17.4.10

bravo, Rui Pedro Soares

10:55


Escrever isto é contra todo o politicamente correcto. Politicamente correcto, hoje em dia, é cuspir para cima de Sócrates e de todos os que o apoiem, usando nisso todos os meios; propalar que os administradores de grandes empresas, se forem do PS, só lá chegaram por favor, sendo incompetentes por definição e vampiros pelo dinheiro que ganham; aplaudir todo e qualquer prima facie atropelo à legalidade, desde que seja usado para achincalhar o PM e/ou o PS e/ou algum ministro e/ou algum amigo de algum desses. Mesmo assim, não conhecendo Rui Pedro Soares de lado nenhum, nem directa nem indirectamente, aplaudo que ele persiga judicialmente aquela gente do semanário Sol, pelas razões que ele explica.
É dos livros, e da lógica do funcionamento dos colectivos, que dar os passos necessários para fazer com que as regras sejam respeitadas tem um custo para os indivíduos que se metem nisso. Tem um custo, porque pode correr mal, porque a litigação é incerta quanto ao resultado, porque o insucesso da demanda afecta os cofres próprios e a reputação. Se correr bem, ganhamos todos, ganha a sociedade, porque os prevaricadores não se ficaram a rir. Mas, segundo as predições dos mais pessimistas, ninguém se mete nisso, porque o ganho potencial é para todos (preservar as regras do viver em comum) e a ameaça de perdas é apenas para quem toma a iniciativa. Contudo, por razões várias, nem todos se deixam amedrontar por esse risco e avançam. Esses merecem aplauso.


16.4.10

onde apanham as galinhas



Louçã, a intervir no Parlamento, chama "manso" a Sócrates. Sócrates, em comentário para o lado, sem microfone, sem estar no uso da palavra, apenas reconstituído pelas câmaras de televisão, diz "manso é a tua tia". (Aposto que o sr. Fernandes pediu para o deixarem escrever esta notícia no Público.) Louçã pede a Sócrates que não baixe o nível. A comunicação social inicia mais um festival contra o dito de Sócrates.
Bendita hipocrisia. Aquele que nunca disse "vai apanhar [aqui entra o título deste post]" que lance a primeira pedra. É que já não há pachorra.


Aditamento. O vídeo mostra: até é preciso escolher a imagem, porque na primeira não há nada. Mas mesmo na imagem escolhida, é preciso colocar legendas para convencer o auditório. O bispo vermelho pode dizer o que lhe passa pela cabeça, mas o PM, para esta comunicação social, esse é tratado como se fosse o único a não ter direito a ser tratado com dignidade institucional.

um problema de tolerância (de ponto)

19:25

Infelizmente não escrevo com tanta facilidade e de forma tão escorreita como f. - coisa que, obviamente, é mérito dela e defeito meu. Não vou, por isso, alimentar a conversa, do que só não peço (lhe peço, a f.) desculpa por achar que não vem a propósito. Do lado de f. saiu este post, deste lado saiu este, f. responde com mais este e mais este. Como, na verdade, não vejo que f. acrescente algo à discussão (salvo valer-se das interpretações da conferência episcopal para fazer a hermenêutica da decisão do governo sobre a tolerância de ponto, o que tem alguma graça); como não tenho apetite por estar a explicar a f. qual é o ponto do meu argumento (pela razão simples de que ela o compreende, desde que queira); porque acho que não devo abusar da publicidade imerecida que poderia advir de polemizar com f.; porque antes de f. já milhares de "intelectuais de esquerda" tentaram o mesmo tipo de abordagem à religião e os resultados foram sistematicamente desastrosos - por tudo isso apenas lhe digo: a "guerra da religião" tem coisas muito mais importantes do que estas guerrilhas recuadas sobre tolerâncias de ponto. Quer um exemplo? Leia este post de Joana Lopes (o qual, aliás, eu já sublinhara).
Ah, f., já me esquecia: as partes mais psiquiátricas dos remoques dão-me vontade de rir: nessa matéria eu sou um doente sem médico, um doente em autogestão.


Portas (Paulo) prepara regresso ao governo



Portas diz que recusa da EDP em cortar prémios, apesar da proposta do accionista Estado, é desrespeito por Sócrates.

Segundo o Público, PP terá declarado, dirigindo-se ao PM: “Estão a fazer pouco de si não como pessoa mas como primeiro-ministro”.
Afinal, Portas o que quer é mesmo empresas obedientes ao governo. Peça a peça. Caso a caso. Debaixo do olhar atento da Sra. Agenda Mediática. E a tempo do seu regresso ao governo da nação.

um post estalinista

10:13

Tenha-se a opinião que se tenha sobre o envolvimento do Estado na visita do chefe da ICAR a Portugal, essa opinião não devia empurrar pessoas inteligentes para o extremo disparate.

No excelente jugular, f. sugere que a declaração de tolerância de ponto por ocasião da visita de um líder religioso colide com a seguinte disposição da Lei de Liberdade Religiosa:
Ninguém pode ser obrigado a professar uma crença religiosa, a praticar ou assistir a actos de culto, a receber assistência religiosa ou propaganda em matéria religiosa.
E até dá a referência concreta e tudo: Lei nº 16/2001 de 22 de Junho, artigo 9º, 1 a.

Foi com raciocínios deste tipo que o estalinismo conduziu a sua campanha de extirpação da religião no país dos sovietes. Com os "efeitos colaterais" conhecidos. E com a eficácia também conhecida: basta ver como as religiões fervilham lá nesse espaço. Só um exemplo da aplicação desta interpretação: deviam proibir as manifestações comunistas, dado o meu direito a não ser obrigado a receber propaganda comunista e, andando pela rua, se der de caras com uma manifestação comunista, acabo por "ser obrigado" a isso. Foi com argumentos desse tipo que regimes totalitários com uma boa dose de esperteza saloia proibiram qualquer manifestação religiosa que não fosse "privada" (fechada em casa ou fechada na "consciência").
Fico fulo com certos campeonatos, em que cada um procura dizer a maior barbaridade para ser o mais berrega numa dada tribo. E, na minha qualidade de agnóstico adverso a sonhos de engenharia social, lamento profundamente o simplismo com que uma certa esquerda lida com a questão religiosa.

[Sobre as coisas sérias do actual momento da ICAR: O longo caminho de Joseph Ratzinger, de Joana Lopes, no Entre as brumas da memória.]

números, geometria, natureza

15.4.10

eu ando mesmo a ver coisas



Eu juraria que, no local onde o Público em linha agora tem o título Rui Pedro Soares teve conhecimento prévio de elogios de Figo a Sócrates, esteve antes o título PS teve conhecimento prévio de elogios de Figo a Sócrates. Mas devo ser eu que ando a ver coisas. Para até o Público perceber que aquele título era uma f****-da-p*****, é porque a coisa era demasiado escandalosa. O fantasma do sr. Fernandes continua nas prateleiras do supermercado do dono daquela coisa.

danças de carácter



Sabem o que é? "Danças de carácter"? Eu não sabia. Vão lá, não tenham medo, a autora só escreve sete vezes por ano. Mas, ao ritmo médio, o post Arqueologia corporal qualquer dia deve estar a ser substituído. (Que preguiçosa, aquela rapariga tão trabalhadora.) É de Uma alfacinha em Paris.


Hans Küng, teólogo

11:54


Miguel Gomes Coelho, e muito bem, chama a atenção para as palavras do teólogo Hans Küng acerca da situação actual da Igreja Católica. Que é para não verem conspirações externas onde há principalmente "conspiração" dos pecados próprios.
(Não se escandalizem com a expressão "pecado": é fazer algo que vai ferir alguém, que vai fazer dano, que vai causar mal. Irrita-me o primitivismo dos que se escandalizam muito com o uso de palavras que, embora tomadas basicamente pelo pensamento religioso, são capazes de significado para pensar de modo geral.)


14.4.10

que credibilidade têm as palavras de Barroso como presidente da Comissão?

22:40


Barroso sobre o PEC de Portugal a 15 de Março passado:

Durão Barroso: PEC português é "credível, ambicioso e exequível". [Jornal de Negócios]

Barroso diz que PEC português é "credível", "ambicioso" mas "exequível". [RTP]

Durão Barroso: "PEC português é ambicioso, mas credível". [Expresso]

Olli Rehn, Comissário responsável pelos Assuntos Económicos e Monetários, declarou : "O programa de estabilidade português é ambicioso e bastante concreto para o período compreendido entre 2011 e 2013. No entanto, poderão ser necessárias medidas suplementares de consolidação orçamental, em especial para o corrente ano, caso se materializem os riscos que pesam sobre a evolução macroeconómica e orçamental. A consolidação orçamental é igualmente indispensável, atendendo à necessidade de reduzir os grandes desequilíbrios externos». (Press Release da Comissão Europeia, com data de hoje, menos de um mês depois, falando do mesmo documento a que se referia Barroso)

A diferença é grande. O comissário, talvez, naturalizando-se português, ainda possa candidatar-se a ministro das finanças cá do burgo. Em bruxelês, um subdialecto do linguajar diplomático, o que Rehn diz é "se correr bem, correu bem; se correr mal, como pode acontecer, não poderão dizer que nós não avisámos".

Barroso, como presidente da Comissão Europeia, fala de cor? Fala em Portugal por razões internas? Estará em campanha? E isso justifica que venha para cá dizer coisas que depois não têm sequência nem consequência? Ou, afinal, aquilo que ele diz não conta nada em Bruxelas?

(A parte em itálico foi acrescentada numa revisão deste post, depois de ler outros blogues com leituras mais positivas da posição da Comissão.)

cadaver exquisito


Feria de Diseño Independiente
creación de un "cadaver exquisito" en un escaparate, Madrid, calle de Atocha, 10 de Abril p.p.

linguagem e realidade no Público


O Público titula: «Administradores do Taguspark acusados por comprarem apoio de Figo a Sócrates
Isto significa que o jornal sabe que os tais administradores compraram o apoio de Figo e que, por isso, por essa ser a realidade, estão a ser acusados. Isso é o que quer dizer "acusados por comprarem". Se o jornal quisesse dizer que há uma acusação, que ainda terá de ser provada, escreveria: "administradores acusados de comprarem..." . Como se trata do Público, nunca se pode saber ao certo se é o prontuário do senhor Fernandes que ainda por lá anda - ou se é a deontologia que permanece a mesma.

inovações / robots / madrid / santander



«Chegar a uma empresa e ser conduzido a uma sala de reuniões por um robô é, no mínimo, invulgar. Mas no centro de visitas da 'cidade' do grupo Santander em Boadilla del Monte, a 18km de Madrid, os pequenos autómatos vermelho-ferrari são as estrelas da megaprodução tecnológica montada pelos portugueses da YDreams.» (Ler mais no Expresso online.)

os indigentes administradores

09:40

Eu tenho uma opinião negativa sobre a elevada disparidade salarial no nosso país. Pode haver bons, muito bons, muitíssimo bons salários para gestores de topo - sem que seja preciso haver uma diferença tão grande entre os mais altos e os mais baixos salários num mesmo país. E não colhe o argumento "os privados pagam o que querem a quem querem, o dinheiro é deles e ninguém tem nada a ver com isso". Esse argumento não colhe pela simples razão de que essa disparidade afecta negativamente a coesão de uma comunidade que tem de fazer esforços para dar a volta a uma situação estruturalmente difícil. O espectáculo da exibição dessas disparidades alimenta a raiva dos que têm menos, demasiado menos. Afecta, assim, a legitimidade do sistema na sua globalidade, por a legitimidade também depender da adesão das partes. Claro, essa raiva nem sempre é justificada: há por aí muita gente que não mexe o cu para fazer nada a que não seja obrigado por um pelotão do exército, continuando, no entanto, a achar que os administradores e os deputados é que não fazem mais do que preguiçar o dia todo.
Mesmo assim, os discursos demasiado simplistas acerca dos salários de topo são, muitas vezes, simplesmente tolos. Ainda hoje, comentando (noutro sítio) o meu post sobre a entrevista do presidente do BIG, alguém falava logo a correr de "indigentes administradores". Mas que raio de créditos acham esses "comentadores" que têm para se darem licença de insultar quem quer que seja administrador ou coisa parecida? Esse "varrer" por uma bitola indiferenciada tudo o que cheire a "alto quadro bem pago" é que é indigência.
O ponto é que o mérito conta. Não há-de ser indiferente que António Mexia tenha sido considerado o melhor CEO da Europa na área da energia. Ou que Zeinal Bava tenha sido eleito o melhor CEO da Europa na área de telecomunicações. Isso há-de querer dizer alguma coisa, ou não? É que, bem vistas as coisas, os salários dessa malta até podem valer a pena na óptica do bem comum. Sem prejuízo do que disse a começar, acho que o demasiado simplismo com que "a praça pública" enxovalha as pessoas pertencentes a certos grupos, por um ódio atávico ao "privilégio", não passa disso mesmo. Demasiado simplismo.

13.4.10

são uns esquerdistas, estes banqueiros



Carlos Rodrigues, presidente do BIG (Banco de Investimento Global), ao Público:
«Ninguém pede à Alemanha que salve a Grécia, mas que assuma as suas responsabilidades, porque as regras não foram feitas nem pelos gregos, nem pelos portugueses. O momento exige alguma unidade de actuação e impõe a criação dessa infra-estrutura. Caso contrário será o princípio do fim.»
«Os reguladores e os legisladores ainda não fizeram uma coisa fundamental que é criar um sistema de supervisão das entidades que operavam antes da crise, e continuam a operar, sem regulação, como os hedge funds, os auditores e as agências de rating. Quem manda neles? Ninguém.»
São uns esquerdistas, estes banqueiros.


um problema de seminaristas

12:32

“Número dois” do Vaticano relaciona pedofilia com a homossexualidade
. Acrescenta o Público: «“Muitos psicólogos e psiquiatras demonstraram que não há relação entre o celibato dos padres e a pedofilia, mas muitos outros demonstraram, e disseram-me recentemente, que há uma relação entre homossexualidade e pedofilia”, afirmou [o cardeal] Bertone.»

A Igreja Católica tem lidado com o problema da pedofilia dos padres de uma forma absolutamente desastrada. Infelizmente, a forma às vezes denuncia um problema de conteúdo. Tentar iludir as consequências nefastas de uma "justiça especial" que permite fugir à justiça da cidade, quando isso cria facilidades para os criminosos, é pura cegueira. E, inevitavelmente, dá argumentos aos partidários da "ciência como religião" que vêem nas igrejas a própria incarnação do mal ou, pelo menos, da estupidez humana. (Visão que, repito, não é a minha.)
Mas não é disso que quero agora falar. A citação acima aponta para outro aspecto da questão. O mencionado cardeal, numa tentativa de usar as mesmas armas dos seus adversários, ou talvez mesmo inimigos, tenta entrar numa batalha de "teorias científicas" acerca da pedofilia, da homossexualidade, do celibato. E parece que cita (não, menciona vagamente) estudos de psicólogos e psiquiatras. Um ensaio, portanto de resolver o assunto com pretenso rigor científico. Será que o homem não percebe que pretender usar as armas do adversário, especialmente em versão armas de brinquedo, pode querer dizer que já só lhe resta tentar escolher o tipo de derrota que lhe caberá? Será que o cardeal pensa que o "debate científico" depende lá da sua Cúria (ou de umas coisas que "lhe disseram")?
Afinal, que gaita de estudos fizeram estes cardeais para lidarem deste modo com a relação entre ciência e religião?

a fotografia fantástica de Li Wei na Beijing Time

09:08


Continuando as nossas visitas à exposição Beijing Time. (*)


Li Wei, Love meets 22m, Beijing 2008



Li Wei, Liwei falls to 2007.12.27, Beijing 2007



Li Wei, Live at the high place 1, - Beijing 2007

(*) A exposição já encerrou, note-se...

12.4.10

europas



13 e 14 de Abril (amanhã e depois), em Madrid, reunião informal de ministros da educação da UE, sob presidência espanhola (coisa que já nem se sabe bem o que é, com um presidente permanente do Conselho Europeu).

Na Faculdade de Filosofia da Complutense, de 8 a 14 de Abril, uma "contra-cimeira de ministros da educação", com uma manifestação de rua no dia de hoje. Vi por lá, no átrio, um cartaz do português BE. (Quem será o "contra-ministro" do BE, para estes efeitos?) Slogans anti-Bolonha (onde, como de costume, deve caber tudo, incluindo a massa à bolonhesa) e anti-capitalistas (pelo menos é o que se lê).


el secreto de sus ojos