29.4.10

grandes portuguesas


Robert Delaunay, La Grande Portugaise, 1916, Museo Thyssen-Bornemizsa, Madrid


28.4.10

a crise explicada aos infantes

(é preciso dar tempo à "coisa" para carregar - e entender francês)


CV

só não percebo por que Sócrates apoiou Barroso

19:18
Em muitos aspectos da política-política, Sócrates é melhor do que foi Guterres. Sócrates brilha menos mas firma mais a cabeça quando investe. (Quando marra, se quiserem.) E isso importa num país de malditas falinhas mansas. Às vezes dou comigo a pensar o que Sócrates não teria feito se lhe tivesse calhado o tempo que calhou a Guterres.
Só que, por outro lado, Guterres voa muito mais alto. Com visão global e de precisão. Como a águia. Como se vê/lê agora. O antigo primeiro ministro António Guterres considerou hoje em Bruxelas que tem faltado "clareza" à Europa na forma de lidar com a crise financeira e económica, apontando que é essa incerteza que se tem reflectido no comportamento dos mercados. Se Guterres fosse agora PM teria, provavelmente, uma oportunidade de ouro para mostrar a sua visão de fundo, sempre muito bem informada, sempre global, sempre focada nas tendências pesadas. Esse é o palco onde ele é bom. Faz-nos falta agora, enquanto a tropa fandanga anda por aí a fazer oposição ao governo com base na tola ideia de ser o governo de Portugal o culpado de uma forte crise institucional da Europa. Crise de que são principalmente responsáveis: (1) o egoísmo de vistas curtas da Grande Alemanha, guiada por uma Merkel que aparentemente atingiu o limite da sua capacidade de compreensão; (2) a paralisia do sapo, que em geral só abre a boca para balbuciar aquilo que já lhe encomendaram antes, e que continua incapaz de uma única ideia a sério para este barco.
Pode pensar-se que as pessoas passam e as instituições ficam. Mas uma pessoa do tipo nem c*** nem desocupa a moita pode dar cabo de uma instituição que devia ser liderante. Liderante para além da letra dos Tratados, porque a liderança que conta assenta nas ideias.

quando eu morrer arranja alguém que cante um dos meus poemas


(sugestão dos "corporativos")




"Cavalo à Solta", agora por Viviane

negociar em directo (aquilo não é cheap talk)

Berardo diz que ministra da Cultura mentiu na Assembleia da República.
«Segundo os estatutos, o museu tem para aquisições um milhão de euros por ano, a ser entregues em partes iguais pelo Estado e por Berardo. "Não vejo nada nos estatutos da Fundação Berardo que mostre que seja possível substituir 500 mil euros por obras de arte", disse Canavilhas.» (Público)

Ainda estou para ver se, mais uma vez, a comunicação social vai fazer o papel de reforço negocial de Berardo contra o Estado e o interesse público (que, nem sempre, mas às vezes coincidem).

a bélgica


(Cartoon de Marc S.)

o forno faz bem à saúde


Aqui está um forno na rua. Imaginam o que isso faz à paisagem humana.

(Como hoje ainda não li jornais, falo fora da agenda.)

27.4.10

parece que já há quem compre as ilhas gregas



(Clicar amplia. Cartoon de Marc S.)

os factos não se vestem, contrariamente aos fatos


«Ana Catarina Mendes, do PS, opôs-se àquilo que designou como “juízos de carácter” e defendeu que o objecto desta comissão é outro: “Eu quero objectivamente saber se os depoentes têm alguma coisa factual a dizer” sobre o envolvimento do Governo no negócio PT/TVI.» (Público)

Oh, Ana Catarina, factual? A Comissão de Inquérito, se fosse para procurar o factual, nunca tinha sequer começado. É que está mais que visto que, por muitas comissões que se montem umas atrás das outras, é impossível transformar nada em coisa alguma. E aquela gente, que odeia o suspeito do costume, pensa que isso (o ódio) basta para o condenar. Se não pensassem isso, tinham vergonha de ir ao Parlamento fazer de conta que prestam depoimento, gastar o dinheiro da nação. Mas não têm. Vergonha.

no teatro da escola

Tudo isto pode ser a propósito da importância da escola nas nossas vidas (ou de como, fracassando essa mesma escola, ela pode não ter importância nenhuma). Pode ser acerca de como na escola somos sujeitos a tantas influências diferentes, desde o mais estúpido mecanicismo à mais cuidada das confusões. Acerca de quão grave é ser professor. E aluno, e aluno. Acerca de como o mundo é complicado, de como as pessoas não são lineares, de como os heróis são novelas em fascículos e alguns dos capítulos vêm escritos em páginas erradas. Esta peça, que podia parecer coisa simples de ver e contar, talvez mesmo demasiado simples, acabou capaz de revelar algo importante: não há cores puras neste mundo. Só misturas.



The History Boys
(Los Chicos de Historia), de Alan Bennett, estreada em Londres em 2004, é a história de um grupo de estudantes de história a preparar-se intensamente para o exame de acesso a Oxford ou Cambridge, sob a batuta de três professores, Hector, Irwin e Lintott, com estilos bastante diferentes, orquestrados por um Director que, claro, quer que o seu estabelecimento suba no ranking.

Hector ama o saber e quer ensinar esse amor na sua pureza – mas lecciona “conhecimentos gerais” e ensina francês nas aulas de inglês. Lintott é limitada e não quer aborrecimentos, é boa pessoa mas nem sempre sabe bem como sê-lo. Irwin é contratado para ser um professor mais realista, mais focado nos resultados do que na educação (que nem sabe bem o que seja), apesar de os seus próprios resultados não terem sido tão bons como ele os afirma. Para Hector, que passa a vida a tentar contagiar os alunos com os vírus da língua, da literatura, do teatro, do cinema e da música, o Holocausto não pode ser reduzido ao objecto de um exercício de malabarismo verbal para surpreender o júri de um exame de história. Para Irwin, num exame a verdade histórica é tão irrelevante como a sede numa prova de vinhos. O medíocre director da escola gere o barco com um manuseamento hábil dos regulamentos, mas o barco é mais a sua carreira do que outra coisa.

Cabe lembrar que esta peça, que já deu um filme, localiza a acção em 1983, nos anos Thatcher, no norte industrial em dificuldades. O professor novo, focado nos resultados, é um cínico: mas isso ia bem com o liberalismo que reinava. A peça não se preocupa em desfazer preconceitos. Oxford e Cambridge é que são a meta, as outras universidades não contam, isso nunca é posto em causa, nunca se desmente que o raciocínio do director seja o raciocínio do autor do texto. Interessante é o questionamento (ou a simples exposição) das práticas sexuais pouco conformes ao regulamento que se desenvolvem entre o herói (o professor interessante) e os seus alunos. Talvez hoje poucos autores metessem esta vertente num espectáculo “para todos os públicos”.



No centro deste espectáculo, numa das salas dos Teatros del Canal, está o catalão José María Pou, actor muito premiado de teatro, de cinema e de televisão, encenador, director do Teatro Goya de Barcelona desde a sua inauguração em 2008, que começou com esta peça que lançou oito jovens actores. Ele próprio, o professor Hector, é realmente a única personagem com alguma densidade psicológica. Fica-lhe bem: um homem enorme a chorar, um físico um bocado desengonçado em parceria com alguns desencontros dos estereótipos que poderíamos esperar, acaba por funcionar. O resto é agitação, uma história em grande medida previsível, um fim de tarde de domingo em mais uma excursão ao teatro que se mostra em Espanha.

26.4.10

problemas religiosos


(Clicar amplia. Cartoon de Marc S.)

para quando o 25 de Abril...

meteorologia

14:27




Emil Nolde, Summer Clouds,1913, Museo Thyssen-Bornemizsa, Madrid

on Peer Reviewing

14:27

Dear *** ***:

As you know, only 8% members of the Scientific Research Society agreed that 'peer review works well as it is.' (Chubin and Hackett, 1990; p.192)

"A recent U.S. Supreme Court decision and an analysis of the peer review system substantiate complaints about this fundamental aspect of scientific research." (Horrobin, 2001)

Horrobin concludes that peer review "is a non-validated charade whose processes generate results little better than does chance." (Horrobin, 2001) This has been statistically proven and reported by an increasing number of journal editors.

But, "Peer Review is one of the sacred pillars of the scientific edifice" (Goodstein, 2000), it is a necessary condition in quality assurance for Scientific/Engineering publications, and "Peer Review is central to the organization of modern science…why not apply scientific [and engineering] methods to the peer review process" (Horrobin, 2001).

This is the purpose of The 2nd International Symposium on Peer Reviewing: ISPR 2010 (http://www.sysconfer.org/ispr) being organized in the context of The SUMMER 4th International Conference on Knowledge Generation, Communication and Management: KGCM 2010 (http://www.sysconfer.org/kgcm), which will be held on June 29th - July 2nd, in Orlando, Florida, USA.


Beckett por Lupa


Levámos um murro no estômago, fomos empurrados pela escada abaixo até ao fundo do poço, enfiaram-nos a cabeça numa cloaca cheia de merda da humanidade que somos, ainda por cima obrigaram-nos a olhar-nos ao espelho e contemplar a nossa figura - e, por fim, gostámos. Vimos uma espécie animal com que lidamos todos os dias, mas que só por vezes se revela. Relato de uma brutal experiência de espectador de teatro.



O polaco Krystian Lupa, um encenador teatral de renome mundial, Prémio Europa de Teatro 2009, veio a Madrid dirigir a companhia do Teatro de La Abadia. Matéria-prima: a peça Endgame (Fin de Partida), de Samuel Beckett, escrita nos anos 50 do século passado.

O título aponta para uma situação típica da parte final de certos jogos (como o xadrez), quando já restam poucas peças e a gama de movimentos possíveis para as peças está fortemente limitada. Aqui só há quatro personagens e todas estão em estado de "fim de partida". Sendo uma peça em que não há, propriamente, acção - o que será isso, afinal? - alguns classificam esta obra como pertencendo ao Teatro do Absurdo. Aquilo que, provavelmente, melhor representa o que Beckett disse com esta peça é a frase "Nothing is funnier than unhappiness." Na tradução espanhola proposta pela companhia: "Nada es tan divertido como la desgracia". Neste caso, a desgraça tem um passado (fala-se dele), mas não sinais de que tenha um futuro. Apesar de a um dia se seguir outro.



Nesta peça, as quatro personagens estão tão presas como quatro peças num final de partida num jogo de xadrez. Hamm e Clov estão na relação senhor-servo, mas Hamm não pode pôr-se de pé (paraplégico e cego), apesar de ser o dominador, enquanto Clov, que está sempre de pé (numa espécie de mobilização infinita), não serve apenas como servo, mas também como uma espécie de amigo. Já Nagg e Nell (pais de Hamm), ficaram com as pernas paralisadas num acidente de bicicleta, encontram-se confinados a dois contentores de lixo e estão sempre na horizontal. Que final de partida...


Algumas frases do encenador, Krystian Lupa, ao El País (2 de Abril p.p.):

«No princípio concordei em fazer Beckett desde que fosse uma adaptação muito livre. Mas a minha imposição revelou-se desnecessária, porque o que aprendi aqui é que no mundo de Beckett o não dito é tão vasto, tão livre e tão imenso, que não é preciso saltar nem uma só palavra. (…) Como não podia impor uma mudança na estética teatral do seu tempo, escreveu de uma tal forma que as mudanças foram impostas a partir do próprio texto. (…) Os protagonistas de Endgame a maior parte do tempo ou mentem ou calam. E, mesmo assim, e aí está a genialidade do autor, o que realmente querem dizer está presente em todos os momentos. Basta saber alcançar e compreender.»
«O cinismo representa com frequência a postura do metafísico face ao sentimentalismo omnipresente.»
Lupa com José Luis Gómez, o actor na cadeira de rodas do seu personagem (Foto Uly Martín, El País)

Aos que só acreditam no teatro como exercício de alegria, em geral aos que só gostam de contemplar o que os faz felizes, só posso dar um conselho: mantenham-se afastados desta peça e, em particular, desta apresentação. Ela poderia mostrar-vos o interior do mundo humano - e isso seria uma desgraça para a vossa necessidade de consolo.

***

Uma das práticas que aqui verificamos consiste em algumas companhias teatrais documentarem em vídeo o processo criativo e dá-lo, por esse meio, como fruição complementar ao público. O que também resulta, julgo eu, em compreensão acrescida.
No caso deste espectáculo, o respectivo vídeo-blogue inclui uma série de apontamentos sobre os ensaios onde, designadamente, podemos observar Krystian Lupa a lançar a primeira leitura do texto; a companhia a discutir o tema do sofrimento (a partir da leitura de Lupa: “quem não sofreu, não tem direito a julgar se sou bom ou mau” ) como parte do processo de penetrar na obra; uma inquirição sobre o significado do nome Hamm para uma personagem (em que sentido uma pessoa pode ser como um martelo?); os actores a fazerem-se ao vestuário e aos adereços; o encenador a explicar como quer que seja o olhar de uma dada personagem e a mostrar o que quer dizer com o seu próprio olhar – e depois a interpretar outra personagem; alguns segredos da particular cenografia que Lupa concebeu para este espectáculo e como ela foi tomando forma; dois actores a tentarem acertar com o penteado que convém às personagens que vão incarnar; aspectos da finalização do cenário, onde o seu criador mete a mão directamente na massa; como se fizeram os autênticos sarcófagos que substituem os caixotes do lixo em que normalmente encontraríamos Nagg e Nell, os pais de Hamm – e como se habituam a eles os actores que estarão nesses papéis; uma discussão sobre a importância do cão de trapos, só com três pernas, que aparece na peça; o encenador a construir uma história para além da história que consta do texto, dando-lhe um horizonte que ajuda à sua leitura; Ros Ribas, o premiado fotógrafo de teatro, a cobrir um ensaio; Lupa, perto da estreia, a aconselhar uma certa atitude aos seus actores quanto ao desafio que tudo aquilo constitui.

Deixamos abaixo o clip promocional deste espectáculo.