modems e Internet do Magalhães.


Terrível. Corremos o risco de as autarquias deixarem de ter dinheiro para rotundas.
Além disso, de acordo com certos intelectuais da linha abrupta, os meninos deviam estudar informática, e processador de texto, e folha de cálculo, e aprender a usar a internet, e enciclopédias em linha e outras coisas que tais... na teoria. Claro, primeiro na teoria. E só depois de saberem de trás para a frente como usar um computador e toda a parafernália associada, só depois disso é que lhe deveriam passar o computador para a mão. Lá para o 12º ano de escolaridade, nunca antes. E se, agora, ainda por cima, vamos deixar de ter rotundas por as autarquias gastarem o orçamento no Magalhães, então é que estamos tramados.


o medo absoluto


PS não garante casamento gay na próxima legislatura.


Grupo parlamentar do PS vai votar contra mas apresentar declaração de voto a favor de casamento homossexual .


Há uma certa linha de legislação "progressista" que parte do princípio que tudo no ser humano é construção social. Nada vem da natureza. Nada tem a ver com a pertença da espécie ao mundo natural. Tudo pode ser objecto de engenharia. Tudo é relativo às nossas opções pessoais. É o triunfo do artificial. O triunfo do tubo de ensaio. E, claro, a "esquerda" da moda aponta como reaccionário tudo o que duvide da bondade dessa legislação. Porque não compreendem que o respeito pelas pessoas não tem de passar por este relativismo. Eles lá sabem. Mas sempre podiam lembrar-se, por exemplo, de Cesariny, que, tendo a opção sexual que tinha, abominava o folclore moderno em torno da coisa.
Agora, o que é mesmo o cúmulo do desnorte é um partido votar contra uma proposta ao mesmo tempo que se declara a favor dela. Ainda por cima quando esse partido tem maioria absoluta. E, pelos vistos, tem também o medo absoluto. Mas medo de quê? Medo do disparate? Ou medo de ser penalizado pelo disparate?

oferecemos consulta psiquiátrica em linha


Maioria das empresas já não paga taxa de IRC.

Face a isto, o que fazer?
Damos-lhe o melhor que podemos: oferecemos-lhe uma consulta psiquiátrica, totalmente de borla, em linha. Clique abaixo, introduza as suas falas (tem é que ser em inglês, porque o homem foi contratado nos States), espere que o psicoterapeuta responda e vá mantendo a conversa. Pode ser que acalme... Mas, entenda: como qualquer terapeuta, ele vai querer que Vexa. colabore, diga coisas relevantes, não fuja às questões. (Oh diabo, e isso não porá os nossos clientes em crise outra vez?!)


(Se quer saber o que isto é, o que é este psicoterapeuta automático, ainda por cima com nome de mulher, aproveitando a crise para aprender alguma coisa sobre a história da Inteligência Artificial, pode ir aqui ler uma introdução.)

8.10.08

bússola, precisa-se

(Cartoon de Peter Brookes)


Uma certa esquerda política, que está sempre contra a Europa, que fala da UE como um bando de capitalistas montados em associação criminosa para roubar os trabalhadores, agora parece achar razoável exigir que essa Europa faça alguma coisa face à crise.
Os britânicos, que sempre pensam na Europa como "os tolos do continente que querem fazer um socialismo estranho", agora já acham que se calhar o capitalismo não tem de ser só aquilo que eles pensam.
O Joe Berardo, ontem no Jornal das 9 da SIC Notícias, produziu a tese de que isto é fruto de uma conspiração deliberada contra o capitalismo/democracia. Sim, ele tomava capitalismo e democracia como sendo a mesma coisa (ou será só por falar mal inglês?).
Em que ficamos? A UE pode ser, na globalização, um factor de equidade - ou apenas pode ser uma espécie de barco cheio de piratas? E porque é que os aflitos disparam em todas as direcções, como se fossem virgens acabadas de vir ao mundo?
Sem ao menos a social-democracia europeia, especialmente quando governa, não fosse tão atreita ao canto das sereias do neo-liberalismo sem critério...

Gordon Brown convida restantes países da UE a adoptar plano europeu de apoio à banca.

Bancos centrais cortam taxas de juro em meio ponto percentual em acção concertada.

FMI: economia portuguesa deverá aproximar-se da estagnação em 2009.


Entretanto, por cá, alguns parecem muito tristes por o governo português estar, até ao momento, a reagir de forma muito sensata à tormenta. Esperavam o dilúvio. Como nem sequer disfarçam, arriscam-se a afogar-se na água dos seus próprios sonhos. Sonham eles, não em fazer melhor, mas que os outros tropecem para eles aproveitarem. A pequenez está muito em voga, essa é que é essa. E a miopia também: os que dizem que esta baixa de impostos demonstra que essa medida estava em dívida há muito, poderiam, por favor, tentar perceber que a mudança de circunstâncias não permite raciocínios "como se o futuro sempre tivesse estado presente no passado"?

Governo baixa IRC para metade nos primeiros 12,5 mil euros de matéria colectável.

novas medidas de combate à crise



Automated Caveman Gets a Rear-End Drive

(Popular Science, Janeiro de 1964. Daqui. Clicar para aumentar.)


Mentes maldosas! Eu referia-me às letrinhas pequeninas: "For more about this operation, turn the page".



7.10.08

baraço ao pescoço

à velocidade da luz

os feiticeiros e os aprendizes




Acordo conjunto dos 27 segura depósitos até 50 mil euros. Teixeira dos Santos: UE não permitirá que nenhum "banco com impacto no sistema financeiro falhe".


Não é agradável ver como a União Europeia demora tempo a encontrar o seu caminho na tentativa de enfrentar a tormenta. Mas, por um lado, isso é natural: só os que acreditam que os humanos em sociedade são máquinas de calcular é que esperam que haja sempre respostas prontas para tudo. Um sistema tão complexo como a UE vai-se construindo à medida que vai deparando com novas dificuldades. Sempre assim foi na sua história, provavelmente sempre assim será. Por outro lado, também interessa ver que na UE se tende para soluções mais justas do que parecem estar a caminho nos EUA: deste lado tende-se a responsabilizar mais os culpados e a proteger as vítimas em vez dos malfeitores.
Não tira que, no fundo, a Europa esteja a pagar pelo mesmo pecado que os EUA: vistas curtas, desprezo pela regulação, maior carinho pela finança do que pela economia real, crença cega nas virtudes congénitas dos fazedores de dinheiro. Será desta que reformam mesmo os enquadramentos de regulação?

traduzir de economês para português

Testar a hipótese da ordem social espontânea

08:47

Já aqui publicámos anteriormente esta série de apontamentos. Mas os acontecimentos dos últimos tempos dão-lhes outra actualidade. Aquilo que ainda há umas semanas poderia parecer, a alguns mais distraídos, uma questão meramente académica, é agora claramente algo que está em frente dos nossos olhos e a ter um impacte directo nas nossas vidas. Em homenagem aos distraídos, e àqueles que só acordaram agora, e que pensam que tudo isto que está a acontecer é uma surpresa completa, deixamos aqui um contributo para uma reflexão acerca de alguns mitos maus relativos ao funcionamento das sociedades humanas.

Se admitirmos a existência das instituições e que elas, e não apenas os indivíduos, desempenham um papel na ordem social, na vida dos colectivos – ainda podemos admitir que as instituições sejam, simplesmente, o produto emergente da interacção espontânea entre agentes individuais. José Maria Castro Caldas, a certo passo de uma investigação desenvolvida no quadro da Economia com ferramentas da Inteligência Artificial, realiza um conjunto de experiências com a hipótese da ordem social espontânea. Essas experiências não são realizadas com robots físicos encorpados, mas com agentes de software, na linha da Simulação Multi-Agentes. Veremos aqui alguns aspectos desse contributo, até porque ele nos aproxima da estranha convivência entre ciências do artificial e pensamento económico.



Diz-nos Castro Caldas, em Escolha e Instituições: Análise Económica e Simulação Multiagentes (Castro Caldas 2001), que nem mesmo os economistas neoclássicos consideram que o “mercado livre” exista num vazio de regras: antes atribuem as regularidades comportamentais observáveis na sociedade exclusivamente à tendência para o equilíbrio e (como o equilíbrio resultaria das escolhas racionais, ou de processos de aprendizagem que convergiriam para estados estacionários compatíveis com estas escolhas), em última análise, à própria racionalidade. A explicação alternativa para as regularidades na acção social existe: regras partilhadas, normas e convenções sociais. Na tradição institucionalista próxima de Hayek, é reconhecida a importância das regras partilhadas sobre as quais assenta a ordem social. Mas é feita uma distinção entre regras concebidas deliberadamente (produção legislativa, por exemplo) e regras geradas de forma espontânea, que resultam do agregado das acções desenvolvidas por cada um dos indivíduos na prossecução do seu interesse próprio, acções essas e indivíduos esses que não teriam qualquer intenção de por essa via produzir regras. Hayek consideraria que as regras resultantes de um crescimento espontâneo são as regras próprias de uma ordem social benéfica (Castro Caldas 2001:175-176).



Castro Caldas, recorrendo ao Algoritmo Genético (uma técnica de evolução artificial) e dando-lhe uma interpretação própria (a que chama “interpretação comportamental”), vai realizar experiências de Simulação Multi-Agentes que pretendem fornecer elementos para discutir esta hipótese da ordem social espontânea: será que a mera interacção de agentes que prosseguem exclusivamente o seu interesse individual, tal como ele é percepcionado individualmente, resulta necessariamente em soluções eficientes para os problemas colectivos?

A isto nos dedicaremos nos próximos dias, nesta série de postais.
(Não é preciso esperar pelos próximos dias: está tudo publicado. Basta seguir o link no fim de cada apontamento. Esta é a vantagem de isto ser uma republicação.)



REFERÊNCIA
(Castro Caldas 2001) CASTRO CALDAS, José Maria, Escolha e Instituições – Análise Económica e Simulação Multiagentes, Celta Editora, Oeiras, 2001


6.10.08

epistemologia da crise


(Cartoon de Marc S.)


Esta crise financeira actual mostra coisas curiosas quanto às formas que usamos para reflectir sobre a sociedade.
Há um certo número de comentadores que escrevem como se o capitalismo estivesse moribundo. Mas não está, porque há muitos capitalismos diferentes, porque o capitalismo é uma forma suficientemente genérica para ser reconhecível após muitas transformações de muitas das suas características concretas. Se isso é assim há tantas décadas, porque deixaria agora de ser?
Há outro sector de comentadores que escrevem como se os factos não interessassem nada à compreensão da realidade. É claro que não há factos brutos aos quais possamos ter acesso sem uma mediação das nossas interpretações. Mas, de qualquer modo, há factos que todos reconhecemos para além de qualquer divergência interpretativa. Alguns, não tendo o descaramento de negar esses factos, optam antes por dizer: pois, mas não muda nada. Isto não é nada. Tudo se recomporá.
Sim. Tudo se recomporá, provavelmente. Mas, também provavelmente, com algumas consequências. Algumas coisas vão mudar. Porque só um cego é que não vê que certas formas do capitalismo atingiram a pura irracionalidade. Porque certas teorias - as teorias segundo as quais o Mercado (com maiúscula) é quem melhor pensa desde que não interfiram com ele - é que deram estes frutos. Estes frutos podres.
São os que sempre defenderam essas teorias que deram estes frutos podres que agora dizem que os factos não existem.
Eles lá sabem.
Eu, se fosse a eles, partia de bicicleta para a Lua: porque nada no mundo os impede de confundir as suas teorias com a realidade.

[Mercados antecipam contágio da crise financeira ao resto da economia.]


[Director do FMI, Dominique Strauss-Khan: Resposta europeia à crise financeira deve ser coordenada e seguida de acção.]



5.10.08

novidades na blogosfera de qualidade


CMF, com quem já travei amargos debates políticos centrados no blogue No Mundo, mas que reconheço que é homem que sabe escrever, tem nova casa. Lá se verá outra coisa que faz muito bem: fotografia. E mostra coisas dessa arte no Carlos M. Fernandes - Photography. Além, claro, do Na Cozinha, onde alimenta a nossa imaginação gustativa. E tem mais sítios para visitar, mas com estas pistas já o encontram.