23.12.10

o pior presidente da república desta democracia constitucional

22:43

Um regime democrático, para o ser, não pode ser só de alguns. Foi por isso que, apesar de Cavaco Silva representar, pessoal e politicamente, muito do que eu entendo estar mal neste país, a seu tempo manifestei a opinião de que a eleição de CS para Presidente da República tinha a virtualidade de mostrar que todos os cargos do regime podiam ser também ocupados pela direita. Infelizmente, foi por aí que entrou o pior PR desta democracia constitucional. Pior, mas de longe. Pior, no sentido das coisas verdadeiramente graves, que põem em causa os fundamentos. Por quê? Leia-se Daniel Oliveira: Imagine se fosse Sócrates.

mínimo o salário, mínima a decência, mínimo o país

09:34

Alguns bens essenciais sobem mais que o salário mínimo em Janeiro. «Em Janeiro, o salário mínimo nacional vai aumentar de 475 para 485 euros, uma actualização de 2,1 por cento que ficará abaixo da taxa de inflação de 2,2 por cento estimada pelo Governo e abaixo dos 5,3 por cento previstos no acordo assinado em 2006.»

É pena que o governo não se tenha imposto à mesquinhez do patronato nacional. Também aqui o poder económico é capaz de condicionar o poder político. Não é que a política deva alhear-se da economia: é que isto é pura política feita por agentes económicos (associações empresariais), para manterem a pressão. À custa dos mais fracos. Também isto é questão de soberania: a política de uma democracia presa pelo jogo dos patrõezinhos.

(Eh pá, m****, esqueci-me que é Natal e temos todos de adoptar a hipocrisia do mais alto magistrado...)

22.12.10

há natais para todos os gostos

Ride Me ?!

Berlim, Dezembro de 2006, montra de Natal num "grande armazém" da Friedrichstrasse.
(Foto de Porfírio Silva).

21.12.10

apertem os vossos cintos de segurança

(Cartoon de Marc S.)

o BPN não existe


Eduardo Pitta, no Da Literatura, por caridade para com os esquecidos que andam por aí a moralizar, relembra:
Ontem, João Semedo voltou a lembrar a peculiar governança do BPN de Oliveira e Costa, Dias Loureiro, Miguel Cadilhe e outros próceres do cavaquismo. Segundo o deputado do BE, Cavaco Silva e a filha (e, como eles, outros clientes especiais) obtiveram ganhos de 140% nas aplicações feitas. (...)

O que é revelador é que nenhum Cerejo, nenhuma Cabrita, nenhuma Manelona, nenhum Crespo, nenhum justiceiro da bloga, nenhum magistrado de Aveiro, nenhum super-juiz, nenhum colunista das Brigadas Anti-Sócrates (e são 30, os encartados, metade juristas), nenhum Medina, nenhum Duque, nenhum historiador, nenhum jovem turco da República morta, nenhum candidato presidencial, nenhum assessor doublé de repórter na imprensa marron, nenhum representante da Fatah nos media radical-chic, nenhuma das criaturas que formata a opinião... se interesse pelo backstage do banco da Loja P2, perdão, do banco da Sociedade Lusa de Negócios. Decididamente, a fraude do século não comove ninguém.

Na íntegra aqui
.

20.12.10

separados à nascença ?!!!


O que está a fazer o presidente da câmara de Matosinhos nesta foto com o candidato CS ?!!!
É que não é por ter cortado o bigode que disfarça melhor...



mandam as cartas para casa de PP ?

ró-ró


Submarinos: Ana Gomes apresenta queixa na Comissão Europeia. «A eurodeputada Ana Gomes entregou hoje uma queixa na Comissão Europeia contra os contratos de aquisição e contrapartidas dos dois submarinos, por violação das regras do mercado interno, corrupção e má utilização dos dinheiros públicos.»

Ana Gomes apresentou a queixa na Comissão Europeia... para Barroso tomar conhecimento ?!





com o nu me escondes a verdade


«Na Europa, a verdade reside no que é desvelado, é a aletéia [dos gregos], enquanto que no Japão o que é mais importante é o que está escondido. Tanto assim é que o nu só acederá ao seu próprio valor sob as vestes. De tal sorte é a incomensurável distância que separa estas duas civilizações!»
(Hisayasu Nakagawa, Introduction à la culture japonaise, p. 101)


Utamaro Kitagawa, “Fonte de poema”: quarto no primeiro andar
(as reproduções ocidentais costumam assumir o título "Os Amantes").

(Kitagawa é um dos artistas mais populares no Japão da segunda metade do século XVIII, mas tem outras obras que correspondem pouco à idealização que Nakagawa nos propõe...)

iniciativa cidadania europeia sobre eurobonds

12:38

Um problema central da actual crise financeira internacional é que ela constitui um ataque sem precedentes à soberania: a representação política democrática, que directa ou indirectamente emana das escolhas dos cidadãos, é forçada a vergar-se aos interesses imediatos do dinheiro que faz dinheiro só pelo dinheiro e sem qualquer contemplação pela economia real. Esse ataque é lançado a partir do carácter global da actividade financeira, que faz com que Estados isolados, ou mal coordenados, possam ser atacados um a um, até que caiam sucessivamente como peças de um dominó. A esse mecanismo global só se pode responder efectivamente recorrendo a mecanismos de cooperação regional que subtraiam os atacados à voracidade imediatista da meia dúzia de agentes que mexem os cordelinhos dos "mercados". Todos pensávamos que estávamos na União Europeia e no Euro para isso: para não sermos vítimas cândidas da famigerada globalização. Entretanto, graças à miopia de alguns dos grandes na Europa, continuamos a apalpar terreno, sem deitar mãos a mecanismos que façam a Europa usar o seu potencial. É o caso dos eurobonds (obrigações europeias), com a Alemanha a tentar bloquear a discussão sobre o seu lançamento. Estaremos condenados a sussurrar quando o tema da conversa não interesse à senhora Merkel?
Talvez não.
O primeiro-ministro grego anunciou que vai recorrer à Iniciativa Cidadania Europeia para intervir nesse debate. A Iniciativa Cidadania Europeia significa que um milhão de cidadãos europeus (de entre os que podem votar para o Parlamento Europeu) podem propor à Comissão Europeia que lance uma iniciativa legislativa sobre uma determinada questão. Esse milhão de proponentes tem de representar (de forma especificada num regulamento) uma parte significativa dos povos dos Estados Membros.
Ora, o que George Papandreou disse no sábado é que vai lançar ou apoiar uma Iniciativa dessas para levar a Comissão Europeia a propor legislação sobre as obrigações europeias.
A Iniciativa Cidadania Europeia é um resultado directo do Tratado de Lisboa. O primeiro-ministro grego, um socialista a tentar salvar o país da enorme trapalhada em que o governo de direita meteu a Grécia, continua a mostrar que podemos continuar a pensar democraticamente no meio da tempestade (já que partir montras pode ser o máximo pensamento político que certas correntes são capazes de parir, mas não constrói futuro nenhum para ninguém). E, nessa linha, se conseguirmos livrar-nos do eurocepticismo (esse efeito perverso da morte acidentada do internacionalismo proletário), talvez não estejamos de mãos atadas. Mais cidadania activa, também ao nível global, também ao nível europeu, é do que necessitamos. E, felizmente, temos novos e mais mobilizadores instrumentos para isso. Reforçar a participação a nível europeu, sobre temas europeus de interesse europeu, em luta por soluções europeias para problemas europeus, contra os egoísmos nacionais de vistas curtas, é necessário para dar novo sentido à soberania. A soberania isolacionista que alguns proclamam é a soberania a fingir, de Estados que teoricamente podem fazer tudo, apesar de nenhum efeito poderem obter em acção isolada. A soberania partilhada, em que os Estados agem concertadamente para conseguirem de facto moldar o mundo segundo as escolhas dos seus cidadãos, é o que mais precisamos na Europa. E essa Europa tem de passar pela mobilização cidadã.
Não estamos condenados a este "governo da UE" dominado pelo Partido Popular Europeu, com os amigos de Passos Coelho e Paulo Portas ao volante: quer dizer, com a senhora Merkel e o seu mandatário Barroso a tomar conta do quintal.

Camarada Papandreou, onde assinamos?

diz-me quem são os teus heróis, dir-te-ei quem és


Gente que, entre nós, se reclama de esquerda, anda nestes últimos dias embevecida com a apresentação ao mundo das obras telegráficas da embaixada americana em Lisboa. Que os "telegramas escolhidos" tenham sido dados à luz como fruto de um roubo gigantesco, não impede a popularidade do acto: há quem pense que um crime cometido com a ajuda da internet deixa de ser crime só por ser cyber. É o sex appeal do cyber. A moral agora é outra.
Neste novo panteão, se o herói global é Assange, o santo dos santos dos telegramas surrupiados, há vários beatos locais, que servem os altares de capelas mais pequenas. Quem conhece os santos e beatos de uma religião, fica só por aí com metade da sociologia dessa mouvance. Para os telegramas de Lisboa, o beato mais destacado é este novo herói da transparência e da verdade. Vale a pena conhecê-lo. Ajuda a perceber quem dá crédito a quem.

(via José Magalhães)