3.12.09

ser um pouco tunhas

08:19
Mário Soares mostrou, há uns dias, preocupação com o estado do PSD, parece que dizendo que seria preciso ajudar esse partido a ultrapassar a crise que atravessa. Muita gente já expressou algum tipo de opinião acerca dos riscos que uma eventual implosão do PSD acarretaria para o sistema pluripartidário em Portugal. Até eu, pasme-se, escrevi há tempos neste blogue (um partido falhado?) sobre esse ponto.
Nada disto significa que tenhamos passado a ser simpatizantes do PSD, que tenhamos passado a concordar mais com ele,que tencionemos de futuro votar nesse partido. Não é esse, pelo menos, o meu caso. Significa, tão somente, que nos interessa o funcionamento de um sistema político onde as outras opiniões fazem parte do ecossistema das nossas próprias opiniões. Significa que não nos interessa nada ficar a falar sozinhos, que acreditamos na necessidade do pluralismo, que temos a noção de que o definhamento de um partido com uma presença tão forte no país não se resolverá depressa e bem num esquema partidário que (naturalmente) tem o seu grau de rigidez. E significa que temos a ideia de que isso poderia, caso não se resolvesse, ser um problema para a democracia.
Alguns, diferentemente, parecem pensar que a democracia consiste em cada um desejar que todos os partidos, excepto o seu próprio, ardam no fogo do inferno. Paulo Tunhas, que opinia regularmente no jornal i e subscreve as suas opiniões como filósofo, ou pelo menos como Professor de Departamento de Filosofia da Universidade do Porto, é talvez um dos elementos desse conjunto. Desenhei esta conjectura ao ler Tunhas a ligar um dos seus ataques pouco filosóficos ao PS com as palavras daquele Mário Soares preocupado com o PSD, misturando alhos com bugalhos e pondo em letra de jornal um pacote de banalidades. (Às vezes pergunto-me se é preciso ser um filósofo "à Tunhas" para escrever aquelas profundidades num jornal.) Ele não foi o único a querer ridicularizar Soares graças às suas preocupações com o PSD, mas, para mim, a palavra de um filósofo é sempre merecedora de mais atenção, que se há-de fazer a estas manias.
Fico agora à espera de novo artigo de Tunhas, desta feita agraciando Pinto Balsemão, que veio "alertar para o risco de suicídio do PSD". Tunhas permitirá a Balsemão estas liberdades ("Temos de sair deste lento suicídio"), com a desculpa de que ele, sendo militante, pode falar do PSD, embora os demais devam calar as suas preocupações? Ou Tunhas sentir-se-á escandalizado, mesmo assim, por haver quem diga publicamente que o actual momento do PSD é susceptível de causar perturbações à concentração dos debates nacionais nos verdadeiros problemas que nos afligem?

2.12.09

apocalipse

Servem para quê as palavras?
Para mover o mundo de tal modo que aquele sítio desejado nos entre pela nossa rua dentro, oferecendo-nos uma proximidade onde as pernas não seriam capazes de nos levar?
Para mexer naquelas partes dentro das pessoas que não vamos tocar, por respeito, mas cujo estado disposicional influi muito na possibilidade de chegar perto dessas mesmas pessoas sem ser mordido?
Para criar os deuses que surgem quando a vida se complica, e para matar pelo esquecimento os deuses que não cabem no nosso mundo quando voltamos a poder pensar sem medo e sem fome e sem frio?
Para imaginar que são inimigos os amigos, e amigos os inimigos - e para reconhecer como amigos os que o são?
Para jogar xadrez mentalmente, como o xadrez às cegas, em que os jogadores jogam "de cabeça" sem tabuleiro e sem peças físicas (o xadrez é uma actividade extremamente formalizável), mas numa variante em que todas as reflexões estratégicas para as jogadas seguintes têm de ser verbalizadas?
Para ler alto aos netos as Investigações Filosóficas de Wittgenstein e dizer-lhes que poucos romancistas alguma vez se deram ao trabalho de escrever um romance e, ainda na mesma vida, escrever outro a desdizer tudo o que dissera o primeiro - como Wittgenstein fez ao Tratado Lógico-Filosófico com as posteriores Investigações Filosóficas?
Para conversar com o pobre acerca da caridade, apenas para testar se a fome dele já é tão grave que o obrigue a aturar as nossas prelecções?
Para que servem as palavras? Para nos dar de comer ou para nos entreter quando a fome já não se aguenta?
Para que servem as palavras? Para os nossos queixumes, para usar os queixumes como manifestações indirecas e rebuscadas de ternura, como o pescador que não chega a lançar o isco à água mas canta, canta, canta para os peixes do mar, dispensando-os de ouvir sermões tão enrodilhados como os de António de Lisboa no dizer de Vieira?
E por qual razão não chega a ser viável dizer para que servem as palavras?


Óscar Salmerón, Los Cuatro Jinetes del Apocalipsis, 2009 (detalhes)
(na Arte Lisboa 2009)


30.11.09

perplexidades

21:38

Aparentemente o PCP preferiu votar contra as medidas de combate à evasão contributiva, e de protecção social dos trabalhadores. Eu até percebo que o Paulo Portas o tenha feito. Mas, o PCP?? E o BE?? Em que medida é que favoreceram os trabalhadores com o sentido de voto?

Espantada/o? Veja por qual razão Carlos Santos afirma aquilo mesmo. AQUI.

o nariz de Judite



Judite de Sousa estava ainda agora a perguntar (a António Vitorino, na RTP1) que diferença fazia o Tratado de Lisboa para o "cidadão comum" (seja lá isso o que for). O homem respondeu-lhe que, na verdade, nenhum Tratado faz diferença para o cidadão comum. Tem razão AV, num certo sentido: as camadas superiores da realidade institucional de sociedades complexas só muito indirectamente se ligam ao dia-a-dia das pessoas em geral. Isso, contudo, não quer dizer que essas camadas institucionais sejam menos importantes para o "cidadão comum". Por exemplo, se um sistema político bloquear e, desse modo, impedir a tomada de decisões que seriam necessárias à resolução de problemas que não se resolvem espontaneamente - será o cidadão comum, finalmente, a pagar as favas. Mas, claro, para perceber isso é preciso olhar um bocadinho mais longe do que a ponta do nariz de uma famosa entrevistadora com chavões sempre prontos a disparar para atingir o olho e o ouvido do "espectador comum" (seja lá isso o que for).


fazer umas contas ao truca-truca geral

20:19

Professores pedem números para avaliar propostas do Governo. «Os sindicatos de professores querem saber qual será a duração da carreira proposta pelo Ministério da Educação, bem como o número de professores em cada escalão e o tempo necessário para a transição, antes de qualquer compromisso.»

É um projecto reconhecível: eliminar a incerteza da vida. Ter todos os dados para julgar o que vai acontecer ao longo de uma carreira de dezenas de anos.
Digo já: se eu estivesse no lugar da ministra da educação aceitaria, com uma condição: os sindicatos teriam de se comprometer com os número da demografia para os próximos 20 ou 30 anos. Sim, porque as necessidades da escola pública devem estar relacionadas com o número de pessoas que procuram o sistema, que são maioritariamente crianças e jovens, em maior ou menor número consoante as variações do truca-truca geral. Portanto, queridos sindicatos, comecem a fazer as contas. E a explicar como compensarão as perdas se as contas do truca-truca não baterem certo.
Ou os sindicatos acham que o número de professores no sistema não tem nada que ver com as necessidades do país e com a tal demografia?

[produto A Regra do Jogo]

os minaretes e o clítoris

16:43

Na discussão sobre os minaretes os minaretes são o menos importante. A proibição da excisão feminina não é um sinal de intolerância religiosa?

Confundir um minarete com o clítoris parece-me um evidente sinal de cegueira. E não da espécie oftalmológica. Mas, tirando isso, devia ser acrescentada uma alínea à lista dos direitos humanos: «Todo o ser humano tem direito a não ser instrumentalizado como objecto de debates pretensamente sábios que não tomem o cuidado devido à sua concretude». É que com as pessoas não se brinca. Não se devia brincar. Não se deveria brincar com o sofrimento concreto imposto a pessoas concretas. Os direitos humanos abstractos não serão direitos humanos. A menos que se acredite que as vítimas de mutilação genital feminina querem que isso aconteça lá por serem tementes a Deus. Meter tudo no mesmo saco pode ser - e acho que neste caso é - um sinal de irresponsabilidade e de absoluta falta de respeito pelo outro concreto e sofredor.

o último grande abraço


Não há nada no mundo que interesse apenas aos que estão perto. Todas as tentativas para reduzir o mundo onde os humanos vivem ao plano achatado das interacções directas, imediatas - são estultícia. O nosso mundo é o universo das consequências que nos fugiram das mãos, dos inúmeros efeitos não intencionados das nossas acções intencionais. Não andamos sempre a calcular consequências. E se andássemos não teríamos sucesso suficiente para isso nos evitar complicações. É por isso que, se ser-se mau pode ser mau, querer ser bom (ou mesmo ser bom) é altamente insuficiente. Quando dizemos que "não há nada no mundo que interesse apenas aos que estão perto", por perto queremos significar perto no espaço ou perto no tempo. As nossas responsabilidades só podem caber numa ética que não pense apenas nas consequências que podemos compreender ou dominar.
Tendes dúvidas? Lede, no Blogkiosk, a posta intitulada Maite, 26 anos, vítima da I Guerra Mundial..., por Patrícia Fonseca.



Gustavo Diaz Sosa, série Ultimo Gran Abrazo, 2009
(na Arte Lisboa 2009)



29.11.09

gente "com tomates". em vez de miolos.

17:14

Ernesto Melo Antunes - Um Homem Imprescindível

16:56

José Leitão, no Inclusão e Cidadania, faz uma oportuna evocação de Ernesto Melo Antunes, a propósito de recente iniciativa de revisitação dessa figura ímpar da transição para a democracia em Portugal, numa posta intitulada Ernesto Melo Antunes - Um Homem Imprescindível.
Devemos confessar que este escrito corrige um defeito de muitas das referências recentes a Melo Antunes na blogosfera, defeito a que nós próprios não escapámos: centrar-nos demais na indignação com a atitude de Cavaco (faltando à homenagem) e menos no valor próprio de Ernesto Melo Antunes. A bem dizer, até parece ofensivo para a grandeza de Ernesto Melo Antunes misturá-lo com estes episódios de pequena política. Ler Ernesto Melo Antunes - Um Homem Imprescindível será uma possível, embora pequena, correcção a essa entorse.

Aditamento. Vale a pena, para os mesmos efeitos: MELO ANTUNES - A minha homenagem, por Maria Manuela Cruzeiro.