20.11.09

Um argumento a favor da diversidade


Eis um argumento a favor da diversidade (de Leibniz, via Borges). Consideremos duas bibliotecas com exactamente o mesmo número de livros. Vamos supor que há um livro que é o melhor livro do mundo: o livro perfeito. Suponhamos que o livro perfeito é a Eneida, de Vergílio. Uma daquelas bibliotecas só tem exemplares da Eneida. A outra biblioteca tem um exemplar da Eneida e todos os outros livros são exemplares de livros inferiores ao livro perfeito. Qual das bibliotecas é a mais interessante? (lembrado por G.J. Chaitin)

19.11.09

just take your time


Remember Shakti (Saturday Night in Bombay)- Shringar (Parte 1/3)



Remember Shakti (Saturday Night in Bombay)- Shringar (Parte 2/3)


Remember Shakti (Saturday Night in Bombay)- Shringar (Parte 3/3)






Long books, like large bureaucracies, can easily get bogged down in a ba­roque layering of summary within summary. The United States House of Representatives has a Committee on Committees (I kid you not), undoubt­edly embellished with subcommittees thereof. And we must not forget Jona­than Swift's famous verse on the fractality of growing triviality in scholarly commentary:

So, naturalists observe, a flea

Hath smaller fleas that on him prey;

And these have smaller still to bite 'em

And so proceed ad infinitum.

Thus every poet, in his kind,

Is bit by him that comes behind.


Stephen Jay Gould, The structure of evolutionary theory, p. 53

17.11.09

Uma questão sobre máquinas e humanos

Céline Lafontaine, em L'Empire cybernétique, diz (lendo A crise da cultura, de Hannah Arendt) que a perspectiva de criar máquinas que ultrapassam em capacidade de entendimento o humano supõe um descentramento completo do sujeito. Não li esse trabalho de Arendt e tenho dúvidas de que ela tenha falado exactamente nesses termos. De todo modo, há algo muito mais perturbador do que termos máquinas que calculam melhor do que nós. É haver máquinas cujo processo de construção foi lançado por nós e que, no entanto, "evoluem" de tal forma que nós deixamos de as entender. Isso passa-se, por exemplo, com máquinas cujo sistema de controlo são redes neuronais que foram objecto de um processo de evolução artificial (por exemplo, com algoritmos genéticos). Em muitos desses casos o resultado é opaco para os próprios "pais" da máquina (vêem o que ela faz mas não sabem exactamente como ela o faz). Isso é relativamente novo na história das relações entre humanos e máquinas. Contudo, de outro ponto de vista, isso pode não ser assim tão relevante: compreendemos nós os "mecanismos" de funcionamento dos nossos filhos?

16.11.09

no words needed




A famous quotation with a grammatical error

13:00


Cartoon by Marc S.

tabagismo e crise económica


O Público escreve que «Crise económica leva fumadores a optar pelos cigarros de enrolar».
Solução insuficientemente radical. Mais vale passar para o fumo passivo. É (ainda) mais barato. E menos trabalhoso (não há nada para enrolar).

predadores?! (ou: descer aos infernos sem perder o pé)



João Rodrigues (JR), do Ladrões de Bicicletas, a propósito do fim das taxas moderadoras no internamento e na cirurgia de ambulatório, escreve que "agora só falta acabar com as outras taxas no SNS. Eliminar os mecanismos que tomam os cidadãos por predadores. Romper com a herança liberal de Correia de Campos".
Um ponto é concordar que foi tolice do governo do PS introduzir "taxas moderadoras" em "consumos" que não são susceptíveis de serem moderados, pelo menos por vontade própria de quem paga. E aplaudir a correcção.
Outro ponto, de natureza mais geral, é o ataque de JR a todas as taxas moderadoras com base numa certa metafísica da natureza humana. JR parece acreditar que as pessoas são naturalmente cooperantes, cuidadosas com o bem público, atentas às consequências dos seus actos no plano dos mecanismos colectivos, altruístas e esclarecidas acerca do próprio funcionamento do altruísmo. JR parece acreditar que quem não tenha essa visão da "essência" dos indivíduos em sociedade só pode estar a tratar os cidadãos como predadores.
Também sou dos que pensam que os cidadãos não devem ser basicamente tratados como máquinas de estímulos, disponíveis para as receitas de "incentivos" que os economistas gostam de cozinhar. Também sou dos que acreditam que a melhor forma de avançar na melhoria dos laços sociais é investir nos laços sociais enquanto tal, enquanto estrutura de significados. Também sou dos que não acreditam que tudo isso se resuma a prémios e castigos. Contudo, considero perigosíssima a ingenuidade de JR: os mecanismos colectivos são, realmente, muito sensíveis aos verdadeiros predadores. Tal como são sensíveis aos que simplesmente não param para pensar nas consequências das suas acções. Bem como aos que simplesmente não compreendem os efeitos indesejáveis, em termos agregados, de muitas acções individuais aparentemente inócuas.
Não sei bem qual seja a origem da aparente desvalorização destas dificuldades por parte de JR. Será JR um racionalista extremo que acha que os indivíduos puxam pela cabeça até compreenderem o que fazer por puro cálculo intelectual? Será JR um metafísico da natureza humana, que vê as pessoas como naturalmente, ou essencialmente, boas e altruístas? Não sei, mas sinto uma curiosidade crescente pela sistemática abordagem metafísica de certa esquerda ao problema da natureza humana em sociedade. Eu acredito que mecanismos tão imperfeitos como as taxas moderadoras são importantes dentro de um realismo moderado acerca da forma como funcionamos em colectivos: mesmo que sejamos razoavelmente altruístas, e que sejamos determinados mais por valores e por uma genuína implicação na relação social do que por incentivos, precisamos de "sinais de trânsito". Precisamos de marcas que nos chamem a atenção para o significado último de certos actos, cujas consequências não são directas nem imediatas. Precisamos de alertas.
Reflectir nisto é algo que só interessa a quem o bem comum e as suas ferramentas mereçam cuidado. Acredito piamente que JR está nesse grupo. Eu também estou. Mas bato-me para reduzir a carga metafísica de certos pressupostos. E não estou disposto a ser tratado como neoliberal por causa disso. Porque verdadeiramente desastroso para a promoção do bem comum seria transformá-lo numa piedosa abstracção iluminada por uma qualquer metafísica apressada acerca da natureza humana. Especialmente se essa metafísica apressada servir para condenar a priori certas possibilidades de organização colectiva.

(produto A Regra do Jogo)

15.11.09

only the stars



Jorge Martins, Only the stars to teach us light, acrílico sobre tela (1976)