13.11.09

liberdade e coerência cívica: o exemplo de Melo Antunes

17:21


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a quadratura do círculo

12:24


Ontem à noite, a fechar a Quadratura do Círculo, a propósito da "Face Oculta", António Costa disse para Pacheco Pereira e Lobo Xavier algo deste género: resulta das vossas afirmações que concordam comigo em geral, mas discordam da aplicação das minhas teses no caso concreto. O ponto é que o caso concreto, sendo uma figura do caso geral, não deveria ser assim excepcionado. Essa é a tragédia: o estado de direito tornou-se, para muitos na luta política, uma teoria geral que continua a ficar bem nos livros, mas que na prática tem de ser objecto de sistemática derrogação por conveniência da luta política. À falta de melhor argumento, para curar as derrotas eleitorais, como unguento para disfarçar o odor da incapacidade.


a entrevista da ministra da educação


A ministra da educação, entrevistada ontem por Judite de Sousa, mostrou saber do que fala: não fugiu aos problemas, mostrou segurança nos princípios basilares, deixou claro que há muitas formas de apanhar ratos, afirmou com naturalidade e sem drama a sua identidade própria como nova responsável da pasta.

Só falta um elemento no seu discurso, que se compreende que não seja ela a trazer à colacção, mas que decidirá muito do seu futuro próximo: só há verdadeiras possibilidades de êxito negocial quando todas as partes efectivamente negoceiam. Parte da tragédia do ciclo anterior consistiu no facto de se ter imposto a estratégia daqueles que efectivamente não queriam negociar, mas apenas usar a aparência de negociação como meio de bloquear as mudanças substanciais. Estamos para ver se isso mudou.


um partido falhado?

11:50


As instituições vivem do facto de servirem certos fins, próprios de uma sociedade organizada e como tal reconhecidos. Um partido político numa democracia, por exemplo, supõe-se ser o instrumento de certos sectores com interesses e visões do mundo específicas, dando a esses sectores a possibilidade de concretizar aspectos dessa mundividência. Uma instituição definha caso se instale a convicção de que se arrasta na mera aparência de servir os seus fins próprios.

O PSD de hoje tem, como instituição, um problema grave, que consiste em já terem passado muitos anos desde o tempo em que o país e os próprios dirigentes social-democratas viam esse partido como uma força com uma ideia para o país e com realizações concretas na governação. É que passar pelo governo não chega, é preciso deixar obra que certifique que tal e tal governo não foi uma causa sem efeitos. Compreender para que serve na prática o PSD começa a ser apenas um exercício de memória histórica – e não de mobilização para o futuro. Isso torna real o risco de o PSD vir a caracterizar-se como uma instituição falhada, com os enormes riscos que isso comporta para o regime.

O sinal mais recente desse risco foi dado por Manuela Ferreira Leite, ao defender no Parlamento que a legalidade no funcionamento da Justiça seja atirada às urtigas desde que isso possa trazer elementos “interessantes” para o debate político. A tal ponto chegou este PSD na sua renúncia à vocação de governar o Portugal democrático. No fundo, MFL despreza a “forma” – que é o aspecto da democracia que historicamente se tem revelado de mais difícil entendimento para muitos sectores ideológicos. Faz, desse modo, uma confissão pública de inadequação radical à “democracia formal” e ao Estado de direito. Vivemos dias perigosos: ter um partido falhado no centro do regime pode ter consequências desastrosas. Essa é razão suficiente para todos os democratas esperarem sinceramente que o PSD encontre rapidamente o rumo que lhe devolva as características próprias de um partido com ideias alternativas para o país e com a ambição de as concretizar.


[Um produto A Regra do Jogo]

12.11.09

Ana Vidigal, Matar o Tempo

12:56

I WAKE UP IN YOUR BED, 2009

Na Galeria 111, inaguração hoje às 19 horas.

a avaliação dos professores e o governo da coligação negativa

11:55


Tendo entrado em funções um novo governo, havendo uma nova ministra da educação, tendo a nova ministra iniciado imediatamente conversações com os representantes dos professores acerca da avaliação de desempenho e estatuto da carreira, estando (de momento) todos a falar num quadro que admite que as perspectivas de entendimento sejam boas - não se percebe o afã das oposições no parlamento a lançar confusão para cima da mesa. Três projectos de lei mais três projectos de resolução - servem para quê? Para dificultar qualquer tentativa de acordo? Para limitar as possibilidades de desenhar uma solução? Para criar a ilusão de que há soluções evidentes para a questão? Ou trata-se apenas de tentar criar a ideia de que acabou a diferença entre governo e parlamento, estando o país à beira de ser governado em regime de soviete?

PSD apresenta projecto "mais aberto" para os professores.


(também aqui)

11.11.09

pousio



Como dizia a Professora T.A., "pousio". Para pensar, é preciso dar pousio. Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, pousio é "período geralmente de um ano em que as terras são deixadas sem semeadura, para repousarem". O resultado é que as terras voltam, depois disso, a uma maior força produtiva. Quando se deixa de querer remeter para o cultivo da terra, a referência ao ritmo anual deixa de ser importante. O pousio pode ter outros tempos. Mas permanece necessário.

Entretanto, no mesmo (magnífico) dicionário, a entrada seguinte é "pouso", que pode ser, por exemplo, "lugar onde uma ave descansa de voar". Diria que o pousio pode ser o pouso de quem pensa. Para voar com outro rumo.

Pode um blogue dar a pensar? O pousio o dirá. Quanto a este blogue, isso quer dizer: devagar, um(a) (a)post(a) de cada vez. De vez em quando. Dar pousio aos elementos que rolam pelos dias ao sabor das razões e das emoções, da diversidade que falta à máquina.

O problema desta explicação é ela ser apenas "racional", dando a aparência de ser desinteressada (a lógica serve-se fria?).

A outra explicação, mais interesseira, talvez seja, então, o "ritmo biológico". Pegando, por exemplo, em O Polegar do Panda - Reflexões sobre História Natural, de Stephen Jay Gould (versão portuguesa na Gradiva), lemos que ele nos diz(ia) que o tempo biológico dos animais se distingue do tempo newtoniano. Nos mamíferos, por exemplo, todos respiram uma vez por cada quatro batimentos cardíacos - mas os mamíferos pequenos respiram e batem os seus corações mais depressa do que os grandes mamíferos. A taxa metabólica também aumenta com o aumento do peso do corpo. Também o cérebro. "Medidos pelos seus relógios internos, os mamíferos de diferentes tamanhos tendem a viver a mesma quantidade de tempo. É um hábito profundamente entranhado no pensamento ocidental que nos impede de conceber este importante e reconfortante conceito. Somos treinados desde muito novos para encarar o tempo absoluto newtoniano como único estalão válido de medida num mundo racional e objectivo." (p. 338)

Gould, falando-nos dos "tempos de vida que nos couberam em sorte", relacionando tamanho com tempo, dá-nos uma pista: porque não viver como um grande animal? Por que não "postar" apenas semana a semana, aumentando o nosso tempo de vida (talvez cheguemos a ser tão velhos como a baleia ou o elefante). Claro que os animais mais pequenos são mais irrequietos, dão mais cor à praça. Paciência. Se os blogues apelam a que sejamos autores, usemos os truques do ritmo biológico para sermos autores do nosso tamanho.

É claro: é preciso reconhecer que, quando a vida ferve, todas estas reflexões são ultrapassadas pelas urgências...

10.11.09

Logicomix, An Epic Search for Truth

Recomendo vivamente a leitura desta BD a quem se interesse por lógica, por filosofia da matemática, por filosofia das ciências, por história do pensamento filosófico e científico no século XX e no século XIX que o influenciou. E não é necessária nenhuma preparação especial para o efeito.

Explico tudo isto mais detalhadamente no meu blogue de Banda Desenhada, aqui.



LOGICOMIX, texto de Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou, desenho de Alecos Papadatos e Annie Di Dona, editado pela Bloomsbury, 2009



9.11.09

muros há muitos

15:56

Memórias. Berlim, 1989, um dia como este, um muro como qualquer outro.




Na noite de 9 de Novembro há 20 anos, o governo da então chamada República Democrática Alemã anuncia de forma desastrada (por não corresponder exactamente ao que queriam fazer, que era uma liberalização cautelosa das saídas para o estrangeiro), anuncia, dizíamos, que os cidadãos desse país poderiam atravessar as respectivas fronteiras (de dentro para fora...) livremente. Em consequência, logo nessa noite, cerca de vinte mil alemães de leste atravessaram o posto fronteiriço de Berlim Leste para Berlim Oeste. No dia 11, as máquinas começaram a abrir mais passagens através do muro da vergonha, já que os postos normais não davam vazão à enchente dos que queriam experimentar o sabor dessa nova liberdade. Logo foram anunciadas conversações para a abertura da simbólica Porta de Brandemburgo, que só viria a tornar-se uma ampla passagem entre dois mundos em Dezembro desse ano. No fim de semana seguinte à abertura, cerca de dois milhões de alemães orientais visitaram Berlim Ocidental.
Tive a sorte de estar nessa Berlim esfuziante por esses dias. Tinha ido à conferência "Security in Europe: Challenges of the 1990's", organizada pelo Politischer Club Berlin e pela Amerika Haus Berlin,  que decorreu entre 15 e 17 desse mês, tendo ficado mais uns dois ou três dias. A conferência acabou na tarde de sexta-feira (17) e, desde aí até ao regresso no domingo, deambulei como uma esponja pela cidade que era nessa altura o centro do mundo. Havia, além do povo que estava a fazer a sua história, uma multidão de jornalistas por todo o lado, especialmente postados em frente à Porta de Brandemburgo, por haver então a expectativa de esse local histórico ser aberto imediatamente.
Descobri há algum tempo duas folhinhas que escrevi na altura, "do lado de lá", no meio da agitação. Estão a ficar roídas pelo tempo. Antes que desapareçam, transcrevo-as para este arquivo-pessoal-público.

Folha 1. "Aqui é a Marx-Engels Platz, em Berlim Leste. Hoje são 17 de Novembro de 1989. O Muro já tem aberturas mas ainda falta muita coisa. Aqui está a ocorrer uma manifestação (ou concentração) de estudantes (pelo menos parecem, pela sua juventude, apesar de também haver gente mais velha). Vim para aqui directamente da estação de metropolitano, onde comprei o meu visto e troquei os obrigatórios 25 DM por 25 marcos da DDR. Do lado de lá vale, não 1 para 1, mas 1 para 10 ou ainda mais. Há o pequeno pormenor de que tenho a máquina fotográfica da Guida ao ombro, mas não consigo tirar nenhuma fotografia. Até o azar pode ser histórico... Outro pormenor é que está um frio danado, que entra por todo o lado apesar de estar com dois pares de meias calçados, camisa, camisola de gola alta, casaco de inverno e gabardina. São aqui 15.50H."
Folha 2. "No mapa, tenho aqui uma indicação sobre a Igreja de S. Nicolau, no centro histórico de Berlim. Fui para entrar, vi que se pagavam entradas e que havia um museu. Como não estou com grande tempo para museus, fui perguntar se também se pagava para ver a igreja. Resposta: «Isto não é uma igreja. Isto é um museu.» Entendi: estamos, realmente, no Leste. São 16H 13M."

Memórias das minhas ingenuidades, pois. Como se vê, ainda havia muita coisa por mudar. Eu não falava uma palavrinha de alemão, mas recolhi um comunicado da SPARTAKIST - Herausgegeben von der Trotzkistischen Liga Deutschlands, com o título "Für eine leninistisch-trotzkistische Arbeitpartei!". E em baixo de página: "Für den Kommunismus von Lenin, Luxemburg und Liebknecht!". Ainda tenho uns jornais, uns autocolantes, uns "alfinetes de peito", desses dias. E, claro, umas pedrinhas pequeninas que eu próprio rapei do muro, à unha, enquanto outros já andavam em cima dele com picaretas.

O mundo, realmente, mudou muito. Nem tudo correu bem, como se sabe. Só que ninguém, sabendo do que fala, pode desprezar o valor da liberdade - haja o que houver, com todos os defeitos que as democracias possam ter. Isso sentiu-se naqueles dias (e ainda se sente) em Berlim. Claro, ainda há quem, por cegueira ideológica, ache que tudo não passou de uma operação das forças reaccionárias conspirando por todo o mundo. Por hoje, a esses nada a dizer.