08/12/10

o ex-chanceler que toca piano


Helmut Schmidt toca piano.


Sim, é o mesmo Helmut Schmidt que foi chanceler alemão (SPD) entre 1974 e 1982. Podem confirmar os seus dotes musicais aqui. O Le Monde de ontem (datado de hoje, como sempre) publica uma entrevista sua, que pode ler-se aqui.

É uma entrevista complicada, mas interessante para perceber as dificuldades da própria Alemanha neste momento. Acusa claramente a generalidade dos dirigentes europeus de serem uns anões (expressão minha, não dele), ao mesmo tempo que diz que a chanceler e o seu ministro das finanças, embora competentes para a gestão financeira tradicional, não compreendem o mundo em que vivem hoje. Lembra que a Alemanha e a França estiveram recentemente em incumprimento face às regras do euro - e que essa realidade tem sido mal encaixada pela senhora Merkel. Ao mesmo tempo, mostra claramente a arrogância alemã: no fundo, defende que tem de haver um directório informal que tome conta da UE e acha que os pobres não podem poluir a mesa dos ricos (falando em termos de países). Vale a pena ler na íntegra, principalmente para perceber como a ala moderada (por assim dizer) da social-democracia alemã veste, hoje, a pele dos demónios de uma Alemanha que quer ser grande mas não sabe bem como pode ser grande numa Europa maior do que ela própria.

Fica uma única citação:
«Diga-se de passagem que, durante muito tempo, a elite política alemã não percebeu que nós registávamos excedentes nas nossas contas correntes. Nós, alemães, fazemos a mesma coisa que os chineses - a grande diferença é que os chineses têm a sua própria moeda, o que não é nosso caso. Se tivéssemos a nossa própria moeda, ela neste momento já teria sido reavaliada.
Manter o marco alemão, como queria Tietmayer [presidente do Banco da Alemanha entre 1993 e 1998, referido antes por Schmidt como um reaccionário contra a integração europeia], teria, pelo menos uma vez se não duas vezes durante os últimos 20 anos, provocado uma especulação contra o marco alemão de uma escala pior do que o que temos assistido com a Grécia ou a Irlanda.»



(Agradeço ao Miguel Abrantes a sugestão de leitura.)

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