6.4.10

Bergman posto em teatro

A partir de dois filmes do realizador sueco Ingmar Bergman (1918-2007), Cenas de um Casamento (1974) e Saraband (2003), o Teatre Nacional de Catalunya e o Teatro Español produziram um espectáculo de teatro. Duas partes, a primeira a partir do filme mais antigo, a segunda a partir do filme-testamento de Bergman. É oferecida ao espectador a possibilidade de ver tudo de seguida (valorizando uma espécie de continuidade fornecida pela ligação entre o casal de 1974 e o casal de 2003) ou de ver cada parte em dias separados (valorizando a diferença entre a pauta temática das duas obras). Vimos tudo de uma assentada, mais de três horas e meia sem respirar, não por estarmos debaixo de água mas por estarmos cercados da palavra de Bergman por todos os lados.
E a realidade é que a palavra de Bergman é avassaladora. É certo que o tom nórdico, menos contemporizador do que o salva-aparências mediterrânico, soa sempre duro às nossas cabecinhas impreparadas para o frio das estepes. Ouvimos as personagens de Bergman, com caras de anjos transparentes, e somos apanhados em falso na primeira esquina por eles dizerem coisas impensáveis que pensamos todos os dias nos nossos mais secretos desejos e mais obscuros projectos. Eles usam aplicar o bisturi nos cumprimentos quotidianos e cumprimentam-se ao ritmo de gente urbana e civilizada, produzindo diálogos onde toda a falta de razão usa de uma lógica implacável, que desconfiamos esconder algum sofisma mas sem sermos capazes de o identificar. Com Bergman, cada minuto do dia esconde a possibilidade metafísica de tudo ser demasiado presente, mesmo aquelas coisas que só acontecem aos outros.
Sob a direcção de Marta Angelat, que também interpreta (a ex-esposa que regressa ao fim de muitos anos para contactar o homem), o pequeno naipe de actores faz jus à autorização que, em nome da Fundação Ingmar Bergman, as suas companhias receberam para esta versão. Deram, em geral, bom suporte aos diálogos de Bergman, que são as verdadeiras estrelas deste espectáculo de teatro.