18.12.10

o argumento do geocentrismo

12:05



«Os mais recentes historiadores da ciência entendem que, se se começar com a experimentação sem pressupostos teóricos, é mais provável que se descubram os mecanismos de Aristóteles que os de Galileu. Kant atribui as revoluções da ciência moderna à coragem de Copérnico em contradizer o testemunho dos sentidos.»
Susan Neiman, Evil in Modern Thought, 2002 (tradução portuguesa na Gradiva)


Um certo número de intervenientes no debate público do estado da nação tem-nos proporcionado um delicioso torcidinho estilístico, uma corda para salvação dos aflitos, um salve-se quem puder de última hora para quem não consegue evitar olhar para a realidade através do filtro do seu próprio pessimismo (mesmo quando esse pessimismo é puro artifício). Essa flor do estilo consiste em opor as estatísticas (frias e inertes, supõem) ao calor da sensação imediata (o verdadeiro saber, pretendem). Exemplo: “ A escola está melhor nas estatísticas, mas nós vemos que as escolas estão pior, porque o sentimos, basta visitá-las.” Em geral, o que incomoda esses debatentes é que, em muitíssimos casos, aceitar as estatísticas é ter evidência de quanto este governo do PS fez avançar o país. Embora, com frequência, adorem estatísticas quando elas mostram o que falta fazer.
O capitão daquela frota de argumentos sensacionistas é a acusação de que “o governo trabalha para as estatísticas, mas as pessoas não são números”. Não vale a pena tentar explicar a quem assim opina que as estatísticas e os indicadores são, as mais das vezes, o fruto (imperfeito, claro, mas que se espera perfectível) de um trabalho aturado, longamente refinado em comunidades ao mesmo tempo mais ou menos especializadas e mais ou menos alargadas, distribuídas por muitos lugares deste mundo, com o fito de tentar ver mais longe e mais fundo do que a espuma dos dias. E com o fito consequente de nos ajudar eventualmente a fazer melhor. Agir a longo prazo e não apenas para amanhã. Mas eles não, eles querem é as sensações do que está à frente dos seus próprios olhos. Sem números pelo meio.
Bastaria dizer-lhes que, pela bitola que usam, a Terra ainda é o centro do universo e o Sol gira à nossa volta. Não é isso que, cada dia, os nossos olhos vêem claramente?

(republicação)

17.12.10

Paint Me | Contos de Canterbury














Uma ópera de Luís Tinoco (Música) e Stephen Plaice (Libreto), com direcção musical de Joana Carneiro. Hoje (estreia mundial) e amanhã na Culturgest.
Dizem-na inspirada nos Contos de Canterbury, escritos por Geoffrey Chaucer no século XIV, onde o dispositivo narrativo consiste num grupo de peregrinos que se entretém a contar historietas uns aos outros. Aqui, são passageiros numa carruagem de comboio que fantasiam acerca dos seus co-transportados de ocasião. Pode ser que o dispositivo funcione também aqui. Embora eu não possa deixar de me lembrar que também Pasolini se inspirou nos Contos de Canterbury... com os resultados pasolinianos de que deixamos uma amostra.


Vamos andando para lá. Até depois.

o passismo, a tanga, e a terra queimada

10:16

Figuras gradas do PSD de PPC desdobram-se no ataque à Iniciativa para a Competitividade e o Emprego. PPC, ele, pessoalmente, parece não ter grande coisa a dizer sobre o assunto. Faz bem: talvez calado evite dizer uma coisa e o seu contrário, que é o que muitas vezes lhe acontece quando tem de opinar mais do que uma vez sobre a mesma matéria.
PPC deixa para generais e tenentes do seu exército a figura do "vale tudo", que é o que têm feito. Bagão Félix entra na peça para ir ensaiando a "nova AD". Este último, por exemplo, repetia ser um escândalo que o Estado ponha dinheiro no fundo para as indemnizações de despedimento - coisa que ele tinha obrigação de saber, quando falou, que era uma mentirola, nada mais do que uma mentirola.
Outros, entre os próximos de PPC, esqueceram-se da exigência de que, para além da contenção do défice, se tomassem medidas de incentivo ao crescimento e ao emprego - e, agora, quando, aprovado o orçamento, essas medidas começam a vir a público e a ser negociadas com os parceiros sociais, desdobram-se em críticas genéricas e poupam-se em extremo a qualquer análise séria do que foi apresentado. Parece que, no entender do PSD, competente seria um governo que esperasse sentado pela geração espontânea de soluções. Enquanto PPC fica calado, os seus amigos políticos regressam à grande misturada, incluindo na vozearia os argumentos soberanistas típicos do PCP e do BE ("as medidas foram impostas do exterior"), lavando as mãos do esforço, longe de concluído, para afinar os detalhes das dezenas de medidas destinadas a atacar a crise no plano da economia real. Aí, o PSD e a CGTP estão em sintonia: contribuir para melhores medidas não é com eles.
Como se percebe por coisas que aqui escrevi em ocasiões anteriores, não penso que todos os sinais dados pela Iniciativa do governo sejam aqueles sinais que fazem falta. Contudo, a ligeireza com que políticos e comentadores têm tratado o assunto, muitos dando a ideia de que nem tempo tiveram para ler a meia dúzia de páginas de resumo do "pacote", é confrangedora. E demonstra o grau de irresponsabilidade a que está confinada a estratégia de oposição do principal partido da direita portuguesa.
Dá a impressão que a oposição está atemorizada pela perspectiva de que o governo consiga fazer bem o duro trabalho de mobilizar o país para fazer face à crise.

16.12.10

debates presidenciais, segundo round

21:54

Acabou há minutos o segundo debate televisivo Presidenciais 2011: Manuel Alegre, Defensor de Moura, RTP.
Manuel Alegre tem para resolver o problema de ser candidato do BE e do PS, o que, com as esquerdas que temos, é um caso tão bicado como a quadratura do círculo. Desta vez, não "correndo por fora", é mais difícil disfarçar essa dificuldade com um discurso de "coragem cívica". Mostrou um discurso bem articulado, com menos chavões do que às vezes lhe acontece, e aproveitou para ir denunciando o papel que Cavaco (não) tem desempenhado no ataque à crise.
Defensor de Moura, aproveitando bem o facto de ser "a novidade", marcou claramente o seu terreno: quer o voto dos socialistas que não estão confortáveis com a mancebia com o Bloco. É, provavelmente, um grande campo à espera. Não hostilizou Alegre, não se deixou intimidar por uma jornalista que não sabe distinguir entre um debate presidencial e um debate de legislativas, deixou algumas farpas a meio gás que podem ser explicitadas se isso vier a tornar-se conveniente (eu fui médico durante muitos anos, tenho experiência fora da política). Escolheu alguns temas "clássicos" de uma certa esquerda, como a corrupção e a regionalização. Num aspecto não esteve tão bem como Alegre: a enunciar os aspectos estruturantes, do ponto de vista político, da actual crise de soberania dos Estados face à alta finança internacional.
Em resumo, o debate terá sido estratégico principalmente para Defensor de Moura, num sentido: sublinhar que nenhum voto nele prejudica o objectivo de obrigar Cavaco à segunda volta.

alguém pode informar onde se meteu a ameaça do aquecimento global?

(Cartoon de Marc S.)

15.12.10

iniciativa para a competitividade e o emprego

23:34

O governo já disponibilizou em linha o texto integral da resolução "Iniciativa para a Competitividade e o Emprego". Não há agora tempo para uma análise séria do documento. Contudo,...
... desconfio particularmente das explicações orais que ouvi a membros do governo acerca da questão dos despedimentos, por me parecer que o tecto máximo para as indemnizações pode ser uma forma de introduzir o princípio "quem se disponha a pagar, pode despedir à vontade". Isso seria contrário, parece-me, à Constituição: é que, se entendi bem, patrão que pagasse o máximo obrigaria o trabalhador a ir-se embora, independentemente de qualquer causa justa. A indemnização máxima teria de ser aceite. Não vejo em que é que esta troca de dignidade por dinheiro possa melhorar a competitividade da economia. É assunto que fica para análise.
Já me parece que há bons tiros em concentrar o esforço em empresas exportadoras e inovadoras, sem a largueza inconveniente de tratar todos do mesmo modo.
Há, entretanto, outros pontos que, parecendo discretos, podem vir a dar muito que falar. Veja-se o último de todos: "Reforçar o controlo da entrada no território nacional de produtos equivalentes aos produzidos internamente, mas cuja processo produtivo não tenha sido sujeito ao mesmo tipo de condições que os produtos portugueses." Isto quer dizer que Portugal vai adoptar o proteccionismo inteligente? Quer dizer: não colocamos barreiras à entrada de nenhum produto, mas vamos ser rigorosos até ao mais ínfimo pormenor na aplicação das exigências legais que têm de ser respeitadas para esse produtos serem comercializados no nosso país. Será isso? Se for, vamos divertir-nos bastante com a Comissão Europeia - mas não vamos fazer nada que outros não tenham sempre feito. E, nessa guerra, quando se trate de defender a nossa produção, não temos por que ser mais benevolentes do que os outros países.

vai acabar o bife mal passado?


O blogue Um bife mal passado, de Alexander Ellis, tem o subtítulo muito apropriado "Crónicas de um Embaixador". O autor é o embaixador da Grã-Bretanha em Lisboa. O blogue mostra a face de uma diplomacia arejada e moderna, de gente normal que nem por isso deixa de fazer o seu trabalho excelentemente. E mostra, além disso, uma fina compreensão dos portugueses. Sabe-se lá se por ter mudado o governo de Sua Majestade, o embaixador regressa à capital. Despediu-se hoje da "sociedade". Vai acabar o bife mal passado? Seria pena.

perguntas idiotas


Se ser fumador passivo mata, por que não passar a fumador activo ?!



mais uma manobra governamental...

14.12.10

debates presidenciais, primeiro round

21:48

Acabou há minutos o primeiro debate televisivo Presidenciais 2011: Francisco Lopes, Fernando Nobre, RTP. Encontro mais agressivo do que eu, pessoalmente, estava à espera.
Valeria a pena ir aos arquivos confirmar as acusações feitas por Francisco Lopes a Fernando Nobre, relativas a tomadas de posição políticas deste, com menção de discursos em datas precisas. Esse seria o meio para verificar quem estava a mentir - já que Nobre negou tudo. Um deles tem uma relação estranha com a verdade a que temos direito.
Contudo, a meu ver, isso não chega a ser preciso para avaliar o posicionamento fundamental de cada um dos candidatos. Francisco Lopes é candidato oficialíssimo do PCP, não o esconde, esse é o seu retrato. Nada na manga, nada a obstar, não vamos ao engano. Fernando Nobre, que quer romper com o sistema - mas gostaria de ter um governo com todos os partidos - deixou um autógrafo muito vincado. Com esta declaração: "eu sou a única candidatura verdadeiramente cidadã". É pena vê-lo a achar conveniente tão grande lição de arrogância.

lisboa hoje à tarde


(Foto Porfírio Silva)

a transparência é uma coisa muito boa

18:21

Se isto é assim como descreve a Alda Telles, eu (*) vou ali escrever um post no meu blogue onde "informo" que um diplomata americano relatou ao seu governo que Pedro Passos Coelho lhe contou que tinha há uns anos a intenção de voltar a integrar a Guiné-Bissau na República Portuguesa a troco de uma percentagem no negócio da droga - mas recuso-me a mostrar o cable divulgado pela Wikileaks que "sustenta" tal "informação".

(*) Bom, "eu" não, já que esse comportamento está reservado aos "jornais de referência" que colaboram na versão global do jornal de sexta.

sugestão de almoço


Slow food...


(Cartoon de Marc S.)

13.12.10

a melhor declaração do dia...


... sobre o caso "BCP faz uma perninha na espionagem para arredondar o saldo mensal", veio da deputada melancia Heloísa Apolónia, que quer a embaixada americana em Lisboa a prestar esclarecimentos ao povo português. Alguém explica à senhora deputada quais as imunidades e privilégios que, nos países civilizados, assistem às representações diplomáticas? É que, com tanto falar, até o próprio Irão acabará por se desinteressar do seu activismo. Sim, porque é preciso saber quem beneficia com todas estas magníficas revelações e respectiva exploração.

BCP falou com Embaixada dos EUA depois de desistir do negócio do Irão.

uma pergunta sobre horários


Nesta quadra, a que dias fecha a blogosfera?
E em que dias tem horários alargados ou horários encurtados?
Agradecido pela informação.

a crise, em desenho, para simplificar


(Cartoon de Marc S.)