15/03/11

coisas que me fazem confusão

M. Guarnido, L’Histoire des aquarelles (tome 2), pormenor de prancha sem falas


Faz-me confusão que se veja a realidade a preto e branco, só.
Faz-me confusão que haja quem pense que resolve os problemas do país removendo "a classe política" - e faz-me confusão que a "classe política" (com extensões na blogosfera) não perceba que se proteste contra a classe política.
Faz-me confusão que, tão revolucionários que nós fomos que até gostámos do Maio de '68, agora falemos com desprezo dos tipos que vão a manifestações só por estarem contra e sem terem um programa alternativo - e faz-me confusão que haja tipos a ir a manifestações contra tudo e mais alguma coisa e que no dia seguinte continuam a pensar que mudar a vida e o mundo é coisa simples e se faz indo de casa para a escola e da escola para o bar e do bar para casa e depois outra vez tudo na mesma.
Faz-me confusão que se diga com desprezo que "isto" é tudo invenção das redes sociais, tipos com computador e outras mordomias - e faz-me confusão que haja uma página no facebook para "derrubar o governo com um milhão no facebook", em vez de, com um milhão, fazerem o tal partido novo, ganharem as eleições e levarem Portugal, finalmente, para os amanhãs que cantam.
Faz-me confusão quem critica a forte presença do Estado em todo o lado, mas também critica que o Estado "corte" isto e aquilo, como se quisesse que o Estado fosse embora mas deixasse a máquina de imprimir notas verdadeiras - e faz-me confusão quem critica a precariedade e ao mesmo tempo despreza os sindicatos e as forças políticas que se opõem à desregulação selvagem do mercado de trabalho.
Faz-me confusão que alguém critique um licenciado por querer ganhar mais do que mil euros, ou por estar chateado por viver a recibos verdes - e faz-me confusão por haver tantos licenciados chateados por ganharem mil euros que não estão nada chateados por haver tantos pais e mães de família que ganham o ordenado mínimo que é menos de metade disso, e faz-me confusão nunca ter visto esses licenciados nas manifestações pelo aumento do ordenado mínimo.
Faz-me confusão que não se constate o mal estar social, que transparece nas manifestações da geração à rasca, tratando-o depreciativamente como coisa de meninos instalados, como se fosse preferível ter os camionistas a descer a avenida - e faz-me confusão que o partido do proletariado engrosse a voz com manifestações pequeno-burguesas, para os seus critérios.
Faz-me confusão que a direita se excite com as mesmas manifestações que excitam a esquerda - e faz-me confusão que os mesmos partidos que têm de se evitar cuidadosamente no parlamento para não calhar votarem a mesma moção de censura, sejam capazes de se encontrar na rua sob o mesmo protesto.
Faz-me confusão que não se resolva tudo isto com uma grande festa. Nessa festa, haveria dois grandes sectores: o sector dos que acreditam que a festa resolve tudo, o sector dos que não acreditam em nada disso. A questão está em saber qual de dois resultados seria melhor para o futuro das gentes: que no fim da festa a divisão entre sectores permanecesse igual; ou que no fim da festa estivesse tudo baralhado. Essa é a grande questão do actual momento político. Digo eu, que de vez em quando escolho uma questão e digo "esta é a questão". O que também deveria fazer-me uma certa confusão.

2 comentários:

Björn Pål disse...

Mais uma vez, tenho de subscrever a sua opinião, expressa neste magnífico texto, com é seu hábito.
Vou "passar adiante" no meu modesto belogue.

Porfirio Silva disse...

Björn, tenho visto as suas simpáticas referências, no seu Vociferante em constante mutação!