1.1.11

esperança


O Concerto, realizado por Radu Mihaileanu, cena final


31.12.10

a luz dos olhos teus


Estou de luto.
E não sei rezar. Nem quero, além do mais.
É uma merda, essa é que é essa.
O olho do homem quebrou-se.
E a impotência face à fragilidade é o pão nosso de cada dia.
Não acredito no destino, não praguejo contra os deuses, mas acredito que a porra da genética e um bocado de azar fazem pão amargo.
Não, não morreu ninguém. Quer dizer, este desabafo não é sobre uma morte. Mas morremos um pouco cada vez que sentimos as mãos atadas. E nem sequer se aplica aqui uma consideração sobre a injustiça, porque a injustiça é a má distribuição da justiça e, aqui, não há nada disso: apenas o mundo que gira, os animais (humanos) que são mais difíceis de reparar que os carros de brinquedo (mesmo que sejam de bombeiros de brincar), e uma pontaria excessiva que a vida nos faz aos tomates.
É uma gaita.
Claro que vos desejo um bom 2011. Por que não haveria de o desejar? Não tenho ódios, apesar de às vezes ter lamentos.

























Uma luz sobre um pormenor de uma tinta-da-china de Adriana Molder.
(Foto de Porfírio Silva)


30.12.10

Marco António no funeral de Júlio César


Cavaco criticou a administração do BPN nomeada após a nacionalização deste banco. (Público)

Joseph L. Mankiewicz adaptou (1953) o Júlio César de Shakespeare. Uma cena notável dessa peça/filme é o discurso de Marco António ao povo depois do assassinato de Júlio César. Brutus, um dos conspiradores que tinham dado morte ao César, já se apresentara à multidão para justificar o acto. Marco António, crítico de tal gesto, é autorizado a falar de seguida, mas, sabedor de que tinha as massas contra si, adapta o discurso às circunstâncias. Não deixa, contudo, de perseguir o seu objectivo de levantar o povo contra os responsáveis por aquele acto que considerava iníquo. Para ir de um ponto ao outro, para levar as massas desde um estado de espírito contrário até uma disposição favorável à sua posição, tem de fazer um longo caminho de persuasão. É por isso que este discurso é uma notável peça de retórica, aqui encarnada por Marlon Brando.
Este discurso deixa perceber por que a retórica é uma disciplina.
E deixa perceber certas coisas sobre o povo e a política.
Que cada um extraia as suas conclusões.



citações sem dedicatória


Retirado de um anti-épico:
Os maiores crápulas são os de falas mansas,
não te deixes enganar.
Só o gado é doce e rústico, só os lentos são simpáticos.
Goethe disse: só os crápulas são modestos.
No avião canta-se numa prosa com 2000 metros de altitude;
cantada tão alto, a prosa parece
poesia.
Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Canto V, 63

debates presidenciais 2011, "depois do adeus"

10:04

Ontem, Cavaco e Alegre fecharam o ciclo dos debates para as presidenciais. CS, numa agressividade que não lhe é usual, deu uma pequena amostra do que vai ser o seu próximo mandato: manter a arrogância (as discordâncias são ataques) e esquecer a hipocrisia (passar a dizer o que realmente pensa e quer). A melhor amostra da inanidade política do seu discurso foi falar do Estado Social como se o Estado Social fossem as Misericórdias e as iniciativas de (às vezes duvidosa) benemerência de empresas "de bom coração". Cavaco ainda pensa que o Estado Social é a caridade, não percebendo que o Estado Social é necessário para não termos de estender a mão à caridade. Infelizmente, Alegre, aparentemente aturdido pela estratégia de "a melhor defesa é o ataque" seguida por Cavaco, não foi capaz de esclarecer esse ponto. Aliás, não foi capaz de esclarecer praticamente nada. Se calhar pensava que podia manter a amena cavaqueira do debate correspondente nas últimas presidenciais, quando quis deixar a Mário Soares o "odioso" do confronto com Cavaco, reservando para si próprio o papel de "esquerda simpática" face ao candidato de todas as direitas. Saiu-lhe furada a aposta e ficou evidente que não se preparou para a seriedade desta eleição presidencial.
O drama de tudo isto não é este debate em particular. O drama de tudo isto é que, contrariamente ao PCP, que, com o seu comportamento cauteloso, nunca fez a esquerda perder nenhuma eleição presidencial, há outro partido da esquerda que, na primeira oportunidade que teve, colocou os seus interesses particulares à frente do interesse de tirar Cavaco de Belém. A direcção louçanista do BE não descansou enquanto não fez seus reféns nesta corrida o PS e o PCP, apoderando-se de uma candidatura que, tinha obrigação de saber, nunca seria vencedora se fosse a candidatura desse grupo. Teria sido menos prejudicial para as ambições presidenciais da esquerda que tivesse feito vencimento a minoria "radical" do Bloco que queria um candidato mais "revolucionário" do que Alegre. Louçã, que, como qualquer trotskista clássico, sonha em vencer nas urnas os sociais-democratas (PS) e os estalinistas (PCP), deixou-se dominar pelos seus demónios e inventou esta jogada suicida de que agora há-de querer alijar responsabilidades.
Alegre, ele próprio, não parece ter gasto um único minuto a pensar seriamente no magno problema da esquerda portuguesa: o que é preciso mudar para que "a esquerda" não seja um animal esquartejado em três partidos incapazes de perceber que, sociológica e politicamente, podiam oferecer ao país uma alternativa à "gestão leal do capitalismo". Coisa que, nos tempos que correm, seria muito útil, até para salvar a democracia, o que não se pode fazer sem oferecer verdadeiras opções ao povo soberano. Alegre não tomou consciência da dificuldade da tarefa, não se preparou, não deu nenhum sinal de renovação do discurso, não transmitiu qualquer frémito de tempo novo ao seu campo. Confirmou os piores prognósticos dos que deixaram de acreditar em proclamações ideológicas puramente retóricas. Não é que ele, por si mesmo, me faça pena. Pena é que nos arraste a todos para a apagada e vil tristeza de reeleger o pior presidente da república desta democracia constitucional.

29.12.10

pinturas


A exposição Victor Willing: Uma Retrospectiva, na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, já só fica até 2 de Janeiro. Uma curiosidade. Não é um "indispensável", mas, passando nas redondezas, merece o desvio.


Victor Willing, Night

Victor Willing, Self-portrait

educadores

11:00

«Vendo Settembrini aproximar-se, Naphta continuou:
-(...)
Quando, na nossa função de educadores, suscitamos a dúvida, uma dúvida mais profunda do que jamais sonhou a vossa modesta civilização, sabemos perfeitamente o que fazemos. Só do cepticismo extremo, do caos moral, nasce o absoluto, o terror sagrado de que carece o nosso tempo. Digo-lhe isso para justificar-me e para seu governo, o resto decidir-se-á depois. Receberá notícias minhas.»


Thomas Mann, A Montanha Mágica


28.12.10

sindicalismo blindado

17:50

A Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP) pede insistentemente a demissão do ministro da Administração Interna. "Justificação"? A denúncia do contrato de aquisição dos blindados. Compreensível. A ASPP tem uma "parceria" com a empresa que fornece os blindados. A história pode ser lida aqui.

(É por estas e por outras que o Câmara Corporativa é muito odiado nos quintalinhos da república. Isto explica a etiqueta "abrantes" com que certos blogueiros são mimados em certos sítios.)

nova vocação do Diário da República

ENSITEL ou "se ainda não percebeu o que é racionalidade em economia, venha cá que a gente explica"

15:38

200 anos de história em 4 minutos




já não se fazem carpideiras como antigamente


Cavaco apoia Durão no apelo à contenção nos discursos. Acrescenta o Diário Digital que o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, pediu silêncio aos líderes europeus, no sentido de se absterem de comentar a crise da dívida soberana. Cavaco Silva diz que apoia as declarações de Barroso, mas parece que não as ouviu ou não as percebeu: Cavaco apoia Durão no apelo à contenção nos discursos, «Porque há pessoas em Portugal que parecem não saber que os nossos credores são as companhias de seguros, os fundos de pensões, os fundos soberanos, os bancos internacionais e os cidadãos espalhados por esse mundo fora», alertou.

Note-se que não cabe à carpideira preocupar-se com a vida dos outros. Apenas com a sua própria vida.

eu já vi mais desgraçados do que tu, nhã nhã nhã toma toma toma


Será verdade que as causas nobres passaram todas a "causas Nobre" ?



27.12.10

parece que a globalização liberal até já assusta os seus bispos

15:47

Bruxelas alerta para o potencial perigo das aquisições chinesas.

Então não era nas "fronteiras abertas" que se queria apostar?!

Será que, fruto desta reconversão abrupta, vem aí uma vaga de nova legislação laboral europeia para proteger os trabalhadores comunitários da concorrência desleal das ditaduras do capitalismo vermelho?! Ou aí o liberalismo continua cego como dantes?

Isto anda tudo muito confuso...

pescadinha de rabo na boca

escutar






I keep a service bell by my bed for you
let the others do what they do
I will hold on
hold on
hold on

I keep a service bell by my bed for you

assuntos de príncipes

10:41

Não ouvi a mensagem de Natal do primeiro-ministro, nem na íntegra nem, com suficiente atenção, os excertos que passaram nos serviços noticiosos. Percebi que deu polémica partidária. Francamente, eu que detesto falar de "os políticos" em geral, e que nem sequer sou dos que desdenhem o combate político, fico com vontade de, sem qualquer intenção de ir perder tempo a analisar a matéria em si mesma, pedir aos políticos que nos poupem por uns dias ao desgaste das trincheiras.
Já bem bastava o cardeal de Lisboa a escolher o Natal para se dar a entrevistar em tom de pura política imediatista, claramente a defender interesses particulares e sem pudor nenhum pelo tom partidário das suas palavras.
Os príncipes estão loucos.